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Actualizado às 2:55 PM, Oct 22, 2019

Julie Delpy - Lolo

É uma cineasta que tem questionado as intrincadas subtilezas do romance contemporâneo, mesmo quando co-assinava filmes como «Antes de Anoitecer» ou «Antes da Meia-Noite», de Richard Linklater. Em «Lolo», onde também é a protagonista, faz uma comédia romântica para o grande público, assumidamente a pensar no grande público. A Metropolis foi à praia do Lido, em Veneza, com a Julie Delpy e saiu esta conversa.

Esta sua personagem tem muito a ver consigo?
Sim, embora não seja assim tão cínica. Mas gosto de brincar com coisas que me são familiares. De certa forma, o tema deste filme poderia descambar numa história muito triste: uma mulher a tentar reconstruir a sua vida de solitária e o filho a fazer-lhe a vida negra...O que posso fazer? Decidi transformar isto numa comédia!

Nota-se que se diverte a abordar temas da sexualidade...
Sim, muito!Sempre foi assim, é divertido falar de sexo desta forma. As mulheres deste filme são bastante rudes a falar de sexo. Isso agrada-me pois de alguma forma é um manguito a todos...Não consigo bem explicar, mas agrada-me...É a minha forma de dizer: gostem ou não, é mesmo assim! Julgo que há homens que ficam ofendidos, mas não há problema, não me importo nada, aliás...Faço isso com humor e não é para ofender. O meu diretor de fotografia ficou muito ofendido! Estava sempre a queixar-se: “já chega de estar sempre a falar de pénis grandes todo o tempo! Já não aguento!!”. Só lhe dizia: “ok, ok...” (risos). Ele tem um complexo...Ter um pequeno pénis não é um problema desde que o homem aceite bem isso, pelo menos era o que o meu pai me dizia.

Este humor também pode perturbar uma certa França, não?
Sim, especialmente a França mais coquette, talvez a França mais extrema direita, apesar de haver franceses de esquerda muito reprimidos. Depende sempre da família e da educação. No meu caso, tive uma família muito aberta ao humor sexual.

Continua a viver nos EUA por razões pessoais. Fica-se com a sensação que nunca quis muito explorar o cinema americano...
Não singrei com uma carreira na América porque nunca fui suficientemente magra para os padrões deles. Muito mais do que disfarçar estar mais velha, o que é importante é ser magra. A magreza é um fator importante. Eles têm essa obsessão e para mim isso não funciona...Nunca fui muito magra.

Porque será que todas as atrizes em Hollywood têm mesmo de ser magras?
Tem a ver com uma necessidade de quererem pessoas formatadas. Pessoas que têm de ser de uma certa forma, que têm de ter o mesmo tipo de olhar. Enfim, querem ter controlo. Tem tudo a ver com controlo. Não reajo nada bem ao controlo, tudo em mim é transgressão. Acho que incomodo Hollywood. Não gostam muito de mim em Los Angeles mas continuo por lá!

Porque se lembrou de chamar Dany Boon para este seu parceiro romântico?
A partir do momento em que comecei a escrever o argumento comecei a pensar no Dany. Ele consegue interpretar muito bem personagens naif e pode não ser um bonitão mas é giro! Tem qualquer coisa que nos toca. Além disso, é um grande comediante. Precisava do seu timing de humor para uma série de cenas, sobretudo para aquele humor slapstick e de comédia física. Mesmo antes de o contactar continuei a escrever para ele. Se o Danny não aceitasse o ator que ficasse com a personagem seria apenas um substituto. Foi muito bom ele ter dito sim!

Tem problemas em ver filmes seus do passado?
Não gosto. Por exemplo, amo o Kieslowski mas evito ver o «Branco», prefiro sempre rever o «Decálogo» [série televisiva]. É mais fácil...

É assim tão penoso olhar para si na sua juventude?
Não é penoso mas não sou nada de estar a recordar o passado. O passado é o passado, pronto. Com o Kieslowski foi incrível, dei-me mesmo muito bem e respeitei-o muito, mas não posso voltar aí. Na verdade, consigo olhar para mim própria. Não é uma coisa que me afete assim tanto, percebe? Mas seria estranho querer ver agora de novo o «Branco»...Por outro lado, na minha casa não há nenhuma fotografia minha...

Ao longo dos anos sempre manteve uma imagem de autora nada politicamente correta.
Ser politicamente incorreta faz de mim melhor pessoa. Mesmo no feminismo não gosto nada de ser politicamente correta! Por exemplo, sou capaz de dizer que gosto do meu rabo grande! Não sou racistas, nem antisemita nem homofóbica mas também nunca tive problemas com ninguém. O que é importante é aquilo que nós somos e maneira como tratamos os outros.

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Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 23:20

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