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Actualizado às 11:08 AM, Oct 16, 2019

Ruy Guerra - Quase Memória

Ungido na fé cristã, o filósofo Santo Agostinho (354-430) é a primeira referência de Ruy Guerra para explicar as idas e vindas no Tempo – objeto de fetiche estético do diretor moçambicano de 83 anos – que alimentam seu novo filme: “Quase memória”, já em finalização:

- Segundo Santo Agostinho, o Tempo é encontro de duas inexistências. De um lado está o passado - que, como já passou, não existe mais – e do outro está o futuro – um saco vazio a ser preenchido pelo que ainda não existe. Logo, o Tempo é uma ilusão. «Quase Memória» é um mergulho nessa inexistência, que ganha subjetividade na forma de meus personagens. É uma paçoca onde não há tempo real. Uma paçoca onde não se sabe se é o futuro que vai pro passado ou se é o passado que vem para o futuro – explica o diretor, que radicou-se no Brasil ainda no fim dos anos 1950 e se tornou-se o único representante do cinema brasileiro a ter dois Ursos de Prata no currículo conquistados no Festival de Berlim de 1964 (com «Os Fuzis») e em 1978 (com «A Queda»). – Mesmo sendo africano, de origem portuguesa, tenho um lado brasileiro, latino-americano, que apaixonado pelas facetas patéticas do Ser Humano.

Produzido por sua filha Janaína Diniz Guerra, «Quase Memória» é primeiro longa-metragem que Ruy Alexandre Guerra Coelho Pereira finaliza depois de um hiato de dez anos longe das telas, iniciado após o lançamento de «O Veneno da Madrugada» (2005). A volta se dá com base na literatura de Carlos Heitor Cony, cujo romance homônimo o cineasta tenta adaptar há quase duas décadas, sempre enfrentado dificuldades financeiras para captação de recursos, embora, no meio do caminho, tenha rodado um filme considerado entre os brasileiros como obra-prima: «Estorvo», indicado à Palma de Ouro em 2000.

- Minha carreira viveu hiatos enormes historicamente. Fiz apenas 15 longas desde que estreei no formato, com «Os Cafajestes», em 1962. Mas eu me propus a viver tempo o suficiente para fazer tudo o que queria. Ok, meu último filme foi feito em 2005, mas dez anos pra mim é ontem. Tive que viver até os 80 anos para fazer aquilo que Glauber Rocha (mito do Cinema Novo, movimento brasileiro do qual Ruy foi um expoente) fez com 40. Sinto que o que eu tenho fundamental para dizer ainda não foi dito, mas não me preocupo pois eu já sei a data da minha morte e tenho tempo até ela chegar. Decidi que vou morrer aos 117 anos, pois gosto de números ímpares. Por isso mesmo, eu me impus a chegar aos 21 filmes daqui até eu completar cem anos, pois, dali pra frente, foi me dedicar a ser escritor – especula o realizador de sucessos de público e crítica como «Erêndira» (1983). – Nós criamos a nossa própria ficção de vida. Sei que a minha parece absurda, mas também parecia absurdo, quando eu tinha 20 anos, que eu um dia pudesse chegar aos 40. E agora, aos 83, eu me sinto fazendo em “Quase memória” algo que nunca fiz, a começar pelo visual na experiência com meu diretor de fotografia, o Pablo Baião. Procuro sempre quem queira procurar coisas novas na imagem

Nas palavras de Cony, a trama de «Quase Memória» é o tipo de narrativa que se define como “infilmável” por trançar diferentes fluxos de consciência, entre delírios, enfrentamento da realidade da velhice, sonhos e saudades. O máximo se dizer, sem estragar as surpresas tramadas por Guerra, é que o foco são as aventuras do pai do escritor, o também jornalista Ernesto Cony Filho, acostumado a transformar as ações mais cotidianas (como acender um balão) num feito digno de anedotas. É o premiado ator baiano João Miguel (“Estômago”) quem vive Ernesto. Já o papel de Carlos Heitor Cony é dividido, em épocas distintas, entre Charles Fricks, um dos atores mais elogiados do teatro brasileiro na atualidade, e um mito da TV: Tony Ramos. Na versão de Guerra, um pacote recebido por Carlos Heitor, em um quarto de hotel, é o estopim para um fluxo de recordações.

- As diferentes épocas do filme, onde aparecem o Cony jovem e o Cony velho, são marcadas por dois fatos históricos, noticiados pelo rádio e pela televisão: o AI-5, em dezembro de 1968, e a morte de Ayrton Senna, em maio de 1994. Não saberia dizer a que gênero «Quase Memória» se filia. Ele é comédia, ele é drama, ele é farsa burlesca, ele tem um intimismo bergmaniano. A memória fabrica personagens levados a limites farsescos – diz Guerra, cujo regresso ao cinema se deu sob os afagos de um velho amigo da crítica européia.

Numa entrevista ao fim do Festival de Cannes, em maio, o francês Michel Ciment – encarado como sendo “a” entidade maior da literatura cinéfila com seus escritos para revista “Positif” - deu uma declaração festejando a volta de Guerra ao cinema. Ciment, à ocasião, vibrava com a hipótese de Guerra concorrer ao Leão de Ouro no próximo Festival de Veneza. “Se ele conseguir, vai ser uma conquista boa para o cinema do Brasil, pois Ruy tem uma história única e tem vigor narrativo como autor. Torço por ele por seu talento e pela amizade que temos”, disse Ciment, ciente da relevância de Guerra para a História. Há, da parte do diretor, apenas um certo temor de que a mentalidade crítica dos franceses ainda se atenha a um certo padrão de cinema brasileiro de imagens desarticuladas e de planos longos, características de uma visão eurocêntrica de Terceiro Mundo.

- Quando o cinema de um país mais emergente como o Brasil flerta com temáticas mais intimistas, filosóficas, em geral, a recepção lá fora é mais severa, como se nós tivéssemos renunciado a nossa identidade – diz o diretor, que guarda no sotaque carregado da melopeia lusitana origens de sua ancestralidade portuguesa. – Tenho muita noção do lado lusitano da minha herança que vem de um Portugal mítico, expresso pela força da palavra literária. Tenho algo de Alexandre Heculano, com sua prosa gongólica em mim. Não faço imagens leves. Tudo o que filmo tem um peso grande, como se essas imagens se parecessem com a escrita de Herculano. Talvez por isso, o lado farsesco de “Quase memória” não seja tão leve.

Agora, os planos mais imediatos de Guerra contemplam a feitura de “O tempo à faca”, uma tragédia rural semiárida no coração do Nordeste. E pretende ainda retomar os personagens do díptico “Os fuzis” e “A queda” no projeto chamado “3x4”, com Lima Duarte e Nelson Xavier.

- Tenho que correr e filmar enquanto eles ainda estão vivos, pois eu ainda vou viver até os 117.

RODRIGO FONSECA
Crítico de cinema e argumentista da Tv Globo

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Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 23:25

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