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Actualizado às 5:53 PM, Jan 17, 2020

«Pássaros de Verão» - crítica

No princípio era a Palavra. Com a tela ainda negra, e enquanto rolam os créditos iniciais de «Pássaros de Verão», escutamos o canto e o sussurrar de uma língua estranha. Escutamos o som da chuva, do deserto e dos pássaros. Misturam-se diferentes estações e gerações. Estamos em La Guajira, extremo norte da Colômbia, num território hostil onde há séculos os Wayúu lutam por manter viva a sua cultura e identidade. Depois de um ano em reclusão, Zaira (Natalia Reyes) está pronta a entrar na idade adulta e a sua mãe, Úrsula (Carmiña Martínez), repete para ela as mesmas palavras que provavelmente a sua avó, e antes dela a bisavó e a trisavó repetiram às suas filhas: «Se há família, há respeito. Se há respeito, há honra. Se há honra, há palavra. Se há palavra, há paz». E o que acontece quando uma destas ligações se quebra? A resposta que «Pássaros de Verão» tem para nos dar é desoladora.

Depois do sucesso internacional de «O Abraço da Serpente» (2015), Ciro Guerra e Cristina Gallego voltam a juntar forças, desta feita para desafiar a visão estereotipada e glamorizada do tráfico de droga na Colômbia, centrando-se no impacto que este negócio criminoso terá tido nas comunidades indígenas. Entre as décadas de 1960 e 1980, período retratado no filme, o narcotráfico cresceu de forma totalmente descontrolada, trazendo simultaneamente a riqueza e a destruição de muitos. Assumindo-se como ficção, «Pássaros de Verão» resulta contudo de um longo processo de pesquisa que Guerra e Gallego começaram ainda em 2009, aquando das filmagens de «As Viagens do Vento», justamente na zona de La Guajira. Dos muitos relatos e histórias pessoais que ouviram brotou esta epopeia em cinco cantos sobre a ascensão e queda de uma família poderosa, os Pushaiana.

Visualmente deslumbrante, «Pássaros de Verão» não retrata os Wayúu como um povo impoluto e ingénuo. Sobretudo Úrsula, a matriarca do clã, ela é simultaneamente a grande guardiã dos saberes e tradições ancestrais dos Wayúu e a face mais clara da decadência desses mesmos valores. Quase se pode dizer que é a sua ambição e calculismo que despoletam toda a tragédia. Mas, claro, isso seria uma explicação demasiado simplista. À ganância e à inércia das personagens, ao amor e ao desejo é preciso juntar também o capricho do destino — e os dólares americanos. No fundo, na sua estranheza e singularidade, «Pássaros de Verão» não conta apenas a história dos Wayúu.

cinco estrelas

O ABRAÇO DA SERPENTE - Entrevista CIRO GUERRA

Indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro e agraciado com 16 láureas por esse mundo afora – a começar pelo prêmio da Confédération Internationale des Cinémas D’Art et D’Essai, na Quinzena dos Realizadores do último Festival de Cannes –, «O Abraço da Serpente» reescreveu a história contemporânea da indústria audiovisual colombiana, abrindo as portas estéticas da selva amazónica para o mundo. Dirigido por Ciro Guerra, a longa-metragem narra um périplo de descobertas e trocas multiculturais vivido pelo xamã indígena Karamakate ao longo de 40 anos de relação com dois cientistas brancos. Na entrevista a seguir, seu realizador – nascido na região de Rio Del Oro, há 35 anos – dá um panorama da Colômbia nas telas e explica a aventura de filmar um épico metafísico sobre tolerância.

Mais do que prémios, mais do que consagração, «O Abraço da Serpente» deu a você uma chance de mergulhar esteticamente em um universo muito distinto do nosso que é a realidade da Amazónia e também sua mitologia. O que você trouxe da floresta que mudou seu olhar?
CIRO GUERRA – Esse projeto mobilizou 15 anos da minha vida e me deu capacidades que eu não teria como resumir em palavras, porque, antes de tudo, o filme ensinou-me a ver o mundo de um outro lugar, um outro ponto de observação: o dos xamãs, o da floresta. Perdi muito peso nesse processo. Peso espiritual, peso intelectual, até um peso afetivo. Foi uma libertação, pois «O Abraço...» levou-me a buscar um novo estado de espírito na direção do sonho, de modo que eu pudesse me libertar de referências sensíveis do próprio cinema e buscar o entendimento da novidade à minha frente sem a muleta da lógica, do pensamento cartesiano.

abraco 4

Que Amazónia você buscou ali?
GUERRA – Quase não existem mulheres no meu filme, mas não por um machismo e sim porque o ideal de feminino precisava estar encarnado na própria simbologia da Amazónia que, no fundo, é a protagonista da trama. Ela é a mulher mítica de onde tudo se origina.

O seu filme é muito comparado aos trabalhos mais radicais de Werner Herzog, como «Aguirre, a Cólera de Deus» (1972), e mesmo à estética de Alejandro Jodorowsky. Seriam referências reais para sua obra ou mera analogia?
GUERRA – A comparação com «Aguirre» me deixa feliz por ser um importante parâmetro de entendimento da selva, mas foi um referencial de que precisei me libertar pois todo o procedimento de «O Abraço...» envolvia o desapego e a criação de uma espécie de contra-plano sensível em relação a esses filmes, uma reacção simbólica a eles, que só aconteceria se eu alcançasse um olhar de descoberta. Era como se eu estivesse olhando tudo pela primeira vez.

Como é que seu fotógrafo, David Gallego, ajudou nesse processo?
GUERRA – Tínhamos uma explosão de cores à nossa volta, por conta da diversidade da fauna e da flora da floresta. Mas não poderíamos nos render à mimese do real. A questão central da fotografia era utilizar o preto e branco de forma a libertar a imaginação do espectador e fazer com que ele seja capaz de preencher a ausência de cor nas imagens à sua frente do jeito que sua invenção permitir. É a plateia quem deve colorir o filme, a partir de sua própria experiência sensível.

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Tem sido comum nesse tipo de imersão em outras culturas a busca por um traço mais documental na narrativa. Mas «O Abraço da Serpente» não parece ter caminhado nessa direção. Porquê?
GUERRA – Porque eu estou retratando uma Amazónia que não existe mais. Não é um espaço real e sim um ambiente do passado reconstituído a partir de uma experiência sensorial.

Qual é a situação atual do cinema da Colômbia?
GUERRA – Nos últimos cinco anos, o Estado passou a atuar de maneira mais direta no cinema o que permitiu a estreia de jovens realizadores, afoitos por uma linguagem mais dinâmica, interessada em realidades de nosso país que passaram muito tempo ocultas. Foi o caso por exemplo da realidade indígena de «O Abraço... »

Qual é o próximo projeto? A Amazónia estará nele?
GUERRA – Não. Meu próximo longa se chama «Pássaros de Verão» e se passa numa região desértica, falando sobre o tráfico de drogas.

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