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Actualizado às 9:31 PM, Jun 19, 2018

Entrevista a Guillermo Del Toro - A forma da água

Destaque A forma da água - Elisa (Sally Hawkins) e o Monstro A forma da água - Elisa (Sally Hawkins) e o Monstro

Guillermo del toro tem dedicado a vida a fábulas e criaturas fantásticas.

Desde o início da carreira com «Cronos» (1993) até «A Forma da Àgua» (2017), candidato a triunfar nos óscares deste ano, o trabalho do cineasta mexicano tem narrado histórias mágicas recheadas de magia e surpresa. Passado em plena Guerra Fria, o filme leva o espetador para o interior dum laboratório secreto do governo norte-americano onde acaba de chegar uma criatura anfíbia com poderes extraordinários. A sua relação com Elisa, uma empregada de limpeza muda, ameaçada pelo agente impiedoso Strickland e acarinhada pelo vizinho Giles vai levar a consequências trágicas. Filmado durante o outono de 2016 em Toronto, Canadá, o filme teve a sua primeira apresentação mundial no festival de Veneza do ano passado. Em plena rodagem, o realizador fala-nos sobre esta história de amor única.

Donde surgiu a ideia para este filme?

Nos anos 1990 pensei na ideia de fazer um romance dum romance com um anfíbio, como um filme de ficção científica. Era sobre exploradores que vão para a Amazónia. Ninguém ficou entusiasmado com a ideia e quis fazer o filme. Mas a ideia ficou na minha cabeça, pois um dos motivos principais das histórias de encantar é a história dum peixe que concede três desejos e um pescador ou a mulher dum pescador que deixa o peixe fugir. Queria fazer um filme sobre uma criatura anfíbia que transforma a vida de quem a salvar, duma forma mágica. Escrevi em parceria com o Daniel Krauss uma obra chamada Trollhunters e estávamos a tomar o pequeno almoço em Toronto quando preparava «Batalha do Pacífico» e ele disse-me, Sabes, tenho esta ideia sobre um governo esconder um segredo acerca duma criatura anfíbia, e uma empregada de limpeza construir uma relação de amizade com ela. Respondi-lhe, Compro-te essa ideia. Não digas mais nada. Não escrevas nada. Disse-lhe, faz uma sinopse e diz o preço. Ele assim o fez, comprei-lhe e garanti-lhe a co-autoria. Isso foi há 4 ou 5 anos atrás. Pensei-a como uma história de amor, comecei a escrevê-la e decidi que devia passar-se em 1962, que marca o fim do sonho americano. A guerra do Vietname está em curso, o Kennedy vai ser morto, todos pensam que o futuro vai ser grandioso. É o momento no qual acho que tudo começou a mudar e seria a altura ideal para algo primitivo e espiritualmente poderoso como a criatura aparecer. É também uma altura em que tipos como o Strickland são brutais, acho que isso ligava-se muito à atualidade.

A Forma da Água

É um filme de monstros, mas o monstro não é aquilo que pensamos ser.

Claro que sim. A ideia era, podemos contar a história da criatura duma outra forma? Uma imagem clássica é a do monstro a levar a miúda, o que, habitualmente é mau sinal. No final deste filme, quando a criatura leva a mulher, é belíssimo. Por isso a ideia era pegar nas convenções e dar-lhes um toque diferente. Normalmente, a personagem do Michael Shannon seria um herói. Um tipo bonito num fato elegante que trabalha para o Governo.

Como vê a odisseia de Elisa?

Para mim, ela nasceu num lugar onde não se sente integrada e a essência da história de amor e de encantar é que existem duas viagens que os heróis e as heroínas fazem nestas histórias mágicas: para se encontrarem - o seu lugar no mundo - ou encontrar o seu lugar num mundo alternativo onde possam viver. Nesses desafios pode caber em qualquer história de encantar alguma vez escrita. Elisa cumpre-os todos. É uma desalinhada e é, literalmente, invisível, a limpar casas de banho e apanhar o lixo, ninguém a vê. Ela torna-se muito forte e enfrenta uma figura muito poderosa. É muito corajosa, torna-se assim. E também, encontra o seu lugar no mundo e alguém que a respeite. Ela é muito bonita.

A forma da água - Elisa (Sally Hawkins)

E para uma personagem que nunca fala – ela é muda – tem a melhor fala do filme.

Estou mesmo a falar de amor e da forma de o compreender. Pensei, o momento em que te apaixonas não é o momento em que se trocam olhares, mas sim o momento em que se olham e tu existes. Acho que ela foi invisível durante toda a sua vida e de repente conhece a criatura e esta está feliz. Observa-a e não espera nada em troca. Apenas está feliz por olhar para ela. Muitos têm essa experiência com os seus cães e gatos. Mas aqui o sentimento é mais profundo dado o reconhecimento. Nas histórias de encantar o mais importante é o reconhecimento da nossa essência. Conhecer-nos a nós próprios é o mais importante nessa viagem. Foi um discurso que gostei muito de escrever porque é o que ela diz. E a essência do herói é alguém que diz, Não posso deixar que isto aconteça. Não têm a ver com não ter medo, é Não posso permitir isto, mesmo que não sobreviva. Há uma criança no meio da estrada e os carros não param de passar, vou morrer se a salvar, mas vou fazê-lo.

Como foram as cenas com a Sally e com o Doug?

Filmámos e ao 7ºtake já estava escuro. Os meus óculos estavam embaciados. Este foi um daqueles argumentos que quando terminei, estava a chorar. Emociono-me com facilidade. Aconteceu o mesmo com Labirinto de Fauno (2006) e «Nas Costas do Diabo» (2001). «Crimson Peak: A Colina Vermelha» (2015) para mim foi muito emotivo, porque tudo o que faço são histórias de encantar.

Como se desenvolveu o design da criatura?

Levou três anos a desenhá-la e a construí-la. Passei a maior parte do tempo a financiá-la. Gastei mais de 200 mil dólares na sua criação, do meu próprio bolso. Precisava dum ano de design antes da criatura ser feita. E depois foi moldada da forma tradicional, Tivemos três escultores a trabalhar de forma ininterrupta. E depois voltamos a pintá-la toda uma série de vezes. A forma como está agora leva-nos a parar de ver a criatura e começar a ver a personagem.

Falou-nos da atualidade da história. Isso pesou muito quando a escreveu?

Pensei nisso. Está desenhado para ser dessa forma. As histórias deste género surgem em tempos bem difíceis. Aparecem em momentos de fome, guerra e pestilência. Não foram escritas para crianças. São fontes de tradição oral. Falam de corrupção real ou reafirmação do poder do monarca. Cada uma das narrativas de encantar separase em duas categorias: uma que reafirma o poder instituído e a outra que o subverte. O mesmo se passa nos filmes de terror e nos de ficção científica. Se estivesse a fazer um filme de género de filme o herói seria o Strickland. Protagonista, bem vestido e com uma boa apresentação, elegante e capaz. E ele tem de controlar a criatura que está solta nos corredores do local onde está. Essa é a história habitual, sabe? Se adora monstros, quer contar a outra história. Fiz o «Hellboy» (2004), «Batalha do Pacífico» (2013) e construí sempre instalações de raiz, que são espetaculares, mas conto a história sempre do ponto de vista dos agentes. Agora quis contar a história da perspetiva das empregadas de limpeza, as que arrumam e limpam os locais onde esses funcionários trabalham.

O filme tem muitos momentos de humor.

Acho que isso está presente. Até o design tem humor. Algumas pessoas acham que as minhas histórias são dolorosas, mas o tom do filme são os atores. O diálogo e tudo isso. Sim, claro que isso também se percebe no look do filme e na cor e na fotografia: se a abordagem deste filme fosse com a mesma fotografia que utilizámos em «Crimson Peak: A Colina Vermelha» (2015), o humor evaporava. Se a abordares com um tipo de design super estilizado, como no filme «Doutor EstranhoAmor» (1964), o humor desaparece. Se o fizeres com algum realismo e toques de magia, é isso que quero.

Já disse que escreveu este argumento para os atores. Em relação a Michael Shannon: desde quando teve a certeza que ele era o ator ideal para o papel de Strickland?

Escrevi o argumento a pensar no Michael. Pensava mesmo que ele podia ser o Strickland, mas nunca falei com ele antes de iniciarmos o casting. Foi o primeiro ator que abordámos. Fui ter com ele mas ele disse-me que estava a acabar outro filme e depois ia fazer teatro. Que só iria ler o argumento daí a mês e meio. Apostei tudo que ele iria gostar do argumento. Nunca tens a certeza. Com o Richard Jenkins aconteceu o mesmo: não tinha a certeza se ele aceitaria participar neste tipo de filme mas depois lembrei-me que ele já tinha participado em filmes como «A Casa na Floresta» ou «A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas». Pensei para mim: Vou arriscar.

Qual o significado da projeção de «Os Amores de Ruth» (1960) na sala de cinema durante o filme?

Toda a gente fala da criatura como sendo um deus. Quis muito ter uma história sobre uma mulher cheia de fé que fizesse uma transgressão, mas não quis citar nenhum dos clássicos bíblicos que todos conhecem. Acho que se torna chato quando citas coisas que todos conhecem. Torna-se meta. Não quis fazer isso, mas antes citar um filme bíblico pouco relevante.

Escreveu todas estas referências.

Levou nove meses. A última fase do argumento foi em 2014/15. A Fox Searchlight entrou no projeto em 2014 e eles sabiam tudo o que iria acontecer pois já tinha uma boa parte do guião. Tinha um esboço completo já pronto e disse-lhes, Quero uma lista de todos os filmes feitos pela Fox e as canções que posso utilizar pois não tenho dinheiro para pagar os direitos. Vi bons e maus filmes. Queria algo que não fosse popular. Posso escolher a Carmen Miranda, posso optar por «Os Amores de Ruth» (1960) e «Carnaval do Amor» (1958) pois a maioria nunca ouviu falar deles.

Mídia

Modificado emterça, 27 fevereiro 2018 20:33
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