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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

O Fim da Inocência - Joaquim Leitão

Destaque O Fim da Inocência - Joaquim Leitão

«O Fim da Inocência», adaptação do best-seller homónimo de Francisco Salgueiro marca o regresso de Joaquim Leitão. É a história de Inês, uma adolescente seduzida pelo risco de novas experiências, algumas delas perigosas numa atmosfera sombria. A origem do projeto, o desafio desta nova adaptação, a escolha da protagonista e o trabalho com o elenco foram alguns dos temas da conversa com o realizador.

Em primeiro lugar como e quando nasceu o projeto de adaptar “O Fim da Inocência” ao cinema?
Este projeto é uma ideia da produtora, Ana Costa, a ideia original e a vontade de adaptar o projeto são dela. Depois contatou-me a perguntar se estaria interessado. Ela já tinha avançado com a adaptação e, ao ler o livro e o trabalho de adaptação que já havia, percebi que podia fazer dali um filme do qual me orgulhasse, que tivesse prazer em fazer e que acho que muitas pessoas vão ter prazer em ver.

O Joaquim já adaptou algumas obras: esta foi um desafio diferente?
Todas elas são desafios diferentes. A maneira como as encaro é sempre a mesma: para já respeitar o espírito original e respeitar também, na medida do possível, a letra. Por vezes respeitar o espírito é relativamente mais simples de fazer, porque respeitar a letra é mais complicado ...

É uma linguagem diferente...
É uma linguagem diferente e a economia narrativa dum filme não é exatamente igual à do livro. Não é possível transportar a narrativa dum romance para um filme. À partida sabíamos o que tínhamos como orçamento, como tempo de rodagem e sabia que era preciso fazer um trabalho de adaptação em termos da eficácia narrativa e da eficácia em termos de produção.

fim 2

Essas foram as principais dificuldades do processo?

Não lhe chamo dificuldades, são as circunstâncias. Essas circunstâncias duma maneira ou doutra são sempre similares, apresentam desafios diferentes enquanto se está a adaptar algo que tem uma estrutura e certos parâmetros que são necessários manter. Portanto, depois é transportar isso e adaptar isso para a estrutura dum filme e para as circunstâncias específicas de cada filme (o orçamento, o tempo de rodagem) que são definidos à partida e às quais sou alheio. Porém, quando aceito fazer um filme, aceito na consciência de quaisquer que sejam as circunstâncias de produção que me propõem consiga fazer algo com qualidade. Acho que consegui neste caso. Eu e a Ana Costa tentámos que fossem visíveis os meios utilizados nas imagens, ou seja no filme.

Os temas abordados no filme são sensíveis, delicados. Sente que hoje é mais fácil – e o Joaquim já filma há alguns anos- abordar certos assuntos do que era há uns anos atrás?
Por mim esse problema não se põe. Tento fazer as coisas da maneira como acho que devem ser feitas. Nunca tive grandes problemas em abordar temas que às vezes são complicados mas procuro fazê-lo com sensibilidade e percebendo que existem pessoas para quem aqueles temas podem ser chocantes. Agora tudo depende da maneira como as pessoas abordam as coisas: neste caso fiz um esforço para abordar situações que são complicadas – aquele universo juvenil – naquela vertigem da adolescência, de experimentar tudo e no meio de tudo o que experimentam acontecem coisas terríveis e outras muito boas. Isso faz parte da obra original –do romance do Francisco Salgueiro– e sem isso o filme não faria sentido. O lado das experiências com drogas é outro tema com o qual é preciso ter algum cuidado. Já tinha feito outro filme onde isso aparecia, «Tentação» (1997),

Exato ...
E já tinha alguns conhecimentos, já tinha feito a pesquisa também para conhecer parte desse mundo. Embora neste caso as personagens sejam completamente diferentes desse filme: neste caso é sobretudo a experiência duma adolescente pois a história é muito centrada na Inês, sob o ponto de vista de quem o filme é contado. O romance é baseado num diário dessa adolescente e o filme conta as experiências dela. As experiências com drogas são contadas e por isso tinham de ser incluídas no filme. Mas com alguma sensibilidade!

É essa vertigem da experiência que carateriza a protagonista do filme?
Sim. Acho que isso é comum a muitos jovens. Posso falar pela minha experiência e acho que esse lado me impeliu a fazer o filme. Recordo-me dos tempos da minha adolescência – já estão muito longínquos, mas ainda me recordo – sobretudo do estado de espírito. Essa ânsia de viver, esse estado de espírito de experimentar, de saber como é, no caso da protagonista do filme, a pressão do que está à volta dela. Na minha altura e para mim isso, não era importante, mas neste momento é decisivo: o não querer ficar para trás, ir tão longe como os amigos que estão ao lado, e ela arrastada para esse mundo onde acontecem coisas terríveis. Mas o filme também tem esse lado que me apaixona, que tem muito a ver com a minha visão sobre vida: podem acontecer coisas muito más, algumas delas por opção nossa, outras que não controlamos. Há, porém, uma coisa que podemos controlar que é a forma como reagimos às coisas que nos acontecem, isso depende de cada um de nós.

É a história do filme ...
É uma história de perdição porque a dada altura a Inês parece que vai num caminho de auto – destruição. Mas é também uma história de redenção, pois ela encontra uma forma de sair dessa espiral auto- destrutiva.

Por falar na protagonista do filme, como foi dirigir este elenco jovem?
Cada ator tem a sua individualidade, é preciso trata-los de maneira diferente. Existem situações nas quais a experiência facilita muito e neste caso a atriz principal não a tinha. Mas grande parte da eficácia do trabalho dum ator resulta duma escolha feliz ...

...um bom Casting?
Demorei muito tempo nesse processo, fiz muitos castings para o papel da personagem principal. E depois há aquele momento, que mais do que um feeling, é a sensação que tenho que subitamente aparece alguém à tua frente que tu reconheces como se fosse uma imagem daquela personagem que já estava desenhada na tua cabeça. Não escolhes, reconheces aquela pessoa!...

...Interessante...
E foi o que aconteceu neste caso. Depois fizemos um trabalho o mais exaustivo possível naquelas circunstâncias: ensaiámos, defini o texto – ela por vezes trazia sugestões, pois dada a proximidade de idades com a personagem, conhece aquele mundo melhor do que eu. E conhece melhor a linguagem daquele universo do que eu. Com ela e com todos os atores, embora com ela fosse mais exaustivo, pois está em quase todo o filme.

fim 3

E o resultado final?
Acho que ela fez um trabalho magnífico, aquilo que pressenti nos castings manifestou-se ou explodiu na rodagem. Acho o trabalho dela impressionante! Como o resto do elenco, incluindo os mais velhos.

É gratificante sentir que o trabalho com os atores correu bem?
O grande prazer para mim é na rodagem.

No processo?
Exatamente. Quando vês tudo a acontecer à tua frente: existe aquilo que já previras antes, mas existem outras coisas que os atores trazem e que não eram esperadas e que resultam muito bem. Dá-me imenso prazer e às vezes até me toca emocionalmente.

Os filmes do Joaquim costumam marcar a contemporaneidade. Sente que este filme também reflete isso?
Isso tenho alguma dificuldade em responder. Gosto de trabalhar sobre os dias em que vivo, de retratar o mundo que está à minha volta e é uma coisa que me dá gozo. Mas não tenho ilusões sobre a capacidade dum filme mostrar a realidade. Nenhum o faz!

Claro, claro...
É algo sempre construído. Mas apresentar um mundo que seja reconhecível para as pessoas que habitam o mundo real e que se identifiquem e reconheçam experiências como as que viram no filme, isso a mim dá-me prazer. Faço os possíveis para que isso aconteça. Mas, no fundo, procuro histórias que me apeteçam contar e sobretudo há uma coisa que procuro bastante: tentar não me repetir. Já fiz filmes de época, já fiz thrillers, comédias, filmes de muito géneros e não me apetece nada estar a repetir filmes que já fiz. E este é completamente diferente, embora o ponto de vista seja o mesmo.

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