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Actualizado às 2:03 PM, Nov 16, 2019

«Chernobyl» - Jared Harris em entrevista

Jared Harris é o protagonista da série Chernobyl sobre a tragédia ocorrida na União Soviética, em 1986. Realizada por Johan Renck e com um elenco de luxo que inclui ainda Stellan Skarsgard e Emily Watson, a nova produção da HBO leva-nos aos dias terríveis do desastre nuclear. Conversámos com o ator britânico sobre a sua personagem, a rodagem e a relação com o realizador, as memórias do ator dos anos em que a tragédia ocorreu e as lições da história que todos devem retirar.

Fale-nos da sua personagem
Sou Valery Legasov, o cientista-chefe nas operações de limpeza e o tipo que tem de resolver a situação e “colocar a pandora na caixa”. Ele foi arrancado da sua vida normal de manhã, e colocado no pior sítio do mundo à tarde. Não é um herói. Se lhe perguntassem se preferia estar noutro sítio ele diria que sim imediatamente, mas compreende que terá de resolver tudo e não há hipótese de sair de lá até estar tudo tratado.

Apoiou-se em entrevistas e imagens da época para construir a personagem?
A União Soviética apagou muito do seu envolvimento e legado, mas existem algumas imagens que sobreviveram. Existe algo a destacar no tipo, mas isso não serviu para a nossa personagem.

A série começa com o seu suicídio. Porque acha que ele o fez?
Ele fê-lo no dia em que era suposto entregar outro relatório ao politburo, mentindo e dizendo que estava tudo bem. Queria que se soubesse a verdade, pois existia ainda um problema por resolver. Por isso o suicídio teve um propósito.

Como foi trabalhar com Stellan Skarsgard e Emily Watson?
Foi muito fácil, pois são ambos muito divertidos e acessíveis, e nada egocêntricos. Tentam fazer o seu trabalho o melhor possível, sem entrar em competição contigo. Fizemos companhia uns aos outros em Vilnius. Stellan (Skarsgard) adora comer bem, é um excelente cozinheiro e descobriu ótimos restaurantes. Tivemos grandes jantaradas bem regadas, onde partilhámos histórias sobre coisas incríveis.

E o Johan Renck como é?
Foi uma grande decisão ter um só realizador durante toda a rodagem. Desenvolves um método de trabalho e não tens de mudar com a mudança de realizador a cada episódio. Ele foi sempre muito franco e direto, sabia o que queria e trabalhou com a mesma equipa de câmara e de som e todos se conheciam uns aos outros e correu muito bem. Era uma equipa multinacional. Os operadores de câmara suecos, o departamento de som era francês, tínhamos assistentes ingleses, equipas lituanas. Estranhamente para filmes rodados na Europa, isso não acontece de forma frequente.

Como foi filmar no reator nuclear atual?
Esquisito. É muito sério. Há sempre um tipo à porta com uma metralhadora.

De que se lembra do tempo em que tudo aconteceu?
Lembro-me dos avisos sobre “ir à rua” em particular se fosse chover. estava em Londres na altura em que tudo aconteceu. Não podias beber leite. Pararam de vender cordeiro galês e foi quando o cordeiro da Nova Zelândia se tornou moda. Cada vez que há um desastre as pessoas abrem o seu Nostradamus e parece que ele tinha previsto Chernobyl. Desperta os lunáticos.

Houve alguma coisa que o chocasse ou surpreendesse agora que regressou à história?
Aquilo que mais me surpreendeu foi o heroísmo, sobre o qual não se ouve falar muito. Ouves dizer que uma tragédia enorme mas aquilo que ficou comigo da história foi a bravura das pessoas. Perceberam logo que não iam sobreviver, mas que teriam de fazer algo para evitar que a situação propagasse. As pessoas sacrificaram-se e essa parte da história não chegou ao Ocidente. Não fazia parte da narrativa que estavam a tentar impor sobre a União Soviética. Gorbatchov afirmou que aquilo determinou o fim da União Soviética – compreenderam que não podia haver uma guerra nuclear pois se deu tanto trabalho limpar tudo aquilo como é que podiam pensar em disparar aquelas armas? Destruiria o mundo todo.

Acha que é importante contar a história neste momento?
Sim. É uma história que serve de lição sobre má gestão. Acho que é sempre bom quando tens uma história que te leva a questionar aquilo que te foi contado. E aqueles que não têm culpa nenhuma do que aconteceu são sempre os que pagam o preço maior. Uma das obras na qual a série se baseia é “Voices from Chernobyl” e é impressionante tudo aquilo que as eles passaram, o que sofreram e o que perderam.

Chernobyl: A série que está a dar que falar (review)

Com um sucesso estrondoso, a minissérie «Chernobyl» subiu ao primeiro lugar do IMDb ao fim de apenas três episódios. Será que se consegue manter lá?

O que têm «Scary Movie 3 - Outro Susto de Filme» (2003), «A Ressaca - Parte II» (2011) e «Vigarista à Vista» (2013), três comédias de sucesso de Hollywood, em comum com «Chernobyl»? Acredite ou não, o argumentista do trio de filmes, Craig Mazin, é o criador responsável pela minissérie da HBO. Já o realizador Johan Renck é um nome mais associado a telediscos, mas tem estado envolvido em anos mais recentes na direção de séries como «Breaking Bad», «Vikings» ou «Bloodline». Currículos e origens à parte, a dupla combina de forma perfeita para criar a monstruosidade que é o drama histórico «Chernobyl».

É certo que todas as pontuações subjectivas têm uma importância relativa, mas a subida inesperada de «Chernobyl» ao topo das melhores séries de TV de sempre, no IMDb, colocou a minissérie no centro das atenções. Depois do final de «A Guerra dos Tronos», a HBO encontrou, ainda que temporariamente devido à sua curta duração, um novo êxito que tem conquistado a audiência, a crítica e a atenção dos media. A trama tem um total de cinco episódios, o quarto a ficou disponível esta terça-feira.

Chernobyl 4

Os fantasmas do passado ainda têm força para nos atirar ao chão

O desastre nuclear de Chernobyl, em 1986, é um tema recorrente nas salas de aula, nos canais de documentários e até em conversas circunstanciais. A explosão que destruiu a Central Nuclear, devido a um teste que correu mal e que teve erro humano, é também escrita de pessoas que morreram na noite da tragédia, ou como ‘danos colaterais’ nos dias e nos anos seguintes, sendo imensurável o impacto que a toxicidade teve na região. A narrativa coloca no epicentro da discussão o real – ainda que ficcionado – Valery Legasov (Jared Harris), um químico proeminente na sua época, que foi chamado a analisar a catástrofe e viveu depois atormentado com o que viu e descobriu.

Legasov terá gravado uma cassete antes da sua morte, onde abordava a conspiração por detrás de Chernobyl e a tentativa que houve de abafar a tragédia. É este o ponto de partida da minissérie, o áudio, seguindo-se uma viagem ao passado até ao momento imediatamente após a explosão, em abril de 86. Tendo na nossa posse, olhando do futuro, o conhecimento das consequências, torna-se doloroso assistir à desdramatização do desastre. Nikolai Fomin (Adrian Rawlins), o engenheiro-chefe da Central e apontado com um dos principais culpados, é um dos que se apresenta mais relaxados e em constante negação, desvalorizando as preocupações.

Chernobyl 3

Esta ingenuidade estende-se a hierarquias superiores, no início, bem como à população que se aproxima da colina para poder observar o incêndio em toda a sua grandiosidade. Sabemos o que vai acontecer, a radioatividade e a sua força, o erro que é tamanha exposição aos químicos e a recusa de extrair toda a gente da cidade, mas a série retrata isso de forma sublime. Até no simbolismo. A fazer lembrar uma chuva de cinzas, os resíduos de Chernobyl vão-se alastrando pelas redondezas e caindo sobre os bombeiros e as pessoas que, à distância, apenas admiram o ‘espetáculo’ de luzes.

O facto de sabermos o que se segue é um peso duro de levar às costas. De pouco importa se aquelas personagens não existiram, ou se as reais em que se inspiram não agiram exatamente assim: elas existem para servir a história, bem maior do que qualquer individualidade mas que, ainda assim, não quer descurar cada uma delas. Desenvolve-as, dá-lhes personalidade e complexidade, também para estabelecer uma maior empatia com a audiência. Não faltam elogios para «Chernobyl»; ser a melhor série de sempre ou não é discutível, mas a sua qualidade é algo que fala por si a cada episódio. Para abrilhantar ainda mais «Chernobyl», há um elenco de luxo, onde se destacam, além de Harris, Stellan Skarsgård, Emily Watson ou Donald Sumpter.

É quase impossível encontrar palavras para descrever o assombro que é «Chernobyl». O impacto com que cada queda, cada face vermelha e condenada pela toxicidade, cada descrédito do perigo e cada imponência nos atingem é avassalador. O público acompanha a narrativa consciente de muito do que nos espera, sem poder fazer nada, apenas testemunhando a estupidez (ou inocência) das escolhas e, posteriormente, os jogos políticos para conter o escândalo social e global do desastre de Chernobyl. Trata-se um murro certeiro no estômago, concretizado de modo sublime pela escrita do argumento e pela realização crua e próxima de Renk. Apesar da sua qualidade inegável, talvez fosse difícil ‘aguentar’ mais do que cinco episódios, tal a sua força.

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