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Actualizado às 8:37 AM, Jun 18, 2019

«What/If»: error, argumento not found (review)

Há um momento no piloto que resume, em poucos segundos, aquilo que é «What/If». A certa altura, no primeiro episódio, a personagem de Renée Zellweger encara uma ampla janela, com a trovoada lá fora a construir o cenário ideal de uma vilã da Disney... Mas de um filme de animação série B – tal a qualidade artificial dos efeitos. Também é assim a série: no meio do aparato da história que quer criar, os efeitos artificiais destroem os aspetos positivos da trama que marca o regresso de Mike Kelley, o criador de «Revenge», terminada em 2015.

Se há série que nem precisava de marketing era esta. Após uma pausa na carreira entre 2010 e 2016, e filmes pouco mediáticos desde então – à exceção do regresso de Bridget Jones –, Renée Zellweger estreia-se em 2019 numa série de TV, pela mão da Netflix. Desde que o serviço de streaming anunciou a participação da atriz norte-americana em «What/If», cuja sinopse demorou a ser revelada, que a curiosidade em torno da série era muita. Chegada a hora da verdade, é caso para dizer que a montanha pariu um rato.

what if 3

Lisa (Jane Levy) e Sean Donovan (Black Jenner) são um jovem casal aparentemente normal... e os protagonistas desta história. Embora o foco esteja naturalmente em Renée, o valor acrescentado da nova série de Kelley, o duo de promissores atores assume a condução da narrativa, pelo que grande parte do piloto lhes é dedicado. Lisa tem uma start-up, que fundou com a ajuda dos pais adoptivos, mas não consegue vender o seu projeto a ‘tubarões’ do mundo dos negócios; já Sean é um ex-jogador dos Giants, que caiu em desgraça e agora trabalha como paramédico e no bar de um hotel. A eles junta-se um grupo de amigos estereotipado: os namorados de sempre e a traição que ameaça dividi-los – com um hospital pelo meio a lembrar «Anatomia de Grey» –, e o casal gay que quer experimentar coisas novas (a storyline lembra uma das secundárias de «Looking»).

No meio dos clichés, surge finalmente Anne Montgomery (Renée) para nos salvar do tédio. Mas a premissa que traz é, tal como a série assume num diálogo entre personagens, um rip off de um filme dos anos 90. Se conhecerem pelo menos a sinopse do filme «Proposta Indecente» (1993), protagonizado por Robert Redford, Demi Moore e Woody Harrelson, é impossível desligar a sensação de déjà vu. No filme, um bilionário oferece um milhão de doláres a um casal por uma noite com a mulher, enquanto na série é Anne que se oferece para financiar o projeto de Lisa... em troca de uma noite com Sean. O que é acontece nesse período é um mistério e será o mote para toda a temporada, uma vez que há uma cláusula que impede Sean de falar sobre isso.

Apesar de os diálogos serem genericamente ‘bonzinhos’, o que estraga tudo é o argumento. Ou melhor, a falta dele. Mike Kelley teve as ideias, organizou os diferentes grupos da história e atribuiu-lhes um conflito, só que não se preocupou com o fio condutor. Tudo é uma miscelânea de falsos twists que vão acontecendo, onde cada personagem se julga à frente do jogo em que está envolvida. Como pano de fundo, a terrível Anne, que parece estar sempre um passo adiantada em relação a Lisa, uma cientista frágil que quer provar à magnata que é mais forte do que ela pensa. Qualquer semelhança de Anne com Victoria Grayson (Madeleine Stowe), de «Revenge», não será certamente uma coincidência.

Como já perceberam, provavelmente, a esta altura, «What/If» tem todos os ingredientes para se tornar o ‘guilty pleasure’ dos seriólicos, apesar de todos os seus defeitos. É verdade que a série está mal construída e que o argumento é uma falácia, mas a curiosidade para saber o que move Anne e o que aconteceu naquela noite agarra a audiência episódio após episódio. Além disso, ter Renée como vilã é um acontecimento raro que é maravilhoso de assistir.

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«After Life» com Ricky Gervais

«After Life» é um one-man show. Ricky Gervais não se limita a escrever, realizar e protagonizar. A sua nova série é um manifesto pessoal, uma espécie de versão ficcionada da sua conta de Twitter (ou Instagram, ou qualquer outra rede social). Ou seja, até os menos atentos facilmente reconhecerão o quão transversais são as ideias, as convicções e as piadas entre Ricky, o autor, e Tony, o personagem. O ateísmo, o amor pelos animais (em oposição ao desprezo pelas pessoas), a ironia e o sarcasmo, enfim, o Ricky Gervais que conhecemos.

[artigo originalmente publicado na Metropolis nº 67]

AFTER LIFE EP06

A premissa do homem que perde a sua mulher, vítima de cancro, e embarca numa jornada depressiva serve o seu propósito abrindo caminho para Tony dizer e fazer tudo o que lhe vem à cabeça. Afinal de contas, se alguma dia achar que foi longe demais, pode sempre pôr fim à vida. O suicídio é o seu super-poder. E por isso, em seis episódios, Tony não se coíbe de ir atropelando tudo e todos de forma mais ou menos chocante. E hilariante. Pelo menos até este começar a recuperar uma certa consciência e tolerância para com o mundo.

«After Life» fica muito aquém da genialidade de «Extras» e de «The Office», mas ainda assim é uma boa série. Tem cabeça, alma e coração. O problema é deixar-se levar demasiado pelo coração quando chega a hora de completar o arco narrativo da sua história. À medida que os episódios passam e o desfecho se aproxima a comédia amarga vai sendo progressivamente substituída pelo drama adocicado. Mais do que seria desejável. Um equilíbrio mais agridoce teria feito de «After Life» uma grande série. Ainda assim, é uma série a não perder.marco oliveira

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«Fórmula 1: A Emoção de um Grande Prémio» - série Netflix

Fórmula 1: A Emoção de um Grande Prémio é uma emocionante série de 10 episódios e é a primeira a oferecer acesso exclusivo e intimista à maior competição de corridas do mundo.

Dos criadores de Senna & Amy, esta série irá revelar a verdadeira história do desporto - não só na luta para ser o primeiro, mas também na luta pelo coração, alma e direção deste negócio multimilionário.

A Fórmula 1 está a passar por uma enorme revolução desde a sua aquisição, em janeiro de 2017, pela Liberty Media. Todos os olhos estão postos neste desporto, ou não estivesse ele a passar por uma reinvenção para construir o automobilismo com sustentabilidade e colocar paixão no seu coração. Esta série tem um acesso sem precedentes aos principais pilotos, diretores e proprietários, dando-lhe uma visão mais profunda sobre as suas vidas pessoais, sacrifícios e mudanças daqueles que se dedicaram todo o seu amor ao desporto mais rápido do mundo.

Enquanto uma nova geração de pilotos sai da sombra dos seus rivais mais experientes e das lendas da pista, o cenário está pronto para uma nova onda de competições emocionantes e desafios na pista.

Começa em Melbourne, onde o mundo dos altos riscos, adrenalina e paixão inerentes à Fórmula 1 é lançado. É a partir daí que a série de move com as suas equipas após cada corrida; do Bahrain para o Canadá, Áustria, Singapura, de Austin para o Brasil, antes de culminar na luta final da época em Abu Dhabi, onde as pontuações irão ser acertadas.

Paul Martin de Box to Box Films: “A Netflix é a plataforma perfeita para contar a história por dentro deste desporto incrível. F1 já não é um mundo de personagens coloridas e com grandes egos, emoções e drama, vitória e tragédia mas, até agora, este mundo tem sido em grande parte escondido dos fãs. Fórmula 1: A Emoção de um Grande Prémio leva os espetadores diretamente para o coração deste universo e mostra como é viver, trabalhar e competir no desporto mais rápido do mundo”.

Esta série tem como produtores executivos James Gay Rees (Senna), vencedor de um Óscar e Paul Martin da produtora Box to Box Films. Sophie Todd é a showrunner.

Fonte: Netflix

«Emboscada Final» com Kevin Costner e Woody Harrelson

Os criminosos foram notícia. Os polícias entraram para a história. «Emboscada Final», filme realizado por John Lee Hancock (Um Sonho Possível), conta a história verídica e nunca contada dos detetives que detiveram Bonnie e Clyde. Perante a impotência da tecnologia forense e do FBI, os dois ex-Rangers do Texas (Kevin Costner e Woody Harrelson) têm de seguir os seus instintos e recorrer às técnicas da velha guarda para conseguir capturar os dois criminosos mais procurados dos Estados Unidos.

Fonte: Netflix

Roma

Há uma forte consciência individual e coletiva do impacto das mudanças ocorridas num determinado momento neste nostálgico resgate que Alfonso Cuarón faz de todo um período da sua vida. O cineasta mexicano regressou ao país onde nasceu e cresceu para filmar, pela primeira vez, em 17 anos, desde o galardoado «E a Tua Mãe Também». Escolheu o bairro de Roma na cidade do México, para retratar uma vivência de uma família de classe média – a mãe, que cuida dos filhos, o pai, um médico que sustenta a família, a avó que vive em casa… e a empregada Cleo, personagem inspirada na mulher que trabalhava em casa da família de Cuarón.

Através da observação desse núcleo familiar, «Roma» diz-nos muito sobre relações entre pais e filhos, marido e mulher, patrões e empregados. Fala do abismo de classes, da insegurança das mulheres, de uma sociedade machista, e de uma época marcada por convulsões e lutas sociais em defesa de direitos civis.
O filme gravita em torno de Cleo (Yalitza Aparicio), uma mulher que optou por viver as rotinas de outra família para organizar a sua vida. Infância, adolescência, casamento, infedilidades e divórcio, amores e desamores, maternidade. Cuarón olha para aquela família através desta mulher e esse é o seu testemunho, a sua perspetiva e memória.
Progressivamente, vai saindo do espaço da casa e sentindo a rua, as relações e costumes, o mal estar social que é dramatizado na cena nuclear do filme sobre o El Halconazo, como ficou conhecida a repressão violenta de jovens mexicanos que protestavam contra as mudanças na educação, em 1971.

Os planos longos, cuidadosamente iluminados através de um fotografia cheia de textura, profundidade e contraste, definem quadros sequência onde as personagens se movimentam (vivem o seu quotidiano…). Cada quadro é uma composição, ora singular, ora grandiosa, mas sempre carregada de poesia. E o filme avança adquirindo, com essa respiração temporal, a dimensão narrativa de um épico.

Nunca tínhamos visto um filme de Cuarón assim tão belo, sentido, contemplativo, inesperado e melancólico. Num certo sentido tão latino e mexicano. Os seus valores de produção, que serão amplamente premiados com diversos Óscares, consolidam a estratégia da Netflix de obter um reconhecimento cinematográfico através do seu modelo de produção destinado a janela pequena. Mas «Roma» fica encolhido no ecrã da Netflix. Em Portugal, ao contrário do que sucede noutros países, temos a oportunidade e o privilégio de ver o filme em sala e esse continua a ser o lugar onde cabe o grande cinema. 

«Roma» está nomeado para 10 Oscars.

Crítica publicada na Metropolis nº65

Titans

Parece que todas as personagens do imaginário do Batman estão destinadas a ter uma série... Menos o próprio Batman (a não ser a versão juvenil em «Gotham»). Chegou a vez de Brenton Thwaites – recentemente em altas graças a «Piratas das Caraíbas: Homens Mortos Não Contam Histórias» (2017) – interpretar Robin, um dos parceiros mais notáveis do homem-morcego. Robin e Raven (Teagan Croft) vão precisar de ajuda para sobreviverem à primeira temporada, pelo que vão unir forças com outros heróis da DC Comics, formando o emblemático grupo Titans.

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«O Céu é o Limite» de Steven Soderbergh

No meio de um bloqueio profissional na área de basquete, o agente desportivo Ray Burke (André Holland) dá consigo em confronto entre a liga e os próprios jogadores. A sua carreira está a chegar ao fim, mas Ray está a jogar para apostas mais altas. Apenas com 72 horas para pôr em prática o seu plano mais ousado, Ray supera todos os jogadores quando descobre uma forma de mudar o jogo para sempre. O resultado levanta questões sobre quem ganha o jogo – e quem realmente o deveria ter ganho

Realizado pelo vencedor de um Óscar, Steven Soderbergh (Traffic), com argumento do também vencedor Tarell Alvin McCraney (Moonlight), O CÉU É O LIMITE (HIGH FLYING BIRD) apresenta um elenco de peso com Zazie Beetz, Melvin Gregg, Sonja Sohn, Zachary Quinto, Kyle MacLachlan e Bill Duke, e conta ainda com a participação de alguns atletas na NBA como Reggie Jackson, Karl-Anthony Towns and Donovan Mitchell.

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Fonte: Netflix

O regresso de Sabrina: o prenúncio de um Salem que não fala (review)

Uma das protagonistas mais queridas da década de 90 está de regresso ao pequeno ecrã, esta sexta-feira, 26, pela mão da Netflix.

Não foram precisos muitos minutos de «As Arrepiantes Aventuras de Sabrina» para surgir uma dúvida que se anunciava inevitável: será a abordagem da Netflix demasiado jovem, ou serei eu demasiado velha para me deixar encantar pelas desventuras de Sabrina Spellman? Do mesmo criador de «Riverdale», Roberto Aguirre-Sacasa, o novo original do serviço de streaming oferece um olhar renovado, mais gore e longe do humor de «Sabrina, a Bruxinha Adolescente», que marcou os serões de muitas famílias portuguesas no final da década de 90 e também na seguinte. A base da narrativa são as comics lançadas desde 2014, e que oferecem uma visão bem mais negra à história da personagem que apareceu pela primeira vez nas comics em 1962.

Na história recente da TV, séries como «Os Diários do Vampiro», «The Magicians» e «Teen Wolf» – assim como a já mencionada «Riverdale», que ‘fica’ do outro lado do rio (crossover à vista?) – têm alterado a relação da audiência com o género de fantasia/sobrenatural. As narrativas são suportadas por conteúdos mais sombrios, violentos e as personagens têm de lidar com problemas mais ‘adultos’, ainda que sejam tradicionalmente mais jovens e imaturas. A comédia deixa de ser o fio condutor da trama, para dar lugar a incursões pelo drama, pelo mistério e até pelo terror soft.

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Mas vamos ao que realmente importa. «As Arrepiantes Aventuras de Sabrina», que têm Kiernan Shipka – nascida três anos depois da estreia da precursora – como protagonista, trazem um contexto diferente a uma personagem que julgávamos conhecer. Aproxima-se novamente o 16º aniversário de Sabrina Spellman, mas desta feita ela não vive no desconhecimento: Sabrina sabe que se aproxima a cerimónia de ‘batismo’, na qual terá de acolher o seu papel de serva do Diabo e abandonar a sua vida de humana. A iminência deste acontecimento solene é acompanhada pela apresentação das personagens, nomeadamente os dois núcleos que marcam a sua rotina: a família de bruxos – as já conhecidas Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis) e o primo Ambrose (Chance Perdomo), introduzido na nova série – e, do outro lado, o namorado (Ross Lynch, o Austin de «Austin & Ally», longe da figura de trapalhão eternizada por Nate Richert) e demais amigos.

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A alteração mais chocante de «As Arrepiantes Aventuras de Sabrina» está, ainda assim, em algo tido como ‘sagrado’: o inigualável Salem, que não fala... Mas será que já nada está a salvo? Embora queira marcar pela diferença, ainda que a espaços pareça uma caricatura da série dos anos 90, a série corta com algo que os fãs podem não ser capazes de perdoar. O humor sagaz do felino é substituído pelo de Ambrose, uma personagem que destoa do duo de tias já bem conhecido, onde se evidencia o talento de Miranda Otto e a habitual rivalidade das irmãs Spellman. Estaremos perante um caso de “primeiro estranha-se, depois entranha-se”?

A entrada de Sabrina na vida de bruxa tem bem menos piada do que aquela que foi experienciada pela personagem de Melissa Joan Hart, que ocupou o pequeno ecrã durante sete temporadas, num total de 163 episódios. Há uma componente feminista e social mais marcada, com o Diabo a retirar a independência e a capacidade de escolha a Sabrina, com a entrada num sistema sustentado pelo patriarcado e com homens nos principais lugares de poder. Da mesma forma, é também um drama social, com problemas que vão do sobrenatural ao mundano, como o bullying, a afirmação da identidade na adolescência e os tradicionais dramas escolares. Menos cómica e com uma narrativa mais ‘adulta’ na sua essência – ainda que mais colada às séries juvenis que têm habitado a TV –, «As Arrepiantes Aventuras de Sabrina» podem dividir a audiência em relação à sua qualidade, mas uma coisa é certa: ficamos cá com uma vontade de rever a série criada Jonathan Schmock e Nell Scovell em 1996...

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