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Actualizado às 9:47 PM, Feb 18, 2019

João Salaviza em entrevista - Parte 2

Montanha Montanha

Entrevista realizada após a estreia de Montanha no LEFF 2015 (primeira parte da entrevista, publicada a 30 de Novembro de 2015).

A escolha do David Mourato como protagonista do filme foi imediata ou resultou dum longo processo de casting?

Sim, essa escolha tem algo de extraordinário e tem algo de passional também. Quando de repente se percebe que é com aquele ator que se quer filmar, nesse momento percebe-se que há uma paixão imanente ao processo de escolha. O caso do David é uma história particular: vi cerca de 400 miúdos, durante 18 meses. Estava à procura dum miúdo que por um lado trouxesse os últimos vestígios da infância, mas que ao mesmo tempo já se antecipasse nele uma maturidade. Era um momento muito preciso o que procurava. Queria uma espécie de adulto imperfeito, mas que também não era uma criança… 
Esta transição parece-me um momento muito preciso na vida de alguém. É uma espécie de segundo parto – por isso, na abertura do filme, ele aparece numa espécie de posição fetal. E quando o vi pela primeira vez, no casting, senti que era a pessoa certa, mas que apenas daqui a um ano estaria pronto, pois ainda estava com muitos vestígios da infância. Vi vários outros miúdos e ao fim de quatro meses, não havia ninguém que me interessasse, ninguém que pudesse carregar o filme nos ombros e daí reencontrei-me com o David! E aquele salto de quatro meses fez toda a diferença.


Interessante … 

Foi aí que tomei a decisão: temos de começar a filmar já! Pois, naquele momento, ele tinha as características que procurava. Para além disso o David tinha essa resistência à câmara. Era alguém que se escondia, que se movia pelas sombras, que surgia nos cantos mais escondidos da casa, que mantinha os seus segredos escondidos, as portas fechadas – o que é que acontece por detrás desta porta?

E foi difícil trabalhar com um elenco maioritariamente jovem e sem experiência? 

Foi útil! Ficou muito claro e estabelecido por eles, miúdos, quais eram os limites, qual era o limite até onde se podia filmar. Acho que há neles uma verdade qualquer, mesmo as crianças, quando mentem, há nelas uma verdade qualquer. Numa sequência na escola, com a professora, o David afirma: “Eu nunca minto!” Ele está a mentir e a dizer ao mesmo tempo uma verdade qualquer. Quando ele se relaciona com o Rafa, quando se declara à Paulinha, anda numa espécie de ziguezague… tudo isto são coisas que não faziam parte do guião, são coisas que vieram dele, do David Mourato.

Então a rodagem foi uma experiência única?

Para todos os intervenientes. É um filme sobre as dores de crescimento e ao mesmo tempo conta-se uma história paralela. E isto foi tudo muito partilhado entre a equipa e o elenco. Por isso, foi uma experiência única. Filmámos e filmámos durante vários dias e foi uma viagem particular, tivemos alguns contratempos durante a rodagem…

Já li algo sobre isso, que foi uma rodagem acidentada. A forma como desloca a câmara é subtil e incisiva. A fuga na moto roubada, o beijo do David e da Paulinha, a sequência da festa com o contraste luz/escuridão. Sente que deu vários passos, do ponto de vista formal, na sua forma de filmar, na passagem da curta para a longa?

Não é uma forma de filmar programática.

Não foi algo planeado, portanto.

Acho que as transformações na forma de filmar são permeáveis a muitas coisas. Acho que estas evidências formais têm sempre uma raiz na realidade. A câmara filma uns espaços vazios – há aquela panorâmica na piscina dos Olivais, a panorâmica dentro do quarto no primeiro beijo entre o David e a Paulinha. Acho que a câmara tem um olhar quase espiritual, de presença e ausência ao mesmo tempo. Tudo isto tem muito a ver com o fato de se estarem a filmar memórias. Não exatamente filmar memórias duma forma autobiográfica, reproduzir fatos tal e qual como se passaram, mas filmar sensações! O que é que eu conservo da adolescência? Por isso, é que há muitas pessoas que me dizem que o filme é uma espécie de sonho. Nunca tinha pensado nisso. Mas há esta espécie de viagem onírica, o David parece que está em suspenso.


Só uma curiosidade: o filme foi rodado no bairro dos Olivais?

Foi rodado no bairro dos Olivais. A casa e o prédio são no bairro. A sequência da conversa sobre o suicídio, na passagem aérea, foi filmada na Calçada de Carriche. Toda esta fruição do tempo, sem objetivos…

…Essa ideia de viver o momento, “sem tempo”, é característica da adolescência…

Exatamente. Permite que o ritmo do filme se aproxime muito dessa sensação: é um miúdo que não quer que o tempo ande para a frente, rejeita aproximar-se da mãe. Apenas no final temos um movimento diferente – no final, ao contrário da sequência de abertura, é o miúdo que tem de acordar a mãe e contar-lhe que o avô morreu e ele não o faz para a proteger. E é nesse momento que ele, sem se aperceber, se transformou! 
Esta sensação de filmar momentos cruciais duma vida sem que exista uma autoconsciência... Acho que o filme é muito isso: o miúdo não se apercebe do que se está a passar e apenas no final ganha essa autoconsciência. Uma coisa que me foi chegando através das pessoas com quem falei nos vários festivais é que o filme, no fim, é muito mais violento do que possa parecer, apesar de durante a maior parte do tempo haver uma certa distância.

A adolescência como centro narrativo: depois de «Arena», «Rafa» e de «Montanha», pensa continuar a trabalhar sobre esta temática? Vai seguir por caminhos novos? Ou não tem ainda ideia?

Este filme fecha este capítulo. Acho que fazer um filme parte de impulsos vitais, e não tanto intelectuais. O meu próximo trabalho vai ser no Brasil, junto duma tribo a viver num local remoto, que não fala quase português. Vou passar lá alguns meses, sentir a sensação estranha de ser um estrangeiro, embora não um turista. Talvez precise de sair de Lisboa e destas personagens para depois poder voltar a filmar na cidade. Aliás, os meus filmes começam sempre com pessoas que saem de casa, embora em «Montanha», haja um movimento mais circular, ao contrário das curtas anteriores.

Obrigado João, pela disponibilidade e felicidades para a estreia do filme!

Obrigado.

(artigo publicado originalmente na revista Metropolis nº33)

 

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:27

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