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Actualizado às 11:08 AM, Oct 16, 2019

Quentin Tarantino - Os Oito Odiados

Chovia aos cântaros em São Paulo na segunda-feira de fins de novembro em que Quentin Jerome Tarantino resolveu dar as caras no Brasil e jogar um balde de água mais fria que a da tormenta lá fora, na cabeça de uma legião de fãs afoita por assistir à obra-prima «Os 8 Odiados» (The Hateful Eight), ao anunciar o seguinte:

“Vou até dez filmes e depois o décimo, eu paro de filmar”, afirmou, recebendo um coro de choramingos decepcionados. “Eu passei a contar os filmes depois de «Kill Bill», que foi a minha quarta longa e, desde então, isso virou uma assinatura. E, agora, ela se confunde com o próprio título, nestas história sem um centro moral, na qual qualquer um dos personagens centrais pode ser mau. Todos podem ser maus. Não podemos confiar em nenhum dos oito, isolados numa cabana, mediados por perigo iminente, no limiar entre o Bem e o Mal, enquanto neva pesado lá fora”.

Filmado em nagativo 65mm Kodak para projeção em 70mm (em muitos países só em digital), no Colorado, ao custo de US$ 60 milhões, «Os Oito Odiados» pode entrar para a História não apenas por ser o filme mais ousado de Tarantino, como também por ser seu melhor trabalho como realizador desde «Cães Danados», em 1992. Sua estreia será no Natal: 25 de dezembro. Como o título sugere a trama se concentra em oito sujeitos rápidos no gatilho e ricos em mistério confinados num misto de taverna e pensão no Wyoming, após longa peregrinação por um nevão, na qual se percebe um certo ar de protagonismo no caçador de recompensas John “The Hangman” Ruth (Kurt Russell) e no ex-militar da Guerra Civil Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson, em estado de graça). Ruth arrasta consigo a criminosa condenada à forca Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh, na atuação mais luminosa de sua carreira). E a eles se junta o Xerife Mannix (Walton Goggins, revelação da longa). Uma vez protegidos do frio eles encontram Bob “The Mexican” (Demian Bichir), Oswaldo “The Little Man” Mobray (Tim Roth), Joe “The Cow Puncher” Gage (Michael Madsen) e Sanford “The Confederate” Smithers (Bruce Den). Ali, o ódio de cada um há de ser uma arma carregada de sagacidade. Ou de fúria.

“É teatro. Se esta estrutura fosse montada num palco, ela funcionaria”, avaliou o diretor, que explicou seu método de escrita de roteiro. “Eu escrevo minhas cenas sem ter uma noção se saberei filmá-las ou não, e é daí que vem parte da diversão desta experiência que é fazer cinema. Escrevi «À Prova de Morte» sem ter a certeza de que sabia filmar perseguições de carros, embora gostasse de ver cenas de perseguição. O mesmo ocorreu quando escrevi as cenas de luta de «Kill Bill». Mas quando eu fiz «Django Libertado», notei que eu sabia filmar um western, por isso resolvi voltar ao gênero. Dizem que você só se torna conhecido como um diretor de faroestes se filmar três westerns. No passado, nos tempos de John Ford, tinha que fazer pelo menos uns dez”.

Entre as muitas polémicas levantadas pelo realizador de «Pulp Fiction» (1994) em sua passagem pelo Brasil foi a maneira como reagiu às perguntas da imprensa acerca do diretor Spike Lee, que desqualificou Tarantino como alguém apto a falar das mazelas dos afro-americanos depois de ter visto «Django Libertado» (2012).

“Se algum dia eu atuasse num filme dele, coisa que não faria nunca, seria o dia mais feliz da vida daquele filho da mãe”, disse Tarantino, que também eriçou ânimos ao falar de seu método de escalar elenco. “Nem sempre um grande ator está apto para dizer o tipo de texto que eu escrevo e não é questão de talento, mas de embocadura e de familiaridade com o que eu tento narrar. Meu diálogo exige uma certa prosódia muito específica. Ele é talhado para o que chamo de os Tarantino’s Superstars. Tenho, por exemplo, muita vontade de um dia escrever algo para a Kate Winslet, que é uma atriz incrível e, acho, capaz de se afinar com que eu escrevo. E quando estou no processo de escrita, eu já redijo com os atores em mente, menos um. Esse ‘um’ será o elemento de desarmonia, que vai mobilizar os demais, como é o caso de Daisy aqui”.

Tarantino confiou ao maestro Ennio Morricone a trilha sonora de «Os Oito Odiados», que já recebeu uma indicação ao Globo de Ouro. A láurea anual da Hollywood Foreign Press Association também reservou indicações para o faroeste nas categorias de argumento e atriz secundária, na qual Jennifer é a favorita.

“Quando escrevia, notava que Daisy carregava um tipo de atitude típico de década da 1990. E, naquela época, os filmes que Jennifer fazia, como «Geórgia» [1995] e «eXiztenz» [1999] eram construídos em torno da figura dela nas telas. Ela fez teste para viver Daisy e teve um desempenho incrível. Mas uma atriz do porte de Jennifer não se escolhe por teste, escolhe-se pelo jeito que ela se põe na tela”, explicou Tarantino.

Na conferência, o diretor de «Sacanas sem Lei» (2009) relembrou sua primeira visita ao Brasil, em 1992, com «Cães Danados» na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Eu era um jovem de 20 e poucos anos, financeiramente quebrado, que começava a carreira do filme por Sundance. Naquela época, quando você fazia um filme independente, era necessário embarcar num circuito de festivais, o que durava um ano. Era uma maratona de um ano excursionando por diferentes festivais. E, viajando de mostra em mostra, aceitando participar de debates, eu acabei me tornando popular. Quando a Miramax, minha distribuidora na ocasião, foi vender «Pulp Fiction», a minha segunda longa, ela se deu conta de que todo mundo queria ‘o novo filme de Tarantino’ e isso porque os festivais me fizeram popular”, disse Tarantino. “Ali, eu percebi que não faço filmes para o mercado americano. Embora eles sejam falados em inglês e se passem nos EUA, eles falam para o mundo. Eu faço filmes para o planeta”.

 

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Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 23:33

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