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Fernando Coimbra em entrevista

No final do ano passado, a METROPOLIS conversou com Fernando Coimbra a propósito do filme «O Lobo Atrás da Porta», thriller intenso com Leandra Leal e Milham Cortaz como protagonistas, que estreia finalmente em Portugal no final do mês de Outubro. Recuperamos aqui a conversa com o realizador brasileiro que nos revelou a origem do filme e o processo de escolha do elenco, o tom negro, a ausência de música e ainda nos falou sobre «Narcos», a nova série que realizou para a HBO (sobre «Narcos» não deixe de ler também a entrevista de Rodrigo Fonseca a Fernando Coimbra na edição anterior da METROPOLIS).

Donde surgiu a ideia para este filme?

Este filme é livremente inspirado numa história real que ocorreu no Rio de Janeiro, nos anos 1960. Teve uma repercussão bem grande, chocou toda a gente e ficou famosa. Quando estava ainda na faculdade em 1998, encontrei uma revista antiga que tinha a notícia do julgamento. E a partir daí, interessei-me pelos fatos, porque eram impressionantes, e uma das coisas que me interessou foi a forma como a imprensa tratava a história.

Sensacionalista?

Sim. E classificavam a autora do crime (personagem de Leandra leal) como um monstro. Interessava-me ver o lado humano da história: não era uma serial killer ou uma pessoa com um desvio de comportamento. Queria compreender. Por isso fiz uma pesquisa sobre os fatos e pensei em adaptar a história. Mais tarde, verifiquei que o importante estava na intimidade das personagens e essa é a verdade, foi isso que aconteceu e fiz uma adaptação livre da história real.

Demorou muito tempo a escrever o argumento?

Levei algum tempo a trabalhar no argumento porque estava a fazer outras coisas. Em 1998, li a história, em 1999 fiz o primeiro draft do argumento, embora completamente diferente do que viria a ser o texto final. Fiz uma série de curtas-metragens, trabalhei no teatro como ator…

Mas a ideia de fazer o filme manteve-se?

É. Trabalhei e amadureci a ideia. Foram 11 anos a tentar arranjar forma de produzir o filme e depois arrumei-o na gaveta. Em 2008, comecei a escrever a versão final do argumento e, dois anos depois, conseguimos reunir os parceiros para produzir o filme. A rodagem do filme foi rápida.

Como foi a escolha dos atores – em especial da dupla de protagonistas? 

Escrevi o argumento sem pensar em nenhum ator ou atriz em particular. Só depois com os produtores é que começámos a pensar e tive a maior liberdade para pensar na escolha do elenco. É uma das fases mais difíceis do filme: podes escolher um grande ator ou atriz mas não serem os melhores para aquele registo, ou ainda pode não haver química entre os dois. A Leandra (Leal) é uma atriz conhecida no Brasil e tinha as caraterísticas ideais: jovem, bonita, e ao mesmo tempo tinha maturidade, que era a coisa mais difícil (ter maturidade para fazer o papel). É uma personagem nova, mas muito complexa, tem muitas camadas de leitura e essa caraterística intimista – pela sua expressão percebe-se o que ela está a sentir sem precisar de dizer nada. Para além disso, tem, também, um certo mistério. 

E o protagonista masculino?

Quando escrevi o argumento não tinha uma ideia clara sobre a personalidade dele. Tinha a sua função dramática, mas não queria que ele parecesse um canalha nem podia cair nos estereótipos. E o Milhem (Cortaz) tem essa caraterística: é grande, tem uma sexualidade masculina forte, não é o galã ou o tipo bonito. Ao mesmo tempo que tem um lado brutal, explorado noutros filmes como «Tropa de Elite» (2007) e «Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora É Outro» (2010), tem, também, um lado mais doce, mais cómico, com várias camadas. E para além disso, o Milhem era casado e tinha uma filha pequena, tal como o protagonista do filme.

Um dos grandes trunfos do filme é a fotografia de Lula Carvalho, diretor de fotografia conhecido no Brasil. Como é que foi trabalhar com ele? 

Nós trabalhamos juntos há muito tempo. Começámos a colaborar em 2004, numa curta que eu fiz chamada «Pobres Diabos no Paraíso» (2005) onde ele ainda era assistente de fotografia. Foi uma das primeiras curtas de ficção que ele fez, houve uma sintonia muito grande e ficámos amigos. Depois, fizemos mais duas curtas. Para este filme, o Lula esteve envolvido desde o início. Daí, a sintonia na forma como trabalhámos na produção.

É muito importante para um filme como este criar aquela atmosfera ou tom negro, sombrio?

É isso. Já fazíamos isso nos trabalhos anteriores, nas curtas. Então, este filme foi uma evolução daquele trabalho.

As suas curtas foram, no fundo, uma aprendizagem para depois poder fazer a primeira longa-metragem?

Sem dúvida. E fui construindo a equipa: o diretor de fotografia, a montadora, o responsável pelo som…

O Som! Esse é um aspeto importante: o filme não tem música…

Tem o essencial. Não gosto de colocar música só para dar ênfase a determinada sequência, para a sugerir ao espetador: agora emoção, agora suspense, agora ação. É uma coisa que me irrita nos filmes, que me afasta dos filmes e neste filme cabia muito pouco espaço para a música. Porque eu e o Ricardo Cutz (autor da banda sonora) só colocávamos música quando achávamos que era decisivo.

Mudando de assunto: parece haver no audiovisual brasileiro (Televisão e Cinema) uma nova abordagem e o interesse em falar da população dos subúrbios, contar histórias sobre a nova classe média brasileira. Concorda com isto?

Sim, acho que a imagem do cinema brasileiro está a mudar, porque o Brasil também está a mudar em termos económicos e sociais. As questões típicas do cinema brasileiro: a miséria, a fome ou a violência estão a dar lugar a novos temas. Nos últimos doze anos, a miséria e a fome têm diminuído graças aos programas do governo. A miséria mudou de cara: já não existe a seca do Nordeste, do Sertão. Fiz um documentário nessa região, e pude constatar que as pessoas apesar da situação de seca, tinham água e comida e já não estavam a abandonar as terras para migrar para as grandes cidades. Para além disso, houve um certo desgaste no tema da favela (ou favela movie, como se diz).

Para além disso, será que essa nova classe média se quer ver representada no cinema?

É. As pessoas que estão a fazer esses filmes são oriundas dessa classe média e as questões novas que estão a surgir dizem-lhes respeito. O poder de consumo dessas classes médias cresceu e uma das questões é a do consumo, aliada à paranoia da classe média pela segurança e com a violência. Os preconceitos que ela possui. Ou seja, todas essas coisas estão a entrar mais em discussão e a ser mais retratadas.

O filme foi escrito e realizado por si. É mais fácil trabalhar desta forma, com base num argumento seu do que trabalhar com base num argumento de outrem? 

É diferente, embora para mim seja mais fácil realizar um argumento que eu escrevi, primeiro porque gosto de escrever o argumento. Existem realizadores que não gostam 

Aqui em Portugal também existe a tradição de serem os próprios realizadores a escrever o argumento…

É como no Brasil, embora agora existam mais argumentistas, e muitos realizadores que não escrevem o argumento. Mas, é mais fácil porque dá um domínio muito maior da história, dos personagens. Agora, na série que estou a realizar para a HBO Brasil trabalho com base num argumento que não é meu e não está a ser assim tão complicado. Já tinha trabalhado muito tempo no teatro com base num texto que não era meu e por isso já estava habituado. Não é uma coisa que me recuse a fazer.

O filme segue as regras da tragédia, quase, ou não?

É. O filme foi encarado como uma tragédia. E o que chamou a atenção nesse crime é que ele era muito mais trágico que dramático. Porque existem muitos crimes passionais em que o amante mata a amante (e se mata a si) e é mais dramático. E no filme, a estrutura do filme foi sempre a de uma tragédia.

Após o êxito em festivais e na estreia comercial no Brasil, quais são as expetativas para o lançamento do filme em Portugal? 

Acompanhei o filme em festivais em vários países, inclusive em Espanha, e o filme tem sido muito bem recebido, as reações são sempre muito boas nas mais variadas culturas. Nos EUA, em Cuba, o filme tem funcionado porque é uma história universal e as pessoas identificam-se muito, independentemente de se passar no Brasil. Espero que o filme funcione aqui em Portugal.

Que projetos tem neste momento?

Além da série de televisão que realizei no Brasil («Narcos») para o canal de televisão HBO, tenho um novo argumento – um draft inicial. Tivemos financiamento para escrevê-lo, vamos agora pedir mais um financiamento para continuar o desenvolvimento e no próximo ano levantamos o dinheiro para filmar. É um thriller também, mas ainda mais marcado. O título do filme é “Os Enforcados”

Já agora, como é que funciona o financiamento do cinema no Brasil? É Privado? Público? 

É praticamente público, só que tem várias fontes de financiamento: Governo federal, Município, Estado. Tem a Petrobras que patrocina muito o cinema, o BND (Banco Nacional do desenvolvimento). E depois, existe o fundo estatal que é do governo, para além de investimento de empresas privadas que decidem apoiar ou não determinado filme.

 

 

Donde surgiu a ideia para este filme?   Este filme é livremente inspirado numa história real que ocorreu no Rio de Janeiro, nos anos 1960. Teve uma repercussão bem grande, chocou toda a gente e ficou famosa. Quando estava ainda na faculdade em 1998, encontrei uma revista antiga que tinha a notícia do julgamento. E a partir daí, interessei-me pelos fatos, porque eram impressionantes, e uma das coisas que me interessou foi a forma como a imprensa tratava a história.   Sensacionalista?   Sim. E classificavam a autora do crime (personagem de Leandra leal) como um monstro. Interessava-me ver o lado humano da história: não era uma serial killer ou uma pessoa com um desvio de comportamento. Queria compreender. Por isso fiz uma pesquisa sobre os fatos e pensei em adaptar a história. Mais tarde, verifiquei que o importante estava na intimidade das personagens e essa é a verdade, foi isso que aconteceu e fiz uma adaptação livre da história real.   Demorou muito tempo a escrever o argumento?   Levei algum tempo a trabalhar no argumento porque estava a fazer outras coisas. Em 1998, li a história, em 1999 fiz o primeiro draft do argumento, embora completamente diferente do que viria a ser o texto final. Fiz uma série de curtas-metragens, trabalhei no teatro como ator…   Mas a ideia de fazer o filme manteve-se?   É. Trabalhei e amadureci a ideia. Foram 11 anos a tentar arranjar forma de produzir o filme e depois arrumei-o na gaveta. Em 2008, comecei a escrever a versão final do argumento e, dois anos depois, conseguimos reunir os parceiros para produzir o filme. A rodagem do filme foi rápida.   Como foi a escolha dos atores – em especial da dupla de protagonistas?  Escrevi o argumento sem pensar em nenhum ator ou atriz em particular. Só depois com os produtores é que começámos a pensar e tive a maior liberdade para pensar na escolha do elenco. É uma das fases mais difíceis do filme: podes escolher um grande ator ou atriz mas não serem os melhores para aquele registo, ou ainda pode não haver química entre os dois. A Leandra (Leal) é uma atriz conhecida no Brasil e tinha as caraterísticas ideais: jovem, bonita, e ao mesmo tempo tinha maturidade, que era a coisa mais difícil (ter maturidade para fazer o papel). É uma personagem nova, mas muito complexa, tem muitas camadas de leitura e essa caraterística intimista – pela sua expressão percebe-se o que ela está a sentir sem precisar de dizer nada. Para além disso, tem, também, um certo mistério.    E o protagonista masculino?   Quando escrevi o argumento não tinha uma ideia clara sobre a personalidade dele. Tinha a sua função dramática, mas não queria que ele parecesse um canalha nem podia cair nos estereótipos. E o Milhem (Cortaz) tem essa caraterística: é grande, tem uma sexualidade masculina forte, não é o galã ou o tipo bonito. Ao mesmo tempo que tem um lado brutal, explorado noutros filmes como «Tropa de Elite» (2007) e «Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora É Outro» (2010), tem, também, um lado mais doce, mais cómico, com várias camadas. E para além disso, o Milhem era casado e tinha uma filha pequena, tal como o protagonista do filme.   Um dos grandes trunfos do filme é a fotografia de Lula Carvalho, diretor de fotografia conhecido no Brasil. Como é que foi trabalhar com ele?    Nós trabalhamos juntos há muito tempo. Começámos a colaborar em 2004, numa curta que eu fiz chamada «Pobres Diabos no Paraíso» (2005) onde ele ainda era assistente de fotografia. Foi uma das primeiras curtas de ficção que ele fez, houve uma sintonia muito grande e ficámos amigos. Depois, fizemos mais duas curtas. Para este filme, o Lula esteve envolvido desde o início. Daí, a sintonia na forma como trabalhámos na produção.   É muito importante para um filme como este criar aquela atmosfera ou tom negro, sombrio?   É isso. Já fazíamos isso nos trabalhos anteriores, nas curtas. Então, este filme foi uma evolução daquele trabalho.   As suas curtas foram, no fundo, uma aprendizagem para depois poder fazer a primeira longa-metragem?   Sem dúvida. E fui construindo a equipa: o diretor de fotografia, a montadora, o responsável pelo som…   O Som! Esse é um aspeto importante: o filme não tem música…   Tem o essencial. Não gosto de colocar música só para dar ênfase a determinada sequência, para a sugerir ao espetador: agora emoção, agora suspense, agora ação. É uma coisa que me irrita nos filmes, que me afasta dos filmes e neste filme cabia muito pouco espaço para a música. Porque eu e o Ricardo Cutz (autor da banda sonora) só colocávamos música quando achávamos que era decisivo.   Mudando de assunto: parece haver no audiovisual brasileiro (Televisão e Cinema) uma nova abordagem e o interesse em falar da população dos subúrbios, contar histórias sobre a nova classe média brasileira. Concorda com isto?   Sim, acho que a imagem do cinema brasileiro está a mudar, porque o Brasil também está a mudar em termos económicos e sociais. As questões típicas do cinema brasileiro: a miséria, a fome ou a violência estão a dar lugar a novos temas. Nos últimos doze anos, a miséria e a fome têm diminuído graças aos programas do governo. A miséria mudou de cara: já não existe a seca do Nordeste, do Sertão. Fiz um documentário nessa região, e pude constatar que as pessoas apesar da situação de seca, tinham água e comida e já não estavam a abandonar as terras para migrar para as grandes cidades. Para além disso, houve um certo desgaste no tema da favela (ou favela movie, como se diz).   Para além disso, será que essa nova classe média se quer ver representada no cinema?   É. As pessoas que estão a fazer esses filmes são oriundas dessa classe média e as questões novas que estão a surgir dizem-lhes respeito. O poder de consumo dessas classes médias cresceu e uma das questões é a do consumo, aliada à paranoia da classe média pela segurança e com a violência. Os preconceitos que ela possui. Ou seja, todas essas coisas estão a entrar mais em discussão e a ser mais retratadas.   O filme foi escrito e realizado por si. É mais fácil trabalhar desta forma, com base num argumento seu do que trabalhar com base num argumento de outrem?    É diferente, embora para mim seja mais fácil realizar um argumento que eu escrevi, primeiro porque gosto de escrever o argumento. Existem realizadores que não gostam  Aqui em Portugal também existe a tradição de serem os próprios realizadores a escrever o argumento…   É como no Brasil, embora agora existam mais argumentistas, e muitos realizadores que não escrevem o argumento. Mas, é mais fácil porque dá um domínio muito maior da história, dos personagens. Agora, na série que estou a realizar para a HBO Brasil trabalho com base num argumento que não é meu e não está a ser assim tão complicado. Já tinha trabalhado muito tempo no teatro com base num texto que não era meu e por isso já estava habituado. Não é uma coisa que me recuse a fazer.   O filme segue as regras da tragédia, quase, ou não?   É. O filme foi encarado como uma tragédia. E o que chamou a atenção nesse crime é que ele era muito mais trágico que dramático. Porque existem muitos crimes passionais em que o amante mata a amante (e se mata a si) e é mais dramático. E no filme, a estrutura do filme foi sempre a de uma tragédia.   Após o êxito em festivais e na estreia comercial no Brasil, quais são as expetativas para o lançamento do filme em Portugal?    Acompanhei o filme em festivais em vários países, inclusive em Espanha, e o filme tem sido muito bem recebido, as reações são sempre muito boas nas mais variadas culturas. Nos EUA, em Cuba, o filme tem funcionado porque é uma história universal e as pessoas identificam-se muito, independentemente de se passar no Brasil. Espero que o filme funcione aqui em Portugal.     Que projetos tem neste momento?   Além da série de televisão que realizei no Brasil («Narcos») para o canal de televisão HBO, tenho um novo argumento – um draft inicial. Tivemos financiamento para escrevê-lo, vamos agora pedir mais um financiamento para continuar o desenvolvimento e no próximo ano levantamos o dinheiro para filmar. É um thriller também, mas ainda mais marcado. O título do filme é “Os Enforcados” Já agora, como é que funciona o financiamento do cinema no Brasil? É Privado? Público?    É praticamente público, só que tem várias fontes de financiamento: Governo federal, Município, Estado. Tem a Petrobras que patrocina muito o cinema, o BND (Banco Nacional do desenvolvimento). E depois, existe o fundo estatal que é do governo, para além de investimento de empresas privadas que decidem apoiar ou não determinado filme.    

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:43
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