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Actualizado às 3:58 PM, Jan 19, 2020

Mundos Paralelos - Ruth Wilson

A série que pode repetir o sucesso de Game of Thrones na HBO é Mundos Pararelos, adaptação aos livros homónimos de Philip Pullman. No hotel dos Golden Globes, a britânica Ruth Wilson, uma das vilãs de serviço, conta tudo à Metropolis sobre a série e não esconde que queria e deveria fazer mais cinema.

Rui Pedro Tendinha , em Beverly Hills

É a primeira vez que está num projeto de fantasia. Será que encontrou alguma diferença em termos de método de representação?
A grande diferença passa por saber representar com o CGI. Logo no começo decidiu-se trazer técnicos de marionetas para nos ajudar a imaginar os nossos “demons”. De alguma forma, não foi a habitual bola de ténis pendurada num pau...Os animais dos “demons” são a nossa alma e absolutamente fundamentais no que toca à essência de cada personagem. São uma indicação sobre cada pessoa e têm qualidades humanas. Portanto, foi importante trazer humanos para sublinhar as marcações. Diria que a psicologia da minha personagem está muito ligada àquele macaco.

E a Ruth tem algumas qualidades símias?
Isso cabe a vocês perceber...Penso talvez mais para as qualidades felinas...Gostava de ter a aura de uma pantera negra. A sério, nem sei se tenho instintos símios, teria de perceber quais são mesmo os instintos dos macacos. Vejo-me muito como uma loba, uma loba solitária.

Tem alguma ideia porque razão as histórias do fantástico estão a dominar tanto a nossa cultura audiovisual?
Não sei, mas no caso do Philip Pullman uma pessoa olha para os livros e percebe o imenso grau de detalhe. Trata-se de um universo muito adulto, épico e filosófico. Trata-se de Literatura nada fácil e extremamente complexa. Conceitos como a máquina que nos obriga a dizer a verdade ou os próprios “demons” obrigam-nos a debater grandes ideias. Penso que His Dark Materials é tão complexo como qualquer drama humano. Estas histórias são para adultos e crianças, mesmo quando há montes de coisas que não compreendo. O Pullman fala do conceito do pecado e de toda a complexidade do bem e do mal. Com tempo, conseguimos agora explorar tudo o que ele escreveu.

E acredita que esta história de fantasia tem pernas que a liguem para a realidade?
Sim, sem margem para dúvidas. Como o Jack Thorne, o argumentista já disse, esta série tem uma mão cheia de personagens que querem ser grandes à conta de deixarem de ser bons. Sinto que atualmente vivemos numa fase em que nos deparamos com figuras que querem à viva força ser grandes, esquecendo-se de ser bons. A Lyra, no coração da história, representa tudo o que tem a ver com a bondade. Todas as suas escolhas passam por ser uma boa pessoa, fazer as escolhas certas. Neste momento, esquecemo-nos tanto desse comportamento... Mundos Paralelos é uma série muito relevante.

E terá impacto sob o ponto de vista dessa perceção?
Creio que sim. Estou a habituada a pensar que quando faço teatro, as poucas pessoas que vão ver as minhas peças, talvez fiquem tocadas. Se umas 4 ou 5 já ficarem, estou certa que já fiz a diferença. A arte é feita para desafiar as pessoas. Espero que hoje a arte ainda tenha um impacto sob as pessoas. O meu trabalho enquanto atriz passa por aí.

Sente que a indústria de entretenimento está unida nesse objetivo?
Difícil de dizer, mas claro que tudo o que envolveu o movimento #MeToo foi importante. Fez as pessoas reflectir sobre o que se entendia acerca de comportamento aceitável. E agora está a haver uma grande mudança. As pessoas estão a marcar posições, em especial as mulheres, coisa que não acontecia há uns tempos atrás. Se isto vai ser uma mudança a longo prazo, não sei...

Tem recebido propostas com personagens mais fortes, mais empoderados?
Sim, mas não sei até quando isto vai durar. Talvez seja melhor aproveitar...Mas essa mudança sente-se mais atrás da câmara do que à sua frente. O inegável é que existe uma energia que permite que se façam mais histórias escritas por e sobre mulheres. Isso é sensacional. As oportunidades estão a ser dadas...

Mas escolher uma mulher para ser 007 não é sinal de um extremo do politicamente correto?
Não sei, isso vai mesmo acontecer?! Se sim, acho óptimo? Porque não!? Fico encantada!!

his dark materials1

Muitas das suas cenas aqui são com a Daphne Keen, uma criança. Será que às vezes se esquece que ela não é uma adulta?
Tantas vezes, sou terrível nisso e passo a vida a dizer palavrões e a ter que colocar dinheiro de multa numa caixa. Mas a verdade é que ela é uma atriz brilhante e uma pessoa realmente profissional. O que é curioso é que tenho cenas em que sou mesmo mázinha para ela...No começo da rodagem disse-lhe que isso iria acontecer mas a Daphne está-se a marimbar - é uma durona! Encontrei uma atriz à minha altura. (risos)

Tem feito mais televisão do que cinema. Gostaria de equilibrar mais as coisas?
Sim, na verdade, sim! O meu desejo é mesmo trabalhar com cineastas de verdade. Sou fanática por cinema! Sou daquelas cinéfilas que ama os autores, mas que vai atrás das personagens e da narrativa. De vez em quando, sinto a necessidade também de subir a um palco porque sou uma atriz física, alguém que precisa soltar a voz e o corpo. Quero estar em todos os meios.

O que acontece quando vê uma atriz a representar um papel que poderia ter sido para si?
Tenho uma péssima memória mas já me aconteceu isso...Muitas vezes, o tempo passa e eu esqueço-me que poderia ter sido eu a ficar com aquele ou este filme. Nunca me aconteceu aquele sentimento de raiva de ter querido realmente estar naquele projeto, mas claro que um dia irá acontecer. Mas fico sempre intrigada com aquilo que cada ator traz para cada papel. Conto-lhe um segredo: gosto de todas as atrizes!

[Entrevista publicada na revista Metropolis nº72 - Novembro 2019]

Mídia

Modificado emsegunda, 06 janeiro 2020 00:09
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