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Actualizado às 9:45 PM, Sep 22, 2019

Bruno Safadi - O Prefeito

Inaugurada em 1960, para funcionar como uma das principais vias rodoviárias de acesso do Rio de Janeiro, a Perimetral teve seu prazo de validade vencido no fim de 2013, mas, de seus escombros, brotou um filme de longa-metragem que promete renovar o conceito contemporâneo de comédia no Brasil: «O Prefeito». Filmada ao longo de sete dias em outubro de 2014, sob a direção do carioca Bruno Safadi («Meu Nome É Dindi»), usando como cenário as ruínas da hoje finada via expressa, a produção, orçada em cerca de R$ 200 mil, busca renovar uma tradição cada vez mais rarefeita nas telas nacionais: o humor político. Dublador, mágico e humorista, o ator Nizo Neto – celebrizado como o aluno CDF Seu Pitolomeu da “Escolinha do Professor Raimundo”, onde trabalhava com seu pai, Chico Anysio – assume o papel-título do longa: um alcaide que sonha decretar a independência do Rio em relação ao restante do Brasil, tornando-se seu sumo-governante. Só que este líder opta por governar a Cidade Maravilhosa do que sobrou da Perimetral.

- Este filme nasce do meu desejo de trazer o humor ácido de volta às nossas telas como forma de pegar uma tendência cinematográfica que anda em voga no país – a comédia -, só que associada a um estilo televisivo, esteticamente pobre, como forma de reinventá-lo – diz Safadi, que, aos 34 anos, soma outros cinco longas e muitos prêmios em seu currículo de ex-aluno da Universidade Federal Fluminense (UFF). – A inspiração aqui é a screwball comedy americana, um filão do riso mais visual e menos verbal do que as comédias brasileiras de hoje. Mas tudo só foi possível em função de um novo momento de reflexão político trazido pelas manifestações de 2013. Com base nessa reflexão, tentamos falar da política a partir do que se passa por trás das cortinas.

Na trama do longa, o personagem de Nizo, conhecido apenas como “o Prefeito”, é um governante viciado em remédios que sonha ser um novo Pereira Passos (1836-1913), o político responsável pela revitalização urbanística do Rio entre 1902 e 1906. Mas a forma que o protagonista do filme de Safadi encontra é emancipar o Rio como nação soberana, mantendo os impostos locais – altíssimos – dentro do perímetro da cidade. A ideia, a princípio megalômana, concretiza-se graças ao apoio de aliados de governo que sonham dividir a receita dessa taxação carioca entre si, além de ganharem, cada um, uma rua ou um bairro do Rio para desfrutarem como quiserem. Aos poucos, contudo, o que seria um golpe escuso torna-se um governo revolucionário, tendo como sede os dejetos de concreto, aço e poeira da Perimetral.

- Conseguimos apoio da Prefeitura do Rio, mesmo com o viés ácido da trama, para filmar na própria Perimetral, pois o Prefeito Eduardo Paes percebeu que, a partir dali, estaríamos mostrando as transformações da cidade, no esforço que ele vem tomando para revitalizar a zona portuária. Se eu tivesse que reproduzir aquele cenário em estúdio, o orçamento do filme pulava para a cifra do milhão. «O Prefeito» não é uma comédia à la RioFilme, que parece um stand-up, muito falado, pouco visual. É um trabalho feito por uma equipe de dez pessoas, com poucos diálogos, simulando um diário político do protagonista. É uma tentativa de eu me arriscar em um terreno novo para uma geração tão apolítica como a minha, que nasceu nos anos 1980 – diz Safadi, que leva ao 44º Festival de Roterdã (21 de janeiro a 1º de fevereiro), na Holanda, seu filme anterior: «O Fim de Uma Era».

No enredo de «O Prefeito», o personagem de Nizo, ao alcançar o poder, após um plebiscito, desenvolve uma alergia a pessoas o que o impede de se relacionar com seus eleitores e aliados. Ele é ainda conectado com uma visão do Além: uma mulher espectral, chamada Alma Errante, vivida por Djin Sganzerla, vira sua conselheira.

- Além de Nizo, de Djin e do ator Gustavo Moraes, eu uso fotos para representar os demais personagens, numa estrutura narrativa que evoca o filme «La jetée», de Chris Marker. É uma maneira de dialogar com a tradição do cinema de muitas formas. Eu trouxe muita influência das comédias carnavalescas cariocas dos aos 1940 e 50, em especial «Aviso aos Navegantes», de Watson Macedo, que é um filme seminal. Não por acaso, eu elegi como protagonista um ator que está conectado à tradição do humor popular na TV: o Nizo. Era uma forma de revitalizá-lo e mostrar ao cinema o grande ator que ele é – diz Safadi, que lançará este ano o premiado «Éden» e «O Uivo da Gaita», ambos com Leandra Leal.

«O Uivo da Gaita» integrou um projeto coletivo chamado Operação Sonia Silk que Safadi e Leandra organizaram com base nas memórias da Bel Air, a produtora que Julio Bressane e Rogério Sganzerla criaram em 1970 e que gerou seis filmes em cerca de quatro meses de vida. Nos mesmos moldes, Safadi organizou em 2014 um novo projeto, chamado Tela Brilhadora, fomentado com uma verba estimada em R$ 150 mil do Canal Brasil, para gerar quatro longas até agosto deste ano. «O Prefeito» é um deles, ao lado de «O Espelho», de Rodrigo Lima; «Origem do Mundo», de Moa Batsow; e «Garoto», de Bressane, o mestre de Safadi.


- É mais um projeto que nasce do sonho da Bel Air – diz Safadi, que prepara ainda o filme «Lilith», com Maria de Medeiros, e uma livre adaptação do cultuado romance Uma Agulha no Palheiro, de J. D. Salinger. – Que narra a saga de um jovem de classe média que tem dificuldade em lidar com o mundo ao seu redor.

RODRIGO FONSECA
CRÍTICO DE CINEMA DO JORNAL O GLOBO E ROTEIRISTA DA TV GLOBO

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 23:00

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