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Entre Sombras - entrevista Alice Guimarães e Mónica Santos

Destaque Entre Sombras - entrevista Alice Guimarães e Mónica Santos

Depois de terem conquistado dois prémios no “Curtas” de 2015, com «Amélia e Duarte» rodado em technicolor, Alice Guimarães e Mónica Santos viraram-se agora para a estética do film Noir. «Entre Sombras» (2018) desenrola-se nos anos 1940 e tem como cenário a cidade do Porto envolta em mistério, um mundo onde os corações podem ser depositados em bancos e a protagonista se envolve numa aventura em busca de coração selvagem. Conversámos com as realizadoras já depois de receberem o prémio do público do “Curtas” de Vila do Conde deste ano: sobre a origem do filme, a estética, as técnicas de animação utilizadas entre outros assuntos.

O vosso filme é uma bonita surpresa. Falem-nos da génese deste filme: como e quando surgiu a ideia para realizar Entre Sombras?

Começou, entre outras coisas, com uma vontade de fugir do ambiente Technicolor da nossa última curta-metragem "Amélia & Duarte", o que nos levou para o universo do film noir. Queríamos dar outra perspectiva a este sub-género, que nos parecia bastante patriarcal, onde habitualmente a mulher, além de não ter voz, não conseguia sobreviver se tivesse poder ou era aglutinada pelo status quo.

A estética do Film Noir. Qual a razão para esta opção? E a cidade do Porto é o cenário ideal para esta estética?
“Entre sombras”, no que respeita a narrativa, é um filme de detectives em que alguém pede ajuda, quase uma contratação de um detective, para solucionar um crime/mistério.
A nível estético, interessou-nos trabalhar o contraste entre a luz e sombra que assumem um papel principal na ausência de cor tanto na técnica (como, por exemplo, os Homens-Sombra) como na estrutura narrativa (dia/noite/dia).
A cidade do Porto não é a ideal: não há muitos edifícios Art Déco e os que existem estão cercados de elementos modernos, o que para um filme de época, são tidos como ruído. Foi preciso uma adaptação dos espaços e um jogo de cintura da equipa e muito trabalho de pós-produção para que estes edifícios resultassem num todo coerente.

A escolha da técnica de animação “Stop Motion” com recurso à “pixilação”? Quais as razões que estiveram na base da utilização desta técnica? O processo criativo foi mais complexo do que esperavam?
A pixilação é uma técnica que permite usar o corpo e as expressões para demonstrar sentimentos, logo, pareceu-nos importante ter essa ligação humana. A união da pixilação com o stop-motion permite transmitir ideias mais abstratas de modo a construir uma narrativa mais surreal através de metáforas visuais.

“Somos todos Criminosos mas só alguns são apanhados”. O Amor é um crime?
Com o desenrolar do filme, amar, para esta personagem, acaba por ser um jogo de poder: alguém que quer roubar o coração de outrem. Não há reciprocidade amorosa na vida dela, ninguém troca a chave do seu coração. Este discurso também se coaduna com o ambiente daquela cidade, onde os corações são moeda de troca, fazendo parte de um mercado negro.
No entanto, no final, a protagonista não desistiu de procurar o Amor, mantém a chave do seu coração, disponível, no seu peito. Mas, a vida, na qual se incluí o amor, é um jogo de escolhas e para cada decepção amorosa há uma oportunidade de mudar de vida para sempre, lícita ou não.

Temos um homme fatale, a narrativa é contada pela protagonista e o final é um triunfo de afirmação da mulher. Há claramente um ponto de vista feminino neste filme. Concorda?
Sim. O que pretendíamos com este filme era usar as convenções do film noir e fazer um neo-noir em que o papel da mulher estivesse enaltecido e em que o seu final fosse esperançoso e não castrador de alguma forma.

O filme acaba de conquistar o prémio do público no “Curtas” deste ano. Qual a importância deste prémio?
É muito importante, porque é uma prova física que o filme comunica bem o que queremos dizer, que chega às pessoas e as toca de alguma forma.

Como foi trabalhar em conjunto, novamente, depois da bem-sucedida experiência anterior em “Amélia & Duarte”? Vocês já se conhecem há muito tempo?
Em ambos os projectos, o trabalho em conjunto permite-nos dividir tarefas e ter um controlo criativo maior sobre todos os aspectos do filme, mesmo antes de começar as filmagens, o que para um filme de animação é crucial.
Este projecto foi mais desafiante do que “Amélia & Duarte”, porque em termos de produção era mais complexo: trabalhamos com uma equipa muito maior, o universo do filme é bastante mais lato e em algumas cenas tínhamos de animar muitas personagens em simultâneo.
Conhecemo-nos desde a faculdade, e já tínhamos trabalhado nessa altura num projecto da Porto 2001.

*A Académie des Arts et Techniques du Cinéma anunciou, a 23 de Janeiro, os nomeados aos prémios César de 2019. A 44ª edição da cerimónia, que acontece no próximo dia 22 de fevereiro na Sala Pleyel (Paris), com transmissão direta no Canal+, contará com a presença de «Entre Sombras» na categoria de Melhor Curta Metragem de Animação.

Entrevista publicada na Metropolis nº 62 (Setembro 2018)

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