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Actualizado às 11:08 AM, Oct 16, 2019

Ridley Scott em entrevista

Está sempre com muitos projectos entre mãos, o que é que o atraiu para este filme?

O livro de Andy Weir é incrivelmente prático, divertido e desafiante de todas as formas e feitios. Percebi que este não era mais um filme no espaço. Passava uma mensagem do género “tens que sobreviver”, se leres o livro com atenção ele vai ajudar-te a sobreviver. E, ao mesmo tempo, também consegue ser bastante engraçado. É uma boa lição para todos – se aplicarmos estas lições à nossa vida conseguiremos sair inteiros.

Andy Weir, o autor do livro, teve imenso cuidado para retratar convenientemente o lado científico da história. Isso também foi importante para si?

Nunca fui grande coisa a matemática por isso tive de andar às voltas com o ASCII [“Código Padrão Americano para o Intercâmbio de Informação”]. Eventualmente tudo se resolveu com a ajuda do departamento de produção que me explicou várias vezes, como se me estivessem a explicar que dois mais dois são quatro. O ASCII é realmente um código complexo mas na sua forma mais simples são letras que se relacionam com números, por fim lá acabou por fazer sentido.
Mas eu gosto de trabalhar as coisas a nível visual, portanto tinha o Matt [Damon no papel de Mark Watney] a fazer coisas como andar em círculos com um fio preso ao nariz e você pode pensar “o que raio está ele a fazer?” É que eu gosto da ideia de combinar os maiores avanços tecnológicos – coisas como o Habitat, ou o seu fato espacial, coisas que o mantém vivo – com algo muito rudimentar como um pedaço de fio e fita-cola para salvar a sua vida.

Qual foi o tema central para si? O desejo de não deixar ninguém para trás seja quais forem as circunstâncias?

Absolutamente e isso é o que a NASA e a JPL [Jet Propulsion Laboratory] representam. A JPL é uma comunidade de cientistas sediada na Califórnia onde se criam instrumentos e robots para serem colocados no espaço. A NASA dedica-se mais aos veículos que são conduzidos pelo homem, mas a separá-los estão também, é claro, diferentes códigos de vestuário [risos]. Na NASA usam-se fatos e gravatas e na JPL há um ambiente mais relaxado, eles parecem-se com um grupo de hippies [risos]. Mas eles trabalham juntos e não deixam ninguém para trás. E isso é o que sucede na nossa história – eles farão qualquer coisa para trazer o Watney para casa. É uma narrativa poderosa – será que o Watney conseguirá sobreviver o tempo suficiente até ser resgatado de Marte? Gosto da forma como o Teddy [Sanders], interpretado por Jeff Daniels, pensa, inicialmente ele parece uma pessoa rígida da NASA. Mas o que é que se pode fazer? Por vezes é preciso ser duro para se ser bondoso.

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Imagino que tenha ficado bastante entusiasmado com a possibilidade de criar as paisagens de Marte. Como é que foi o processo?

Bem, estive em Wadi Rum [no sul da Jordânia] onde rodei a batalha contra nos Hititas em «Exodus: Deuses e Reis», mas o resto dos cenários desse filme foram captados em Fuerteventura [Ilhas Canárias], por isso nunca tinha colocado uma grande unidade de filmagens na Jordânia e achei que esta era a melhor altura. Mas antes de nos mudarmos para o estúdio em Budapeste tivemos que escolher o local entre as rochas [em Wadi Rum] onde ficaria alojado o Habitat e rodeámo-lo com câmaras digitais que capturaram imagens a 360º. Depois disto, quando cheguei ao estúdio em Budapeste – um estúdio enorme, maior do que o estúdio dos filmes “Bond” em Pinewood – consegui unificar as imagens de estúdio com as filmagens em exteriores. É impossível distinguir o que é efeito especial e o que não é; não conseguimos identificar o que é estúdio e o que é Wadi Rum.

Porque foi o 3D a decisão acertada para «Perdido em Marte»?

Bem, eu adoro o 3D. Sinto-me como peixe na água. Adoro a ideia de entrar numa sala de cinema, colocar os óculos e ser transportado para outro mundo. Na verdade, quase todos os televisores modernos são já compatíveis com o 3D. Penso que o formato permite ao espectador entrar em contacto com uma outra dimensão e, especialmente neste tipo de filme, aproxima-nos da paisagem – absorve-nos e atrai-nos, é fantástico.

Afirmou recentemente que adora o género de ficção científica. O que é que o fascina na criação destes mundos?

Bom, é um desafio e a verdade é que não consigo despir o designer que há em mim. Sempre gostei desse lado da produção dos filmes. Adoro criar outros mundos. Não me interessa qual o período, sejam as Cruzadas, como em «O Reino dos Céus», ou um lado mais futurista, o desafio é sempre o mesmo. Curiosamente, os filmes futuristas são mais difíceis de fazer do que os filmes de época porque nestes temos muitas referências nas quais nos podemos apoiar mas quando fazemos um filme futurista o desafio passa por não nos repetirmos a nós próprios, temos sempre que repensar os fatos espaciais, as naves, a tecnologia e a forma como tudo isso vai aparecer na tela. Este processo é em si fascinante.

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Sabemos que teve imensa cooperação da NASA na produção de «Perdido em Marte». Isso foi muito importante?

Antes de mais, é sempre importante poder contar com o apoio e o entusiasmo da NASA. Eles viram o filme há algumas semanas atrás – cerca de 14 representantes da NASA – e a resposta foi óptima, eles deliraram com «Perdido em Marte». Disseram “Meu Deus, isto vai-nos ajudar a conseguir financiamento!” [risos]. Foi simpático. A NASA apresentou-nos o que estão a pensar construir no futuro em termos de fatos e veículos, e foi algo divertido porque eu disse “bem, eu não gosto dos fatos” [risos]. E eles disseram “nós também não gostamos. O que é que pensa fazer?”. E eu disse-lhes, “eu vou mostrar-vos”. Fizemos os fatos e eles acharam o resultado muito cool.”
Se recuarmos até à colaboração da NASA com Stanley Kubrick, encontramos o trabalho de Robert McCall [o designer conceptual de «2001 – Odisseia no Espaço»] um artista comissariado pela NASA e o autor do belo mural que está à entrada do Centro Espacial Lyndon B. Johnson, em Houston. Aí estão também os fatos espaciais usados em «2001» e uma montagem de alguns outros objectos pintados por uma luz luminosa. McCall era um génio, ele ajudou muito o Stanley com o design dos interiores no filme. Acho que o Stanley tinha a paranoia de que a NASA se ia antecipar a ele e daí o desejo de os ultrapassar. Então todo o design para o filme é absolutamente brilhante, estou convencido que nesse aspecto «2001» representa o melhor do que já foi feito.

Tem o Matt Damon a interpretar Mark Watney. Chegaram os dois ao projecto ao mesmo tempo?

Não, o Matt já estava a bordo quando eu entrei. O argumento foi escrito a pensar no Matt e o Drew [Goddard, o argumentista] iria realizar o filme. Alguém me propôs que lesse o argumento porque havia a possibilidade de o Drew estar ocupado com outro projecto. Eu li e passei-me. Disse “raios, eu quero fazer isto!”, porque estava com algumas dificuldades com o «Prometheus 2» e na altura a minha primeira questão foi o porquê do Drew não realizar o filme. Ele próprio admitiu “que não tinha explicação...”. E seguimos em frente. Encontrei-me com o Matt e fizemos o filme.

É um filme desafiante porque o Matt passa a maioria do filme sozinho...

Exatamente. Estás por tua conta e tens que enfrentar o palco sozinho e deves manter a pulsação e o interesse no filme. Penso que as pessoas sabem que o Matt tem um grande sentido de humor e ele permitiu-se mergulhar nesse seu lado humorístico, um humor que eu chamaria de lacónico. No final, o que importa é que todos esses elementos contribuem para um bom filme. E foi um prazer trabalhar com o Matt.

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Tem também a Jessica Chastain que interpreta a Melissa Lewis, a comandante da missão Ares 3 a Marte.

Penso que é um grande desempenho da Jessica e talvez inesperado por ela não ser reputada como uma actriz demasiadamente física. Mas depois de ver um filme chamado «A Dívida», onde ela interpreta uma espia, fiquei surpreendido e convencido que ela podia desempenhar qualquer papel. E há imensas performances que são fortes ao longo do filme – já mencionei o Jeff [Daniels], temos o Sean [Bean], o Chiwetel [Ejiofor], a Kristen [Wigg], são os personagens na Ares 3. Estou satisfeito com todos eles.

Sabemos que prefere construir os cenários e os adereços para minimizar o impacto do CGI. Qual foi a sua abordagem em «Perdido em Marte»?

Construímos o interior da nave espacial, e também algumas peças mais pequenas para o exterior que depois podiam ser expandidas digitalmente. Quando temos orçamento, prefiro sempre construir, é algo útil para os actores. Eles adoram.

Gostou de fazer «Perdido em Marte»?

Sim, mas eu gosto de fazer tudo. Estou neste momento a ler o argumento final de «Prometheus 2» que vamos começar a rodar provavelmente entre o fim de Janeiro e o início de Fevereiro de 2016, as filmagens devem ser em Vancouver. A sequela de «Blade Runner» está escrita, e essa também tem a minha participação na escrita do argumento em conjunto com o Hampton Fancher e Mike Green, será realizada pelo Denis Villeneuve. Uma boa escolha, na minha opinião.

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