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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

Claudio Assis - Big Jato

Inscrito na lista de candidatos a uma vaga nas seleções competitivas do 66.º Festival de Berlim (11 a 21 de fevereiro), com o diferencial de oferecer aos europeus um olhar agridoce sobre o Brasil profundo, «Big Jato», nova longa-metragem do polêmico diretor pernambucano Claudio Assis, começa sua excursão pelas telas do mundo a partir de fevereiro. Exibida em setembro no Festival de Brasília, a produção de R$ 1,5 milhões, baseada em um romance homônimo de Xico Sá, saiu de lá com cinco troféus, entre eles o de melhor filme.

Com a promessa de expor as entranhas da Humanidade, pegamos boleia de um caminhão encarregado de transportar o conteúdo de fossas e esgotos. Em «Big Jato», o diretor de «Amarelo Manga» (2002) narra uma saga de amadurecimento, com base na relação entre um adolescente, Xixo (Rafael Nicário), e dois parentes peculiares: o pai caminhoneiro e o tio radialista. Um, Pai Francisco, é um machão conservador; o outro, Tio Nelson, um anarquista. E ambos são vividos pelo ator Matheus Nachtergaele, o Sandro Cenoura de Cidade de Deus (2002), com disposição plena para se reinventar como intérprete.

“Eu filmo para mostrar as entranhas da sociedade, porque o meu cinema é da ordem da inquietude, plugado nas contradições”, disse Assis à revista METROPOLIS logo após a exibição de «Big Jato», a quartao longa do cineasta e o primeiro a ser fotografado por Marcelo Durst («Estorvo»), uma lenda da imagem no Brasil.

Parceiro de Assis num curta-metragem feito há duas décadas («Soneto do Desmantelo Blue», de 1993), Durst veio ser o arauto do cineasta em seu surfe pela paisagem agreste filmada em locações em Vila de Cimbres, Pernambuco. E todas as sequências que os dois construíram, sob a mediação da câmera, correm na tela sob o impacto dos acordes dos Betos, uma banda na moda Beatles, cujo hit é “Let It Lie”.

“Esta é a primeira adaptação literária que eu faço e, no livro do Xico Sá, há uma referência forte aos Beatles. Mas o meu orçamento inteiro em «Big Jato» não seria o bastante para pagar o direito autoral de uma música deles. Aí a gente improvisou, com poesia. Este filme é uma fábula nordestina, que trata da transformação de um jovem poeta”, explicou Assis.

Premiado em Roterdã, em 2007, com «Baixio das Bestas», e laureado em diferentes mostras internacionais pelo conjunto de seus curtas e longas, Assis fala sobre sua estética na entrevista a seguir:

Em sua coleção de memórias sobre o Nordeste brasileiro, uma obra marcada pela denúncia, que lugar ocupa «Big Jato», um filme doce, felliniano como «Amarcord»?

Este filme é uma fábula nordestina, centrado na conversão de um menino em poeta, mantendo uma doçura que já venho perseguindo desde «A Febre do Rato», meu longa anterior, de 2011. Esta é a primeira vez que eu faço uma adaptação. Mas a dificuldade de fazer isso foi menor por eu estar remexendo um material que vem do Xico Sá, um amigo de muitos anos. Xico é jornalista e a primeira entrevista que ele fez com um cineasta foi comigo. Como eu trabalho a criação dos meus filmes num espírito coletivo, sempre, Xico já é parte desse meu grupo. No «Febre», foi ele quem sugeriu o nome do protagonista. Somos muito amigos e compadres.

Há quem diga que a sua filmografia é pautada pela brutalidade. De onde vem esse olhar bruto que você lapida longa a longa?

Quando eu era mais jovem, tentei estudar Ciências Políticas, mas quando vi que, no Brasil, os políticos são eleitos pela corrupção, desisti e decidi que era preciso reagir de alguma forma. E a forma que eu, cineclubista, encontrei foi fazer filmes que expusessem as mazelas sociais buscando uma universalidade naquilo que denunciam. Era algo que eu via no cinema iraniano, no cinema alemão. Era guerrilha a partir da imagem. Quando eu fiz «Amarelo Manga», diziam que eu era inspirado por David Lynch. Outros falavam que eu era inspirado por «Irreversível» (do Gaspar Noé) sendo que eu nunca nem tinha visto esse filme. A verdade é que eu só sou parecido comigo mesmo. Busquei criar uma estética com foco na verdade, mesclando documentário e ficção. Admiro muitos diretores. Um dos que mais admiro é o Brian De Palma, que cita muitos diretores clássicos mas à sua maneira, com classe. Quem dera eu ser assim...

Você é um expoente de um dos núcleos mais criativos do país: o cinema feito no estado de Pernambuco. Como anda aquela produção?

Estamos num momento excelente, basta ver o sucesso que um dos mais jovens de nós, o Gabriel Mascaro, que foi meu assistente, fez no Festival de Veneza com «Boi Neon». Ano que vem teremos «Animal Político», do Tião, e o novo do Kleber Mendonça: «Aquarius». O problema de 2016 será o impacto da crise econômica. No Brasil, quando o Governo tem que cortar gastos, o primeiro corte é na Cultura.

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 23:21

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