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Actualizado às 9:47 PM, Feb 18, 2019

Ninguém Quer a Noite

O filme inspira-se na história verídica de Josephine Peary, a mulher de Robert Peary, o explorador que em 1906, numa mítica expedição, se autoproclamou o primeiro homem a chegar ao Pólo Norte. Josephine foi até aos limites do ártico para tentar acompanhar o marido na sua última expedição. Além de fracassar o seu objectivo, ela descobre que no último acampamento está, também à espera de Robert, uma esquimó grávida. Entre o triângulo amoroso e o filme de amour fou, «Nobody Wants the Night» não consegue ser nada, desperdiçando inclusive a sua via de épico de aventuras. É apenas um pequeno filme confinado a um conceito: um relato de sobrevivência, com recurso a cenas de sensibilidade duvidosa – como aquela de um pobre bebé esfomeado – e neve, muita neve na noite escura.

Como em grande parte da sua obra, a Coixet importa explorar o confronto das culturas, mas nem isso aqui é particularmente estimulante. Torna-se logo claro desde o início que aquela mulher americana educada vai aprender coisas com a esquimó romântica e vice-versa. Está tudo demasiado à vista do espetador. A Binoche talvez lhe tenha interessado o desafio físico de interpretar uma mulher que enfrenta a noite gelada do ártico no limiar da sobrevivência na. Pena que pareça apenas uma prova de esforço. Na verdade, de Coixet também não esperávamos muito mais...

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Título Nacional Ninguém Quer a Noite Título Original Nadie quiere la noche Realizador Isabel Coixet Actores Rinko Kikuchi, Juliette Binoche, Gabriel Byrne Origem Espanha/França/Bulgária Duração 100’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº27)

A Infância de um Líder

A origem do mal preocupa o Homem desde tempos imemoriais. A incrível diversidade de textos religiosos que se ocupam do tema, a par da sua centralidade na história da arte e da filosofia, testemunham ao mesmo tempo a omnipresença e a natureza aporética da questão. Não me passa a mim pela cabeça tentar resumir em duas linhas a complexidade do assunto, contudo, a propósito do filme «A Infância de um Líder» (Prémio Revelação TAP no LEFFEST 2015), parece-me interessante contrastar a velha hipótese de Platão, mais tarde recuperada por Santo Agostinho, de que o mal não tem uma existência real ou autónoma. O mal é antes uma falta, é a ausência ou privação do bem. Acontece que no filme de Corbet o mal aparece, justamente, não como uma mera sugestão, mas uma presença. Insidiosa, inegável e manifesta. Tendo visto o filme uma única vez, arrisco exagerar ao dizer que «A Infância de um Líder» tem a marca de uma obra de arte, ou seja, o mais importante escapa forçosamente à análise e é inacessível senão através da experiência. Que isto não nos impeça de conversar.

Full of sound and fury, «A Infância de um Líder» marca a estreia do actor Brady Corbet na realização. Com apenas 27 anos, o autor traz para o seu filme uma série de referências importantes e que não se restringem apenas ao cinema. Outros já falaram da influência de Dreyer ou Jean Vigo, a que se somam nomes mais contemporâneos como os de Lars von Trier e Michael Haneke, com quem Corbet trabalhou enquanto actor, mas eu gostava sobretudo de salientar a ligação explícita com Sartre, através do conto homónimo que lhe serviu de inspiração na escrita do argumento. Mais do que o enredo, Corbet pegou em alguns temas e situações (o pequeno equívoco em relação ao género da criança, ou o fato de anjo que abre tanto o texto de Sartre como a narrativa fílmica) que acaba por explorar de uma maneira muito diferente, não deixando no entanto de captar perfeitamente a corrupção progressiva da criança. Prescott (que no conto se chama Lucien), esconde por trás da sua aparência adorável uma indefinição inquietante. «A Infância de um Líder» joga com este lado enigmático das crianças, o facto de existirem como promessa de algo que ainda não se sabe o que é. O resultado é muito perturbador.

Sendo o foco principal do filme a personagem de Prescott, existe, evidentemente, uma forte dimensão política, a que ele acabará por dar corpo, e que se prende com a ascensão do fascismo na Europa. Ao som da poderosa proposta operática de Scott Walker, o filme começa com uma montagem de imagens de arquivo relativas à Primeira Guerra Mundial e termina com a sugestão da subida ao poder de “um líder” – alusão óbvia a Hitler. Mas a acção desenrola-se sobretudo entre 1918 e 1919. Prescott tem 7 anos e acaba de se mudar com a família para uma casa no campo, nos arredores de Paris, onde o seu pai (Liam Cunningham), um diplomata americano ao serviço do presidente Woodrow Wilson, se reúne com outros altos dignitários para trabalhar na preparação do Tratado de Versalhes – documento que marca o fim da Primeira Guerra mas que hoje temos dificuldade em chamar de tratado de paz. A maior parte do tempo seguimos Prescott enquanto este se passeia com a perceptora de francês (Stacy Martin) ou se entretém a antagonizar aqueles que o rodeiam, em especial a mãe (Bérénice Bejo), uma mulher bastante inteligente mas frustrada com a sua condição de esposa e de mãe e que se esforça por encontrar consolo na religião.

À excepção da curta aparição de Robert Pattison, que infelizmente destoa bastante do resto do elenco, as interpretações são todas irrepreensíveis. Porém, o maior elogio vai necessariamente para a criança, Tom Sweet, que desempenha um papel bastante complexo e exigente. A sua missão era, no fundo, hospedar uma metamorfose silenciosa. Representar um paradoxo. E foi isso que ele fez de modo exepcional.

«A Infância de um Líder» merece toda a exposição possível. Esperemos que o Prémio Revelação acelere o encontro do filme com os seus espectadores numa estreia comercial alargada a todo o país.

cinco estrelas

Realização: Brady Corbet
Actores: Tom Sweet, Bérénice Bejo, Liam Cunningham, Stacy Martin

 

John Woo - Samurai chinês

O Festival de Tóquio homenageou o cineasta chinês John Woo e atribui-lhe o Samurai, prémio de carreira. Uma consagração nipónica para um cineasta que redefiniu nos anos 80 o chamado “cinema made in Hong Kong” e, nos 90, singrou em Hollywood. Uma conversa em exclusivo nacional com um mestre.

Rui Pedro Tendinha em Tóquio

Estamos no Festival de Tóquio e no mercado deste festival houve uma conferência da indústria chinesa e japonesa que sugeriu apostar-se cada vez mais numa aliança entre as duas cinematografias para juntas combaterem o mercado norte-americano.

O que lhe parece dessa possibilidade numa altura em que os números da indústria asiática estão a crescer?

Estamos na altura certa para poder combater Hollywood e será muito positivo para a China e para o Japão. É uma aliança que poderia ajudar a industria chinesa e japonesa não só a nível de quota de mercado mas também no que toca a elevar os níveis criativos. Sim, é uma aliança que poderia ajudar muito.

Tem referido que Hollywood interfere muito no trabalho de um realizador. No seu caso, quais os casos mais flagrantes?

Para os filmes mais comerciais que fiz, às vezes, tinha de levar com notas escritas pelos executivos dos estúdios, dos advogados, do chairman e até dos contabilistas. Todos davam ideias...Todos queriam que os filmes chegassem ao maior número de mercados possível...Fui inundado de conselhos e notas para mudar os guiões. Mesmo assim, tive sorte: trabalhei com um estúdio simpático, a Paramount. A chefe do estúdio era minha fã! Quando me contrataram disseram a todos os produtores que o desejo é que eu fizesse um filme à John Woo...Aliás, disseram a todos para não me darem conselhos...

Para acabar por fim os mitos, a ideia de colocar pombas no meio da violência surgiu porque razão?

Gosto desse animal, ponto. Quando fiz «The Killer», na cena final na igreja, quis mostrar o verdadeiro espírito interior das personagens. Na altura em que um deles cai em slow-motion para salvar a rapariga cega lembrei-me do seguinte: se aquele gesto era sagrado, que tal juntar pombas!? As bombas simbolizaram a beleza dos heróis.

E é claro que nunca deixou de ser fã das câmaras lentas...

Sim, porque quando faço um filme estou também a fazer poemas.

E apercebeu-se quando começou a ser copiado no cinema americano.

Sim, sim. Começaram a usar heróis a disparar duas armas. Fico feliz com essas cópias, sinto até que tenho muitos amigos. No cinema, tudo o que é bom é para partilhar entre os cineastas.

Por vezes, é roubar.

Não, não. Não diria isso. Também já roubei muito, sobretudo ao grande mestre Sam Peckinpah. Ele, por exemplo, nas sequências de ação, também usava slow-motion.

Já agora, tem acompanhado a saga «Missão Impossível»?

Este último não vi. Neste momento, já não estou tão em contacto com oTom Cruise. Tenho uma história engraçada com ele: uma vez em Sidney convidei-o para ir jantar fora. Levei-o a um restaurante chinês, bastante caro, por sinal, e ele estava feliz – nunca tinha comido lagosta crua!! Disse que nunca tinha comido coisa tão boa na vida

Além da rivalidade que teve sempre com Tsui Hark, os dois acabaram por se ajudar...

Sim, foi ele quem ajudou «A Better Tomorrow». Na altura, ele estava na mó de cima e deu-me boas ideias para o filme e melhorou o argumento. Foi o Tsui quem me encorajou a desenvolver o meu estilo e a tornar o projeto bem pessoal. Mais tarde, também ajudei-o muito.

Brooklyn

«Brooklyn» é uma história de imigração passada nos anos 50. Uma jovem deixa a irmã e a mãe numa pequena cidade costeira irlandesa e vai para os EUA, Nova Iorque. Sozinha, numa cidade que lhe é estranha, começa a ganhar uma nova identidade. Passa de menina a mulher. E é essa passagem que Saiorse Ronan consegue de forma sumptuosa. Parece quase um truque de magia. Uma interpretação de um refinamento inacreditável numa obra que consagra Crowley (em «A Rapaz» [2007]e «Circuito Fechado», [2013] prometia algo, mas nada disto), como um dos cineastas a ter em conta. Com processos simples e uma construção dramática que ronda a perfeição, o filme tem tudo para ser um novo clássico. Mais um argumento de ouro do romancista Nick Hornby, desta vez a criar um conto sobre vidas adiadas e a independência feminina. Da Irlanda chegou então um dos filmes que já tinha ganho todo o hype em Park City, no Festival Sundance.

Rui Pedro Tendinha em Toronto 2015

Título Nacional Brooklyn Título Original Brooklyn Realizador John Crowley Actores Saoirse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson Origem Reino Unido/Canadá/Irlanda Duração 111’ Ano 2015

O Caso Spotlight (Veneza 2015)

De novo o cinema americano à volta das histórias verídicas. Este novo filme de Tom McCarthy relata a investigação de uma equipa de jornalistas sobre o escândalo sexual que envolveu padres da Igreja Católica de Boston. Desenhado como uma espécie de «Os Homens do Presidente» dos nossos dias, Spotlight ou é mesmo uma empolgante história de jornalismo de investigação ou mais não é do que um espécie de tv movie glorificado. A seu favor está um elenco de primeira, onde se destacam Michael Keaton, Rachel McAdams, Billy Crudup e Mark Ruffallo. De estranhar apenas a sua passagem fora da competição. Será que o filme que a norte-americana Laurie Anderson fez para a ARTE, «Heart of a Dog», tirou-lhe a vez...?

Tiago Alves em Veneza

 

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