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Actualizado às 9:47 PM, Feb 18, 2019

Operação Eye in the Sky

Reflexão crua e dura sobre o sistema militar americano e britânico ancorado no dispositivo dos drones. Helen Mirren é uma coronel britânica que tem de decidir se bombardeia ou não um alvo suspeito no Quénia. Uma decisão que terá também de ser autorizada pelas chefias governamentais. Tudo se passa em tempo real, enquanto em Las Vegas, dentro de um contentor, está um piloto americano pronto a disparar o seu joystick. Hood encena esse teatro de guerra precisamente com os tempos teatrais, colocando os atores em múltiplos cenários com marcações e coreografias minimais.

O ano passado, em Toronto e em Veneza, «Morte Limpa», de Andrew Nicoll, também refletia sobre os drones e o drama dos executores, mas ao lado do filme de Hood «Morte Limpa» é um passeio de miúdos. «Eye in the Sky» tem uma fluência dramática poderosíssima que agarra sempre o espetador. É um bom exemplo de como gerir a tensão num thriller que, afinal de contas, é feito para entreter. Não vamos ao céu com o filme mas perdemos alguma da nossa inocência, isso sim...

Rui Pedro Tendinha em Toronto

tres estrelas

Título Nacional Operação Eye in the Sky Título Original Eye in the Sky Realizador Gavin Hood Actores Helen Mirren, Aaron Paul, Alan Rickman Origem Reino Unido Duração 102’ Ano 2015

 

O Clube

O verdadeiro choque positivo do festival veio do Chile com «El Club», de Pablo Larraín. Uma história sobre padres pedófilos que estão refugiados num pequeno povoado ao largo da costa chilena. Uma obra que já está a inflamar muita gente pela forma como tem coragem de ser explícito na sua denúncia de crimes sexuais perpetrados no ceio da Igreja Católica. «El Club» é uma descida muito negra aos infernos, nada manso com os católicos. O espetador sai da sala como se tivesse perdido um pouco a sua inocência. Depois de «Não», estreado em Portugal em 2013, Larraín confirma-se como um dos mais diabólicos e certeiros cineastas deste tempo. A dada altura, a sua mise en scéne explode com uma violência gráfica na ordem do teatral, neste caso saída de um teatro de horrores. É impressionante. Venceu o Urso de Prata e parece certo que ao longo deste ano vai provocar uma grande polémica com a comunidade católica...

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Rainha do Deserto

A vida de Gertrude Bell, a mulher que nos anos 20 teve um papel instrumental na forma como o Médio Oriente ficou dividido, não deu um bom filme. O argumento de Herzog explora a sua juventude e o primeiro desgosto amoroso, uma paixão proibida por um homem de baixa condição social. Mais tarde, Bell tornou-se escritora, arqueóloga e aventureira, tendo mantido com o povo beduíno uma relação privilegiada. Nicole Kidman, de cabelo dourado e sempre muito maquilhada, passeia-se de camelo pelo deserto em pose de diva mas nunca nos dá a conhecer a verdadeira alma de uma mulher que acabou por ser agente secreta da coroa britânica e amiga pessoal de T.E. Lawrence (interpretado sem genica alguma por Robert Pattinson), exatamente Lawrence da Arábia. Mas se é verdade que o cineasta alemão quis fazer a sua “versão feminina de Lawrence da Arábia”, também é verdade que a espessura épica de David Lean não é para aqui chamada. O que é infelizmente convocado é um academismo insuportável, próprio de uma lição de História decorativa. Todo o filme parece demasiado polido, carece da habitual excentricidade de Herzog, que aqui em Berlim referiu que este seu trabalho pode ser visto como um gesto feminista. Claro que não pode. Não basta filmar uma heroína a suar no deserto para ganhar um carimbo feminista...Também sem sal estão os homens do filme: Damian Lewis e o omnipresente James Franco, a interpretar os dois homens que Gertrude amou. A pior obra da carreira do grande cineasta alemão.

Queen of the Desert de Werner Herzog

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Love & Mercy

«Love & Mercy», já exibido no Festival de Toronto com notório sucesso, esta é uma crónica sobre a vida de Brian Wilson, dos Beach Boys. John Cusack e Paul Dano (a provar que é um dos grandes atores americanos do momento) interpretam o génio musical em duas fases diferentes da sua vida. O guião, do também cineasta Oren Moverman, não se distancia um milímetro das doenças mentais de Wilson nem do seu ego desmedido.

Um filme que chega ao coração da criação musical, em especial de sinfonias como God Only Knows e Good Vibrations. Facilmente consegue ser um dos melhores filmes biográficos de Hollywood dos últimos anos e vai a fundo no processo de criação musical da banda. «Love & Mercy» é sempre mais interessante quando aborda os primeiros tempos dos Beach Boys.

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Diário de Uma Criada de Quarto

«Diário de Uma Criada de Quarto», a partir de Mirbeau. Como fazer esta adaptação depois de Buñuel e Renoir? Para Jacquot, essa tentativa é o conceito em si. Uma tentativa com uma câmara irrequieta que recusa formalismos clássicos e que resvala sempre para os enfeites. Felizmente está lá Léa Seydoux, um rosto que num mesmo plano pode exalar luxúria e inocência. Destinada a dividir opiniões, foi uma das grandes desilusões da competição e um mau presságio para o próximo de Jacquot, a ser filmado em Portugal a partir da obra The Body Artist, do escritor norte-americano Don DeLillo.

Diário de Uma Criada de Quarto de Benoit Jacquot

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Mr. Holmes

Exibido na seleção oficial, mas fora de competição, neste filme apenas se encontra uma certa simpatia britânica que cumpre o objectivo de agradar. O realizador de «Deuses e Monstros» (1998) volta a oferecer a Ian McKellen um dos maiores momentos da sua carreira, neste caso na pele de um idoso Sherlock Homes com mau feitio e problemas de memória. Quase se poderia chamar “O Meu Nome é Sherlock”... Narrado em dois tempos, acompanhamos a relação do mais famoso detetive mundial que aos 93 anos tenta recordar-se do último caso que não chegou a resolver.

Condon consegue resgatar o filme de fórmulas fáceis e, às tantas, até parece ter uma dignidade de conto tocante sobre a solidão. Muito graças a Ian McKellen, «Mr. Holmes» é bem capaz de ter uma notoriedade que poucos esperavam. Não é fácil refletir e trabalhar sobre mitos e as suas sombras, mas Condon sabe o que está a fazer. Na sessão de gala foi muito aplaudido e parece ter tudo para se tornar num chamado crowd pleaser. Um filme bem composto, às vezes em demasia...

Mr. Holmes de Bill Condon

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Life

James Dean para a pequenada. É isto o novo filme de Anton Corbijn, depois de «O Homem Mais Procurado». O fotógrafo holandês, cada vez mais com o pé na realização, fez finalmente o seu filme “de fotografia”. Centrado na história da amizade entre o fotógrafo da Magnum, Dennis Stock, e James Dean e na forma como a famosa fotografia do Times Square nasceu, «Life» passou na Berlinale Special, a secção das antestreias do festival, e foi uma das decepções mais fortes. Um objeto afetado que tenta desmontar o mito de James Dean e entrar por dentro das imagens icónicas. Tudo parece feito em função de uma mera curiosidade quase caricatural. Ninguém acredita no peso daquele Dean e na forma como se descrevem os ambientes de Hollywood (Jack Warner parece um boneco nas mãos de Sir Ben Kingsley e mesmo Nick Ray não tem dimensão real). Ficamo-nos apenas por um mero jogo de mimetismos, bem enquadrado é certo – Corbijn é um esteta competente – mas sem profundidade de imaginários. Dane DeHaan, que costuma ser óptimo, sente-se que não aguenta o peso do papel e mesmo quando dá passas no cigarro ficamos com a sensação que joga à defesa. Tem o mesmo efeito postiço que tinha o Kerouac segundo Walter Salles, em «Pela Estrada Fora»...

Life de Anton Corbijn

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Rabo de Peixe

Foi um dos filmes mais falados do festival, mesmo não estando na seleção oficial. «Rabo de Peixe», de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, foi apresentado no Forum, a secção mais arriscada do festival – ainda está fresco o Leopardo de Prata de Locarno para «E Agora? Lembra-me». O curioso é que esta nova longa-metragem, que foi remontada a partir do material de um documentário para a RTP concluído há 14 anos, tem pontos de rima com o último trabalho da dupla de autores. Sente-se a mesma sensibilidade no olhar de partilha humana. Sente-se uma mesma poesia da primeira pessoa. O filme finta o tema do preconceito e desconstrói as ideias feitas com um novo olhar sobre uma comunidade piscatória dos Açores, que ganhou fama de ser um dos locais mais pobres e duros da Europa. Para Pinto e Leonel o importante são as pessoas, as suas vidas.

Com narração dividida a partir de diários (ou diálogos?) cruzados entre os dois autores, somos convidados a ir à pesca, a conhecer a beleza da vila e a entrar pelas vivências dos seus habitantes. A par disso, a câmara consegue pequenos portentos de uma escala épica, tanto na forma como se sente o tempo a passar, como na dimensão de aventura humana. «Rabo de Peixe» é um imenso filme de amigos, uma grande celebração dos valores da amizade. Vai ter de estrear nos cinemas portugueses – é demasiado cinematográfico para voltar à televisão...

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Título Nacional Rabo de Peixe Título Original Rabo de Peixe Realizador Nuno Leonel, Joaquim Pinto Origem Portugal Duração 103’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº27)

Foi um dos filmes mais falados do festival, mesmo não estando na seleção oficial. «Rabo de Peixe», de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, foi apresentado no Forum, a secção mais arriscada do festival – ainda está fresco o Leopardo de Prata de Locarno para «E Agora? Lembra-me». O curioso é que esta nova longa-metragem, que foi remontada a partir do material de um documentário para a RTP concluído há 14 anos, tem pontos de rima com o último trabalho da dupla de autores. Sente-se a mesma sensibilidade no olhar de partilha humana. Sente-se uma mesma poesia da primeira pessoa. O filme finta o tema do preconceito e desconstrói as ideias feitas com um novo olhar sobre uma comunidade piscatória dos Açores, que ganhou fama de ser um dos locais mais pobres e duros da Europa. Para Pinto e Leonel o importante são as pessoas, as suas vidas.

Com narração dividida a partir de diários (ou diálogos?) cruzados entre os dois autores, somos convidados a ir à pesca, a conhecer a beleza da vila e a entrar pelas vivências dos seus habitantes. A par disso, a câmara consegue pequenos portentos de uma escala épica, tanto na forma como se sente o tempo a passar, como na dimensão de aventura humana. «Rabo de Peixe» é um imenso filme de amigos, uma grande celebração dos valores da amizade. Vai ter de estrear nos cinemas portugueses – é demasiado cinematográfico para voltar à televisão...

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Título Nacional Rabo de Peixe Título Original Rabo de Peixe Realizador Nuno Leonel, Joaquim Pinto Origem Portugal Duração 103’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº27)

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