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Actualizado às 10:09 PM, May 20, 2019

Spike Lee - Melhor Realizador 2018 Revista Metropolis

Este foi o ano em que vimos Spike Lee erguer bem alto a sua voz através do melhor cinema que sabe fazer. É um exagero dizer que o realizador nova-iorquino estava perdido, mas filmes como «O Milagre em Sant’Anna» e o ‘remake’ «Old Boy: Velho Amigo» parecem obras menores ou desadequadas na sua filmografia. Será também excessivo considerar que o cineasta reencontrou a sua relevância artística à sombra do sucesso de Donald Trump. A história de «BlaKkKlansman: O Infiltrado» gritava para ser filmada, mas o projeto foi sendo adiado. O triunfo dos nacionalistas brancos nos Estados Unidos e dos movimentos de extrema-direita em vários pontos do mundo, tornaram evidente a oportunidade de concretizar o filme. Spike Lee foi certeiro na mensagem que gritou e fê-lo com uma narrativa adequada à história. Numa época em que não há subtilezas, nem o subterfúgio do politicamente correto, era urgente tomar partido desta forma, paradoxalmente raivosa e ponderada, na gestão das agendas e dos conflitos raciais. «BlaKkKlansman» divertiu-nos e atordoou-nos, fez-nos refletir como poucos filmes que vimos em 2018. Ficamos felizes por Spike Lee ainda estar aqui e com a sensação de que o Festival de Cannes poderia ter ido mais longe – um Grande Prémio do Júri tem a dignidade de parecer uma segunda Palma de Ouro, mas daqui a uns anos este filme vai encontrar outro lugar na história.

Texto publicado na Metropolis nº 65 (Janeiro 2019)

  • Publicado em Feature

BlacKkKlansman: O Infiltrado

Spike Lee regressa em ótima forma com um filme onde consegue transmitir as suas frustrações e preocupações de uma forma construtiva, como uma espécie de saga anti-racial onde tudo faz sentido e pode ser considerado positivo.

A história de «BlacKkKlansman: Infiltrado» é ambientada nos anos 70 e protagonizada por Ron Stallworth (John David Washington) o primeiro policia negro do departamento de Colorado Springs. A sua missão inicial é infiltrar-se numa manifestação pública com um líder afro-americano para avaliar o comportamento das pessoas e o grau de mobilização. Ron conhece Patrice (Laura Harrier), a organizadora do evento, com quem desenvolve uma relação de confiança. Essa proximidade entre ambos levará Ron a questionar-se sobre a sua atividade enquanto policia e o compromisso com a comunidade afro-americana à qual pertence e com a qual se identifica.

A sua missão seguinte é bem mais complexa. Apesar do seu estatuto de novato, Ron convence o departamento policial a deixá-lo liderar uma investigação sobre o KKK – Ku Klux Klan, também conhecido como A Organização. Colocando uma voz de homem branco, ele consegue entrar em contato com um membro do Klan, desenvolvendo um discurso extremamente racista que é música para os ouvidos do seu interlocutor. Ron recebe um convite para um encontro pessoal e aí reside o problema. Para superar a questão da cor, Flip Zimmerman (Adam Driver), um colega de Ron assume-se como um duplo que passa a desempenhar a missão junto dos elementos do KKK.

Policia branco, policia negro. O plano do infiltrado funciona ao ponto dele participar no planeamento de uma série de linchamentos e ações terroristas organizadas pelos racistas e travar conhecimento com David Duke, um dos grandes feiticeiros da organização na década de 70.

Spike Lee encontrou na biografia de Ron Stallworth a matéria adequada para realizar um filme esteticamente marcado pela cultura ‘blaxploitation’ e que valoriza o papel dos afro americanos no cinema – seja através uma excelente personagem heroica como Ron, ou da revisão de cenas de clássicos como «E Tudo o Vento Levou» ou «O Nascimento de Uma Nação» onde é evidente que Hollywood filmou por diversas vezes a história na perspetiva da supremacia banca.

Os diálogos são extremamente contemporâneos de forma a acentuar os preconceitos raciais mais viçosos e que perduraram no tempo. A atualidade do filme é sublinhada através de imagens da tragédia de Charlottesville, em 2017, e de uma dedicatória final a Heather Heyer, a jovem ativista dos direitos civis que morreu nas manifestações. Uma opção que pode ser entendida como desnecessária mas é adequada ao tom do filme.

«BlacKkKlansman: O Infiltrado» está nomeado para 6 Oscars.

Crítica publicada na Metropolis nº62

BlacKkKlansman: O Infiltrado - crítica

Bizarra memória (ainda que absolutamente verídica): na década de 1970, Ron Stallworth, um polícia negro de Colorado Springs, conseguiu infiltrar-se na rede da organização Ku Klux Klan, mantendo os seus contactos por via telefónica... Ponto de partida quase burlesco que, inevitavelmente, a pouco e pouco, se vai transfigurando num impressionante fresco histórico sobre as muitas formas de violência racista, desembocando em referências de um presente em que os EUA têm Donald Trump como presidente — mais um prodigioso filme de Spike Lee, um dos acontecimentos maiores de Cannes/2018.

* Publicado na Metropolis nº 60 (Junho 2018)

  • Publicado em Videos
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