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Actualizado às 9:40 PM, Apr 17, 2019

«Imagens Proibidas» de Hugo Diogo

David é um escritor português radicado em Londres, que regressa a Portugal numa tentativa de esquecer um grande amor e encontrar um novo significado para a sua vida. Em Lisboa, percebe que tudo mudou. A cidade. A família. Os amigos. Ou talvez tenha sido ele quem mudou. David embarca numa viagem, reencontrado caras do seu passado e descobrindo novas paixões.

Junta material para escrever um livro e fazer uma série de fotografias. Com este projecto, David procura recriar o amor entre duas mulheres que nunca se conheceram, fotografando uma e depois a outra, permitindo às duas que comuniquem apenas através de si e das fotografias que tira.

De máquina Polaroid na mão, ele pretende captar não só a beleza destas duas mulheres pelas quais se vai deixando envolver, mas também o momento único em que elas se encontram, a prova viva desse amor. Mas este é um jogo perigoso e que se irá revelar difícil de jogar.

O Amor é Lindo Porque Sim - Vicente Alves do Ó

Quatro anos depois de Florbela (2012), Vicente Alves do Ó regressa com uma comédia romântica produzida no âmbito da ACT, escola de atores. Com um elenco jovem, liderado pela estreante Inês Patrício, O Amor é Lindo ... Porque Sim teve uma rodagem rápida, sem contratempos e cheia de entusiasmo. Falámos com o realizador sobre o argumento que estava guardado na gaveta, as dificuldades de dirigir em comédia e ainda sobre as expetativas em relação à estreia do filme. 


Depois de Florbela (2012), drama biográfico, regressa com esta comédia romântica. Donde surgiu a ideia para este filme? Fale-nos da origem do filme?
O filme surge como vontade de dar a oportunidade aos alunos da ACT de trabalhar com um realizador no ativo e desenvolver um projeto profissional para as salas de cinema. A ideia surge aqui e depois o argumento surge como resultado desta vontade. Já tinha esta ideia na gaveta, precisava apenas de ser desenvolvida e parecia-me o género perfeito para uma nova geração de actores cheios de energia, alegria e talento. É assim que nasce o amor é lindo. Uma aventura tão louca como o filme e a história da protagonista: Amélia.

A protagonista é a jovem atriz Inês Patrício. Onde a descobriu? E a escolha do restante elenco, como foi?
A Inês Patrício é uma jovem actriz cheia de talento com quem já tinha trabalhado num módulo da ACT – Escola de Actores. Quando esta oportunidade se apresentou lembrei-me dela como potevncial actriz do filme e protagonista. O resto do elenco é constituído pelos alunos do 3º ano da escola e alguns convidados – actores profissionais – com quem tinha muita vontade em trabalhar.

Como correu a rodagem? Foi rápida? Surgiram contratempos?
A rodagem demorou 3 semanas – com 2 meses de pré-produção e ensaios – e correu muito bem. Felizmente. Não tivemos contratempos porque neste tipo de produção sem orçamento as pessoas trabalham até com muito mais entusiasmo sabendo que depende inteiramente delas levar o projecto a bom porto. Por isso foi aquilo que costumo dizer – uma rodagem feliz.

O trabalho com os atores. Dá espaço aos atores para improvisar, ou segue o guião tal como o escreveu? Como é dirigir atores numa comédia?
Escrever comédia é difícil. Muito difícil e é um género que vive muito do improviso, da graça da descoberta. Os ensaios foram constantes mas sempre abertos a novas ideias, novas graças, a novas tentativas de tornar as cenas sempre cómicas sem nunca perder a história e a humanidade das personagens. Não queríamos fazer “bonecos” queríamos fazer pessoas. E isso correu muito bem. Os actores profissionais que tivemos connosco deram um grande contributo para que o filme só ganhasse ainda graça.

A Comédia romântica é um género pouco explorado no cinema português. O que o levou a decidir escrever e filmar esta história?
Parecia-me a escolha óbvia para esta geração de novos actores, porque era um desafio para mim e porque de facto, fazem-se poucas comédias românticas em Portugal. Depois da Florbela e antes de outros projectos mais dramáticos, apetecia-me mostrar algo diferente. Gosto disso. De nunca fazer o que é suposto ou o que se espera.

Qual a expetativa em relação à carreira comercial do filme?
Não faço a mínima ideia. Mas este projeto foi feito verdadeiramente para eles. Caso corra bem nas salas – melhor. Mas a vitória já foi celebrada quando soubemos que a NOS iria distribuí-lo. Isso deixou-nos muito feliz. O resto, se vier, que venha por bem.

Novo projecto de João Canijo em filmagens

Teve esta semana início a fase final da produção do próximo projecto de João Canijo, FÁTIMA / CAMINHOS DA ALMA, cujas filmagens decorrerão ao longo das próximas dez semanas, partindo dos arredores de Vinhais (distrito de Bragança) até chegar a Fátima.

É a história de um grupo de onze mulheres que, ao longo de dez dias e percorrendo mais de quatrocentos quilómetros a pé, se dirigem em peregrinação a Fátima: “Cada uma cumpre a sua peregrinação com uma motivação própria: pagar uma promessa, agradecer à Virgem, fazer um pedido, expiar os pecados, cumprir um ritual de fé, ou apenas por curiosidade ou porque é a sua única oportunidade de uns dias de férias. Pelo caminho cruzam terras do país profundo, desertificado e envelhecido, em cujo abandono e decadência – arquitectónica e humana - tomam consciência de si mesmas e do povo de que nasceram.
O esforço e sofrimento com que farão a travessia de paisagens naturais de perder de vista, ao sol e à chuva, ao calor e ao frio extremos, vão fazê-las sentir profundamente a sua fragilidade, e reduzi-las à insignificância trágica da dimensão humana. O sofrimento, as limitações físicas e a vulnerabilidade levam-nas a momentos de ruptura. Revelam-se então as suas identidades e motivações profundas. No meio de um enorme sofrimento e exaustão, cada uma terá de reencontrar o seu caminho para a redenção.”

Cinco anos depois de “Sangue do Meu Sangue”, neste novo projecto João Canijo volta a trabalhar com actrizes com quem antes trabalhou como Rita Blanco, Anabela Moreira, Cleia Almeida, Márcia Breia, Ana Bustorff, Teresa Madruga e Teresa Tavares, e outras que com ele colaboram pela primeira vez, Vera Barreto, Íris Macedo, Alexandra Rosa e Sara Norte.

FÁTIMA / CAMINHOS DA ALMA é uma co-produção franco portuguesa da Midas Filmes (Pedro Borges, Portugal) com a Les Films de l’Après-Midi (François d’Artemare, França) e tem o apoio do ICA, da RTP e do CNC.

Fonte: Midas Filmes

 

Posto Avançado do Progresso

Foi a boa supresa do Forum. Um filme fora da caixa que confirma Hugo Vieira da Silva como um das vozes mais bizarras e insanas do novo cinema português. Depois de «Body Rice» [2006] e «Swans» [2011], o cinema de Hugo Vieira da Silva progride para uma dimensão mais simbólica. No meio de uma força plástica relevante, surge a habitual carga coreográfica e jogo de corpos. Os atores Ivo Alexandre (bela surpresa) e Nuno Lopes são atirados para um transe que às vezes parece improvisado, sobretudo na relação com os corpos dos não-atores, em especial os figurantes angolanos.
Em boa verdade, o filme toca em temas tabu da colonização portuguesa, ainda que com um estrondo também universal. É sobre quem caça e é caçado. Depois, tira-nos o tapete e é também uma variação do filme de fantasmas. Tudo isto sem nunca trair a matéria literária do romance de Joseph Conrad.
«Posto-Avançado do Progresso» é para o espetador nunca ficar em zona confortável. Uma imensa proposta fora do baralho...

Rui Pedro Tendinha em Berlim

HISTÓRIA
Dois oficiais coloniais portuguesas chegam a um remoto entreposto de marfim no Congo. Os seus imaculados uniformes brancos fazem deles corpos estranhos na selva e como “mundele ‘- fantasmas aos olhos dos nativos. Os dois oficiais têm como missão fazer o comércio fluir novamente após a morte do oficial do entreposto. No entanto, os trabalhadores contratados esforçam-se pouco para encontrar nova matéria-prima.

Realizador:
Hugo Vieira da Silva

Elenco:
Nuno Lopes
Ivo Alexandre
David Caracol
Inês Helena

Portugal, 2016

121 min

Nicolau Breyner - A carreira

A propósito do 1º aniversário da sua escola de representação, a NB Academia, falámos em Abril de 2015 com Nicolau Breyner, 74 anos, ator, realizador, produtor e agora também professor, um verdadeiro “homem dos sete ofícios”. Viajámos ao início da sua carreira, escutámos a sua visão sobre o atual mercado da representação e acerca do cinema em Portugal. Deixou-nos, ainda, uma promessa: não quer ouvir falar de reforma e vai continuar a trabalhar até que “a voz lhe doa”!

Boa tarde, Nicolau, estávamos aqui em off, a falar sobre os realizadores com quem já trabalhou. Qual o próximo projeto?
Vou trabalhar com o Leonel Vieira. Parto para o Brasil no dia 21, onde vou estar um mês. Até lá tenho a Academia para gerir.

A NB Academia celebra o seu 1º aniversário. Como é que tudo começou? Donde veio a ideia para a fazer?
É uma ideia que está latente em mim há muitos anos. Sempre pensei que a certa altura da minha carreira iria dedicar-me a ensinar o que aprendi durante tantos anos com tanta gente. E surgiu esta oportunidade: nasceu a sociedade com a Ana Costa (produtora) e tive a felicidade do Dr. António Costa ceder este espaço (Palácio Pancas Palha, zona de Santa Apolónia). Foram criadas as condições. Falei com professores, dos melhores que existem, penso eu.

Como foi a escolha dos professores? Eram pessoas que já tinham trabalhado com o Nicolau? Conhecia-as?
Conhecia-as todas: o Adriano Luz, a Sandra Faleiro, O José Eduardo, o Nuno Baeta, entre muitos. Escolhi-os, criámos os módulos num curso de três anos. Está a correr muitíssimo bem e estamos no último semestre.

Com uma seleção cuidadosa dos candidatos também?
Sim. Tivemos algum cuidado porque acho que não vale a pena enganar as pessoas...

Criar expetativas para depois...
É... repare, isto de ser ator: aprende-se, aperfeiçoa-se, procura-se, encontra-se. Agora há uma parte que é da massa de que o ator é feito, que vem de casa. É feita pelo pai e pela mãe. Aqui não se fazem massas a partir do nada: temos aqui um belíssimo bloco de granito, vamos esculpi-lo. Mas se não tivermos o granito não vale a pena.

Portanto, logo à partida, há uma seleção cuidadosa?
Tem que haver uma seleção. E tem corrido muitíssimo bem. Já temos inscrições para o próximo ano letivo.

A formação é para as diferentes áreas: cinema, televisão e teatro?
A formação é para ator. Há duas formas de representar: bem ou mal. Mas aqui nós estamos focados na representação para cinema e televisão. O trabalho é feito mais com câmaras. Quase todos os exercícios são feitos com câmaras, fazemos pequenos filmes, exercícios, curtas, para habituar os alunos ao trabalho com câmara. E temos o cuidado de fazer isso. Talvez seja aquilo que nos distingue de outras academias ou escolas: a nossa tem uma vertente que é mais focada no cinema e na televisão.

Existe alguma coisa que o Nicolau costume dizer aos jovens que chegam à escola?
Não, pergunto sempre se eles realmente querem ser atores, pois há uma grande confusão entre o que é ser ator ou ser conhecido. Ser conhecido é muito mais fácil, e muito mais barato, dá menos chatices...

E não dá trabalho?
Não dá trabalho nenhum. Há dez receitas para uma pessoa ser conhecida. Agora ser ator é outra coisa. Isso dá trabalho, chateia, dá desgostos, dá grandes prazeres também!

Qual a situação atual no mercado de representação?
Não é brilhante porque há muitos atores a viver em condições muito graves, em especial os mais velhos. Se olharmos para o mercado da televisão verificamos que não há muito espaço para os atores mais velhos, a produção está centrada em atores muito jovens. Não faço juízos de valor, não sei se é bom ou mau...

Não há papéis para os atores mais velhos?
Há muito menos papéis. Portanto, os atores mais velhos estão numa situação pior. Agora produz-se mais telenovelas, mas não há sitcoms, há poucos seriados, há poucos filmes...

Até séries históricas...
Sim, também não aumentou. O que aumentou foram as novelas. Mas pensando bem, se calhar o mercado também diminuiu.

Será que isso está relacionado com o excesso de importância que hoje é dado à imagem, à beleza física, à juventude ...
À juventude, sim. A primeira coisa que se escreve num artigo é: fulano tal, entre parêntesis, em excelente forma física! E isso não é uma coisa muito importante. É bom, mas não é o mais importante para um ator e para uma atriz...
Pois, porque é quase um boneco que se pede, e não um ator...
Sim.

E comparando a situação de hoje com o tempo em que o Nicolau começou?
Em primeiro lugar, não havia televisão, pouco cinema, havia sobretudo muito teatro: nessa altura, em Lisboa, havia 16 teatros a funcionar. Não estou a falar de espaços, mas sim de teatros a sério, era aí que era feita a nossa vida! Só o Parque Mayer tinha quatro!

E televisão não havia, praticamente?
Havia muito pouco. Estreei-me na televisão no Auto da Alma (Gil Vicente) a fazer figuração. Era aluno do Conservatório. Foram-me buscar a mim e outros alunos do conservatório. A televisão era muito insipiente ainda e para ser ator nós tínhamos um problema: as carteiras profissionais. Só podíamos representar se tivéssemos carteira profissional, como acontece na maior parte dos países – Inglaterra e EUA. Em Portugal, à época, ou se tinha carteira profissional passada pelo conservatório – a única escola de representação – ou então estava-se três anos numa companhia estatal (o Teatro Nacional, ou o Teatro Nacional Popular (no Teatro da Trindade) ou então ainda noutra que não me lembro muito bem). E, ao fim desses três anos, o diretor da companhia passava-lhe um certificado. Não sendo assim não se podia trabalhar.

Viajando agora pela sua carreira como ator, queria que nos contasse como tudo começou. Pois bem, veio para Lisboa com a família com nove anos, estudou no Liceu Camões ...
E o meu pai tinha um colégio dele. Fui aluno desse colégio. Depois acabei o 7º ano, e... de repente descobri que a ópera seria o meu futuro. Fui para a Juventude Musical Portuguesa. Estive em Itália como bolseiro. Voltei. E os meus pais sempre a dizerem-me que não, que devia ir para Direito. Mas quando viram que não queria desistir, o meu pai chamou-me e disse-me: se quer fazer ópera porque não tira um curso de teatro, como complemento da ópera. Fui para o curso de teatro e comecei no teatro porque não tive coragem de cantar ópera. Para a ópera é preciso uma disciplina física e mental, quase dum atleta de alta competição – não se pode fumar, deitar tarde, beber, apanhar sol, namorar muito. Pensei...

“Sou muito novo para isso!”?
Sim, claro. Depois, comecei a sair à noite, o teatro, as pessoas, entrei para o conservatório. No final do 1º ano fui requisitado para uma companhia das tais estatais, a do Ribeirinho (Francisco Ribeiro), que veio a ser um dos meus grandes mestres. Fiquei lá, acabei o conservatório e dois dias depois apareceu-me o sr. Alexandrino a dizer que tinham gostado do meu exame e queriam contratar-me.

Do seu ano do conservatório quais os nomes que seguiram carreira como atores?
A Florbela (Queiroz) – inscrevemo-nos no mesmo dia; o João d’Ávila. O nosso curso acabou com três pessoas. As pessoas iam desistindo e ficaram só três.

Na sua longa carreira como ator, quais os momentos decisivos? Por exemplo, no teatro?
Não sei! Fiz tanta coisa, e se calhar estou-me a esquecer ou a ser injusto. Agora, posso falar-lhe de pessoas que me marcaram: a Laura Alves marcou-me muito; a Eunice Munõz, estreei-me com ela; o Rogério Paulo, o Wallenstein, o Costa Ferreira, o Armando Cortez...Tive uma sorte tremenda ...

Aprende-se muito com quem se contracena...
Muito! É assim que se aprende muito. E tive a grande sorte de ter sido “um bocado adoptado” por eles. Era assim o miúdo que andava ali. Na “Leonor Teles” era eu, a Florbela e o João Lourenço. E depois o Ribeirinho, que era aquele homem mal disposto, introvertido, que mais sabia de teatro não só em Portugal como em qualquer parte do mundo, mas depois era um bem disposto também. Como eu me metia muito com ele, começou a abrandar a couraça comigo e criámos uma grande amizade, além de termos trabalhado juntos, por exemplo, no teatro de revista...

Pois, porque o Nicolau trabalhou muito no teatro de revista?
20 anos! Fiz revista, musicais, fiz drama, tudo e mais alguma coisa.

E na televisão, há algum momento marcante?
A Vila Faia, claro! porque é a primeira novela.

E o um momento decisivo no cinema. O primeiro filme?
Foi «A Raça» (1961). Um papel pequenino: tinha que andar de moto ao lado da Teresa Mota a tentar engatá-la. Atropelei-a, ia partindo a câmara e acabei a cena a pé! Depois foram muitos filmes...

Quais as diferenças entre o cinema dos anos 60 e o da atualidade?
Fazia-se muito pouco cinema nos anos 60. Foi uma época negra. Há uma época brilhante do cinema, das comédias dos anos 40, depois nos anos 60 aquilo faz quase um fosso! Não se produziam grandes filmes.

E as equipas eram grandes?
Eram maiores do que são agora. A mão-de-obra era mais barata, havia mais dinheiro, portanto eram muito maiores. O cinema tinha à volta de 40 pessoas a trabalhar numa produção.

Em relação à sua carreira como realizador: fez já alguns filmes...
De cinema são três: «O Contrato», «A Teia de Gelo» e os «Sete Pecados Rurais». Aliás ganhámos um prémio... e em Portugal premeia-se pouco os filmes que são vistos por muitos espetadores.

E fazem-se poucas comédias, também ...
Muito poucas!

Tem algum realizador ou conjunto de realizadores que o tenham influenciado?
O (Elia) Kazan, o Orson Welles, o Woody Allen, o Tarantino...

Uma série de influências bem distintas...
Sim, distintos! E portugueses: o António Pedro Vasconcelos, o Joaquim Leitão, o Leonel Vieira.

Com quem aprendeu muito para realizar os seus filmes?
Por exemplo, o António Pedro. O seu último filme é notável.

E em termos de géneros cinematográficos. Tem algum preferido?
Não, é-me indiferente fazer comédia ou drama. Adoraria fazer um thriller a sério. E hei-de fazer, se tudo correr bem!

Tem alguma ideia, argumento ou projeto?
Tenho vários! Uns sete ou oito...

Isso é bom! Agora, falando do cinema português, do seu estado atual, o ano passado foi um bom ano em termos de público...
Em primeiro lugar, é pena que ainda haja uma dissociação entre o chamado cinema de autor e o restante... Continuamos nesta situação de divisão. Para mim, há bom ou mau cinema. Existem vários públicos. Não tenho que impor um género a toda a gente. Isso é uma espécie de fascismo. As pessoas têm o direito de optar, escolher o que querem ver. Nem tenho o direito de menosprezar qualquer tipo de cinema.

Há espaço para todos...
Há quem goste de Manoel de Oliveira, outros de António Pedro Vasconcelos. Há quem goste do João Botelho, outros da comédia que se faz em Portugal. Há gostos para tudo. Nestes Prémios Sophia há uma coisa que me faz uma certa confusão: a credibilidade dos prémios em Hollywood advém do voto ser dos pares e não da crítica. Nos Prémios Sophia não se passa isso, existe ali um polo de cinema elitista, ou pelo menos cinema de autor. Que respeito muito. Não percebo porque é que estamos de costas voltadas. Mas o ideal seria que houvesse uma indústria de cinema em Portugal tão potente que os filmes do mainstream tivessem tanta gente que daí se pudesse tirar algum dinheiro para os filmes de autor.

Os filmes mais de arte e ensaio ...
Os filmes, como o do João César Monteiro [«Branca de Neve»] com a câmara tapada. Está no seu direito, sim senhor. Está aqui o dinheiro. Faça. É uma experiência. Mas depois temos o outro cinema, que é o cinema que em qualquer parte do mundo funciona. Um filme dos irmãos Coen faz nos EUA três milhões de espetadores, o que para a nossa realidade é uma brutalidade! Mas o filme do Ben Stiller faz quarenta milhões. A proporção é a mesma. Eles são é mais! Portanto, está tudo certo, mas nós fazemos uns fantasmas com os filmes que têm muito público. Quando faço os «Sete Pecados» e faço 360 mil espetadores (o que faz dele o segundo filme português mais visto de todos os tempos), pergunta-se: é um filme mainstream? É. E é uma comédia? É sim senhor. Agora, não percebo esta tentativa constante de menosprezar e dividir as coisas.

Mas, o problema continua a estar no fato de ser um júri a escolher os filmes a apoiar?
Como é óbvio! Exatamente.

Portanto, o Nicolau também não concorda com o sistema vigente...
Acho que este ano as coisas vão estar melhores, mas não concordo com o sistema de júri. Para começar, nós avaliarmos a arte já é muito complicado. Percebo, que haja um Instituo Português de Cinema que tenha as suas opções, mas aquele Júri com 45 pessoas, das quais 35 nunca ouvi falar... Não apresenta uma grande credibilidade. É como os académicos da academia! São coisas que me dão um certo mal estar...

Para fechar, Nicolau, o que é o que motiva a continuar a trabalhar, e muito...
Para já, rejeito liminarmente o fantasma da reforma! Quem deve ditar a minha reforma é o meu estado físico e mental e o público. No dia em que o público disser assim: Vá-se embora. No dia em que já não conseguir decorar. Posso continuar a realizar...

Ou a dar aulas?
Dar aulas, sim. Mas como ator acabei. Até lá, não vejo motivo para o fazer porque quanto mais conhecimento acumulado nós temos, melhor podemos fazer as coisas.

Porque, o Nicolau já produziu, realizou, interpretou em dezenas de filmes e de géneros, já deu aulas – formou jovens talentos. O que é que faltará?
Nada! Para além de tudo isso, tenho que ganhar dinheiro porque não sou rico. Ao contrário de muitos que enriqueceram, e fizeram-no noutras áreas, não tenho jeito para ganhar dinheiro e não sei gerir. Portanto, tenho de trabalhar. São os dois motivos que me fazem correr. Mas o primeiro é fundamental: é esta necessidade, este desejo firme de me opor à reforma! Um dia hei-de-me reformar, se não morrer antes disso, se calhar morro antes disso. E se calhar gostava de morrer antes disso! Até lá, não! Deixem-me fazer as coisas: os papéis vão sendo de outro tipo, se calhar mais pequenos, de pessoas mais velhas. Agora, não vejo motivo para parar.

(Publicado originalmente na revista Metropolis nº28 - Maio 2015)

Cartas da Guerra - trailer

CARTAS DA GUERRA, a terceira longa-metragem de Ivo M. Ferreira, está seleccionada para a Competição Oficial da 66ª Edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, concorrendo ao Urso de Ouro para Melhor Filme. O Festival decorrerá entre 11 e 21 de Fevereiro 2016.

CARTAS DA GUERRA é uma adaptação do livro D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto, Cartas da Guerra de António Lobo Antunes, com organização de Maria José e Joana Lobo Antunes.

O argumento é de Ivo M. Ferreira e Edgar Medina.

1971. António vê a sua vida brutalmente interrompida quando é incorporado no exército português, para servir como médico numa das piores zonas da guerra colonial – o Leste de Angola. Longe de tudo que ama, escreve cartas à mulher à medida que se afunda num cenário de crescente violência. Enquanto percorre diversos aquartelamentos, apaixona-se por África e amadurece politicamente. A seu lado, uma geração desespera pelo regresso. Na incerteza dos acontecimentos de guerra, apenas as cartas o podem fazer sobreviver.

Miguel Nunes interpreta a personagem de António e Margarida-Vila Nova de sua mulher, Maria José.

Do elenco fazem parte também Ricardo Pereira, João Pedro Vaz, Simão Cayatte, Isac Graça, entre outros.

CARTAS DA GUERRA é uma produção da O SOM E A FÚRIA com o apoio do ICA e a participação da RTP e do Governo Provincial do Cuando-Cubango, República de Angola.

Fonte: Som e a Fúria

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Cinzento e Negro

Em «Cinzento e Negro», o novo filme de Luís Filipe Rocha, David (Miguel Borges) refugia-se numa casinha, pousada no topo de uma montanha, no Pico. Fazem-lhe companhia creio que quatro vacas, uma viola e um livro. É pelo menos este o inventário que ele faz à sua amante, Marina (Monica Calle), a sereia que na ilha vizinha acolhe o viajante sempre que ele dá à costa. Mas este é o primeiro de vários equívocos, o menos grave. Isto é, David não é um verdadeiro viajante, ele tem medo de andar de barco e nunca leu um livro. É por isso bastante irónico que tenha escolhido os Açores para se esconder e a Odisseia como primeira leitura. Teria feito melhor se tivesse optado pela Ilíada pois sobre ele não tardará a cair a cólera do implacável Aquiles, ferido no calcanhar e no coração, vestido [mais uma vez] de mulher.

O pathos literário combina muito bem com este filme, recheado de influências. Além de Homero encontramos Raul Brandão, referência clara desde logo no título, «Cinzento e Negro», mas também Cesare Pavese, Herman Melville, entre muitos outros. Os actores, em especial Joana Bárcia, que oferece uma interpretação magnífica de Maria (o tal Aquiles de saias), incorporam essa poesia como sua. Quando falam é como se fosse sempre a primeira vez. As paisagens, sejam elas o quarto descaracterizado de uma pensão barata ou os montes verdejantes do Pico, deixam-se contaminar pela breve história humana. É aliás notável como esses lugares, e até certos objectos, como o arpão, são muito mais do que testemunhas, são mediadores entre o passado e o futuro. Funcionam como uma espécie de constante que lembra e comenta a nossa ligação ao mundo.

Luís Filipe Rocha trabalha todos estes elementos como um verdadeiro alquimista. O resultado final é um filme fascinante e extremamente difícil de classificar. Formalmente, «Cinzento e Negro» aproxima-se de um thriller – temos um crime, um polícia torturado (Filipe Duarte) e alguém que procura vingar-se –, mas a ancoragem moral da história e o tipo de protagonistas que encontramos remete-nos necessariamente para o western, o género que, dizia J. L. Borges, tomou no séc. XX o lugar da epopeia. O casamento entre essa pretensão épica, que existe, e o retrato da situação insular das personagens dá-se numa mistura enigmática pontoada por momentos sublimes e outros de um humor muito terreno, muito peculiar.

«Cinzento e Negro» esteve em competição no Festival Caminhos do Cinema Português 2015 de onde, injustamente, saiu vencedor apenas em duas categorias: Melhor Actor, para Filipe Duarte, e Melhor Banda Sonora Original, Mário Laginha. Não estando em causa o talento da laureada, Beatriz Batarda («Yvone Kane», Melhor Longa-Metragem), desta vez o prémio de Melhor Actriz cabia indubitavelmente a Joana Bárcia. Depois de ver o filme vai-me dar razão.

quatro estrelas

Título Original Cinzento e Negro Realizador Luís Filipe Rocha Actores Joana Bárcia, Filipe Duarte, Miguel Borges Origem Portugal Duração 126’ Ano 2015

Montanha

É muito difícil medir a extensão do impacto que as experiências da adolescência deixam em cada um. Ao explorador intrépido servem de régua tanto a intuição cinematográfica quanto as melhores propostas vindas da psicologia ou das neurociências. Pessoal e transmissível, a viagem de João Salaviza por esse território acidentado começou em «Arena» (2009), continuou em «Rafa» (2012) – vencedoras do prémio de melhor curta-metragem em Cannes e Berlim, respectivamente – e chegou agora a «Montanha». As comparações e a busca de ligações ou continuidades entre estas obras parece tão inevitável quanto fastidiosa. Não admira, pois, que Salaviza se prepare para fazer as malas e partir com a sua câmara para uma qualquer selva remota no interior do Brasil. Este desejo de saltar para o desconhecido, revelado há poucos dias pelo realizador [ver entrevista na METROPOLIS], parece ao mesmo tempo surpreendente e bastante compreensível.

Presente na ante-estreia de «Montanha» (filme em competição no LEFFEST), Salaviza foi quem sugeriu o paralelo entre essa espécie de rito de passagem que vive o protagonista do filme – David (o fabuloso David Mourato) –, e a experiência de maturação que lhe trouxe a realização desta que é a sua primeira longa-metragem. A inexperiência é uma resposta possível para a respiração estranha do filme. Construída sobre blocos, a montagem parece às vezes denunciar uma certa hesitação na hora do corte. A multiplicação de tramas (a morte iminente do avô, a relação distante com a mãe, uma paixão não correspondida, etc.) abre demasiadas portas, coloca demasiado peso dramático sobre a personagem de David e sobre o actor que resiste como pode, ou seja, com extrema generosidade, à voragem da câmara que o segue de noite e de dia, na discoteca, na rua, na cama.

Esta relação meio predatória e passional da câmara com o David coloca o filme num limbo interessante entre o documentário e o sonho. É muito fácil perder a noção do tempo em «Montanha». O calor dilata os vários compassos de espera em casa, no carro ou nos corredores do hospital, enquanto se aguardam notícias do avô, que nunca chegamos a ver. A sombra da morte, por seu lado, acelera e torna indistinta a passagem das horas. Até que o telefone toca passaram-se dois ou dez dias? Passou tempo suficiente para que David troque de lugar com a mãe no plano final, imagem espelho da belíssima abertura do filme.

A delicada composição dos planos, os jogos de luz e de sentido negoceiam permanentemente a sua relação com a rebeldia contida na presença fulgurante do rapaz em campo. O plano semi-improvisado em que David corre sem destino por entre as ruas desertas do Bairro dos Olivais ou aquele em que se equilibra numa cadeira de rodas enquanto faz beatbox são uma verdadeira lufada de ar fresco que varre uma certa nostalgia precoce dos quartos atafulhados onde, inutilmente, as ventoinhas estão sempre ligadas.

É, evidentemente, mérito do realizador saber potenciar a extraordinária fotogenia e o talento natural do seu elenco – não apenas de David Mourato mas também de Cheyenne Domingues (Paulinha) e Rodrigo Perdigão (Rafa, o mesmo da curta-metragem homónima). Os actores, sobretudo os mais jovens, são a matéria deste filme. A modéstia visionária de Salaviza consiste em preferir sempre o imponderável elemento humano à previsibilidade do guião. Não importa aqui precisar quais foram as alterações concretas em relação ao projecto original, ou distinguir a encenação da improvisação, mas parece-me indiscutível que são eles, os miúdos, que gerem e equilibram o drama. Comigo fica o momento em que Paulinha diz a David: “Conheço-te desde os 9 anos”. Na sua boca a afirmação tem o peso de um “conheço-te há uma vida”, mas eles só têm 14, 15 anos, e, por isso, no confronto com o nosso olhar adulto, esboçamos talvez um sorriso. Depois intromete-se a memória e a irreversibilidade do tempo.

Na sua imperfeição, «Montanha» faz jus ao espírito de um velho ditado cinematográfico: “Não atraiçoem nunca os sonhos da vossa infância”.

quatro estrelas

Realização: João Salaviza
Actores: David Mourato, Cheyenne Domingues, Rodrigo Perdigão

 

 

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