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Actualizado às 9:47 PM, Feb 18, 2019

John Turturro e Nanni Moretti - Um encontro em Cannes

Nanni Moretti e Margherita Buy Nanni Moretti e Margherita Buy

Um dos grandes filmes do ano está aí nos cinemas, «Minha Mãe», de Nanni Moretti. Em Cannes, estivemos alguns minutos com o próprio Moretti e com o regressado John Turturro, a surpresa do elenco. Para Moretti, o importante é não forçar a lágrima, enquanto Turturro é defensor da ideia de que o cinema é um circo.

Num clube noturno de Cannes à hora do almoço. O clube chama-se Silencio e foi inspirado por David Lynch. É um cenário improvável para uma conversa cronometrada com a equipa de «Minha Mãe», de Nanni Moretti. A organização dos publicistas franceses é caótica: há horários trocados, a tradutora de Moretti sem pachorra e atrasos gigantescos. Tudo tão mal organizado que a atriz principal do filme, Margherita Buy tem de abandonar o local pois supostamente tem um avião à sua espera. O próprio Moretti desespera e John Turturro, o alívio cómico do filme, sorri de gozo.
O cineasta italiano, quando chega a vez da METROPOLIS, está cansado mas faz questão de dizer que este seu filme pessoal e inspirado na perda da sua mãe não tenta elevar o lugar do realizador: “um realizador de cinema vive e sonha como todas as outras pessoas. Basicamente, este é um filme sobre uma mulher que está com problemas no trabalho, que está preocupada com a filha e que se encontra cheia de dor pela doença da mãe. Ao mesmo tempo que convive com tudo isso de real, tem também os seu sonhos, as suas fantasias e medos. «Minha Mãe» tem diversos níveis de narração”.
Para John Turturro, a realizadora interpretada por Margherita Buy não é preto no branco uma versão de Nanni Moretti: “há coisas que ela diz que não são bem o Nanni. Além disso, aquela personagem é uma realizadora muito discreta. A presença do Nanni num plateau é tudo menos discreta. O que conta nessa coisa dos paralelismos reais é se a personagem é interessante ou não”. Turturro tem aqui o papel mais significativo da sua carreira em muitos anos. Quando leu o argumento diz ter ficado tocado: “ aquela realizadora é ao mesmo tempo amante, mãe e filha. Depois, gosto como a mãe dela afeta tanto os outros. Curiosamente, a filha, uma realizadora, tem a profissão que é suposto afetar os outros. Acho que o Nanni neste argumento fala de coisas que todos nós lidamos quando chegamos a uma certa idade. É uma grande história sobre a forma como todos nós na nossa vida acabamos por ficar órfãos”
Há um momento fulcral a meio do filme: a personagem de John Turturro quer abandonar o filme e ter um pouco de realidade. Perguntamos a Moretti se como realizador já lhe aconteceu isso. A resposta só chega depois de um leve sorriso: “mas eu, quando filmo, estou sempre na realidade. Não corro o risco de não fazer contas com a realidade...Seja como for, fazer um filme é uma experiência total e que me absorve de forma total e retira-me qualquer ligação com o mundo do sonho. Estou sempre completamente a par de tudo”. Moretti faz também questão de afirmar que não quis fazer um filme deprimente: “evitei o efeito lacrimejante. Não quis com que o público se comovesse a todo o custo. Enfim, procurei não sinalizar os momentos mais dolorosos. Quem vir «Minha Mãe» não ficará emocionado à força! Quis ser discreto nesse aspeto, quis ser mesurado, mesmo na questão da comédia – não quis que houvesse momentos de humor forçados. Mas claro que fico contente quando as pessoas choram e riem neste filme. Sempre soube o tipo de objeto de cinema que aqui queria fazer, apesar de haver sempre aquela dúvida acerca daquilo que depois chega ao público”.
Em Cannes, as cenas com John Turturro foram aquelas que provocaram as melhores gargalhadas do festival e lembraram-nos o quão entusiasmante pode ser este ator que tem andado longe dos papéis importantes. “O que me interessa como ator é poder trabalhar com as pessoas que admiro e esperar que me peçam para fazer coisas um pouco diferentes ou algo que me divirta. Para mim, o que me motiva é a interação, mas claro que o material também é importante. Aliás, antes pensava que o mais importante era o material. O mais importante são as pessoas”
No fim, há uma senhora da entourage do filme que nos corta o tempo pois Moretti tem supostamente que estar num “red carpet” do festival. As obrigações cannoises... “Pois, a França é um país que leva muito a sério o cinema e Cannes ainda é o festival mais importante do mundo. Se me pedem para estar na passadeira vermelha de smoking, eu obedeço sem problemas. Aqui o cinema é uma coisa séria, seja do ponto de vista artístico, seja do ponto de vista industrial. E subir ontem a passadeira vermelha com o meu filme emocionou-me como se fosse a primeira vez”, conta com voz grave já a levantar-se. A seriedade de Cannes toca sempre os maiores. Turturro, por sinal, também nos fala das obrigações protocolares da escadaria vermelha: “é um pouco surreal, é...Porém, é divertido, temos é de aceitar tudo aquilo. Estamos num negócio de circo. A escadaria de Cannes faz parte do circo”.

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:29

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