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Actualizado às 8:37 AM, Jun 18, 2019

Laurence Fishburne - 20 anos de «Matrix»

Destaque Laurence Fishburne - 20 anos de «Matrix»

A festa será intensa para os fãs de "Matrix" em 2019, na esteira dos 20 anos de um dos maiores marcos da história da ficção científica nas telas. Morpheus, um de seus mais icónicos personagens, já está pronto para celebrar: "A gente teve muito trabalho pois havia ali uma engenharia de filmagem que ninguém conhecia, um par de talentosos diretores ainda em início de carreira e uma equipa de pessoas que embarcou de cabeça naquela mistura de filosofia e cultura pop", diz Laurence Fishburne, o astro por trás do guru do messiânico Neo, na luta contra as máquinas.

É um ator que está na luta desde a década de 1970, quando apareceu em «Apocalypse Now», a cantar e rebolar ao som dos Rolling Stones. Um ator dono de uma voz inconfundível, que amplia o seu charme. "Coppola apresentou-me à arte, deu-me um norte", diz Fishburne.

Logo após ter sido nomeado ao Oscar pelo seu desempenho como Ike Turner em «What's Love Got to Do with It» (1993), Laurence Fishburne, hoje com 57 anos, foi protagonizar «Othello» (1995), com Irène Jacob e Kenneth Branagh: foi nessa época, de sucesso profissional, que ele declarou o seu desejo de filmar "O Alquimista", o fenómeno de vendas responsável pela fama mundial de Paulo Coelho. O escritor virou uma grife global nas livrarias mas o projeto não saiu do papel... ainda... conforme o ator declarou na bateria de entrevistas que deu no Festival de Marrakech. Ele veio ao Marrocos para uma projeção de gala de um sucesso comercial da Marvel, no qual é codjuvante de luxo: «Homem-Formiga e a Vespa», de Peyton Reed. Mas a popularidade dele por aqui (e no planeta fora) é enorme, não apenas por sua presença em séries de sucesso como "CSI" e "Hannibal", mas por estar imortalizado no imaginário cinéfilo como Morpheus, o guru do herói neo (Keanu Reeves) na franquia "Matrix". Em 2019, a primeira longa-metragem daquela série sci-fi completa 20 anos: à época da sua estreia, ela mudou todas as convenções do género. Na entrevista a seguir, Fishburne conta à revista Metrópolis parte da sua história nas telas, sobretudo as suas passagens ao lado de Keanu nesses clássicos da ficção científica. E fala dos seus atuais projetos, incluindo dirigir a saga do alquimista.

Num piscar de olhos, "Matrix" somou duas décadas no imaginário cinéfilo: a saga de Neo, papel de Keanu, e de Morpheus, o seu personagem, vai completar 20 anos em 2019. O que aquele filme representou para a cultura pop?
Laurence Fishburne: Ele mudou tudo... e num gesto simples: levou a filosofia para a ficção científica. É uma história antiga. É a história do messias que salva a Terra. Mas essa velha história veio envelopada em símbolos contemporâneos, signos pop, na tecnologia. Ao adquirir "O alquimista" tive a mesma sensação quando li o livro: algo ancestral contada de uma forma contemporânea e universal. Curiosamente, pensando em "Matrix", eu não sou um sujeito tecnológico: tenho um smartphone mas não vivo enfiado nele, não frequento as redes sociais. Prefiro conversar com as pessoas. Eu ainda ligo para as pessoas em vez de enviar mensagens.

Você falou com carinho de Keanu Reeves. Que tipo de ator é ele, hoje, já com 54 anos?
Laurence Fishburne: É uma bênção estar com Keanu não apenas por sermos amigos e por termos passado experiências muito loucas fazendo "Matrix", mas pelo fato de ele ser uma das pessoas mais inteligentes que eu já conheci. E ele tem um perfil diferente de tudo o que você já viu no cinema, o que lhe garantiu espaço nas telas durante todos estes anos. Isso e o facto de ele ser um ator que arrisca: ele cresce como intérprete porque faz escolhas desafiadoras. Às vezes ele acerta. Às vezes erra. Mas a arte é isso. Quando eu falava das loucuras de "Matrix"... veja... aquele olhar filosófico sobre a tradição sci-fi, cheia de efeitos especiais novos, era algo que ninguém conhecia no cinema. Era uma experiência. Tudo era novo, era risco. E estávamos ali, Keanu e eu, juntos.

Como ficou o projeto de filmar "O alquimista" quase 25 anos depois das primeiras notícias sobre seu interesse no livro de Paulo Coelho?
Laurence Fishburne: Eu ainda estou a correr atrás disso, porque há ali uma história que precisa de ser contada. Aliás, agora mais do que nunca, pois se trata de uma trama sobre jornadas espirituais, uma troca entre culturas distintas, na aprendizagem acerca das diferenças. Talvez por isso ele não tenha saído antes. Diante das lições que estão ali, 20 anos não significa muito. E eu continuei a trabalhar em coisas diferentes durante esse tempo, tendo até dirigido um filme («Once in the Life», de 2000).

matrixO que mais mudou na sua vida nesse tempo em que se dedica ao projeto e que novos filmes vem por aí?
Laurence Fishburne: O que mudou? Fiquei mais velho, ganhei uma barriga, ganhei mais senso de humor... Novos filmes? Há muita coisa, mas está a chegar um projeto muito divertido que é o terceiro filme da franquia "John Wick", em que eu contraceno de novo com meu amigo Keanu Reeves, depois de tudo o que fizemos em "Matrix". É uma franquia sobre um mundo muito louco, hiperviolento, que parece uma grande brincadeira de polícias e ladrões, daqueles que a gente fazia quando eramos crianças. E o Richard Linklater, um diretor que eu admiro muito pela leveza do seu olhar sobre a vida, criou um papel para mim no seu novo filme: «Onde Estás, Bernadette?». Fizemos «Derradeira Viagem» juntos, recentemente, e ele me chamou para essa nova empreitada de um jeito engraçado, dizendo: "Eu tenho uma cena em que você entra e escuta a Cate Blachett a falar, pode ser?". Como dizer não a Cate e a uma pessoa como ele?

Você errou ao ter recusado o convite de Quentin Tarantino para atuar em «Pulp Fiction» (1994), no papel que foi para Samuel L. Jackson?
Laurence Fishburne: Claro que não. E vou dizer o porquê. Se eu tivesse aceitado, não teria havido aquele desempenho extraordinário do Samuel, que celebrizou o seu nome e fez dele uma das maiores estrelas de todos os tempos no cinema. Eu tive outras boas chances depois. E pude admirar Samuel.

Você passou pelo Festival de Marrakech com um filme de super-heróis que faturou cerca de 625 milhões nas bilheterias: "Homem-Formiga e a Vespa". Ao mesmo tempo, você tem vaga cativa no universo DC Comics, como Perry White, o editor do Daily Planet. O que esse filão dos heróis mascarados representa hoje?
Laurence Fishburne: Eu não acho que a omnipresença do filão esteja a pertubar o cinema: toda as modas têm seu tempo de acalmia, terminando na hora certa. Ainda não chegou essa hora. E, como eu cresci lendo quadrinhos, tenho muito encanto com esses filmes. «Pantera Negra», por exemplo, foi um marco para a população negra do mundo. Negros como eu encontramos ali um sonho realizado: um príncipe de origem afro virou herói. É muito significativo. A experiência de ser Perry White é outra coisa, também prazerosa: eu tento fazer daquele personagem uma homenagem a um grande jornalista negro americano que, infelizmente, já se foi: Ed Bradley.

Tem um filme inédito com você no elenco que é um dos mais esperados desta temporada de fim de ano: «Correio de Droga», de Clint Eastwood. Como é trabalhar com ele... e cerca de 15 anos depois de vocês terem feito o cult «Mystic River»?
Laurence Fishburne: Estar num set sob a direção dele dá a um ator uma sensação de maturidade. O que ele faz é um cinema sincero, de extrema simplicidade, usando a mesma equipa, há anos. Uma equipa que o admira. Quando eu comecei no cinema, ainda adolescente, fiz «Apocalypse Now», um filme importantíssimo para a História, mas que teve imensos problemas para sair do papel. Francis Ford Coppola, que me ensinou muito, levou quase dois anos para concluir aquele filme. Dois anos de uma vida, de muitas vidas. O Clint é diferente: em 25 dias... 25... ele filmou tudo. São experiências diversas. Todas contam.

Entrevista publicada na Revista Metropolis nº66

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