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John Woo - Samurai chinês

O Festival de Tóquio homenageou o cineasta chinês John Woo e atribui-lhe o Samurai, prémio de carreira. Uma consagração nipónica para um cineasta que redefiniu nos anos 80 o chamado “cinema made in Hong Kong” e, nos 90, singrou em Hollywood. Uma conversa em exclusivo nacional com um mestre.

Rui Pedro Tendinha em Tóquio

Estamos no Festival de Tóquio e no mercado deste festival houve uma conferência da indústria chinesa e japonesa que sugeriu apostar-se cada vez mais numa aliança entre as duas cinematografias para juntas combaterem o mercado norte-americano.

O que lhe parece dessa possibilidade numa altura em que os números da indústria asiática estão a crescer?

Estamos na altura certa para poder combater Hollywood e será muito positivo para a China e para o Japão. É uma aliança que poderia ajudar a industria chinesa e japonesa não só a nível de quota de mercado mas também no que toca a elevar os níveis criativos. Sim, é uma aliança que poderia ajudar muito.

Tem referido que Hollywood interfere muito no trabalho de um realizador. No seu caso, quais os casos mais flagrantes?

Para os filmes mais comerciais que fiz, às vezes, tinha de levar com notas escritas pelos executivos dos estúdios, dos advogados, do chairman e até dos contabilistas. Todos davam ideias...Todos queriam que os filmes chegassem ao maior número de mercados possível...Fui inundado de conselhos e notas para mudar os guiões. Mesmo assim, tive sorte: trabalhei com um estúdio simpático, a Paramount. A chefe do estúdio era minha fã! Quando me contrataram disseram a todos os produtores que o desejo é que eu fizesse um filme à John Woo...Aliás, disseram a todos para não me darem conselhos...

Para acabar por fim os mitos, a ideia de colocar pombas no meio da violência surgiu porque razão?

Gosto desse animal, ponto. Quando fiz «The Killer», na cena final na igreja, quis mostrar o verdadeiro espírito interior das personagens. Na altura em que um deles cai em slow-motion para salvar a rapariga cega lembrei-me do seguinte: se aquele gesto era sagrado, que tal juntar pombas!? As bombas simbolizaram a beleza dos heróis.

E é claro que nunca deixou de ser fã das câmaras lentas...

Sim, porque quando faço um filme estou também a fazer poemas.

E apercebeu-se quando começou a ser copiado no cinema americano.

Sim, sim. Começaram a usar heróis a disparar duas armas. Fico feliz com essas cópias, sinto até que tenho muitos amigos. No cinema, tudo o que é bom é para partilhar entre os cineastas.

Por vezes, é roubar.

Não, não. Não diria isso. Também já roubei muito, sobretudo ao grande mestre Sam Peckinpah. Ele, por exemplo, nas sequências de ação, também usava slow-motion.

Já agora, tem acompanhado a saga «Missão Impossível»?

Este último não vi. Neste momento, já não estou tão em contacto com oTom Cruise. Tenho uma história engraçada com ele: uma vez em Sidney convidei-o para ir jantar fora. Levei-o a um restaurante chinês, bastante caro, por sinal, e ele estava feliz – nunca tinha comido lagosta crua!! Disse que nunca tinha comido coisa tão boa na vida

Além da rivalidade que teve sempre com Tsui Hark, os dois acabaram por se ajudar...

Sim, foi ele quem ajudou «A Better Tomorrow». Na altura, ele estava na mó de cima e deu-me boas ideias para o filme e melhorou o argumento. Foi o Tsui quem me encorajou a desenvolver o meu estilo e a tornar o projeto bem pessoal. Mais tarde, também ajudei-o muito.

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:43
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