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Actualizado às 11:43 AM, Jul 21, 2019

Nicolau Breyner - A carreira

A propósito do 1º aniversário da sua escola de representação, a NB Academia, falámos em Abril de 2015 com Nicolau Breyner, 74 anos, ator, realizador, produtor e agora também professor, um verdadeiro “homem dos sete ofícios”. Viajámos ao início da sua carreira, escutámos a sua visão sobre o atual mercado da representação e acerca do cinema em Portugal. Deixou-nos, ainda, uma promessa: não quer ouvir falar de reforma e vai continuar a trabalhar até que “a voz lhe doa”!

Boa tarde, Nicolau, estávamos aqui em off, a falar sobre os realizadores com quem já trabalhou. Qual o próximo projeto?
Vou trabalhar com o Leonel Vieira. Parto para o Brasil no dia 21, onde vou estar um mês. Até lá tenho a Academia para gerir.

A NB Academia celebra o seu 1º aniversário. Como é que tudo começou? Donde veio a ideia para a fazer?
É uma ideia que está latente em mim há muitos anos. Sempre pensei que a certa altura da minha carreira iria dedicar-me a ensinar o que aprendi durante tantos anos com tanta gente. E surgiu esta oportunidade: nasceu a sociedade com a Ana Costa (produtora) e tive a felicidade do Dr. António Costa ceder este espaço (Palácio Pancas Palha, zona de Santa Apolónia). Foram criadas as condições. Falei com professores, dos melhores que existem, penso eu.

Como foi a escolha dos professores? Eram pessoas que já tinham trabalhado com o Nicolau? Conhecia-as?
Conhecia-as todas: o Adriano Luz, a Sandra Faleiro, O José Eduardo, o Nuno Baeta, entre muitos. Escolhi-os, criámos os módulos num curso de três anos. Está a correr muitíssimo bem e estamos no último semestre.

Com uma seleção cuidadosa dos candidatos também?
Sim. Tivemos algum cuidado porque acho que não vale a pena enganar as pessoas...

Criar expetativas para depois...
É... repare, isto de ser ator: aprende-se, aperfeiçoa-se, procura-se, encontra-se. Agora há uma parte que é da massa de que o ator é feito, que vem de casa. É feita pelo pai e pela mãe. Aqui não se fazem massas a partir do nada: temos aqui um belíssimo bloco de granito, vamos esculpi-lo. Mas se não tivermos o granito não vale a pena.

Portanto, logo à partida, há uma seleção cuidadosa?
Tem que haver uma seleção. E tem corrido muitíssimo bem. Já temos inscrições para o próximo ano letivo.

A formação é para as diferentes áreas: cinema, televisão e teatro?
A formação é para ator. Há duas formas de representar: bem ou mal. Mas aqui nós estamos focados na representação para cinema e televisão. O trabalho é feito mais com câmaras. Quase todos os exercícios são feitos com câmaras, fazemos pequenos filmes, exercícios, curtas, para habituar os alunos ao trabalho com câmara. E temos o cuidado de fazer isso. Talvez seja aquilo que nos distingue de outras academias ou escolas: a nossa tem uma vertente que é mais focada no cinema e na televisão.

Existe alguma coisa que o Nicolau costume dizer aos jovens que chegam à escola?
Não, pergunto sempre se eles realmente querem ser atores, pois há uma grande confusão entre o que é ser ator ou ser conhecido. Ser conhecido é muito mais fácil, e muito mais barato, dá menos chatices...

E não dá trabalho?
Não dá trabalho nenhum. Há dez receitas para uma pessoa ser conhecida. Agora ser ator é outra coisa. Isso dá trabalho, chateia, dá desgostos, dá grandes prazeres também!

Qual a situação atual no mercado de representação?
Não é brilhante porque há muitos atores a viver em condições muito graves, em especial os mais velhos. Se olharmos para o mercado da televisão verificamos que não há muito espaço para os atores mais velhos, a produção está centrada em atores muito jovens. Não faço juízos de valor, não sei se é bom ou mau...

Não há papéis para os atores mais velhos?
Há muito menos papéis. Portanto, os atores mais velhos estão numa situação pior. Agora produz-se mais telenovelas, mas não há sitcoms, há poucos seriados, há poucos filmes...

Até séries históricas...
Sim, também não aumentou. O que aumentou foram as novelas. Mas pensando bem, se calhar o mercado também diminuiu.

Será que isso está relacionado com o excesso de importância que hoje é dado à imagem, à beleza física, à juventude ...
À juventude, sim. A primeira coisa que se escreve num artigo é: fulano tal, entre parêntesis, em excelente forma física! E isso não é uma coisa muito importante. É bom, mas não é o mais importante para um ator e para uma atriz...
Pois, porque é quase um boneco que se pede, e não um ator...
Sim.

E comparando a situação de hoje com o tempo em que o Nicolau começou?
Em primeiro lugar, não havia televisão, pouco cinema, havia sobretudo muito teatro: nessa altura, em Lisboa, havia 16 teatros a funcionar. Não estou a falar de espaços, mas sim de teatros a sério, era aí que era feita a nossa vida! Só o Parque Mayer tinha quatro!

E televisão não havia, praticamente?
Havia muito pouco. Estreei-me na televisão no Auto da Alma (Gil Vicente) a fazer figuração. Era aluno do Conservatório. Foram-me buscar a mim e outros alunos do conservatório. A televisão era muito insipiente ainda e para ser ator nós tínhamos um problema: as carteiras profissionais. Só podíamos representar se tivéssemos carteira profissional, como acontece na maior parte dos países – Inglaterra e EUA. Em Portugal, à época, ou se tinha carteira profissional passada pelo conservatório – a única escola de representação – ou então estava-se três anos numa companhia estatal (o Teatro Nacional, ou o Teatro Nacional Popular (no Teatro da Trindade) ou então ainda noutra que não me lembro muito bem). E, ao fim desses três anos, o diretor da companhia passava-lhe um certificado. Não sendo assim não se podia trabalhar.

Viajando agora pela sua carreira como ator, queria que nos contasse como tudo começou. Pois bem, veio para Lisboa com a família com nove anos, estudou no Liceu Camões ...
E o meu pai tinha um colégio dele. Fui aluno desse colégio. Depois acabei o 7º ano, e... de repente descobri que a ópera seria o meu futuro. Fui para a Juventude Musical Portuguesa. Estive em Itália como bolseiro. Voltei. E os meus pais sempre a dizerem-me que não, que devia ir para Direito. Mas quando viram que não queria desistir, o meu pai chamou-me e disse-me: se quer fazer ópera porque não tira um curso de teatro, como complemento da ópera. Fui para o curso de teatro e comecei no teatro porque não tive coragem de cantar ópera. Para a ópera é preciso uma disciplina física e mental, quase dum atleta de alta competição – não se pode fumar, deitar tarde, beber, apanhar sol, namorar muito. Pensei...

“Sou muito novo para isso!”?
Sim, claro. Depois, comecei a sair à noite, o teatro, as pessoas, entrei para o conservatório. No final do 1º ano fui requisitado para uma companhia das tais estatais, a do Ribeirinho (Francisco Ribeiro), que veio a ser um dos meus grandes mestres. Fiquei lá, acabei o conservatório e dois dias depois apareceu-me o sr. Alexandrino a dizer que tinham gostado do meu exame e queriam contratar-me.

Do seu ano do conservatório quais os nomes que seguiram carreira como atores?
A Florbela (Queiroz) – inscrevemo-nos no mesmo dia; o João d’Ávila. O nosso curso acabou com três pessoas. As pessoas iam desistindo e ficaram só três.

Na sua longa carreira como ator, quais os momentos decisivos? Por exemplo, no teatro?
Não sei! Fiz tanta coisa, e se calhar estou-me a esquecer ou a ser injusto. Agora, posso falar-lhe de pessoas que me marcaram: a Laura Alves marcou-me muito; a Eunice Munõz, estreei-me com ela; o Rogério Paulo, o Wallenstein, o Costa Ferreira, o Armando Cortez...Tive uma sorte tremenda ...

Aprende-se muito com quem se contracena...
Muito! É assim que se aprende muito. E tive a grande sorte de ter sido “um bocado adoptado” por eles. Era assim o miúdo que andava ali. Na “Leonor Teles” era eu, a Florbela e o João Lourenço. E depois o Ribeirinho, que era aquele homem mal disposto, introvertido, que mais sabia de teatro não só em Portugal como em qualquer parte do mundo, mas depois era um bem disposto também. Como eu me metia muito com ele, começou a abrandar a couraça comigo e criámos uma grande amizade, além de termos trabalhado juntos, por exemplo, no teatro de revista...

Pois, porque o Nicolau trabalhou muito no teatro de revista?
20 anos! Fiz revista, musicais, fiz drama, tudo e mais alguma coisa.

E na televisão, há algum momento marcante?
A Vila Faia, claro! porque é a primeira novela.

E o um momento decisivo no cinema. O primeiro filme?
Foi «A Raça» (1961). Um papel pequenino: tinha que andar de moto ao lado da Teresa Mota a tentar engatá-la. Atropelei-a, ia partindo a câmara e acabei a cena a pé! Depois foram muitos filmes...

Quais as diferenças entre o cinema dos anos 60 e o da atualidade?
Fazia-se muito pouco cinema nos anos 60. Foi uma época negra. Há uma época brilhante do cinema, das comédias dos anos 40, depois nos anos 60 aquilo faz quase um fosso! Não se produziam grandes filmes.

E as equipas eram grandes?
Eram maiores do que são agora. A mão-de-obra era mais barata, havia mais dinheiro, portanto eram muito maiores. O cinema tinha à volta de 40 pessoas a trabalhar numa produção.

Em relação à sua carreira como realizador: fez já alguns filmes...
De cinema são três: «O Contrato», «A Teia de Gelo» e os «Sete Pecados Rurais». Aliás ganhámos um prémio... e em Portugal premeia-se pouco os filmes que são vistos por muitos espetadores.

E fazem-se poucas comédias, também ...
Muito poucas!

Tem algum realizador ou conjunto de realizadores que o tenham influenciado?
O (Elia) Kazan, o Orson Welles, o Woody Allen, o Tarantino...

Uma série de influências bem distintas...
Sim, distintos! E portugueses: o António Pedro Vasconcelos, o Joaquim Leitão, o Leonel Vieira.

Com quem aprendeu muito para realizar os seus filmes?
Por exemplo, o António Pedro. O seu último filme é notável.

E em termos de géneros cinematográficos. Tem algum preferido?
Não, é-me indiferente fazer comédia ou drama. Adoraria fazer um thriller a sério. E hei-de fazer, se tudo correr bem!

Tem alguma ideia, argumento ou projeto?
Tenho vários! Uns sete ou oito...

Isso é bom! Agora, falando do cinema português, do seu estado atual, o ano passado foi um bom ano em termos de público...
Em primeiro lugar, é pena que ainda haja uma dissociação entre o chamado cinema de autor e o restante... Continuamos nesta situação de divisão. Para mim, há bom ou mau cinema. Existem vários públicos. Não tenho que impor um género a toda a gente. Isso é uma espécie de fascismo. As pessoas têm o direito de optar, escolher o que querem ver. Nem tenho o direito de menosprezar qualquer tipo de cinema.

Há espaço para todos...
Há quem goste de Manoel de Oliveira, outros de António Pedro Vasconcelos. Há quem goste do João Botelho, outros da comédia que se faz em Portugal. Há gostos para tudo. Nestes Prémios Sophia há uma coisa que me faz uma certa confusão: a credibilidade dos prémios em Hollywood advém do voto ser dos pares e não da crítica. Nos Prémios Sophia não se passa isso, existe ali um polo de cinema elitista, ou pelo menos cinema de autor. Que respeito muito. Não percebo porque é que estamos de costas voltadas. Mas o ideal seria que houvesse uma indústria de cinema em Portugal tão potente que os filmes do mainstream tivessem tanta gente que daí se pudesse tirar algum dinheiro para os filmes de autor.

Os filmes mais de arte e ensaio ...
Os filmes, como o do João César Monteiro [«Branca de Neve»] com a câmara tapada. Está no seu direito, sim senhor. Está aqui o dinheiro. Faça. É uma experiência. Mas depois temos o outro cinema, que é o cinema que em qualquer parte do mundo funciona. Um filme dos irmãos Coen faz nos EUA três milhões de espetadores, o que para a nossa realidade é uma brutalidade! Mas o filme do Ben Stiller faz quarenta milhões. A proporção é a mesma. Eles são é mais! Portanto, está tudo certo, mas nós fazemos uns fantasmas com os filmes que têm muito público. Quando faço os «Sete Pecados» e faço 360 mil espetadores (o que faz dele o segundo filme português mais visto de todos os tempos), pergunta-se: é um filme mainstream? É. E é uma comédia? É sim senhor. Agora, não percebo esta tentativa constante de menosprezar e dividir as coisas.

Mas, o problema continua a estar no fato de ser um júri a escolher os filmes a apoiar?
Como é óbvio! Exatamente.

Portanto, o Nicolau também não concorda com o sistema vigente...
Acho que este ano as coisas vão estar melhores, mas não concordo com o sistema de júri. Para começar, nós avaliarmos a arte já é muito complicado. Percebo, que haja um Instituo Português de Cinema que tenha as suas opções, mas aquele Júri com 45 pessoas, das quais 35 nunca ouvi falar... Não apresenta uma grande credibilidade. É como os académicos da academia! São coisas que me dão um certo mal estar...

Para fechar, Nicolau, o que é o que motiva a continuar a trabalhar, e muito...
Para já, rejeito liminarmente o fantasma da reforma! Quem deve ditar a minha reforma é o meu estado físico e mental e o público. No dia em que o público disser assim: Vá-se embora. No dia em que já não conseguir decorar. Posso continuar a realizar...

Ou a dar aulas?
Dar aulas, sim. Mas como ator acabei. Até lá, não vejo motivo para o fazer porque quanto mais conhecimento acumulado nós temos, melhor podemos fazer as coisas.

Porque, o Nicolau já produziu, realizou, interpretou em dezenas de filmes e de géneros, já deu aulas – formou jovens talentos. O que é que faltará?
Nada! Para além de tudo isso, tenho que ganhar dinheiro porque não sou rico. Ao contrário de muitos que enriqueceram, e fizeram-no noutras áreas, não tenho jeito para ganhar dinheiro e não sei gerir. Portanto, tenho de trabalhar. São os dois motivos que me fazem correr. Mas o primeiro é fundamental: é esta necessidade, este desejo firme de me opor à reforma! Um dia hei-de-me reformar, se não morrer antes disso, se calhar morro antes disso. E se calhar gostava de morrer antes disso! Até lá, não! Deixem-me fazer as coisas: os papéis vão sendo de outro tipo, se calhar mais pequenos, de pessoas mais velhas. Agora, não vejo motivo para parar.

(Publicado originalmente na revista Metropolis nº28 - Maio 2015)

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Modificado emsegunda, 14 março 2016 20:29

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