logo

Entrar
Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

«Vingadores: Endgame» - Crítica

Ser ou não ser herói, na tragédia arrebatadora da Marvel

É impossível encarar a sequência em que Tony Stark (Robert Downey Jr., em estado de graça) desabafa sua sensação de fracasso para a máscara desfeita do Homem de Ferro sem pensar em Hamlet e sua conversa com o crânio de Yorick: é ali, no início, carregado de energias shakespearianas, que «Vingadores: Endgame» deixa evidente a sua dimensão existencialista. Há algo de corrupto no reino da Marvel, representado na figura de um titã destruidor de mundos que faz do extermínio uma forma de encarar a paz. Thanos é um Macbeth, que sujou suas mãos de pó de pessoas atomizadas, movido pela sua milady, a Morte, e, agora, coroado o soberano do vazio, reflete sobre o horror de seus atos procurando o seu equilíbrio interno. A longa-metragem anterior da franquia, o magnífico “Guerra infinita” (2018), era dele... era o seu «Trono de Sangue» (1957), bem parecido com o de Akira Kurosawa. Mas neste novo e (por enquanto) derradeiro tomo de uma saga que redefiniu a história do entretenimento nos grandes ecrãs, de 2008 para cá, percebe-se, já nos primeiros minutos, que o buraco é mais fundo, é o da náusea diante do ser ou não ser herói num mundo que perdeu o leme. Por isso, só um vigilante demasiadamente humano como Stark – um ególatra alcoólatra, incapaz de relativizar as suas noções de Bem e o Mal – pode ser o Príncipe da Dinamarca nesta tragédia anunciada sobre a reconquista da esperança. Stark é o cordeiro do deus Stan Lee (1922-2018): a imolação de sua arrogância é o dízimo a ser pago em prol da crença do altruísmo como argamassa de uma civilização de tolerância. Thor, numa interpretação memorável de Chris Hemsworth, será o bobo da corte deste espetáculo de som e de fúria, fazendo o público rir para assinalar a medida do desespero de um gladiador sem arena. Thanos destruiu o Coliseu com a sua estratégia niilista: não existe mais nenhuma batalha a ser lutada, no início deste inventário de cicatrizes dirigido na raia da excelência épica pelos irmãos Joe e Anthony Russo, porque não existem mais guerreiros. O Darth Vader dos comics apagou um punhado significativo de almas da Terra... e de todo o Universo... a fim de higienizar o Cosmos das pragas afetivas, das prepotências. Cabe ao Hefeso dos quadrinhos, Stark, o forjador, dar um sentido à falta de propósito ético que se instaurou em sua realidade com o desmantelo das diferenças e das imperfeições. Cabe a Stark forjar o caos. Daí a matéria do tocante «Avengers: Endgame» ser o Tempo. É na confluência do vetor intangível... a perenidade do existir... que o irreversível se torna reversível. O filme dos Russo não é uma trama de vingança. É a odisseia temporal de pessoas que perderam o senso de relevância para mexer numa pintura com as tintas mórbidas da plenitude e da quietude, enchendo o quadro de humanidades. Stark é o retocador. Cabe ao Capitão América, num desempenho surpreendente de Chris Evans, ser o seu artista final: preenchendo lacunas e completando pontilhados. São amigos para a vida. E é a amizade que serve de leme a uma narrativa que fecha um ciclo histórico de sucesso na Estética do audiovisual, aberto com «Homem de Ferro» (2008), de Jon Favreau, no qual Downey Jr. fez a sua carreira reencontrar os trilhos. Ao assumir como personagem central (confiado a um ator de múltiplas virtudes), a figura de um nobre assombrado pelo espectro da perda, a Marvel deixa claro a sua reta de maturidade em busca de uma trama menos calcada em onomatopeias (Soc! Pow! Pum!) e mais interessadas em verticalizar conflitos psicológicos. O seu reinado no cinema começou, silencioso, há 21 anos, quando Wesley Snipes juntou tostões para filmar «Blade – O Caçador de Vampiros», de 1998. Ali pavimentou-se o caminho para a fauna de mascarados de Stan Lee ganhar corpo e alma no cinema. Mas, desde o seminal «Logan» (2017), a Casa das Ideias (apelido da Marvel) abriu a deixa para discutir temas mais cortantes e urgentes do que o maniqueísmo. «Pantera Negra», com sua veia racial festiva, foi o ápice da transformação do estúdio na trilha do amadurecimento, seguido pelo debate acerca do empoderamento de «Capitão Marvel», com uma heroína que regressa aqui ainda mais gloriosa. Agora, com o novo “Vingadores”, temos um réquiem – sem cenas ao fim dos créditos – para um projeto de epicização fantástica das relações afetivas. Thanos, na inteligente composição de Josh Brolin, deixa de ser o Prometeu acorrentado da longa de 2018 e é repaginado como um cruel brutalista. A sua maldade assegura a verve espetacular de que o filme precisa para agradar os fãs e deixar o Homem de Ferro nos guiar pelos erros da condição humana. Filme de uma beleza singular.

cinco estrelas

Homem-Aranha: Regresso a Casa

Um dos aspetos que mais deliciaram os fãs em «Capitão América: Guerra Civil» foi a presença carismática e airosa de Tom Holland na pele de um jovem Homem-Aranha ainda inexperiente mas muito despachado. Agora, o jovem ator britânico – que começou por dar nas vistas em «O Impossível» (2012) – tem o grande desafio da sua ainda curta carreira, num spin-off que carrega expectativas elevadas. Afinal, é a terceira vez que a história do aracnídeo volta a ser reiniciada no Cinema, depois de Tobey Maguire e Andrew Garfield terem interpretado o personagem. Maguire inaugurou as adaptações cinematográficas em «Homem-Aranha» (2002) e Garfield voltou a contar a origem do super-herói em «O Fantástico Homem-Aranha» (2012). Pela primeira vez, o Homem-Aranha é um adolescente, sendo esta uma abordagem mais juvenil mas nem por isso menos arrojada em termos de superpoderes.

Além de Holland, figuram também no chamativo elenco Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Donald Glover, Michael Keaton, que interpreta o papel do vilão Vulture. Jon Watts assume a realização, após ter assinados os thrillers «Clown» (2014) e «Carro da Polícia» (2015), sendo este o seu primeiro filme de maior orçamento e com uma projeção internacional mais alargada. Muito se espera para que «Homem-Aranha: Regresso a Casa» encontre finalmente o tom certo para contar a história de um dos super-heróis mais acarinhados do mundo, mas se for tão bom como a amostra da participação do aracnídeo em «Capitão América: Guerra Civil» já será mais do que satisfatório.

História: Depois das aventuras de «Capitão América: Guerra Civil» (2016), o jovem Peter Parker volta à sua antiga rotina, tentando levar uma vida normal. Mas “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” e o fato de Homem-Aranha acaba por ter de ser usado mais vezes...
Realizador: Jon Watts («Carro da Polícia», 2015)
Elenco: Tom Holland, Marisa Tomei, Donald Glover, Robert Downey Jr., Michael Keaton
Data de estreia prevista: 6 de julho

 

  • Publicado em Videos

Capitão América: Guerra Civil

«Capitão América: Guerra Civil» tem entrada directa para o panteão dos grandes filmes de super-heróis. A obra está nas antípodas da pobreza franciscana do recente «Batman v Super-Homem», um exemplo menor que não fez favores nenhuns ao género. Esta nova aventura da Marvel agarra o espectador através de uma história à prova de bala e de magníficas sequências de acção que não parecem saídas de um mau videojogo. Aqui, o espectador assimila as cenas e deslumbra-se com o puro espectáculo.

Este é um exemplo onde se pode dizer que o filme é igual ou melhor do que a fonte original, no caso, a novela gráfica Civil War, escrita por Mark Millar e ilustrada por Steve McNiven. Apesar de o filme deixar de fora muitas personagens – como X-Men, Thor e Hulk, entre dezenas de outros heróis –, mantém, contudo, o lado mais geek, mais político e, sobretudo, mais caótico do universo Marvel. «Capitão América: Guerra Civil» equilibra perfeitamente o coeficiente de conflito político e o dilema do direito à escolha ao mesmo tempo que adiciona outros interessantes fios narrativos. A redução do número de personagens permitiu trabalhar no perfil de cada um deles sem que se tenha perdido um níquel de diversão e emoção. É uma experiência que vale todos os cêntimos do bilhete, os actores e os criadores não se pouparam a esforços para atingir a excelência.

A palavra “épico” é talvez desajustada para um filme que cresce como um thriller dramático e que se joga entre a diplomacia e a espionagem com mágoas do passado que vêm à tona. O enredo começa com a busca de um personagem que poderá ser o causador de um atentado que cria uma cisão na equipa dos Vingadores. A história diverge depois do comic e encontra novos centros narrativos, como a relação de amizade entre Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans) e Bucky/Soldado de Inverno (Sebastian Stan); a vingança do Pantera Negra (Chadwick Boseman) pela morte do pai; o plano de implosão de Zemo (Daniel Brühl); e a relação de Visão (Paul Bettany) com Wanda (Elizabeth Olsen, melhor interpretação do filme a par de Evans e Robert Downey Jr.).
A narrativa envolve uma panóplia de emoções que vão desde o valor da amizade, a lealdade, a vingança, o trajecto até ao ódio mortal ou até à redenção, e o amor que brota num ser que julgávamos incapaz de demonstrar qualquer afeição.

O registo tem o seu norte bem definido e equilibra lindamente a trama central e as sub-tramas, cheias de interação humana, com vários stunts espetaculares que precisamos de ver e rever para nos apercebermos da genialidade dos mesmos, quer nas perseguições quer nos inúmeros combates corpo-a-corpo (um recorde para a Marvel). As coreografias são um autêntico bailado que se mistura com a ferocidade de uma luta de rua. Retiramos novamente o chapéu aos realizadores, os irmãos Russo, que voltaram a cumprir a missão com louros após «Capitão América: O Soldado do Inverno».

Os personagens estão extremamente bem construídos, tendo espaço para respirar e interpretar nas pausas e nos momentos mais frenéticos. O frisson deste filme, a par da contenda de duas personalidades vincadas com modos distintos de ver o mundo – Capitão América e Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) – está no aparecimento do novo aracnídeo interpretado por Tom Holland. O reboot do Homem-Aranha inspira confiança no futuro, ele rouba o show em todas as sequências em que aparece; no confronto no aeroporto parece ligado à corrente com as doses de humor e originalidade onde sentimos o entusiasmo e o carisma do renovado personagem.

«Capitão América: Guerra Civil» é um evento incontornável com dimensão, maturidade, histórias envolventes, personagens icónicos, humor e entretimento cerebral. Os espectadores aqui não serão confrontados com a patética escolha entre vencedores e vencidos; nas guerras ninguém vence, todos perdem. Mas o resultado no final desta batalha não será esquecido. Os amantes do cinema-espectáculo não podem perder este filme. Os restantes podem dar o salto, irão encontrar uma bela surpresa.

cinco estrelas

Título Nacional Capitão América: Guerra Civil Título Original Captain America: Civil War Realizador Anthony Russo, Joe Russo Actores Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson Origem Estados Unidos Duração 147’ Ano 2016

 

Assinar este feed RSS