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Actualizado às 9:45 PM, Sep 22, 2019

Jane Hawking em entrevista

A Teoria de Tudo A Teoria de Tudo

Jane Hawking, casada durante 25 anos com o célebre físico Stephen Hawking, esteve em Lisboa para promover o lançamento de «A Teoria de Tudo», filme baseado nas suas memórias. Numa conversa curta, revelou-nos a admiração que nutre pela cultura e literatura portuguesas desde os bancos da faculdade, onde estudou Poesia medieval Ibérica. Em jeito de confidência, falou do amor que tem por Lisboa e Portugal, onde permaneceu durante alguns dias, depois duma semana em Espanha.

O que a levou a escrever Viagem ao Infinito?

Escrevi este livro porque tinha um vasto conjunto de memórias, imagens de praticamente cada dia dos 25 anos que vivi com Stephen Hawking. Queria passá-las todas para o papel para poder superar todo esse passado e seguir com a minha vida. Estava a bloquear a minha vida.
Fi-lo, também, porque queria escrever a versão definitiva da nossa vida em conjunto – já que, se não o fizesse, outros poderiam fazê-lo duma forma deturpada, com falsidades e mentiras.
Finalmente, queria que se soubesse aquilo por que passámos. Ajudar a despertar as consciências das pessoas, entidades, governos, serviços sociais, toda a gente para o problema da doença (Esclerose Lateral Amiotrófica), para situações como a nossa, as dificuldades vividas pelas famílias dos doentes.

Como foi viver durante 25 anos com Stephen Hawking?

Duma forma resumida, diria que esses 25 anos se dividiram em duas fases: primeiro, vivemos num estado de euforia. Vivíamos tempos muito, muito felizes! Amávamo-nos e partilhávamos tudo. Tivemos os nossos filhos e ficámos encantados com eles. Eram os bebés mais bonitos, crianças maravilhosas! Depois, com a progressão da doença, o Stephen ficou mais limitado e fechado sobre si mesmo – não só devido à doença, mas também por causa da Física e do seu trabalho científico. Por exemplo, num fim-de-semana, sentava-me e as crianças brincavam e faziam barulho, mas ele ficava de tal modo absorvido nos seus pensamentos que nem reparava nelas. Ficava preocupada: será que as crianças faziam demasiado ruído, ou ele estava pouco confortável, ou precisava de comer ou beber? Mas, ele não dizia nada. Na segunda-feira de manhã, Stephen acordava com um enorme sorriso e dizia: consegui resolver o problema! Aí, percebi o que era viver com um génio. Era muito complicado para mim separar a absorção na Física e na ciência da preocupação com a doença.

O filme – «A Teoria de Tudo» – é também sobre o Tempo: o tempo de vida que é dado, inicialmente, a Stephen Hawking, os anos da relação entre Jane e Stephen e, também, a teoria científica que ele desenvolve sobre o tempo. Concorda?

Sim, sim! Acho que é muito interessante e pertinente esse ponto de vista. A questão está muito bem formulada e sintetiza o essencial do filme. Prova disso mesmo é o final... que não vou revelar. Para além disso, a primeira vez, no filme, que Stephen tem um computador é a palavra “tempo” que aparece no écran. Enfim, é ainda o objeto do seu estudo: as possibilidades de viajar no tempo... Imagine a possibilidade de viajar para o Alhambra no séc. XII, ou para a Corte de Afonso VI de Castela, o tempo das cantigas de Amigo e de Amor. Seria extraordinário!
Uma das situações mais ridículas a que assisti foi uma lição que ele deu ao 6º ano na escola do nosso filho Robert: e isto é sobre o tempo! Ninguém compreendeu exceto quando ele mostrou um pequeno filme duma chávena a cair duma mesa, a partir-se no chão e depois o tempo a andar para trás e a chávena a voltar para a mesa. Tal como no final do filme com o tempo da nossa vida. Isto era muito importante para ele. O tempo é, provavelmente, a essência do filme!

O que achou do filme? É fiel ao livro?

Vi-o três vezes. Acho que resume o livro. Porém, o filme é uma celebração, não mostra o lado negro da nossa vida em comum. O lado negro desses tempos chegou a ser de desespero! Quando Stephen teve ataques de asfixia durante uma noite inteira, foi terrível e isso está apenas no livro!
No livro, descrevo quase tudo: quando vamos a Londres, receber prémios extraordinários e depois tenho de regressar a casa de madrugada, depois, na manhã seguinte, tenho de levar as crianças à escola e depois regressar a casa para levantá-lo da cama, preparar e dar-lhe o pequeno-almoço ...

Sobre a Felicity Jones (atriz inglesa), ajudou-a na composição da personagem?

Não sei se a ajudei, mas ela procurou-me. Falámos muito e talvez por ela ser uma atriz brilhante e do Método, conseguiu compor a Jane Hawking de forma notável. Ela é muito sensível e captou a minha personalidade, os meus maneirismos e gestos, a minha forma de falar. Repito, a Felicity Jones foi brilhante! Aquela que aparece no écran sou eu! E espero que ganhe um Óscar!

Perto do fim do filme, numa sessão dada por Stephen Hawking, o cientista faz a seguinte afirmação: “However bad life may seem, where there is life there is hope”. Quer comentar?

É a minha máxima! Quando alguém me escreve – e acredite que são de famílias com histórias de vida muito difíceis – digo-lhes sempre: Nunca desistam pois onde há vida, há esperança.
Acho que essa frase resume os anos da nossa vida em conjunto, pois por mais obstáculos e dificuldades que tenhamos enfrentado, o nosso amor, os nossos filhos, ou seja: a Vida, deu-nos sempre o sopro de esperança que precisávamos para continuar!

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:59

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