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Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

O Menino e o Mundo - Alê Abreu

Entre negociações (prestes a serem fechadas) de uma série de TV na França, Alê Abreu, animador paulistano de 44 anos, recebeu no dia 14 de janeiro uma notícia que fez seu nome despontar entre os realizadores mais importantes da história do cinema brasileiro. Naquele dia, ele soube que seu aclamado longa-metragem «O Menino e o Mundo», ganhador de 45 láureas internacionais, foi selecionado para concorrer ao prêmio dos prêmios, o Oscar. Orçada em R$ 1,5 milhão e desenvolvida ao longo de três anos e meio de pesado trabalho nas fornalhas da Filme de Papel, produtora fundada por Abreu na década de 1990, a fantasia de tintas sociais sobre um garotinho em busca do pai disputa a estatueta de melhor longa-metragem de animação na premiação de 2016 da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. É a primeira vez em 118 anos de História que o setor audiovisual do Brasil vê um filme animado galgar tamanha visibilidade aos olhos da indústria internacional.

“Este filme carrega consigo um grito histórico da América Latina: o grito de utopia dos excluídos e dos revolucionários que sonham com um mundo de harmonia”, desabafa Abreu, diretor de curtas-metragens cultuados como «Espantalho» (1998), que estreou em longas em 2007 com «Garoto Cósmico», já marcado por toques de existencialismo, corrente que alinhava as contemplações de «O Menino e o Mundo». “Tenho a sensação de que a mistura de técnicas que meu longa faz é um reflexo de todas as misturas que compõem o Brasil, um país até hoje carente de um pai que o ampare. Um país que segue em frente, acreditando... lutando... No dia 28 de fevereiro, eu estarei lá em Los Angeles, na festa do Oscar, acreditando também, com fé de que vamos ganhar”.

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Toda a consagração mundial de «O Menino e o Mundo» teve como estopim a dupla vitória da produção em um dos mais prestigiados festivais do planeta, o Festival de Annecy, na França, apelidado de “Cannes da animação”. Em 2014, ele saiu de lá com o prêmio máximo do júri oficial e do júri popular. Ali começou uma trajetória de vitórias que pode ser coroada com o troféu hollywoodiano.

“Fiquei muito feliz, um dia desses, quando recebi uma mensagem do Pete Docter, o diretor de «Divertida Mente» (encarado como o rival nº1 de Abreu na briga pelo Oscar), parabenizando-me pela qualidade de «O Menino e o Mundo»”, celebra o diretor, que já prepara um novo longa: «Viajantes do Bosque Encantado». “Em parte, quem me colocou no Oscar foi o público que votou em mim em Annecy. Lá, o júri popular é votado por uma plateia muito especializada, que comporta muitos integrantes da Academia. E, no ano que ganhei, foi surpresa ver eles se encantarem por um trabalho como o meu, que, no processo, é muito psicanalítico”.

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A fim de ter um espaço de atenção no coração dos votantes da Academia, Abreu conta com o poder de fogo de sua distribuidora nos EUA, a GKdis, que já disponibilizou para os americanos cultos como «O Conto da Princesa Kaguya» (2013) e «Chico & Rita» (2010), ambos indicados ao Oscar. “Ela é a mais importante na distribuição de animações mais autorais, como «Ernest & Célestine», com um catálogo invejável que adquire dois ou três longas estrangeiros por ano, numa seleção feita a dedo”, diz o cineasta, que trabalha agora com o produtor Didier Brunner, lenda responsável por longas como «As Bicicletas de Belleville» (2003), na feitura de uma série de DNA francês com base em «O Menino e o Mundo». “Este projeto será uma mistura do universo do meu filme com um material documental do projeto «On The Way To School», sobre a vida de crianças de diferentes países que enfrentam dificuldades para chegar ao colégio”.

No Brasil, Abreu ainda desenvolve uma outra série, «Vivi Viravento», da qual será supervisor artístico. E, agora, com a promoção de seu nome a partir do Oscar, seu repertório de ideias pode ganhar ainda mais respeitabilidade entre os órgãos de fomento no Brasil, cuja animação vem se estabelecendo internacionalmente mais e mais a cada ano. “Eu comecei na carreira de animador aos 13 anos, três décadas atrás, e, desde então, vi muita coisa mudar no cinema brasileiro”, diz Abreu. “Eu vi novas tecnologias, digitais sobretudo, tomarem o lugar do acetato. Eu vi o Anima Mundi se estabelecer como um dos maiores festivais do mundo. Eu vi o 35mm desaparecer. Vi as leis de incentivo aparecerem como um meio de manutenção da nossa indústria. Foi muita mudança. Mas nessa transformação toda, nossa qualidade jamais caiu. Nossa animação só fez crescer”. 

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