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Actualizado às 9:31 PM, Aug 22, 2019

Cate Shortland - Lore

Quando fez o seu Hitler – Um Filme da Alemanha (1977), o realizador Hans-Jürgen Syberberg foi muito atacado por construir um retrato de Adolf Hitler que, supostamente, não satisfazia as exigências “informativas” decorrentes da própria personagem. Não era, de facto, um filme feito de coisas “objectivas” (a ópera era essencial na sua estrutura e muitas cenas utilizavam marionetas para figurar personagens). Em todo o caso, Syberberg teve o cuidado de lembrar que um “tema”, seja ele qual for, nunca está definitivamente estabilizado no plano estético ou narrativo. Até porque, acrescentava ele, o assunto nuclear do seu filme não era Hitler como personagem exterior, mas sim através de uma pulsão inevitavelmente introspectiva. Ou seja: “Hitler em nós”.

Quase quarenta anos depois, pode dizer-se que o prodigioso filme de Cate Shortland, Lore, mesmo com todas as diferenças de tom e estilo que o separam do trabalho de Syberberg, prolonga o seu voto interior e intimista. Isto porque Lore filma a Segunda Guerra Mundial (mais concretamente os tempos que se seguem à derrocada militar do exército hitleriano) a partir do menos frequente dos ponto de vista: o dos alemães vencidos.

Entenda-se: não se trata de atrair aquela retórica estúpida que proclama que, afinal, eram “todos” iguais... Estamos perante um objecto de cinema demasiado inteligente para que caiamos no erro de o reduzir a qualquer esquematismo ideológico ou simbólico. Assim, se é verdade que Lore enfrenta com enorme precisão e contundência a violência da ditadura nazi e o horror do Holocausto, não é menos verdade que o seu retrato do lado alemão se distingue por uma impressionante frieza, atenta a todas as complexidades e ambivalências.

Lore 3

Aliás, a proposta de Cate Shortland é tanto mais espantosa quanto ela lida, de princípio a fim, com uma galeria de personagens muito jovens: Lore, interpretada pela admirável Saskia Rosendahl, é uma adolescente que,
depois de perder o contacto com os pais (sendo o pai um oficial do exército alemão), se vê coagida a empreender com os seus quatro irmãos um trajecto de várias centenas de quilómetros para tentar chegar a casa da avó.
Francamente invulgar é o modo como tal viagem, mesmo com todo o seu envolvimento trágico (a certa altura, Lore é protegida por um homem que tem um número tatuado num braço, sinal terrível da sua passagem por um campo de concentração), integra também alguns elementos que remetem para o imaginário da fábula. Em boa verdade, Lore é uma “alma errante” que, na presença gélida dos cenários naturais, procura um sentido para aquilo que, de tão violento, ela nem conseguia imaginar. E raras vezes se terá visto um filme capaz, como este, de mostrar as paisagens, não como um elemento “decorativo”, antes como peças de uma teia dramática em que nenhum lugar é neutro.
Para Cate Shortland, Lore corresponde também a uma necessidade interior de acertar contas com um passado que, como ela refere, passou a fazer parte da sua biografia – isto porque, sendo ela australiana, o seu casamento com um cidadão alemão, gerou um impulso essencial para revisitar e questionar a história da Alemanha.

Nesta perspectiva, poderá dizer-se que Lore reflecte uma certa vaga realista que, de forma mais ou menos irregular, mas nem por isso menos intensa, tem marcado algum do mais interessante cinema europeu dos últimos tempos. Apesar de todas as vulnerabilidades económicas e políticas da nossa Europa (ou precisamente por causa delas), há realizadores que não desistem de um confronto muito directo com a sua pesada herança histórica. Nesse processo, individual e colectivo, ético e estético, Lore vai ficar como uma peça incontornável.

Lore 2

O livro em que se baseia “Lore” («The Dark Room», de Rachel Seiffert) contém três histórias em épocas diferentes: porquê a opção de só tratar a história de Lore?
Das três histórias, Lore era a mais ambígua e assustadora. Não existe nenhum desfecho redentor, apenas este anseio pela verdade. Também é bastante sensual na forma como é contada. Sentimo-nos como se lá estivéssemos. Como é dito em belos detalhes, as veias sob a pele, o orvalho pingando das folhas, a pele tornando-se cor-de-rosa na água gelada.

Como foi a pesquisa para “Lore”?
Investigar para este filme foi bastande difícil. Fiz muita pesquisa sobre os Einsatzgruppen [grupos paramilitares operados pelas Schutzstaffel (SS) cuja principal tarefa era combater as guerrilhas soviéticas durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial] uma vez que o pai de Lore era um oficial deles na Bielorrússia. Isto era horrível pois compreendemos realmente que muito do Holocausto foi levado a cabo pessoalmente, por indivíduos. Não, como alguns historiadores gostariam que acreditássemos, por pessoas sem rosto operando como máquinas. Os melhores dias da pesquisa foram com um grupo de berlinenses idosos que me falou da sua infância sob o facismo. Juntar-se à Juventude Hitleriana, o seu amor ao Fuhrer, etc. Foi óptimo pois existiu um homem muito honesto que falou abertamente e abordou a realidade sem desculpas ou tentativas de romantizar. Ele ajudou-me bastante na forma como pensei a doutrinação de Lore.

Os locais e as atmosferas são bastante intensos em “Lore”. Foi difícil explorar estes lugares “amaldiçoados”?
Na verdade, muitos dos locais são historicamente precisos. A casa onde filmámos em Gorlitz tinha sido tirada a uma família judia nos anos 30. A fábrica onde as crianças dormiram era uma fábrica de armamento. Operada por trabalho escravo. No primeiro dia de rodagem, o meu marido disse Kadish [uma prece especial judaica dita em memória de familiares falecidos], talvez um gesto estranho, mas todos fizemos. Estávamos intensamente conscientes das realidades, pois os seus avós tinham escapado da Alemanha Nazi.

Como é que definiria o seu filme: um drama de Guerra ou a história de uma análise psicológica?
Penso que é uma análise psicológica sobre a doutrinação. O que significa descobrir que o seu adorado pai é um assassino em massa.
No centro da narrativa, o livro requer que Lore enfrente as crenças de uma ideologia com a raiz das emoções humanas. Foi um trabalho difícil para Saskia Rosendahl na sua estreia em cinema?Ela é uma actriz muito talentosa e corajosa. Ela vai para lugares assustadores e não foge deles. Portanto, foi uma grande alegria trabalhar com ela. O amor e a sexualidade no filme está em nítido contraste com a ideologia. Isto é o que é realmente - uma chapada na face do Fascismo. Ela sente, ela deseja – não políticas e não a pureza, mas o “outro”. Aquele que foi ensinada a odiar.


Após Abbie Cornish [em “Salto Mortal”], descobriu outro talento em Saskia Rosendahl?
Ambas são mulheres muito bonitas e verdadeiras, também muito inteligentes.

Pode explicar a dicotomia na fusão entre a natureza humana e o ambiente natural em redor destas crianças perdidas na floresta? O filme tem elementos semelhantes a uma fábula?
Pesquisámos fábulas como a da Capuchinho Vermelho. Onde o perigo espreita das sombras, mas em que a natureza também é uma força purificadora. Cresci com essas histórias, tenho um livro em particular em que as ilustrações são tão assustadoras que não o posso ler à minha filha. A minha mãe lia-me essas histórias de terror como uma coisa natural, acho que elas estão profundamente enraizadas na minha psique. Definitivamente, sinto que esta foi parte da minha atracção para o material.

No filme, tudo parece e sente-se harmonioso. Até que ponto foi importante trabalhar com Adam Arkapaw, Jochen Dehn e Stefanie Bieker?
Colaborámos de forma muito próxima no “design” visual. A Stephanie trabalhou os figurinos e Silke Fischer fez o “designer” da produção, com Jochen a assisti-la. Tivemos muito entusiasmo com o aspecto e acho que se percebe, os espectadores acharam-no muito comovente. Portanto, fomos bem-sucedidos.

Foi-lhe muito difícil lidar com este passado perturbador?
Difícil. Mas para mim está na minha imaginação. Muitas pessoas lidam com estes temas todos os dias, como uma realidade, do Holocausto e também dos abusos terríveis que continuam nos nossos dias. Temos o privilégio de fazer filmes e saltar para mundos diferentes, mas depois podemos escapar e regressar a uma realidade segura. Muitos não têm esta escolha.

O que pode o público esperar a seguir de Cate Shortland?
Estou a escrever a um ritmo diabólico. Para televisão e espero fazer outro filme em breve.

(Publicado originalmente na Metropolis nº10)

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