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Actualizado às 8:37 AM, Jun 18, 2019

Laurent Cantet (Foxfire/Raparigas de Fogo)

Venceu a palma de Ouro em Cannes, em 2008, com “A Turma”. Hoje Laurent Cantet regressa com “Raparigas de Fogo”. Recua até À década de cinquenta, numa pequena cidade dos Estados-Unidos para contar a história de um grupo de raparigas adolescentes que cansadas do machismo que sofrem na pele, criam uma sociedade secreta. Estivemos, em Paris, à conversa com o realizador.

Foi muito fiel ao livro de Joyce Carol Oates que adapta. O que é que o despertou para querer levá-lo ao grande ecrã?

Apaixonei-me pelo livro. Na altura que o li, estava na parte da montagem do filme “A Turma” e não conseguia parar de ler o livro de Joyce Carol Oates. A história confrontava-me novamente com um grupo, neste caso só de jovens raparigas. No caso d’ “A Turma” fui mesmo levado pela energia daqueles adolescentes, e a vontade de voltar a uma situação dessas era muito grande. E depois encontrei novamente temas que me são caros, como a ideia de grupo, a resistência, a forma como surgem os líders nos grupos,... Ou seja, existia uma panóplia de temas que me despertavam e ainda por cima, embrulhados numa aura quase romanesca que nunca existiu nos meus filmes. Era um desafio.

É conhecido por adaptar quase sempre romances, mas desta vez foi muito fiel...

Desta vez apeteceu-me ser fiel ao livro, manter-me mais próximo da história original porque existia uma trama dramática muito estruturada e que me interessava e depois porque existia também uma qualidade literária que me interessava também.

É conhecido por criar quase que uns workshops com as suas actrizes, como foi o processo de casting e trabalhar actrizes,praticamente todas não profissionais?

O casting representa para mim um elemento fundamental de todo o processo. Demorei praticamente seis meses a encontrar estas raparigas que são todas não profissionais, tirando a Tamara Hope que interpreta o papel de uma rapariga burguesa, por isso um pouco à margem do grupo e que tem uma maneira de falar e de estar diferente. Aí decidi integrar uma jovem actriz profissional para esse papel. As outras estão pela primeira vez perante uma câmara. Era por isso preciso procurá-las, preciso juntá-las, ver se o grupo podia funcionar, apesar das personalidades muito fortes. Tentei agrupá-las e depois ensaiámos. Os ensaios para mim são, em primeiro, improvisação: eu conto-lhes as cenas, peço-lhes para elas me darem a própria visão e depois introduzo mais elementos, mais pormenores. Proponho uma maneira de dizer as coisas de forma diferente por vezes da proposta delas. E pouco a pouco o argumento fica mais rico.

Nesta história, a adolescência foge do cliché do tempo da inocência...

Sim, mas para mim a adolescência não é necessariamente o tempo da inocência. Acho que é mais o tempo de todos os riscos. É a altura é que nos procuramos ainda sem ter todas as ferramentas para apreender o mundo e compreender todas as lógicas existentes que nos rodeiam. É nessa altura que fazemos tentativas. Vamos por uns caminhos e batemos contra a parede, voltamos atrás, e tentamos outro caminho. Tudo isso é muito excitante e interessante de filmar e ao mesmo tempo algo de muito difícil de superar para os adolescentes. O que me atraiu na história foi precisamente esta visão que nos dá da adolescência, que não tem nada de inocente. Acho que é uma visão mais justa.

O filme retrata uma época de luta que nos remete também para os nossos dias...

Pensei neste filme, como sendo um filme de época, ou seja nos anos cinquenta dos Estados-Unidos. Fomos fiéis à realidade dessa época, recorremos a documentários e registos de época, fotografias e reportagens, etc.. Mas para mim, é quase secundário, a minha preocupação não era provar que tínhamos feito um bom trabalho de casa e que a nossa reconstituição da época estava bem-feita. Dito isto, de facto, e infelizmente, existem alguns paralelismos entre essa época e os nossos dias. Ou seja este grupo, forma-se como reacção ao machismo que se vivia nessa altura, à violência de que eram vítimas enquanto mulheres. Elas vão vingar-se dos homens, de maneira até um pouco violenta por vezes. Hoje, o machismo ainda existe, temos também violência social forte que recai sobre pessoas desfavorecidas, sendo que acho que é muito maior hoje do que na altura. Existem ainda mais pessoas hoje em dia que pouco ou nada têm. Interessava-me que existissem essas ligações entre estas duas épocas aparentemente distintas.

É subentendido que existe alguma atracção física entre estas raparigas...

Acho que estas raparigas, têm uma vontade de fusão, ou seja, elas têm vontade de ser uma só, num único corpo, inicialmente apenas para serem mais fortes contra as agressões externas. Depois, acho que existem também afectos. Querem tocar-se, estar mesmo muito próximas para serem irmãs de sangue como elas dizem no filme. Se existe homossexualidade, o que eu acho possível, elas não o podem dizer entre elas, não o podem admitir. Ficam-se pelo desejo sem concretizá-lo porque a prioridade daquelas raparigas não é essa. A prioridade é resistir. E depois porque afirmar uma homossexualidade num grupo de raparigas de 14 anos não é fácil, e acho que o filme mostra essa dificuldade.
O filme mostra a dominação sexual masculina e como sem o saber, acabam por fazer política sem sequer conhecer a palavra “feminismo”... Como é que elas podem reagir a toda aquela violência de que são vítimas é a razão primeira da constituição do grupo. O que me interessou também é que todo o percurso de resistência que se seguiu e que as levou para um terreno muito político nasce assim de uma questão iminentemente política mas sobretudo sentida, na pele, por elas. E foi isso que me despertou também no livro. Saber como a política se encarna antes de ser pensada. Estas raparigas de facto nunca ouviram a palavra feminismo, mas sofreram na pele várias agressões e vão por isso inventar o conceito político do feminismo pelas suas atitudes, pelas suas reacções quase epidérmicas. E é sempre assim que eu gosto de olhar para a política.

Podemos então dizer que é um filme feminista?

Sim, espero que seja um filme feminista e também um pouco subversivo. Penso que é uma história que diz algumas verdades, pouco agradáveis, acerca da nossa sociedade. Por exemplo, quando nos dizem que só devíamos falar de felicidade, penso que pelo contrário, este filme coloca o dedo na ferida que neste caso é uma espécie de amnésia que se quer criar à nossa volta, uma espécie de anestesia geral que só nos faria falar sobre a felicidade. Assim, ninguém entra em confrontos. Estas raparigas decidem que não, que afinal a felicidade constrói-se, que é preciso ganhá-la, e que a felicidade reside na acção. Acho que esta é a mensagem principal do filme.

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 10

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 23:12

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