logo

Entrar
Actualizado às 12:11 PM, Aug 12, 2018

«120 Batimentos por Minuto» - Nahuel Pérez Biscayart em entrevista

Destaque «120 Batimentos por Minuto» - Nahuel Pérez Biscayart em entrevista

O ator protagonista de 120 Batimentos por Minuto, o franco-argentino Nahuel Pérez Biscayart, foi uma das sensações da secção Pérolas em San Sebastian. Depois do Grand Prix em Cannes, esta ficção sobre o Act Up de Paris nos anos 90 e a sua luta no combate à SIDA, tem conquistado festivais em todo o mundo. O ator recebeu a Metropolis horas antes da gala do filme e mostrou que tem sangue na guelra.
Rui Pedro Tendinha em San Sebastian

Parece estar num momento em alta na sua carreira. Além de «120 Batimentos por Minuto», não tem parado de filmar e em San Sebastian tem também «Au Revoir Là-Haut», de Albert Dupontel e «Si Tu Voyais son Coeur», de Juan Chemla. Trata-se de uma questão de bons agentes?
Não me ponha a falar da minha agente...Temos uma relação demasiado íntima que não pode ser divulgada! Sem ironia, a verdade é que sou terrível para produzir encontros e tentar angariar trabalho para mim próprio. Tudo me sai mal e não me interessa nada! Mas o ano passado, graças a uma coincidência cósmica, cruzei-me sem querer com uma série de projetos e pessoas que me interessaram. O filme do Dupontel aconteceu graças a uma diretora de casting francesa que conheci há oito anos. Depois, para o outro, foi através de uma diretora de casting que me tinha visto num outro filme francês. Tudo conexões que não têm vínculos diretos. A minha agente não teve nada a ver com isto, apenas a chamavam...

Foi então o destino...
Sim, o destino. A minha vida é um acidente total! Mas um acidente sem conotações positivas ou negativas.

E agora é a estrela do filme francês mais aclamado do ano...
Quando estávamos a fazê-lo não imaginámos o fenómeno que iria gerar. O cinema tem destas coisas...Quando pensas que estás a trabalhar num filme fenómeno, o filme fracassa! Além do mais, não é possível estares convencido disso. É impossível estares a trabalhar a pensar que vai ser um sucesso. Um ator tem de estar apenas concentrado no seu trabalho e sentir que pode estar em determinadas rodagens com gente inspiradora e que arrisca. Nesses casos, sim, podem acontecer sinais que algo pode vir a acontecer...

Para um ator que não era conhecido como foi estar em Cannes a assistir a toda a aclamação do seu filme?
Tinha vindo de uma viagem de quatro meses aos locais mais inóspitos do mundo. Tinha feito essa viagem para me perder depois de um ano muito intenso. E cheguei a Cannes depois de estar muito perto de um contacto direto com a natureza. Pois bem, a minha ideia foi olhar para tudo aquilo como se de uma paisagem natural se tratasse. Aquilo era a natureza humana em todo o seu eco sistema, uma selva. Quis observar o artificio de toda aquela parafernália e toda a maneira como as pessoas se emocionam e ficam nervosas. Devo dizer que a minha observação foi com uma distância espetacular. Desfrutei muito mas desfrutei ainda mais porque «120 Batimentos por Minuto» correu muito bem!

beats 3

E o seu ego? Chegou a pensar que poderia vencer o prémio de melhor ator? Chegou a ser apontado como o favorito...
Não, aquilo não mexeu com o meu ego. Quanto ao prémio, percebi que não iria vencer pois o filme se ganhasse um prémio seria incompatível. Isso não conta! Eu trabalho para que os filmes fiquem bons e para que sejam vistos. Um bom papel só é válido se servir uma estrutura maior. Acho ridículo quando se diz que o filme está bom devido a um ator...O que quero é trabalhar cada vez mais e melhor. Os prémios valem o que valem e creio que não dão prestígio, embora, infelizmente, neste mundo um filme premiado em Cannes funciona melhor do que aquele que não o foi. O prestígio é uma criação, não existe.

Por um lado, «120 Batimentos por Minuto» funciona como filme de época, os anos 90, por outro, tem uma atualidade indisfarçável...
Sem dúvida. Nunca senti que estava a fazer um filme sobre o passado por muito que aquela roupa não seja a que vestimos hoje e a prioridade não era captar uma época, mas sim o que unia toda esta gente e toda esta luta coletiva.

Estamos em 2017 e ainda há quem se espante por este filme mostrar sexo. Como lida com o preconceito?
Não se vê nada de mais! E, claro, há muito preconceito! Este filme não mostra nada escandaloso! Creio que todos os direitos que conquistámos estão-nos a ser arrancados! Nesse sentido, o sistema está a ganhar. O conservadorismo está a ganhar...tem a ver com proteger o campo próprio. Trata-se de um sistema que protege o individualismo. Estamos a viver dias de desastre!

Mas o cinema não pode ser uma arma?
É um pouco pretensioso acreditar que o cinema pode mudar o mundo. O máximo que podemos tentar é que as imagens que saem dos ecrãs de cinema não reforcem estas ideologias dominadoras. O mundo para ser mudado é nas ruas! As mudanças sociais não são feitas através do cinema.

O Nahuel luta em prole do quê?
Por estar sempre em viagem, lamentavelmente, estou num momento mais individualista...Por isso, estou sem nenhuma paixão militante. Apenas tento ser menos vítima de mim mesmo. Acredito que a merda que este mundo nos dá não chega por culpa do outro. Este mundo é uma merda porque somos todos uma merda. O mal está em todos e o sistema não é mais do que uma manifestação disso mesmo. Todos usamos a miséria humana para benefício próprio...Se nós mudássemos este sistema não iria funcionar, desarmar-se-ia.

beats 1

E a homofobia parece ganhar terreno. Como reagiu quando Vincent Maraval, patrão da Wild Bunch, ao saber que «120 Batimentos por Minuto» era o candidato da França ao Óscar de melhor filme em língua estrangeira, fez nas redes sociais um comentário com insinuações de “bullying” anti-gay?
Celebro que esse ser humano tenha dito isso. Celebro porque ao expor-se desta maneira mostra a pobreza emocional e humana que tem, quanto mais não seja porque esta criatura tem um poder imenso no cinema. A merda está em todo o lado. Acredito apenas é nas novas gerações, talvez eles venham a conseguir trazer algo de diferente.

Mas será este um filme que pode fazer bem às mentalidades homofóbicas?
Sim, qualquer pessoa vai conseguir identificar-se com estas personagens, não importa se se tratam de jovens gays que têm relações sexuais. Este não é um filme sobre sexo, mas sim sobre a vida e o amor. Também é sobre abraçar a vida e lutar pela liberdade.

Por isso, o realizador filma-os a dançar. A dançar como se não houvesse amanhã.
A dança é o corpo livre, é a forma de expressão dos nossos corpos. A dança é também a rebeldia e para este grupo ganha uma dimensão vital

Mídia

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.