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Actualizado às 11:16 PM, Oct 20, 2019

Anna Muylaert em entrevista

Após uma passagem bem sucedida pelos EUA, Inglaterra e França, «Que Horas Ela Volta» (2015), de Anna Muylaert, estreia, em Portugal, no início de Dezembro. Conversámos com a realizadora brasileira sobre o filme, o trabalho com Regina Casé, a importância da educação na sociedade brasileira e sobre os temas dos próximos trabalhos. É um dos melhores filmes brasileiros do ano e já se fala duma nomeação para os Óscares.

Boa tarde, Anna. Para começar, uma pequena provocação: ao ver o filme senti que ele era “pólvora social”...

Bem, nunca tinha pensado nisso, mas o filme suscitou um enorme debate. Tenho andado nas universidades do país e têm aparecido, nos vários debates onde tenho participado, jovens como a Jéssica do filme, cuja mãe e a avó nunca tiveram oportunidade de estudar e agora elas são as primeiras a poder fazê-lo. Elas escrevem textos, depois partilham-nos com os alunos presentes nessas sessões. Confessam-se perante os colegas que nem sabiam das dificuldades que sentiram até chegar à universidade.

São os rostos da mudança social...

É isso mesmo. A educação é a base da mudança que o Brasil está vivendo, ainda pequena, pois na universidade ainda representam um número reduzido, mas é já um sinal de mudança. Muitas delas depois de verem o filme e de terem participado nos debates me escreveram partilhando as experiências individuais de cada uma delas. Fiquei a conhecer histórias verdadeiras, várias “Jéssicas” que partilharam as suas vidas com as mães ausentes, amas de outras crianças, e a capacidade e determinação que elas tiveram de estudar muito para conseguir chegar onde as suas mães nunca tinham sequer sonhado chegar.

Ainda existe uma forte clivagem social no Brasil e o filme revela bem isso na relação entre patroa e ama, submissa. Mas, a personagem da Jéssica representa o sinal de mudança...

As coisas começaram a mudar um bocadinho com o governo Lula, pois até aí os presidentes eram da elite e o Lula foi o primeiro presidente oriundo do povo. Instituiu uma série de mudanças no sistema educativo, como o aumento enorme de vagas para quem se candidatava à universidade vindo do ensino público, que era o ensino ruim. Destaco ainda a criação de quotas de admissão para os alunos negros. Aliás a esse propósito revelo a história duma aluna negra numa universidade que me perguntou porque é que a Ama do filme (personagem de Regina Casé) não era negra se a maioria das amas o são. Revela bem o que ainda falta fazer nesse domínio, no racismo, pois, os únicos atores negros que são convidados e aparecem são a Taís Araújo e o Lázaro Ramos. Ainda há bem pouco tempo estive com eles e eles partilharam comigo a sua insatisfação por serem praticamente os únicos atores negros a participar no cinema e na televisão brasileiras.

Este projeto tem mais de 20 anos e o Brasil mudou muito nesse período de tempo: o que é que fez com que nunca desistisse de filmar esta realidade das amas ou empregadas domésticas? Qual a principal motivação para fazer este filme?

Bem, é uma realidade que existe há muito tempo, marcante, e por isso senti que era fundamental levar este projeto até ao fim, mas quando fui mãe senti muito mais o peso dessa situação e da relação entre o trabalho e a maternidade. Acentuou muito essa vontade e motivação de falar dessa realidade e da questão da maternidade. Um dos aspetos que mais me impressiona é que as Amas, elas passam muito tempo com as crianças dos patrões mas não brincam com elas, estão demasiado tristes para o fazer, não têm essa felicidade, pois não são as suas filhas. E destaco ainda outro aspeto: as crianças sentem, logo desde muito pequenas, essa superioridade em relação às amas e deve ser difícil para elas gerir essa relação de submissão.

Marisa Orth, Glória Pires e agora a Regina Casé. Deve ser um privilégio trabalhar com nomes tão importantes do cinema e da televisão brasileiras. É fácil trabalhar com elas? Deixa-as improvisar? Como é o seu trabalho com as atrizes e atores no plateau?

Olha, todas elas são grandes atrizes e foi excelente trabalhar com elas. No caso deste filme e da Regina Casé, ela tem neste momento no Brasil um peso e um destaque quase equivalente ao que a Oprah tem nos EUA. Aliás, tem um programa de tarde de enorme audiência onde mostra o quanto ela conhece do Brasil e dos brasileiros. O trabalho com ela foi fantástico: ela descobria cada pormenor e detalhe da sua personagem a partir dos objetos que o nosso cenógrafo colocava no set de rodagem. A cena onde ela pega nas enciclopédias no final do filme foi ideia dela. Ela pegava nos objetos colocados na casa e a partir daí criava com a sua personagem.

A importância da educação como ferramenta de mobilidade social é representada por Jéssica. Acha que o Brasil está a mudar e a caminhar nesse sentido? Ainda há um longo caminho a trilhar? Como está o Brasil nesse domínio?

Como já falámos, está a mudar, já mudou um bocadinho com o Lula e com a Dilma mas ainda falta percorrer um longo caminho. Repare, como exemplo, na universidade que é retratada no filme. Apenas seis em cada quinhentos alunos são como a Jéssica do filme, aquelas e aqueles jovens que não tiveram ninguém na família a estudar antes deles, cujas mães trabalharam como amas longe deles e que conseguiram chegar à universidade. Fiquei a saber dum caso dum jovem que não tinha dinheiro para alojamento e transporte e por isso dormia na faculdade. Os colegas pensavam que ele era um pouco estranho, e achavam que ele fazia isso por uma questão de ser diferente e de afirmação dessa diferença. Ora, a verdade é que ele confidenciou-me que o fazia pois não podia pagar casa e transporte para a universidade.

Tive oportunidade de ver o seu primeiro trabalho «Durval Discos» (2002) e ver algumas imagens do segundo «É Proibido Fumar» (2009). Os protagonistas dos seus filmes são personagens fortes, a viver momentos delicados. Concorda com esta afirmação?

É engraçado que diga isso pois acho que as minhas personagens são fracas e no caso da Val (Regina Casé), ela é submissa aos seus patrões...

Quando digo isso refiro-me ao fato de estarem muito bem escritas, são personagens bem construídas. Na escrita do argumento a construção das personagens é um momento chave?

Claro que sim. Isso é muito importante para o filme, que as personagens sejam bem escritas e definidas de forma clara. Aliás para os atores e para a rodagem é fundamental que assim o seja.

Recebeu vários prémios ao longo da sua carreira. Qual a importância dos festivais e dos prémios no seu trajeto?

Bem, são fundamentais pois, para além do reconhecimento, permitem continuar a filmar, ou seja, são decisivos para continuar a ter oportunidade de fazer novos filmes e embarcar em novos projetos.

Próximos projetos?

Estou a preparar um filme sobre um jovem e sobre a adolescência. Ele é transgénero e o filme é um retrato da sua vida. Para além disso, estou a preparar um outro filme sobre o machismo. Não sobre aquela noção tradicional sobre o homem que bate na mulher – pois isso é tratado e julgado como violência doméstica –, mas sim sobre os pequenos gestos e comportamentos no quotidiano.

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:37

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