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Actualizado às 11:43 AM, Jul 21, 2019

Daniele Luchetti - «Io sono Tempesta»

Onde encaixar um realizador de múltiplos êxitos de público e crítica, como Daniele Luchetti (de «A Nossa Vida») no atual planisfério de expressões artísticas requintadas de Itália? Desde 1985 até hoje, rodou produções festejadas nos grandes festivais da Europa e fora deles, como «Domani accadrà» (1988) e «Francisco, o Papa do povo» (2015). Mas de que modo enquadramos a sua forma de expressar a realidade em relação a seus conterrâneos? Lar de Federico Fellini, De Sica, Lina Wertmüller, Rossellini, Antonioni, Visconti, Pasolini, Monicelli, Bertolucci e de mais uma tonelada de mestres, o cinema italiano foi uma pedra no sapato de Hollywood de 1945, quando a fogueira do neorrealismo se acendeu, até meados dos anos 1990, um período de especulações financeiras no mandato inicial de Silvio Berlusconi como primeiro-ministro, em que a indústria audiovisual para o grande ecrã foi esmurrada, em prol da TV.

[texto originalmente publicado na Metropolis nº 67]

Por muito tempo, até há segunda metade dos anos 2000, só Nanni Moretti, Roberto Benigni, Pupi Avati, Gianni Amelio e Marco Bellocchio mantiveram a potência autoral da Itália em riste, mas sem a mesma mobilização popular vivida entre os anos 1960 e 80. De lá veio o spaghetti western (com Sergio Leone e Tonino Valerii), o Peplum (filmes de gladiadores romanos, como «Os últimos dias de Pompeia»), a comédia erótica (sofisticada como «Pato com Laranja» ou brejeiras como «A Liceal»), o giallo (terror com psicopatas e aparições, tipo «O Pássaro com Plumas de Cristal») e Trinitá (a série com Bud Spencer e Terence Hill). Mas todos esses filões ficaram para trás, enquanto as produções de Roma, de Turim, da Sicília e companhia perdiam a força, dando àquele país uma fama de decadência cinematográfica. Má fama, aliás. Mas esta se diluiu a partir de 2008: ali, uma nova geração de diretores ganhou projeção internacional aos olhos da crítica e ao gosto do público. Batizada informalmente de Risorgimento, essa onda autoral é movida pela narrativa nada convencional de realizadores que não se renderam à tradição como Alice Rohrwacher («Lazzaro Felice»), Emanuele Crialese («Terraferma»), Saverio Costanzo («A Solidão dos Números Primos»), Laura Bispuri «Figlia mia»), Luca Guadagnino («Eu sou o Amor»), Paolo Sorrentino (do oscarizado «A Grande Beleza»), Matteo Garrone («Gomorra») e Luchetti. Aliás, há uma comédia inédita para lançar este mês em Itália, «Momenti di trascurabile felicita», sobre um sujeito dado a excessos que precisa reinventar sua vida.

Aos 58 anos, Luchetti, nascido em Roma, ficou mais conhecido por entre nós por «O Meu Irmão é Filho Único» (2007). Atualmente, anda com pouco tempo para olhar para trás e avaliar o que fez de melhor, inclusive a sua longa-metragem mais recente, «Io sono Tempesta» («O Rei de Roma»), foi lançado no Brasil em março. Não é da natureza do cineasta – uma presença habitual em festivais de prestígio como Cannes, Locarno e San Sebastián – repensar o passado, sobretudo o do seu país nas telas. Apesar do seu respeito pela tradição neorrealista de Rosselini, De Sica & Lda e da verve política de Marco Bellocchio e Elio Petri, ele filma comédias (algumas delas cheias de dor e fúria, como «Anos felizes») para se libertar de referências e conceitos institucionalizados e procurar a sua própria voz autoral. Sucesso de público e crítica, a sua obra é focada em costumes e afetos refreados por arreios morais. É o que se vê, hoje no Brasil, na história do milionário Numa Tempesta (vivido por Marco Giallini). A sua história, agora em circuito carioca, arrebatou risos e elogios em Cannes, em maio de 2018. Ali, Luchetti estreou esta divertida sátira sobre avareza e cobiça, centrada no processo de redenção de Numa Tempesta após de ser obrigado a prestar serviço comunitário. Na entrevista que se segue, dada à revista Metropolis, Luchetti fala sobre os riscos de ser popular nas telas da Itália.

Luchetti O Rei de Roma

Os seus filmes não têm medo da palavra: fala-se muito neles e, da fala, vem o riso. Mas há uma “amarra” autoral que rebaixa a força estética da palavra. Como driblar tal preconceito?
Daniele Luchetti: A França serviu-me melhor para isso do que os mestres italianos. No início dos anos 1980, franceses como Éric Rohmer, Jacques Rivette e François Truffaut fizeram filmes que me marcaram muito, como «Paulina na praia», de 1983, no uso da palavra. Esses diretores mostraram-me que o real não vem, necessariamente, de uma mirada documental silenciosa para uma paisagem humana. Um bom diálogo pode revelar muito da realidade. É do trato com os atores que brota o real que me interessa estudar.

Qual é a Itália que o senhor retrata nos seus filmes?
É um país que precisa de reaprender a rir de si mesmo e recuperar a sua leveza.

«Io sono Tempesta» traz provocações políticas, traz um olhar sobre a mecânica financeira da economia italiana, mas aposta, com maior peso, na afetividade e no riso, ao narrar o rito de passagem de Numa Tempesta rumo à redenção. De que maneira essa comédia de costumes traduz as atuais inquietações morais da Itália, em meio a suas crises económicas recentes?
Muito se fala e se pensa em política na Itália, mas não é esse o caminho que eu sigo e sim o do humanismo, buscando um paralelo entre os afetos e as contradições sociais. Gosto de transgredir normas, entre elas a de uma obrigatoriedade autoral que se impõe por aqui, na Itália, e que leva os diretores, das mais variadas gerações, a evitar projetos que falem com o público de modo mais direto, frontal. Minha vocação é fazer filmes de entretenimento, mas sem abrir mão de conteúdo. Foi o que eu aprendi com o cinema americano dos anos 1970 de diretores como Robert Altman e Hal Ashby. Aquela década foi a última era de cinema para um público adulto nos Estados Unidos.

O senhor cita diretores autorais de Hollywood, mas vem de um país que fabricou génios a granel nas telas, como Fellini, Antonioni, Pasolini. Essa tradição italiana pesa? E quanto?
Cresci nos anos 1970, a época áurea do cinema político italiano, com Elio Petri, Francesco Rosi, Marco Bellocchio. Não é por acaso, que um dos meus primeiros filmes, «Il portaborse» (em português, «O homem da Pasta»), tinha uma carga política. Mas eu busquei um caminho distinto da tradição da minha pátria: troquei o neorrealismo pelo que chamo de “neoirrealismo”. É assim que eu batizo o meu esforço de abordar o mundo real sob um filtro de humor. «O Rei de Roma», por exemplo, trata da relação pai e filho com ironia.

Luchetti Em Momenti di trascurabile felicita

O senhor descreve sua estética comprovadamente popular, e respeitada em festivais, como sendo algo à margem. Por quê?
Houve um tempo em que a Itália investia em géneros: filmes de terror (o giallo), comédias eróticas, bangue-bangue (o spaghetti western) e filmes de gladiador (que são chamados de Peplum). Mas, a partir dos anos 1990, com uma série de retrações na nossa indústria, os cineastas perderam essa conexão com o grande público do passado e filmografias hegemónicas a tomaram conta do país. Isso fez com que as gerações de cineastas que vieram a partir de 1990 passassem a acreditar que o filme autoral, sem género, sem formato específico algum, fosse o único caminho. Isso deu lugar a muitos filmes de autor de má qualidade. E fez a ideia do filme de entretenimento parecer uma ousadia. Mas eu prefiro os corações livres do que ideologias, amarras criativas.

Falando em atores, ao lado de Marco Giallini, que interpreta Numa Tempesta, «Io sono Tempesta» traz o seu intérprete mais fiel, Elio Germano, premiado em Cannes por «La mostra vita» (2010), o filme mais elogiado que o senhor fez até hoje. O que Germano acrescentou?
Sou um diretor intuitivo, sem métodos, apoiado no humor. Germano me oferece a possibilidade de ampliar as dimensões dos afetos que eu busco representar, pois ele, em cena, é pura emoção.

O seu embate com a emoção, filme a filme, fez escola já em Itália. Há diretores mais jovens, como Laura Bispuri (de «Figlia mia») e Claudio Giovannesi (de «Os Meninos da Camorra») que parecem seguir essa trilha afetiva em que você milita. De que forma você encara essa inspiração que gera nos seus conterrâneos?
Tenho uma comédia inédita, chamada «Momenti di trascurabile felicità», para lançar a 14 de Março, e penso mais nisso do que em ser referência ou do que em utilizar os diretores de que gosto como parâmetro. Gosto muito de Ken Loach, por exemplo, por ficar encantado com o fato de ele construir uma dramaturgia viva, sem medo de ser palavroso, sem a necessidade de uma estetização da imagem. A fotografia é realista, simples, sem adereços. O apreço que tenho por ele ilumina-me, mas eu não tento reproduzir o seu caminho. É difícil criar uma imagem original no cinema contemporâneo. Mas isso não me obriga a reproduzir passo a passo os enquadramentos dos cineastas de que gosto. É a dramaturgia que me dá o caminho.

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