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Actualizado às 10:34 PM, Sep 15, 2019

FESTIVAL OLHARES DO MEDITERRÂNEO – Entrevista Sara David Lopes (directora)

O Festival Olhares do Mediterrâneo regressa ao cinema São Jorge no final do mês do Setembro com o objetivo claro: divulgar o cinema feminino do mediterrâneo. Por isso, foram selecionados dezenas de filmes dentro desse critério de escolha para um concurso variado e estimulante e imaginou-se uma nova secção temática-Travessias- relativa à questão dos refugiados e das migrações. Nas secções paralelas, o destaque vai para a programação gratuita para o 1ªciclo e para o Secundário, para além das oficinas temáticas e muito mais. Conversámos com Sara David lopes, diretora e programadora principal do evento que deixa o convite aos nossos leitores para conhecerem o Olhares do Mediterrâneo.

A edição deste ano apresenta algumas novidades, incluindo o alargamento do critério da escolha dos filmes e a data de realização. Fale-nos um pouco sobre isso?
Desde a concepção do festival mantemos uma reflexão contínua sobre o que fazer em cada edição e, este ano, pareceu-nos importante alargar a visibilidade deste cinema de mulheres à equipa criativa. Isso levou a que, em 2016, aceitássemos filmes feitos por homens, desde que tivessem sido produzidos por mulheres. Em edições futuras, ponderamos alargar este critério a toda a equipa criativa do filme. Um filme não é só feito pelo seu realizador e julgamos importante dar também visibilidade a outras áreas da sua produção genérica.

Quais os principais objetivos do Olhares do Mediterrâneo?
Como o próprio nome do festival indicia, pretende-se promover o cinema feminino do Mediterrâneo, o qual ainda assume uma percentagem muito pequena tanto na indústria cinematográfica como no cinema independente. Pensamos que é importante divulgar mais o cinema feito por mulheres, uma vez que o olhar que as suas obras mostram sobre o mundo é frequentemente distinto do olhar que nos traz o cinema feito por homens. É importante perceber essas diferenças, pois assim poderemos conhecer melhor a multiplicidade de olhares e de realidades vividas que estes filmes nos trazem.

Para além de divulgar o cinema feito por mulheres, pretendemos também promover o conhecimento sobre a diversidade de formas de viver que encontramos nas margens do Mediterrâneo e sobre os encontros e desencontros que se promovem neste espaço geográfico. Pensamos que podemos ter um papel na desconstrução de estereótipos e na reflexão sobre aquilo que nos distancia e aproxima enquanto mediterrânicos.

Foi isso que nos levou, este ano, a criar uma secção temática, Travessias. Dando continuidade a um interesse que está patente desde a primeira edição do festival - e que é um tema recorrente nos filmes que temos recebido - decidimos dar uma atenção especial à questão dos refugiados e das migrações forçadas, criando um espaço de reflexão transversal a todo o festival com actividades complementares ao cinema. Pretendemos com isto estimular o público a interrogar-se e a avaliar de uma forma mais informada esta questão que afecta de forma brutal o quotidiano das pessoas e dos países do Mediterrâneo.

Quais as principais dificuldades sentidas na elaboração da programação do festival?
A principal dificuldade é financeira, mas temos conseguido contorná-la com criatividade e parcerias.
É óbvio que o constrangimento financeiro gera um desafio à programação, nomeadamente na escolha de cerca de 30 filmes que se enquadrem nos nossos dois eixos de orientação: mulheres e Mediterrâneo. É preciso garantir que os filmes que conseguimos trazer ao festival têm qualidade e que na programação final existe um equilíbrio entre os diferentes países e as temáticas abordadas.

OLHARES Les Messagers1

Para além das competições de longas e curtas-metragens, realizam-se eventos paralelos como as oficinas e a programação para as escolas. Qual a importância destes eventos e quais os destaques deste ano?
Apesar de, desde a primeira edição, ser um festival de cinema, defendemos que é importante mostrar também outros aspectos da criatividade “mediterrânica”. Desde o início, quisemos trazer um “colorido sensorial” que impregnasse o todo do festival e que preenchesse os momentos entre sessões. Quisemos com isto criar um ambiente genérico de festa, por contraste com a mera ida a um festival de cinema. Como tem funcionado muito bem, temos apostado numa diversidade de actividades. Este ano, para além dos momentos musicais e de alguns workshops, nomeadamente de culinária e cinema, temos uma exposição de fotografia que resulta do desafio que fizemos a 5 mulheres refugiadas, que vivem em Lisboa, para fotografar o seu quotidiano. Teremos assim um olhar fotográfico que se junta ao olhar cinematográfico.

Para além disso, teremos sessões gratuitas para escolas - 1º ciclo e secundário - integradas no Plano Nacional de Cinema. Estas sessões permitem, simultaneamente, captar os jovens para o prazer de ver diferentes formas de fazer cinema e chamar a sua atenção para questões sociais importantes do mundo em que vivemos.

Quais os principais pontos de interesse no Olhares do Mediterrâneo deste ano? Convide os leitores da Revista Metropolis a conhecer o festival ...Não podendo destacar nenhum filme em particular, uma vez que todos os filmes concorrem para prémios atribuídos pelo Júri e Público, não queremos deixar de chamar a atenção para a secção temática, as Travessias. Alguns filmes serão seguidos de debates com convidados e algumas realizadoras e/ou elementos da equipa criativa, sendo que estes serão certamente momentos de grande interesse.

Convidamos, ainda, o público a participar nas actividades paralelas, algumas das quais destinadas a famílias, e a conhecer as muitas realizadoras presentes, algo que acreditamos ser uma mais-valia extraordinária para os filmes e para o público em geral.

Festival Olhares do Mediterrâneo – Cinema no feminino

Entre 29 de setembro e 2 de outubro, na sua 3ª edição, o festival Olhares do Mediterrâneo - Cinema no feminino regressa às salas do S. Jorge, em Lisboa, desta vez para quatro dias de atividades que vão muito além da exibição de filmes. No seu âmago, este festival mantém como foco principal a exibição de filmes oriundos da bacia mediterrânica, pretendendo, acima de tudo, divulgar o papel da mulher na produção cinematográfica. Este ano, a direção decidiu alargar o mote ao desempenho da mulher na equipa criativa em filmes de ficção, documentário, animação ou experimental, o que significa que mesmo que alguns dos filmes sejam realizados por homens, uma mulher teve um papel-chave no argumento, produção, direção de fotografia ou montagem, ou até mesmo na representação. Ao mesmo tempo, o Olhares do Mediterrâneo pretende trazer à capital portuguesa um conjunto de iniciativas paralelas, capazes de criar um espaço de partilha e reflexão sobre outras formas de viver a igualdade de todos nós na diferença de cada um.

Seleção de filmes

Após uma submissão de filmes que ultrapassa em grande escala a edição anterior, o festival Olhares do Mediterrâneo selecionou este ano 33 filmes, dos quais nove são longas-metragens e 24 são curtas-metragens, oriundas de 18 países, nomeadamente Albânia, Croácia, Egipto, Espanha, França, Grécia, Israel, Itália, Líbano, Marrocos, Portugal, Turquia, entre outros. Nos vários géneros cinematográficos, 20 filmes farão a sua estreia nacional no festival e dois serão mesmo estreia mundial. No final do evento, serão atribuídos os Prémios de Melhor Longa-Metragem, Melhor Curta-Metragem, Travessias e do Público. Os bilhetes estão disponíveis nas bilheteiras do cinema S. Jorge e os preços variam entre os € 3,50 e os € 4, mas existem diversas opções de passes. Ver aqui: Info.

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Travessias

Temas como a morte, o sofrimento, o suicídio, a crise económica, problemas de habitação, mas também a família, o amor, a amizade e o envelhecimento, são transversais aos filmes submetidos a concurso. No entanto, e devido à problemática dos refugiados e das migrações forçadas em muitas das suas vertentes, o Festival considerou a relevância do tema e criou este ano uma secção especial dedicada a esta temática, sob a designação de Travessias. Neste espaço privilegiado, além dos oito filmes que focam a atual intensificação dos fluxos de migrantes, que trazem histórias de pessoas reais arrastadas no mar Mediterrâneo, decorrerão diversas atividades relacionadas com a temática, nomeadamente debates e conferências, uma exposição de fotografia e o acolhimento da SOS Méditerranée, uma ONG que se dedica a tentar impedir que pessoas morram no Mediterrâneo durante as travessias.

Atividades paralelas

Durante todo o festival, muitos dos filmes programados contam com a presença de elementos das equipas criativas durante a sessão, tornando possível sessões de Q&A entre os mesmos e a audiência. A música, os livros, o artesanato, ateliers para crianças e pais, e sessões especiais para escolas também marcarão presença. Para os mais gulosos, as boas notícias chegam através da Oficina de Sobremesas Saudáveis, no domingo, dia 2, pelas 16h30, mas se preferir provar um verdadeiro chá marroquino poderá optar pelo Ritual do Chá no sábado, dia 1,às 18 horas, antes da sessão do filme «Pirates de Salé». Um dos momentos musicais será protagonizado pelo Coro Feminino de Lisboa, que atua também no sábado, pelas 20h30. Todas estas atividades paralelas têm entrada livre, à exceção do atelier para pais e filhos Olhares Pequeninos, que terá um custo de € 7. Pode consultar todas as informações em: (http://www.olharesdomediterraneo.org/actividades-paralelas).

OLHARES exotica

Destaques da 3ª edição

«Exotica, Erotica, Etc» [foto], de Evangelia Kranioti, é o filme de abertura do Festival e é uma verdadeira obra visual. Vencedor de vários prémios, este documentário demorou nove anos a ser desenvolvido, implicou mais de 20 viagens e gerou 450 horas de filmagens. Além de o realizar, Evangelia Kranioti é igualmente a argumentista e diretora de fotografia. No centro do filme está a vida dos marinheiros que passam dias e dias em alto mar e as histórias de quem sempre os recebeu em terra. A cinematografia é fantástica e o enquadramento é feito ao pormenor.

O documentário «Pirates of Salé» traz a Lisboa as suas realizadoras, Rosa Rogers e Merième Addou, para uma conversa informal a seguir à exibição do filme, em conjunto com a associação cultural A Tenda. O foco é um grupo de adolescentes que se agarra ao curso de artista de circo como a única hipótese de terem “um futuro”. As mulheres devem permanecer em casa, enquanto aguardam um noivo que case com elas e é preciso coragem para inverter as regras e enveredar por uma vida de circo. Este curso é tudo o que têm para “serem alguém” e para ajudarem a família.

Da autoria de Hélène Crouzillat e Laetitia Tura, «Les Messagers» traz-nos relatos dos “mensageiros” da atualidade. Pessoas que tentam fugir dos seus países e que acabam tratadas como objetos e deixadas à morte. Enquanto tentam fugir ao controlo da polícia espanhola e marroquina, procuram uma alternativa para viver e, apesar de todas as vedações, o seu único objetivo é continuar a tentar. Não têm nada a perder. É um filme com testemunhos fortes de pessoas que, acima de tudo, são humanos, como todos nós.

OLHARES Nawara and Ali

A ficção chega através de «Nawara» [foto], com realização e argumento de Hala Khalil. No decorrer da Primavera Árabe de 2011, no Egito, Nawara é uma mulher do povo que vive num bairro degradado e pobre, mas trabalha numa mansão, junto dos que conseguiram juntar fortuna. Mantendo sempre o sentido positivo na vida e tendo como princípio a honestidade e a fé, Nawara não está preparada para algo que vai destabilizar todas as suas crenças.
«Women in Sink», de Iris Zaki, leva-nos para o interior de um cabeleireiro árabe de Israel, no qual várias mulheres, árabes ou judias, falam sobre temas como política israelita, a vida e o amor, enquanto lavam a cabeça. Um documentário curto mas um verdadeiro exercício social.

Participação portuguesa

Nesta edição, Portugal é representado por sete filmes. O documentário «A Caça Revoluções», de Margarida Rêgo, é um deles e é sobre duas gerações tocadas pela revolução dos cravos a partir de uma fotografia. Margarida Madeira assina a animação «Dona Fúnfia», uma senhora que um dia troca a saia por umas calças e pega na sua bicicleta para fazer a sua própria volta a Portugal. Também com um filme animado está Raquel Felgueiras e o seu «Galope», sobre a história da imagem em movimento. «Maxamba», realizado por Suzanne Barnard e Sofia Borges, é um documentário sobre um casal descendente de uma família indiana que habita no bairro Quinta da Vitória, que está prestes a ser demolido, e concorre na categoria Travessias. Por fim, «Outubro Acabou», de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes, «Pronto, era Assim», a animação de Joana Nogueira e Patrícia Rodrigues sobre a história de vida de seis idosos, e «Retratando Marina», uma estreia mundial que conta a história de uma fotógrafa moldava que reflete sobre o seu Portugal, fecham a participação portuguesa.

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