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Actualizado às 8:54 PM, Jul 14, 2019

Blood & Truth™ na PlayStation®VR

Blood & Truth™ está repleto de tiroteios épicos e cenas de ação explosiva, esta aventura emocionante coloca os jogadores numa missão desesperante para salvar a família de Marks de um impiedoso barão do crime. Os jogadores terão que usar o que aprenderam nas forças especiais para escalar edifícios, entrar em instalações secretas e espalhar o caos, dispondo de uma variedade de poderosas armas de fogo contra inúmeros rufias armados.

De salientar que, graças ao PlayStation®VR, os jogadores poderão sentir as vibrações das armas, recarregar a arma com ambas as mãos, como se estivessem realmente a empunhar uma arma, e premir botões exatamente como na vida real.

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Mortal Kombat ™ 11 - trailer do jogo

A Warner Bros. Interactive Entertainment e a NetherRealm Studios lançaram o novo Trailer de Mortal Kombat ™ 11, introduzindo uma narrativa original que continua a saga épica da franquia. Em Mortal Kombat ™ 11, a vitória de Raiden sobre Elder God, Shinnok, atraiu a ira de Kronika e perturbou seu equilíbrio desejado entre o bem e o mal. Para restaurar a estabilidade nos reinos, o Kronika tem apenas uma opção - voltar ao início e reiniciar a História.

Através do imersivo story mode, diferentes épocas da rica história de Mortal Kombat ™ colidem quando os jogadores assumem o papel de uma variedade de personagens do passado e do presente que devem unir forças para derrotar os exércitos de Outworld de Shao Khan e resolver a crise temporal em jogo.

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Hitman 2 - How to Hitman - #1

O HITMAN 2 é a sequela do videojogo internacionalmente aclamado, HITMAN. Com locais hiper-detalhados, completamente novos e ambientes vivos para explorar, o HITMAN 2 oferece aos jogadores a liberdade de planear o assassinato perfeito utilizando uma variedade de ferramentas, armas, disfarces e uma variedade de técnicas furtivas para desencadear a sua própria corrente de eventos.

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Battlefield V - novo trailer

No trailer “Battlefield V - A Devastação de Roterdão”, os fãs poderão descobrir uma versão nunca antes vista da II Guerra Mundial. O trailer mostra algumas das mecânicas de jogo neste novo mapa, que levará os jogadores a uma batalha intensa pelas ruas da cidade holandesa.

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«Chernobyl» - Jared Harris em entrevista

Jared Harris é o protagonista da série Chernobyl sobre a tragédia ocorrida na União Soviética, em 1986. Realizada por Johan Renck e com um elenco de luxo que inclui ainda Stellan Skarsgard e Emily Watson, a nova produção da HBO leva-nos aos dias terríveis do desastre nuclear. Conversámos com o ator britânico sobre a sua personagem, a rodagem e a relação com o realizador, as memórias do ator dos anos em que a tragédia ocorreu e as lições da história que todos devem retirar.

Fale-nos da sua personagem
Sou Valery Legasov, o cientista-chefe nas operações de limpeza e o tipo que tem de resolver a situação e “colocar a pandora na caixa”. Ele foi arrancado da sua vida normal de manhã, e colocado no pior sítio do mundo à tarde. Não é um herói. Se lhe perguntassem se preferia estar noutro sítio ele diria que sim imediatamente, mas compreende que terá de resolver tudo e não há hipótese de sair de lá até estar tudo tratado.

Apoiou-se em entrevistas e imagens da época para construir a personagem?
A União Soviética apagou muito do seu envolvimento e legado, mas existem algumas imagens que sobreviveram. Existe algo a destacar no tipo, mas isso não serviu para a nossa personagem.

A série começa com o seu suicídio. Porque acha que ele o fez?
Ele fê-lo no dia em que era suposto entregar outro relatório ao politburo, mentindo e dizendo que estava tudo bem. Queria que se soubesse a verdade, pois existia ainda um problema por resolver. Por isso o suicídio teve um propósito.

Como foi trabalhar com Stellan Skarsgard e Emily Watson?
Foi muito fácil, pois são ambos muito divertidos e acessíveis, e nada egocêntricos. Tentam fazer o seu trabalho o melhor possível, sem entrar em competição contigo. Fizemos companhia uns aos outros em Vilnius. Stellan (Skarsgard) adora comer bem, é um excelente cozinheiro e descobriu ótimos restaurantes. Tivemos grandes jantaradas bem regadas, onde partilhámos histórias sobre coisas incríveis.

E o Johan Renck como é?
Foi uma grande decisão ter um só realizador durante toda a rodagem. Desenvolves um método de trabalho e não tens de mudar com a mudança de realizador a cada episódio. Ele foi sempre muito franco e direto, sabia o que queria e trabalhou com a mesma equipa de câmara e de som e todos se conheciam uns aos outros e correu muito bem. Era uma equipa multinacional. Os operadores de câmara suecos, o departamento de som era francês, tínhamos assistentes ingleses, equipas lituanas. Estranhamente para filmes rodados na Europa, isso não acontece de forma frequente.

Como foi filmar no reator nuclear atual?
Esquisito. É muito sério. Há sempre um tipo à porta com uma metralhadora.

De que se lembra do tempo em que tudo aconteceu?
Lembro-me dos avisos sobre “ir à rua” em particular se fosse chover. estava em Londres na altura em que tudo aconteceu. Não podias beber leite. Pararam de vender cordeiro galês e foi quando o cordeiro da Nova Zelândia se tornou moda. Cada vez que há um desastre as pessoas abrem o seu Nostradamus e parece que ele tinha previsto Chernobyl. Desperta os lunáticos.

Houve alguma coisa que o chocasse ou surpreendesse agora que regressou à história?
Aquilo que mais me surpreendeu foi o heroísmo, sobre o qual não se ouve falar muito. Ouves dizer que uma tragédia enorme mas aquilo que ficou comigo da história foi a bravura das pessoas. Perceberam logo que não iam sobreviver, mas que teriam de fazer algo para evitar que a situação propagasse. As pessoas sacrificaram-se e essa parte da história não chegou ao Ocidente. Não fazia parte da narrativa que estavam a tentar impor sobre a União Soviética. Gorbatchov afirmou que aquilo determinou o fim da União Soviética – compreenderam que não podia haver uma guerra nuclear pois se deu tanto trabalho limpar tudo aquilo como é que podiam pensar em disparar aquelas armas? Destruiria o mundo todo.

Acha que é importante contar a história neste momento?
Sim. É uma história que serve de lição sobre má gestão. Acho que é sempre bom quando tens uma história que te leva a questionar aquilo que te foi contado. E aqueles que não têm culpa nenhuma do que aconteceu são sempre os que pagam o preço maior. Uma das obras na qual a série se baseia é “Voices from Chernobyl” e é impressionante tudo aquilo que as eles passaram, o que sofreram e o que perderam.

«Gentleman Jack» - Sophie Rundle em entrevista

É uma das protagonistas da série «Gentleman Jack», a história da lésbica victoriana que conseguiu um casamento com a mulher que amou numa altura onde a homossexualidade era o maior dos tabus. Uma aposta de Sally Wainwright para a HBO e BBC. Sophie Rundle é uma das protagonistas e a atriz confessou-nos que sem a HBO esta série não seria tão ousada...
(Rui Pedro Tendinha em Londres)

O sucesso de uma série como «Downtown Abbey» poderá ter ajudado a aposta da HBO e da BBC numa série de época como «Gentleman Jack»?
Sophie Rundle: Sempre houve séries dramáticas de período interessantes, séries que sempre funcionaram bem aqui na Grã Bretanha. É claro que «Downtown Abbey» abriu o apetite internacional e abriu as portas para mais séries do género. As pessoas agora estão à espera do próximo «Downtown Abbey». Já fiz muito material histórico e sinto que o público não se cansa disso.

«Peaky Blinders», onde é uma das estrelas, é uma série de época, mas bem diferente de «Downtown Abbey»...
SR: Sim, são séries que até representam as diferenças sociais das suas épocas. Gosto muito de mergulhar nestes mundos e gosto também de saber o que as pessoas usavam, qual a música que ouviam e porque razão. Sou curiosa...Por isso, podemos dizer que sou atraída para esse tipo de histórias.

Mas em «Gentleman Jack» temos uma personagem LGBT, coisa pouco vulgar neste tipo de ficção televisiva...
SR: Sim! É incomum! Esta série fala de personagens gay mas mais do que outra coisa, fala das suas histórias. O argumento não tenta divertir-se com essa particularidade, antes pelo contrário: tenta dar-nos a perceber o que poderia significar amar outra mulher. É excitante podermos entender a experiência de uma pessoa LGBT em 1832! Obviamente, precisávamos de alguém com o intelecto da Sally para criar esta série!

E sente que a série pode ter um impacto junto da comunidade gay?
SR: Espero que se apaixonem pela série! Foi feita com muito cuidado, respeito e uma grande inteligência! Nada aqui foi feito ao acaso ou de forma leviana! Foi também importante o facto de termos na equipa muitas lésbicas e homossexuais. Se era para falar sobre estas mulheres, achou-se que era importante termos as suas vozes presentes...Estou realmente orgulhosa em fazer parte de uma série “mainstream” que reflete o caso de amor de duas mulheres. É muito importante. «Gentleman Jack» é tudo menos vulgar, sublinho. Foi concebida com coração! Não fala só delas na cama, mas essencialmente das suas vidas e dos seus feitos. Penso que é uma peça de televisão assaz adulta!

Por outro lado, é uma co-produção entre a BBC e a HBO. Vamos notar aquela habitual ousadia que costumamos ver nas séries americanas criadas pela HBO?
SR: Sim, nesse cruzamento BBC-HBO, talvez se sinta isso...É uma série toda ela com muita confiança! A HBO deu mais espaço para a série respirar e torná-la provavelmente mais corajosa. «Gentleman Jack» arrisca bastante. Enfim, a HBO cria as melhores séries...

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E essa reunião HBO e BBC resulta mesmo?
Sim, fica uma grande equipa! A BBC é perita em fazer séries históricas e esse cruzamento com a HBO é perfeito.

A verdade é que todos estamos a ver televisão de uma nova forma, em particular através do streaming. Já agora, como consome ficção televisiva?
SR: Não sou muito fã de ver tudo de seguida, mas já me aconteceu... O meu padrão é ver logo dois episódios de uma vez. Por outro lado, vi recentemente a nova temporada de «True Detective» e fiquei tão absorvida que me apeteceu ver toda a série de seguida. Por outro lado, acho divertido esperar todas as semanas pelo próximo episódio – gosto da ansiedade. O que é mesmo porreiro nesta altura é que podemos escolher como vemos televisão.

E como lidou com o facto de representar quase sempre com corpete?
SR: Foi horrível! É apenas glamouroso nos primeiros dez minutos, depois foi só sofrer! Porém, ajuda imenso na maneira de nos movermos – já não conseguia sequer ensaiar nas minhas próprias roupas. Percebi que são verdadeiramente cansativos, ficava exausta. Uma pessoa sente-me mesmo apertada! Devo dizer que não era nada fácil respirar fundo...Usava o corpete das sete da manhã até às sete da tarde. Agora até fiquei com uma cicatriz aqui perto das costas após um dos espartilhos soltar-se e me cortar...

A sua Ann Walker e Anne Lister foram mulheres que não ficaram famosas historicamente. Tem alguma teoria para explicar isso?
SR: Eram mulheres extraordinárias e demasiado avançadas para a época. Creio que as pessoas ficaram chocadas e quiseram-nas esquecer...A Anne Lister era falada como se fosse uma figura de mito e a Ann sabia bem que ela era alvo de muitos comentários. O povo tratou a Anne Lister como uma estrela de rock, mas nunca percebeu se a amava ou a odiava...

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Concorda com Olivia Colman quando esta diz que é mais fácil beijar uma mulher num filme do que um homem?
SR: Nem sabia que ela tinha dito isso! Fabuloso!!! Mas não concordo: é também assustador! Trata-se de uma experiência esquisita! Uma pessoa está sempre a pensar que não é o nosso marido quem estamos a beijar e ainda por cima estão uma série de pessoas a ver-nos! Por outro lado, pensando bem, com uma mulher talvez haja algum tipo de conforto...No geral, fazer cenas sexys em frente a uma câmara é simplesmente estranho. Quem disser o contrário está a mentir.

Depois do sucesso de «Peaky Blinders» e de todo o falatório em torno de «Gentleman Jack», o cinema é uma possível via para si?
SR: Sim, claro, mas estou naquela de achar que o melhor é mesmo aquilo que surgir... Acontece que trabalho na televisão britânica e acredito mesmo nela. Gosto muito da ficção que aqui se faz! Adoro a maneira de se contarem histórias através de longas temporadas, é muito bom poder ficar com uma personagem durante muito tempo. Poder fazer oito horas com a mesma personagem é algo que me transmite qualquer coisa de imensa profundidade. Claro que se um filme simpático aparecer pelo meio caminho, não hesito. Sou uma atriz que acredito sobretudo em projetos, seja em televisão, seja em cinema.
Está a dizer-me que os seus agentes não estão com aquele discurso de que agora deveria fazer cinema em seguida?!
As pessoas pensam que os atores têm uma estratégia definida de carreira mas isso não existe! Tem tudo a ver com o destino.

Não tem nenhum objetivo de carreira?
SR: Não acredito nisso! Sou adepta de deixar as coisas acontecerem e isso é o melhor. Nesta altura, é muito agradável poder trabalhar aqui em Londres, em casa...

Daniele Luchetti - «Io sono Tempesta»

Onde encaixar um realizador de múltiplos êxitos de público e crítica, como Daniele Luchetti (de «A Nossa Vida») no atual planisfério de expressões artísticas requintadas de Itália? Desde 1985 até hoje, rodou produções festejadas nos grandes festivais da Europa e fora deles, como «Domani accadrà» (1988) e «Francisco, o Papa do povo» (2015). Mas de que modo enquadramos a sua forma de expressar a realidade em relação a seus conterrâneos? Lar de Federico Fellini, De Sica, Lina Wertmüller, Rossellini, Antonioni, Visconti, Pasolini, Monicelli, Bertolucci e de mais uma tonelada de mestres, o cinema italiano foi uma pedra no sapato de Hollywood de 1945, quando a fogueira do neorrealismo se acendeu, até meados dos anos 1990, um período de especulações financeiras no mandato inicial de Silvio Berlusconi como primeiro-ministro, em que a indústria audiovisual para o grande ecrã foi esmurrada, em prol da TV.

[texto originalmente publicado na Metropolis nº 67]

Por muito tempo, até há segunda metade dos anos 2000, só Nanni Moretti, Roberto Benigni, Pupi Avati, Gianni Amelio e Marco Bellocchio mantiveram a potência autoral da Itália em riste, mas sem a mesma mobilização popular vivida entre os anos 1960 e 80. De lá veio o spaghetti western (com Sergio Leone e Tonino Valerii), o Peplum (filmes de gladiadores romanos, como «Os últimos dias de Pompeia»), a comédia erótica (sofisticada como «Pato com Laranja» ou brejeiras como «A Liceal»), o giallo (terror com psicopatas e aparições, tipo «O Pássaro com Plumas de Cristal») e Trinitá (a série com Bud Spencer e Terence Hill). Mas todos esses filões ficaram para trás, enquanto as produções de Roma, de Turim, da Sicília e companhia perdiam a força, dando àquele país uma fama de decadência cinematográfica. Má fama, aliás. Mas esta se diluiu a partir de 2008: ali, uma nova geração de diretores ganhou projeção internacional aos olhos da crítica e ao gosto do público. Batizada informalmente de Risorgimento, essa onda autoral é movida pela narrativa nada convencional de realizadores que não se renderam à tradição como Alice Rohrwacher («Lazzaro Felice»), Emanuele Crialese («Terraferma»), Saverio Costanzo («A Solidão dos Números Primos»), Laura Bispuri «Figlia mia»), Luca Guadagnino («Eu sou o Amor»), Paolo Sorrentino (do oscarizado «A Grande Beleza»), Matteo Garrone («Gomorra») e Luchetti. Aliás, há uma comédia inédita para lançar este mês em Itália, «Momenti di trascurabile felicita», sobre um sujeito dado a excessos que precisa reinventar sua vida.

Aos 58 anos, Luchetti, nascido em Roma, ficou mais conhecido por entre nós por «O Meu Irmão é Filho Único» (2007). Atualmente, anda com pouco tempo para olhar para trás e avaliar o que fez de melhor, inclusive a sua longa-metragem mais recente, «Io sono Tempesta» («O Rei de Roma»), foi lançado no Brasil em março. Não é da natureza do cineasta – uma presença habitual em festivais de prestígio como Cannes, Locarno e San Sebastián – repensar o passado, sobretudo o do seu país nas telas. Apesar do seu respeito pela tradição neorrealista de Rosselini, De Sica & Lda e da verve política de Marco Bellocchio e Elio Petri, ele filma comédias (algumas delas cheias de dor e fúria, como «Anos felizes») para se libertar de referências e conceitos institucionalizados e procurar a sua própria voz autoral. Sucesso de público e crítica, a sua obra é focada em costumes e afetos refreados por arreios morais. É o que se vê, hoje no Brasil, na história do milionário Numa Tempesta (vivido por Marco Giallini). A sua história, agora em circuito carioca, arrebatou risos e elogios em Cannes, em maio de 2018. Ali, Luchetti estreou esta divertida sátira sobre avareza e cobiça, centrada no processo de redenção de Numa Tempesta após de ser obrigado a prestar serviço comunitário. Na entrevista que se segue, dada à revista Metropolis, Luchetti fala sobre os riscos de ser popular nas telas da Itália.

Luchetti O Rei de Roma

Os seus filmes não têm medo da palavra: fala-se muito neles e, da fala, vem o riso. Mas há uma “amarra” autoral que rebaixa a força estética da palavra. Como driblar tal preconceito?
Daniele Luchetti: A França serviu-me melhor para isso do que os mestres italianos. No início dos anos 1980, franceses como Éric Rohmer, Jacques Rivette e François Truffaut fizeram filmes que me marcaram muito, como «Paulina na praia», de 1983, no uso da palavra. Esses diretores mostraram-me que o real não vem, necessariamente, de uma mirada documental silenciosa para uma paisagem humana. Um bom diálogo pode revelar muito da realidade. É do trato com os atores que brota o real que me interessa estudar.

Qual é a Itália que o senhor retrata nos seus filmes?
É um país que precisa de reaprender a rir de si mesmo e recuperar a sua leveza.

«Io sono Tempesta» traz provocações políticas, traz um olhar sobre a mecânica financeira da economia italiana, mas aposta, com maior peso, na afetividade e no riso, ao narrar o rito de passagem de Numa Tempesta rumo à redenção. De que maneira essa comédia de costumes traduz as atuais inquietações morais da Itália, em meio a suas crises económicas recentes?
Muito se fala e se pensa em política na Itália, mas não é esse o caminho que eu sigo e sim o do humanismo, buscando um paralelo entre os afetos e as contradições sociais. Gosto de transgredir normas, entre elas a de uma obrigatoriedade autoral que se impõe por aqui, na Itália, e que leva os diretores, das mais variadas gerações, a evitar projetos que falem com o público de modo mais direto, frontal. Minha vocação é fazer filmes de entretenimento, mas sem abrir mão de conteúdo. Foi o que eu aprendi com o cinema americano dos anos 1970 de diretores como Robert Altman e Hal Ashby. Aquela década foi a última era de cinema para um público adulto nos Estados Unidos.

O senhor cita diretores autorais de Hollywood, mas vem de um país que fabricou génios a granel nas telas, como Fellini, Antonioni, Pasolini. Essa tradição italiana pesa? E quanto?
Cresci nos anos 1970, a época áurea do cinema político italiano, com Elio Petri, Francesco Rosi, Marco Bellocchio. Não é por acaso, que um dos meus primeiros filmes, «Il portaborse» (em português, «O homem da Pasta»), tinha uma carga política. Mas eu busquei um caminho distinto da tradição da minha pátria: troquei o neorrealismo pelo que chamo de “neoirrealismo”. É assim que eu batizo o meu esforço de abordar o mundo real sob um filtro de humor. «O Rei de Roma», por exemplo, trata da relação pai e filho com ironia.

Luchetti Em Momenti di trascurabile felicita

O senhor descreve sua estética comprovadamente popular, e respeitada em festivais, como sendo algo à margem. Por quê?
Houve um tempo em que a Itália investia em géneros: filmes de terror (o giallo), comédias eróticas, bangue-bangue (o spaghetti western) e filmes de gladiador (que são chamados de Peplum). Mas, a partir dos anos 1990, com uma série de retrações na nossa indústria, os cineastas perderam essa conexão com o grande público do passado e filmografias hegemónicas a tomaram conta do país. Isso fez com que as gerações de cineastas que vieram a partir de 1990 passassem a acreditar que o filme autoral, sem género, sem formato específico algum, fosse o único caminho. Isso deu lugar a muitos filmes de autor de má qualidade. E fez a ideia do filme de entretenimento parecer uma ousadia. Mas eu prefiro os corações livres do que ideologias, amarras criativas.

Falando em atores, ao lado de Marco Giallini, que interpreta Numa Tempesta, «Io sono Tempesta» traz o seu intérprete mais fiel, Elio Germano, premiado em Cannes por «La mostra vita» (2010), o filme mais elogiado que o senhor fez até hoje. O que Germano acrescentou?
Sou um diretor intuitivo, sem métodos, apoiado no humor. Germano me oferece a possibilidade de ampliar as dimensões dos afetos que eu busco representar, pois ele, em cena, é pura emoção.

O seu embate com a emoção, filme a filme, fez escola já em Itália. Há diretores mais jovens, como Laura Bispuri (de «Figlia mia») e Claudio Giovannesi (de «Os Meninos da Camorra») que parecem seguir essa trilha afetiva em que você milita. De que forma você encara essa inspiração que gera nos seus conterrâneos?
Tenho uma comédia inédita, chamada «Momenti di trascurabile felicità», para lançar a 14 de Março, e penso mais nisso do que em ser referência ou do que em utilizar os diretores de que gosto como parâmetro. Gosto muito de Ken Loach, por exemplo, por ficar encantado com o fato de ele construir uma dramaturgia viva, sem medo de ser palavroso, sem a necessidade de uma estetização da imagem. A fotografia é realista, simples, sem adereços. O apreço que tenho por ele ilumina-me, mas eu não tento reproduzir o seu caminho. É difícil criar uma imagem original no cinema contemporâneo. Mas isso não me obriga a reproduzir passo a passo os enquadramentos dos cineastas de que gosto. É a dramaturgia que me dá o caminho.

Laurence Fishburne - 20 anos de «Matrix»

A festa será intensa para os fãs de "Matrix" em 2019, na esteira dos 20 anos de um dos maiores marcos da história da ficção científica nas telas. Morpheus, um de seus mais icónicos personagens, já está pronto para celebrar: "A gente teve muito trabalho pois havia ali uma engenharia de filmagem que ninguém conhecia, um par de talentosos diretores ainda em início de carreira e uma equipa de pessoas que embarcou de cabeça naquela mistura de filosofia e cultura pop", diz Laurence Fishburne, o astro por trás do guru do messiânico Neo, na luta contra as máquinas.

É um ator que está na luta desde a década de 1970, quando apareceu em «Apocalypse Now», a cantar e rebolar ao som dos Rolling Stones. Um ator dono de uma voz inconfundível, que amplia o seu charme. "Coppola apresentou-me à arte, deu-me um norte", diz Fishburne.

Logo após ter sido nomeado ao Oscar pelo seu desempenho como Ike Turner em «What's Love Got to Do with It» (1993), Laurence Fishburne, hoje com 57 anos, foi protagonizar «Othello» (1995), com Irène Jacob e Kenneth Branagh: foi nessa época, de sucesso profissional, que ele declarou o seu desejo de filmar "O Alquimista", o fenómeno de vendas responsável pela fama mundial de Paulo Coelho. O escritor virou uma grife global nas livrarias mas o projeto não saiu do papel... ainda... conforme o ator declarou na bateria de entrevistas que deu no Festival de Marrakech. Ele veio ao Marrocos para uma projeção de gala de um sucesso comercial da Marvel, no qual é codjuvante de luxo: «Homem-Formiga e a Vespa», de Peyton Reed. Mas a popularidade dele por aqui (e no planeta fora) é enorme, não apenas por sua presença em séries de sucesso como "CSI" e "Hannibal", mas por estar imortalizado no imaginário cinéfilo como Morpheus, o guru do herói neo (Keanu Reeves) na franquia "Matrix". Em 2019, a primeira longa-metragem daquela série sci-fi completa 20 anos: à época da sua estreia, ela mudou todas as convenções do género. Na entrevista a seguir, Fishburne conta à revista Metrópolis parte da sua história nas telas, sobretudo as suas passagens ao lado de Keanu nesses clássicos da ficção científica. E fala dos seus atuais projetos, incluindo dirigir a saga do alquimista.

Num piscar de olhos, "Matrix" somou duas décadas no imaginário cinéfilo: a saga de Neo, papel de Keanu, e de Morpheus, o seu personagem, vai completar 20 anos em 2019. O que aquele filme representou para a cultura pop?
Laurence Fishburne: Ele mudou tudo... e num gesto simples: levou a filosofia para a ficção científica. É uma história antiga. É a história do messias que salva a Terra. Mas essa velha história veio envelopada em símbolos contemporâneos, signos pop, na tecnologia. Ao adquirir "O alquimista" tive a mesma sensação quando li o livro: algo ancestral contada de uma forma contemporânea e universal. Curiosamente, pensando em "Matrix", eu não sou um sujeito tecnológico: tenho um smartphone mas não vivo enfiado nele, não frequento as redes sociais. Prefiro conversar com as pessoas. Eu ainda ligo para as pessoas em vez de enviar mensagens.

Você falou com carinho de Keanu Reeves. Que tipo de ator é ele, hoje, já com 54 anos?
Laurence Fishburne: É uma bênção estar com Keanu não apenas por sermos amigos e por termos passado experiências muito loucas fazendo "Matrix", mas pelo fato de ele ser uma das pessoas mais inteligentes que eu já conheci. E ele tem um perfil diferente de tudo o que você já viu no cinema, o que lhe garantiu espaço nas telas durante todos estes anos. Isso e o facto de ele ser um ator que arrisca: ele cresce como intérprete porque faz escolhas desafiadoras. Às vezes ele acerta. Às vezes erra. Mas a arte é isso. Quando eu falava das loucuras de "Matrix"... veja... aquele olhar filosófico sobre a tradição sci-fi, cheia de efeitos especiais novos, era algo que ninguém conhecia no cinema. Era uma experiência. Tudo era novo, era risco. E estávamos ali, Keanu e eu, juntos.

Como ficou o projeto de filmar "O alquimista" quase 25 anos depois das primeiras notícias sobre seu interesse no livro de Paulo Coelho?
Laurence Fishburne: Eu ainda estou a correr atrás disso, porque há ali uma história que precisa de ser contada. Aliás, agora mais do que nunca, pois se trata de uma trama sobre jornadas espirituais, uma troca entre culturas distintas, na aprendizagem acerca das diferenças. Talvez por isso ele não tenha saído antes. Diante das lições que estão ali, 20 anos não significa muito. E eu continuei a trabalhar em coisas diferentes durante esse tempo, tendo até dirigido um filme («Once in the Life», de 2000).

matrixO que mais mudou na sua vida nesse tempo em que se dedica ao projeto e que novos filmes vem por aí?
Laurence Fishburne: O que mudou? Fiquei mais velho, ganhei uma barriga, ganhei mais senso de humor... Novos filmes? Há muita coisa, mas está a chegar um projeto muito divertido que é o terceiro filme da franquia "John Wick", em que eu contraceno de novo com meu amigo Keanu Reeves, depois de tudo o que fizemos em "Matrix". É uma franquia sobre um mundo muito louco, hiperviolento, que parece uma grande brincadeira de polícias e ladrões, daqueles que a gente fazia quando eramos crianças. E o Richard Linklater, um diretor que eu admiro muito pela leveza do seu olhar sobre a vida, criou um papel para mim no seu novo filme: «Onde Estás, Bernadette?». Fizemos «Derradeira Viagem» juntos, recentemente, e ele me chamou para essa nova empreitada de um jeito engraçado, dizendo: "Eu tenho uma cena em que você entra e escuta a Cate Blachett a falar, pode ser?". Como dizer não a Cate e a uma pessoa como ele?

Você errou ao ter recusado o convite de Quentin Tarantino para atuar em «Pulp Fiction» (1994), no papel que foi para Samuel L. Jackson?
Laurence Fishburne: Claro que não. E vou dizer o porquê. Se eu tivesse aceitado, não teria havido aquele desempenho extraordinário do Samuel, que celebrizou o seu nome e fez dele uma das maiores estrelas de todos os tempos no cinema. Eu tive outras boas chances depois. E pude admirar Samuel.

Você passou pelo Festival de Marrakech com um filme de super-heróis que faturou cerca de 625 milhões nas bilheterias: "Homem-Formiga e a Vespa". Ao mesmo tempo, você tem vaga cativa no universo DC Comics, como Perry White, o editor do Daily Planet. O que esse filão dos heróis mascarados representa hoje?
Laurence Fishburne: Eu não acho que a omnipresença do filão esteja a pertubar o cinema: toda as modas têm seu tempo de acalmia, terminando na hora certa. Ainda não chegou essa hora. E, como eu cresci lendo quadrinhos, tenho muito encanto com esses filmes. «Pantera Negra», por exemplo, foi um marco para a população negra do mundo. Negros como eu encontramos ali um sonho realizado: um príncipe de origem afro virou herói. É muito significativo. A experiência de ser Perry White é outra coisa, também prazerosa: eu tento fazer daquele personagem uma homenagem a um grande jornalista negro americano que, infelizmente, já se foi: Ed Bradley.

Tem um filme inédito com você no elenco que é um dos mais esperados desta temporada de fim de ano: «Correio de Droga», de Clint Eastwood. Como é trabalhar com ele... e cerca de 15 anos depois de vocês terem feito o cult «Mystic River»?
Laurence Fishburne: Estar num set sob a direção dele dá a um ator uma sensação de maturidade. O que ele faz é um cinema sincero, de extrema simplicidade, usando a mesma equipa, há anos. Uma equipa que o admira. Quando eu comecei no cinema, ainda adolescente, fiz «Apocalypse Now», um filme importantíssimo para a História, mas que teve imensos problemas para sair do papel. Francis Ford Coppola, que me ensinou muito, levou quase dois anos para concluir aquele filme. Dois anos de uma vida, de muitas vidas. O Clint é diferente: em 25 dias... 25... ele filmou tudo. São experiências diversas. Todas contam.

Entrevista publicada na Revista Metropolis nº66