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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

Perdido em Marte

Se em «Demolition» vemos Gyllenhaal a dançar e a demolir ao som do velho e bom rock n’roll, Ridley Scott faz o improvável: no seu «Perdido em Marte» mete o astronauta de Matt Damon inundado de disco sound, com Gloria Gaynor e Abba à mistura, a plantar batatas em Marte. É um filme de ficção-científica com aspirações musicais; a cena onde se ouve David Bowie e o seu Starman parece espelhar o espírito do filme. Na sessão de imprensa, registou-se algo muito raro em Toronto: uma salva de palmas que anuncia aclamação. Claramente, este é um dos grandes filmes de Ridley Scott, um contraste absoluto com o anterior «Exodus».

O que poderia ser «O Náufrafo» (2000) no espaço, torna-se rapidamente uma aventura de grande aparato, onde se intercala o esforço de uma vasta equipa da NASA para encontrar soluções para trazer de volta o homem que está preso no Planeta Vermelho.

Baseado no bestseller homónimo de Andy Weir, «Perdido em Marte» tem uma escala visual que compreende as possibilidades do 3D (este é um filme que apenas faz sentido de se experienciar em 3D e num ecrã gigante) e um aparato que até brinca com o seu porte desmedido. Foi dos filmes mais aplaudidos na sessão de imprensa – isso sempre quer dizer muita coisa...

Rui Pedro Tendinha em Toronto

quatro estrelas

Título Nacional Perdido em Marte Título Original The Martian Realizador Ridley Scott Actores Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig Origem Estados Unidos Duração 144’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº29)

Beeba Boys

Do Canadá também surgiu um filme de grande impacto, «Beeba Boys», da cineasta Deepa Mehta, sobre o flagelo das lutas de gangsters na comunidade hindu de Vancouver. Uma espécie de «Tudo Bons Rapazes» com aroma exôtico. Muito mais do que um “gangsters movie”, «Beeba Boys» é um mergulho sociológico numa comunidade que reinventou uma lógica de comportamento que desafia convenções e mistura um fascínio por elementos exteriores: a moda, a metrossexualidade... A história gira em volta de uma luta territorial entre duas famílias ligadas ao crime, os Beeba Boys, de Jeet Johar, um vaidoso líder que ainda vive com a mãe, e o sindicato da família Grewal, mais tradicional. Pelo meio, há um Beeba Boy (um “bom rapaz”) que conhece Jeet na prisão e parece jogar um papel duplo. Que não haja dúvidas, Mehta quer falar de uma comunidade em mudança, mas não se desvia nem um milímetro de uma fórmula de thriller, de filme de género. O que é curioso é que filma a carnificina humana com um jogo de códigos muito feliz, algures entre a aproximação à mecânica Tarantino-Scorsese, mas, paralelamente, como um filme de série B de ação. A boa notícia é que já está comprado para Portugal.

Rui Pedro Tendinha em Toronto

A Febre do Mississípi

Roadmovie clássico que repensa a relação da América com o jogo. Em «Mississipi Grind» esta dupla de realizadores examina a América de hoje à mesa do póker. Cinema americano genuíno, de uma sofisticação moderna que se mascara com uma certa pompa serena de anos 70 – pensa-se em Hal Hashby e George Roy Hill. Só não é uma surpresa extrema porque «Half Nelson – Encurralados» (2006) já tinha mostrado o talento destes cineastas. Em Toronto, a interpretação de Ben Mendelsohn criou motivos de histeria, mas talvez seja Ryan Reynolds, quase sempre cabotino, a surpreender.

Rui Pedro Tendinha em Toronto

Título Nacional A Febre do Mississípi Título Original Mississippi Grind Realizador Anna Boden, Ryan Fleck Actores Ben Mendelsohn, Ryan Reynolds, Yvonne Landry Origem Estados Unidos Duração 108’ Ano 2015

Demolição

O realizador de «O Clube de Dallas» (2013) e «Livre» (2014) assina um drama sobre um jovem financeiro que num acidente de automóvel perde a sua mulher. A partir daí, decide tornar-se num niilista de primeira, mandando às urtigas o consumismo capitalista que preconizava o seu dia-a-dia.

O filme é sobretudo um veículo para mais uma monstruosa interpretação de Jake Gyllenhaal, ator que na sessão de abertura teve direito uma ovação estrondosa. Gyllenhaal, que depois de Locarno («Southpaw», de Antoine Fuqua) e Veneza («Evereste», de Baltasar Kormákur), se torna uma das figuras desta edição. Há quem já tenha feito um neologismo: vivemos a época do Jakeawake (chalaça com a palavra terramoto). E em «Demolition» ele tem precisamente essa vertigem de tremor: canta, chora, dança, implode e explode. É uma explosão também ao som dos Rolling Stones, quase em espiral de um desejo punk de destruir.

Ainda não é desta que Valée faz um filme obrigatório mas é um cineasta que não falha.

Rui Pedro Tendinha em Toronto

Operação Eye in the Sky

Reflexão crua e dura sobre o sistema militar americano e britânico ancorado no dispositivo dos drones. Helen Mirren é uma coronel britânica que tem de decidir se bombardeia ou não um alvo suspeito no Quénia. Uma decisão que terá também de ser autorizada pelas chefias governamentais. Tudo se passa em tempo real, enquanto em Las Vegas, dentro de um contentor, está um piloto americano pronto a disparar o seu joystick. Hood encena esse teatro de guerra precisamente com os tempos teatrais, colocando os atores em múltiplos cenários com marcações e coreografias minimais.

O ano passado, em Toronto e em Veneza, «Morte Limpa», de Andrew Nicoll, também refletia sobre os drones e o drama dos executores, mas ao lado do filme de Hood «Morte Limpa» é um passeio de miúdos. «Eye in the Sky» tem uma fluência dramática poderosíssima que agarra sempre o espetador. É um bom exemplo de como gerir a tensão num thriller que, afinal de contas, é feito para entreter. Não vamos ao céu com o filme mas perdemos alguma da nossa inocência, isso sim...

Rui Pedro Tendinha em Toronto

tres estrelas

Título Nacional Operação Eye in the Sky Título Original Eye in the Sky Realizador Gavin Hood Actores Helen Mirren, Aaron Paul, Alan Rickman Origem Reino Unido Duração 102’ Ano 2015

 

O Clube

O verdadeiro choque positivo do festival veio do Chile com «El Club», de Pablo Larraín. Uma história sobre padres pedófilos que estão refugiados num pequeno povoado ao largo da costa chilena. Uma obra que já está a inflamar muita gente pela forma como tem coragem de ser explícito na sua denúncia de crimes sexuais perpetrados no ceio da Igreja Católica. «El Club» é uma descida muito negra aos infernos, nada manso com os católicos. O espetador sai da sala como se tivesse perdido um pouco a sua inocência. Depois de «Não», estreado em Portugal em 2013, Larraín confirma-se como um dos mais diabólicos e certeiros cineastas deste tempo. A dada altura, a sua mise en scéne explode com uma violência gráfica na ordem do teatral, neste caso saída de um teatro de horrores. É impressionante. Venceu o Urso de Prata e parece certo que ao longo deste ano vai provocar uma grande polémica com a comunidade católica...

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Rainha do Deserto

A vida de Gertrude Bell, a mulher que nos anos 20 teve um papel instrumental na forma como o Médio Oriente ficou dividido, não deu um bom filme. O argumento de Herzog explora a sua juventude e o primeiro desgosto amoroso, uma paixão proibida por um homem de baixa condição social. Mais tarde, Bell tornou-se escritora, arqueóloga e aventureira, tendo mantido com o povo beduíno uma relação privilegiada. Nicole Kidman, de cabelo dourado e sempre muito maquilhada, passeia-se de camelo pelo deserto em pose de diva mas nunca nos dá a conhecer a verdadeira alma de uma mulher que acabou por ser agente secreta da coroa britânica e amiga pessoal de T.E. Lawrence (interpretado sem genica alguma por Robert Pattinson), exatamente Lawrence da Arábia. Mas se é verdade que o cineasta alemão quis fazer a sua “versão feminina de Lawrence da Arábia”, também é verdade que a espessura épica de David Lean não é para aqui chamada. O que é infelizmente convocado é um academismo insuportável, próprio de uma lição de História decorativa. Todo o filme parece demasiado polido, carece da habitual excentricidade de Herzog, que aqui em Berlim referiu que este seu trabalho pode ser visto como um gesto feminista. Claro que não pode. Não basta filmar uma heroína a suar no deserto para ganhar um carimbo feminista...Também sem sal estão os homens do filme: Damian Lewis e o omnipresente James Franco, a interpretar os dois homens que Gertrude amou. A pior obra da carreira do grande cineasta alemão.

Queen of the Desert de Werner Herzog

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Love & Mercy

«Love & Mercy», já exibido no Festival de Toronto com notório sucesso, esta é uma crónica sobre a vida de Brian Wilson, dos Beach Boys. John Cusack e Paul Dano (a provar que é um dos grandes atores americanos do momento) interpretam o génio musical em duas fases diferentes da sua vida. O guião, do também cineasta Oren Moverman, não se distancia um milímetro das doenças mentais de Wilson nem do seu ego desmedido.

Um filme que chega ao coração da criação musical, em especial de sinfonias como God Only Knows e Good Vibrations. Facilmente consegue ser um dos melhores filmes biográficos de Hollywood dos últimos anos e vai a fundo no processo de criação musical da banda. «Love & Mercy» é sempre mais interessante quando aborda os primeiros tempos dos Beach Boys.

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

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