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Actualizado às 9:40 PM, Apr 17, 2019

Chico – Artista Brasileiro

Qualquer desatenção ao cinema documental musical brasileiro, faça não, pois a gota d’água para fazer transbordar e dissipar todas as suspeitas de quem ainda duvida da eficácia popular do gênero está chegando às telas agora em novembro, apoiada no carisma de um menestrel de mil faces. «Chico – Artista Brasileiro», de Miguel Faria Jr., é um retrato em 3x4 de Chico Buarque no qual ele põe o ponto em cada i das ilusões erguidas em torno de sua figura, demolindo os mitos em torno de sua timidez utilitária (que serviria como um afasta-fã), de seu olhar político e de suas reflexões sobre a química do Tempo nas rugas do corpo. Exibida hors-concours na abertura do Festival do Rio, no início de outubro, a produção dá um drible nas artimanhas da cinebiografia para se desenhar como algo mais: uma cartografia dos afetos com base nas recordações de um ícone da canção que se despe das próprias máscaras para explorar acordes mais próximos de sua própria subjetividade.

“Mesmo sem querer, com seu jeito de ser introspectivo, Chico, de quem eu sou amigo há mais de 40 anos, acaba alimentando um Chico Buarque mítico”, explica Miguel Faria Jr., que em 2005 emplacou o documentário de maior bilheteria do Brasil nos últimos 30 anos com «Vinícius», longa-metragem visto por cerca de 270 mil espectadores. “Este filme é o meu olhar sobre este homem a quem eu admiro como artista, mas de quem gosto também como amigo. Um recorte muito pessoal, sem pretensões biográficas, pautado pela simplicidade”.

Alternando depoimentos a números musicais, com cantores de diferentes gerações entoando os maiores sucessos do compositor de A Banda, «Chico – Artista Brasileiro» é o trabalho mais maduro de Miguel Faria Jr. na edificação da narrativa cinematográfica, arquitetado sinuosamente entre relato, registro e encenação. Este último aspecto é nutrido por uma direção de arte aparada a cinzel assinada por Marcos Flaksman (em uma de suas cenografias de maior inspiração) e vitaminado pela fotografia de Lauro Escorel. No fluxo de memórias, editada por Diana Vasconcellos, Chico fala de sua relação com o pai, Sérgio Buarque de Hollanda, canta loas a seu casamento com a atriz Marieta Severo e reconstitui as instabilidades políticas que o levaram a escrever canções como Cálice. “Chico não participou de decisão final nenhuma. Ele apenas disse ‘Eu topo’ e se predispôs a cantar e a dar entrevista”, explica o diretor, responsável por ficções como «O Xangô de Baker Street» (2001) e «República dos Assassinos» (1979).

É pela montagem que «Chico – Artista Brasileiro» se impõe como um espetáculo audiovisual de primeira grandeza. E se impõe por transcender a fórmula biográfica vigente nas cinematografias de língua portuguesa e se afirmar como um parlatório sobre o material bruto de 71 anos de vida, no qual Chico é o senhor do que se narra. É ele quem constrói o personagem de si mesmo, retocado por Faria Jr. Fã do músico por trás de sucessos como Construção, o cineasta carioca conheceu Chico há quatro décadas, quando encomendou a ele uma canção para o filme «Na Ponta da Faca» (1977). A encomenda acabou não sendo utilizada, por atrasos no longa, mas daquele contato nasceu um bromance que se renova há quatro décadas.

“Ao escolher as músicas para o filme, tentei não fazer um repertório manjado. Eu coloquei Ney Matogrosso para cantar Vitrines, escalei a fadista portuguesa Carminho para cantar Sabiá, chamei o sambista Péricles para levar Estação Derradeira, e dei Uma Canção Desnaturada, para a atriz e cantora Laila Garin, que viveu a cantora Elis Regina no teatro. Números como esses não são simples registros. Filmei como ficção, com luz, figurino, apoiado na fotografia do Lauro Escorel para produzir beleza”, explica Faria Jr., de quem o mercado exibidor brasileiro espera um blockbuster padrão doc.

Foi graças ao fenômeno de «Vinícius» na venda de ingressos que o filão doc musical virou um chamariz de público, expresso em sucessos como «Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei» (2009), «Uma Noite em 67» (2010), «Raul – O Início, o Fim e o Meio» (2012) e «Cássia» (2014). “A música é a expressão mais forte da arte no Brasil, então, não é à toa que este gênero se destaque”, diz Faria Jr. “Depois da grande geração literária dos anos 1940, a maior tradição artística do Brasil é a dos músicos que vieram dos anos 1950 para cá. E o meu filme «Vinícius» ajudou a apontar um caminho para retratar nossa diversidade musical nas telas”.

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:38

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