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Actualizado às 3:58 PM, Jan 19, 2020

Mundos Paralelos - LUCIAN MSAMATI

Parte muito importante da trama de «Mundos Paralelos», os “Gyptians” são comandados pela personagem de Lucian Msamati, um líder justo mas também bastante teimoso. John Faa e companhia vão ser muito importantes para o percurso de Lyra (Dafne Keen), a protagonista dos livros imaginados por Philip Pullman. Com a série super aguardada a chegar finalmente à HBO Portugal, o ator analisa a experiência e o que podemos esperar da adaptação de Jack Thorne.

Quem é o John Faa?
O John Faa é o rei dos “Gyptians” do Oeste. Ele tem uma relação duradoura e um grande respeito pelo Lord Asriel, porque ele sempre lutou pelos direitos dos “Gyptians”, ou pelos direitos dos outsiders. Quando começamos a história, ele não foi um rei guerreiro por uns tempos, mas, por causa dos eventos da história, tem de voltar ao ativo. Ele é forçado a pegar de novo no martelo e a “esmagar cabeças”.

Que tipo de homem é ele?
Eu diria que o John é um indivíduo forte. Ele é incrivelmente íntegro. Alguns diriam que ele é íntegro ao ponto de ser um pouco teimoso. Mas ele tem de ser um líder muito firme. Muito firme e justo, e é muito respeitado por todos. Também é uma espécie de figura paternal “não oficial” para toda a gente. É algo que tem a ver com o facto de ele ser uma espécie do líder não absurdo que todos gostaríamos de ter. Um homem que teve de fazer coisas com as mãos, que teve de as sujar para levar a cabo os seus objetivos. São pessoas sólidas, trabalhadoras. O lema delas é “trabalhos, fazemos as nossas coisas, respeitamos as leis; respeita-nos”.

Quem são os “Gyptians”?
Somos os outsiders. Penso que os nossos parentes mais próximos no mundo real são, obviamente, os Ciganos. Somos uma mistura de pessoas, culturas e backgrounds, que criámos uma cultura própria fora daquela que pode ser considerada a cultura mainstream. Vivemos de forma honrada e verdadeira à nossa maneira há muito, muito tempo. Mas houve sempre uma relação complicada entre os “Gyptians” e o resto da sociedade. Há muita suspeição à volta deles, em grande parte infundada, simplesmente porque são diferentes. As nossas hierarquias são diferentes, a nossa cor também é diferente. Somos uma família verdadeiramente global, olhamos uns pelos outros, tomamos conta uns dos outros. Também temos crenças espirituais muito fortes, que estão fora daquelas que são consideradas mainstream pela Autoridade. Temos séculos de história e muito orgulho nisso.

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Para quem possa não conhecer o primeiro livro que serviu de inspiração à série, em que mundo acontece?
Interessante. Bem, acho que acontece num universo paralelo que se parece muito com o nosso, mas que talvez por causa da história, cultura, religião, ficou preso nos anos 50. Imagina que o Movimento de Direitos Civis nunca tinha acontecido, por exemplo. Imagina que o Império Britânico se mantinha como antes. Ou que as liberdades políticas e religiosas estavam congeladas como eram no século XVIII, e não conseguíamos seguir em frente. Sim, é nesse mundo que estamos. É muito parecido com o nosso, mas parece atrasado 50, 60, 70 anos. E parece que vão passar outros tantos anos até ser capaz de avançar.

O que gostaste no argumento?
Bem, o principal motivo é que sou um grande fã do Jack Thorne. Tive o privilégio de trabalhar com ele anteriormente, então já sei que o seu nome é garantia de qualidade. Foi uma combinação perfeita entre o seu trabalho e o do Philip Pullman, acaba por ser um par feito no céu artístico. Sabia desde logo que ia ser um trabalho feito com uma fé e respeito incríveis pelo material, mas que também não teria medo de aproveitar as possibilidades da televisão. Há sempre uma luta com as adaptações literárias, porque estás a lidar com a imaginação de outra pessoa. Acho que as melhores adaptações, e mesmo que isso seja subjetivo, as melhores e mais bem-sucedidas adaptações são aquelas que apelam ao espírito das personagens, ao espírito da história. Estranhamente, é apenas quando vemos a adaptação que dizemos “Sim, o espírito está completamente ali”. Não nos importamos que o ator não seja parecido com aquilo que imaginámos, se o espírito da personagem estiver lá... Estou convencido!

Qual acreditas ser o “coração” desta história?
À medida que a tecnologia avança, sentimos que estamos na idade da ciência, na idade dos computadores. Tudo está a uma velocidade supersónica, mais e mais possibilidades, mais espaços que eram místicos ou mágicos estão a ser superados. Mas o mesmo não pode ser dito da nossa moral, das grandes questões sobre a vida, a morte, o humor, a honra. São as coisas eternas, vontades fundamentais que temos enquanto pessoas, e elas continuam sem resposta, pelo menos para mim. Estes livros falam sobre o momento em que uma criança se torna consciente. O momento em que percebemos que o mundo é mais do que aquilo que os nossos pais nos disseram. Quero dizer que é sobre a revolta da juventude, mas é mais do que isso. É mais sobre a fome de continuar: “Não, a dúvida e a fé coexistem, e isso é OK. Temos de desafiar os absolutismos”.

[Entrevista publicada na revista Metropolis nº72 - Novembro 2019]

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