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Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

Os Oito Odiados - ciclo Tarantino

Nos tempos cinematográficos em que o faroeste era a “Ilíada” do mundo, ou seja, a narrativa constitutiva dos valores modernos, com sua noção de Bem e de Mal expressa no conceito de good guys vs. foras-da-Lei, Hollywood criou um cógito (quase cartesiano) segundo o qual o western é igual a imensidão espacial, bangue-bangue é igual a terras inóspitas imensas a serem desbravadas. Assim profetizaram os Homeros do filão: John Ford e Howard Hawks. Contudo, a partir de 1950, quando as cicatrizes da Segunda Guerra arranharam a representação clássica do escapismo heróico e o politicamente correto engatinhou seus primeiros passeios pelas telas, realizadores como Anthony Mann (em «Winchester 73» e em «Jornada de Heróis») subverteram esse cartesianismo ao criar o chamado western psicológico onde as pradarias mais perigosas eram aquelas esculpidas na mente dos próprios cowboys, duelo após duelo. Dali para diante, virou moda uma modalidade mais huis clos do faroeste, de ambientação fechada, que deu mais valor às inquietações existenciais dos seus protagonistas, tridimensionalizando os seus sentimentos, humanizando-os, o que foi fundamental tanto para o spaghetti de italianos como Sergio Leone («O Bom, O Mau e O Vilão»), quanto para o cinemanovismo de americanos como Arthur Penn («Pequeno Grande Homem»). E é a essa corrente de Reforma... na forma... no ethos... na ética... que «Os Oito Odiados» («The Hateful Eight»), talvez o mais ousado de todos os filmes de Quentin Jerome Tarantino, está filiado.

Laureada com o Oscar de melhor banda sonora original para Ennio Morricone, esta produção de US$ 44 milhões – cuja bilheteria global beirou US$ 155 milhões – goza de uma exuberância visual como poucas vezes se viu no dito far-west, por conta da captação em película Kodak 65mm a fim de viabilizar uma projeção em 70mm.
Captada assim a qualidade da imagem valoriza mais e melhor a dimensão agigantada da tela. E a fotografia de Robert Richardson (de «O Aviador») se lambuza na progressão aritmética de possibilidades à sua frente para imprimir beleza (e gerar epicização) ao fitar o mundo nevado à sua volta, em locações míticas no Colorado. Mas a exuberância não se limita ao mundo aberto, à neve. Ela é ainda maior nos planos em que a ação se concentra numa taberna que tresanda a guisado, colorida em tons de sépia, marrom-madeira e vinho. É ali que «Os Oito Odiados» explode como a obra-prima que os reclames prometiam – mais uma obra-prima do homem que nos deu «Sacanas sem Lei». Uma obra-prima da palavra: palavra-chumbo. Quente.

O cenário é este: estamos no Wyoming. A camara acha um lugar de (des)conforto para si após testemunhar uma longa peregrinação por uma nevasca, na qual se percebe um certo ar de protagonismo no caçador de recompensas John “The Hangman” Ruth (Kurt Russell, em desempenho antológico). O mesmo ar se faz sentir em torno do ex-militar da Guerra Civil Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson). Ruth arrasta consigo a criminosa condenada à forca Daisy Domergue (uma endiabrada Jennifer Jason Leigh). E a eles se junta o Xerife Mannix (Walton Goggins, vilão em «Django Libertado», que aqui mostra ser um ator de ilimitada ferrametas). Eles se arrastam frio adentro até chegarem a um saloon/pensão. Uma vez protegidos do frio eles encontram Bob "The Mexican" (Demian Bichir), Oswaldo "The Little Man" Mobray (Tim Roth), Joe "The Cow Puncher" Gage (Michael Madsen) e Sanford "The Confederate" Smithers (Bruce Den). Pronto! Eis os tais “oito” do título, todos juntos. Ali, o ódio de cada um há de ser uma arma carregada de sagacidade. Ou de fúria.

Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, Bruce Dern
2015 | 168 min

  • Publicado em Feature

Pulp Fiction - ciclo Tarantino

Um dos mestres do cinema contemporâneo, Quentin Tarantino tem em «Pulp Fiction» a sua obra-prima. Complexa, profundamente intrincada e surpreendente, a obra entrecruza quatro histórias tão diferentes entre si, mas iguais na intensidade. Entre um gangster que se apaixona pela mulher do chefe, um boxeur a quem uma luta não corre bem, dois assassinos a soldo e um casal de bandidos que tenta executar um plano de roubo, Tarantino mostra uma realização extravagante e provocadora, com uma violência exacerbada como forma de chocar o espectador e expor a podridão humana, mas também uma narrativa com uma construção invulgar e inovadora, que prende o espectador a cada momento. O cineasta pontilha a trama com deliciosos diálogos e uma voluptuosa banda-sonora, que o próprio também escolhe. Tudo marcas que se revelariam muito próprias da obra de Tarantino - afinal, «Pulp Fiction» foi, apenas, uma das primeiras longas-metragens do realizador e a lenda apenas se começava a contar.

O que também sempre fez parte da identidade do cineasta é uma aposta inexorável no elenco. Neste filme, os atores são de luxo, mas o realizador também lhes permite criar e mostrar novas facetas. Através de personagens intrinsecamente complexas, atores como Samuel L. Jackson, John Travolta, Uma Thurman, Tim Roth e Bruce Willis têm, ao comando de Tarantino, algumas das melhores interpretações das suas carreiras. Muitos deles viriam a voltar a trabalhar com o realizador, como Thurman, que se tornaria na inesquecível protagonista dos dois volumes de Kill Bill.

Nada nos filmes de Tarantino é por acaso. Cada plano, fala e música são detalhes a que o cineasta presta atenção. E, em «Pulp Fiction», encontramos o cineasta na sua forma mais pura, numa obra que sintetiza de forma épica a identidade deste realizador. Carregado de momentos que viriam a tornar-se icónicos, «Pulp Fiction» é mais do que um filme, é um pouco da História do Cinema projetada na tela.

John Travolta, Uma Thurman, Samuel L. Jackson, Ving Rhames, Bruce Willis
1994 | 154 min

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«Capitão Marvel» - crítica

Uma vez ou outra, a Marvel volta-se para o espaço para se oxigenar e fugir das convenções e das lutas entre superpoderosos. Mesmo prejudicado com um nó de argumento no primeiro terço, quando a fotografia de Ben Davis procura encontrar a luz precisa, «Capitão Marvel» impõe-se como uma vigorosa jornada de formação para a mais poderosa super-heroína da Disney e como um estandarte político para a batalha em prol do empoderamento feminino. Vencedora do Oscar por «Quarto», em 2016, Brianne Sidonie Desaulniers, ou apenas Brie Larson, usa todo o arsenal gestual que tem para injetar humor, luta e poesia a uma mulher cuja memória foi triturada por via de uma abdução pela raça alienígena Kree. Com uma figura tridimensional nas suas mãos, a cineasta Anna Boden (de «É Uma Espécie de... Comédia») e seu codiretor Ryan Kenneth Fleck (do filmaço «Half Nelson: Encurralados») investem num formato de aventura estelar semelhante à estética pop usada nos quadrinhos marvetes dos anos 1970. A direção segue os moldes de que o genial Roy Thomas, o pai da protagonista, idealizou, por exemplo, em “Warlock” e outras bandas-desenhadas de batalhas de super-heróis com ETs, nos confins da galáxia. É um momento fundamental da edificação da cultura pop, em que a indústria de comics criou a centelha narrativa lisérgica do que viria a ser “Star Wars” e outras franquias. Mas há um tempero mediático a mais na direção: como a trama se ambienta na década de 1990, e tem elementos de espionagem, com a participação fundamental da agência de inteligência Shield, Anna e Fleck travaram um diálogo com toda a linhagem de filmes teen de espiões daqueles anos. E houve muita trama nesse modo de 1992 a 1996 - tipo «Hackers», de Ian Softley, e «Heróis Por Acaso», de Phil Alden Robinson – que servem de referência à luta da Capitão Carol Denvers (Brie) para entender por que motivos foi parar entre as estrelas, para ser treinada pelo Kree Yon-Rogg (Jude Law, impecável na criação de um guerreiro dúbio) a fim de combater a raça de transmorfos chamada Skurlls. Quem lê a Marvel desde criança, odeia os Skrull sobre todas as coisas. Mas algo de novo acontece com esse povo neste filme, assente no carisma de Samuel L. Jackson (em estado de graça na pele do jovem Nick Fury, futuro líder da Shield) e da revelação Lashana Lynch, que vive a aviadora Maria Rambeau, amiga da Capitão. A atuação de Lashana por vezes ofusca Brie.

tres estrelas

crítica publicada na Revista Metropolis nº 67

Capitão Marvel - antevisão

O Universo Cinematográfico Marvel tem já 20 filmes mas, pela primeira vez, terá uma protagonista feminina a liderar uma história. E não poderia ser com maior estrondo. A obra apresenta Capitão Marvel, uma nova heroína que é também uma das maiores poderosas da banda-desenhada e, potencialmente, também um dos trunfos para derrotar finalmente Thanos em «Avengers: Endgame». «Capitão Marvel» é, de resto, a última paragem antes do combate final dos Vingadores e são muitas as expectativas.

Uma grande personagem exige uma grande atriz e a escolhida para interpretar Carol Danvers foi Brie Larson, vencedora do Óscar de Melhor Atriz por «Quarto» (2015) e uma assumida feminista. Embora confesse que tenha demorado algum tempo até aceitar o desafio, a atriz considera que “o facto de a personagem ser ela própria e não poder ser contida é fantástico. Significa que ela é selvagem e isso é algo que adoro”. A heroína esbanja bravura e força, com poderes sobre-humanos e capacidade de voar, sendo mesmo considerada a mais poderosa personagem da Marvel.

captain marvel 3

Contudo, não estará sozinha. Estão também de regresso os rejuvenescidos digitalmente Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Agente Coulson (Clark Gregg), mas também os vilões de «Guardiões da Galáxia» (2014), Ronan (Lee Pace) e Korath (Djimon Hounsou). Do elenco de luxo faz ainda parte Jude Law, que se estreia neste Universo Cinematográfico e arrisca num filme de super-heróis com um personagem de contornos misteriosos. Além da protagonista, também a equipa por detrás do filme tem assinatura feminina, começando logo na realização, com Anna Boden a dividir a tarefa com Ryan Fleck. Boden é, inclusive, a primeira realizadora a assinar um filme Marvel. Algo é certo: definitivamente, a Marvel assumiu por completo o Girl Power.

HISTÓRIA
A narrativa passa-se em 1995, acompanhando Carol Danvers (Brie Larson), uma piloto da Força Aérea dos EUA que ganha poderes extraordinários após um acidente. Sem memórias do seu passado, Carol regressa à Terra para travar uma invasão alienígena, ao mesmo tempo que se torna numa das heroínas mais poderosas do Universo, ganhando o nome de Capitão Marvel.

Realizadores: Anna Boden e Ryan Fleck
(«Sugar», 2008; «A Febre do Mississípi», 2015)
Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Jude Law, Clark Gregg, Lee Pace
Data de estreia: 7 de março

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"Captain Marvel (Capitão Marvel)" - Novo Trailer

Passado nos anos 90, CAPTAIN MARVEL (CAPITÃO MARVEL), da Marvel Studios é uma nova aventura de um período nunca visto na história do Universo Cinematográfico Marvel, que segue a jornada de Carol Danvers, enquanto se torna num das heroínas mais poderosas do universo. Quando uma guerra galáctica entre duas raças alienígenas atinge a Terra, Danvers dá por si juntamente com um pequeno grupo de aliados, no centro do acontecimento.

O filme é protagonizado por Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Djimon Hounsou, Lee Pace, Lashana Lynch, Gemma Chan, Rune Temte, Algenis Pérez Soto, Mckenna Grace, com Annette Bening, Clark Gregg e Jude Law.

CAPTAIN MARVEL (CAPITÃO MARVEL), da Marvel Studios, é produzido por Kevin Feige e realizado por Anna Boden e Ryan Fleck. Louis D'Esposito, Victoria Alonso, Jonathan Schwartz, Patricia Whitcher e Stan Lee são os produtores executivos.

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Os Oito Odiados

Quentin Tarantino continua a sua tarefa de reinvenção de géneros num western revisionista e violento onde a palavra é um dom. Ao longo dos anos as suas obras vão tendo outro tom e maturação, os diálogos assumem-se decisivos e remetem-nos cada vez mais para a teatralidade. Em «Os Oito Odiados» temos uma constelação de estrelas em momentos subliminares de grande interpretação que nos absorvem de fio a pavio com os desígnios dos seus personagens culminando num final apoteótico e sanguinário. Não se destacam individualmente actores mas um ensemble que fica na memória. A duração não intimida e o argumento de Tarantino assume a tensão por entre o humor negro e insólito mas com uma mensagem pura e dura sobre a América contemporânea através do prisma do nascimento de uma nação e ódios recalcados originados no final da guerra civil. Numa taberna no meio da montanha, um grupo de oito tenazes personagens está isolado e desce até aos confins da natureza humana para se confrontarem nas suas histórias feitas de suor, sangue e lágrimas. Afinal, a génese da América e do cinema do cada vez mais lendário de Quentin Tarantino estão aqui. As imagens estão imbuídas no espírito da sétima arte com a admirável direção de fotografia de Bill Richardson e a opção de rodar em 65 mm para projectar a 70 mm em salas selecionadas. Nesta edição em Blu-ray denotamos a dimensão panorâmica mas o detalhe nos grandes planos nos nossos ecrãs caseiros brotam energia de um filme marcante e estratosférico. Raramente vemos tanta acção num espaço tão pequeno.

cinco estrelas

Título Nacional Os Oito Odiados Título Original The Hateful Eight Realizador Quentin Tarantino Actores Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh Origem Estados Unidos Duração 167’ Ano 2016

A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares

Deliciosamente peculiar e arrojado, «A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares» é um regresso em cheio de Tim Burton. Baseado no best-seller escrito por Ramson Riggs, o filme conta a história de Jake (Asa Butterfield), que descobre uma série de pistas deixadas pelo avô sobre um mistério que envolve diferentes mundos e tempos, levando o jovem a partir à aventura, acabando por descobrir um lugar mágico, A Casa da Senhora Peregrine Para Crianças Peculiares.

Deambulando pelo gótico e o excêntrico, Tim Burton apresenta uma obra consistente e cheia de personagens apelativos mas que vai perdendo o fôlego com o avançar da história. Recorrendo a vários poderes especiais – saltando-nos logo à mente possíveis semelhanças com os X-Men –, o argumento está construído de uma forma tradicional e peca pela previsibilidade. Não obstante, a banda-sonora e a fotografia são aspetos muito valorosos da obra e elementos essenciais para que tudo resulte.
Eva Green é mesmo a Senhora do filme e está maravilhosa num papel pouco desafiante em termos interpretativos mas em que a atriz consegue agarrar cada momento. Samuel L. Jackson é também uma boa adição no papel do vilão com uma vertente mais cómica. Todavia, o grande destaque vai para os jovens atores, sobretudo para Asa Butterfield e Ella Purnell, que conseguem manter uma boa química, mas apenas ela surpreende verdadeiramente.

«A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares» é um chamativo filme fantástico, feito à medida para o imaginário de Tim Burton, tão único como inesquecível, sendo este um filme que entra para a sua galeria de melhores obras, afastando-se em toda a linha de empreitadas menos bem-conseguidas como «Sombras da Escuridão» e «Olhos Grandes». Apesar de retratar personagens com superpoderes, o filme não se assemelha a nada do que tenhamos visto dos X-Men no grande ecrã – e ainda bem.
Estrelas: 4 em 5.

quatro estrelas

 

Tom Hiddleston e Samuel L. Jackson em «Kong: Skull Island»

«Kong: Skull Island» tem estreia mundial marcada para Março de 2017. A Warner revelou este sábado (23) na Comic-Con International em San Diego o primeiro trailer de novo filme de "King-Kong", intitulado "Kong: Skull Island".

Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John Goodman e John C. Reilly estão no elenco.

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