logo

Entrar
Actualizado às 12:39 AM, Dec 17, 2017

«Amarelinho» entrevista a Antoine Barraud

Destaque «Amarelinho» entrevista a Antoine Barraud

Antoine Barraud, o argumentista do filme de animação 3D «Amarelinho», veio a Portugal apresentar o filme realizado por Christian De Vita. Esta é a história de um improvável herói: um passarinho órfão e amedrontado. Sem nunca ter visto outro pássaro e tendo por companhia apenas uma simpática joaninha e uns alienados coelhos, o Amarelinho irá encontrar-se numa situação em que tem de conduzir todo um bando de aves migratórias até África. Ele, que mal sabia voar e nunca conheceu nenhum outro lugar para além das ruínas de uma casa abandonada onde sempre viveu, vai ter de vencer os seus medos do Outro e do desconhecido e embarcar numa viagem de milhares de quilómetros. O filme é para crianças, mas levanta questões sobre a auto-sabotagem, as migrações e o medo do Outro, que são bem actuais, pertinentes e adultas.

Como nasce este projecto do «Amarelinho»?

ANTOINE BARRAUD (AB) – Trabalhei com uma produtora de animação que se chama Corinne Couper que fazia séries de desenhos animados para a televisão e ela perguntou-me se eu tinha alguma ideia para um filme. E, curiosamente, uns dias antes de ela me perguntar eu tinha tido uma espécie de flash de uma imagem de um rapaz pequeno com o seu pai a observarem as aves migratórias a voarem no céu, que partiam e, ao mesmo tempo, outras aves voavam em sentido inverso. Foi a minha primeira imagem e, curiosamente, não está no filme. Mas foi essa imagem que espoletou a ideia do filme. A de aves migratórias que voam em sentido oposto. Essa ideia agradou-me.

O Amarelinho, que na versão original se chama Gus, fez-me lembrar um pouco a conhecida personagem de animação dos anos 70, criada por Toni Pago, o Calimero. O passarinho que se queixava constantemente e tinha receio de tudo. Como descreveria o seu Gus?

AB – Talvez pareça, talvez. Não o pensei. (Risos) Para mim o que me interessou sobretudo na personagem de Gus e neste projecto foi de criar um filme sem um vilão. Queria que a personagem principal fosse o seu próprio inimigo: ele é, a um tempo, o bom e o mau. Colocar ambos os traços na mesma personagem interessava-me bastante porque nos filmes que vemos – sobretudo os dirigidos a crianças – há sempre uma dicotomia permanente entre o bem e o mal, o herói e o vilão. É, por vezes, agradável quando é tomado num segundo grau como, por exemplo, em «Despicable Me» onde há um jogo entre o bem e o mal. Mas, de resto, é algo que acho demasiado simplista e é algo que não me agrada que se transmita às crianças.

Amarelinho 1

Os filmes para crianças tomam sempre uma visão maniqueísta, certamente. Mas e os gatos? Não serão eles os vilões?

AB – Sim, claro. O mal e os vilões existem. Mas não queria que o filme se reduzisse a uma visão de luta do bem contra o mal. Não queria isso de forma alguma ; antes algo mais humano, mais complexo, mas mantendo-o simples. Queria mostrar essa personagem em que ele é o seu próprio inimigo. Ele é amoroso, alguém que gostamos, mas durante todo o filme ele está enganado, não tem razão. Enquanto que o personagem mais desagradável, o Karl, tem razão. Ele sabe que Gus está a conduzir o bando no sentido contrário. Eu gosto de jogar com os códigos e os pressupostos.

No caso do Gus é mais uma luta dos seus fantasmas internos: os seus medos, o não querer descobrir o mundo para além do seu pequeno espaço, ...

AB – Exacto. Mas o curioso é que tive essa ideia a ver um filme que não tem nada a ver com este: «Breakfast at Tiffany's». Porque vi o filme e pensei exactamente isso: ela é o seu próprio inimigo. Holly Golightly (Audrey Hepburn) é a personagem que amamos, a personagem principal, mas que é o seu próprio obstáculo que tem que transpor, como o Gus.

Não só há sempre a questão do maniqueísmo nos filmes para crianças, mas também tendem a ter sempre uma moral. Em «O Amarelinho», qual é a moral? Isto é se a tem...

AB – Para mim existem duas. Em primeiro – que não sei se é propriamente uma moral – há a questão do encorajar a ter curiosidade pelo Mundo e pelo o Outro. O Gus é uma personagem que não quer sair do seu pequeno mundo e que tem medo de tudo... Há a ideia de se abrir aos outros para poder fazer coisas maiores. É um pouco como num filme: um filme não pode ser feito por só uma pessoa, é preciso uma equipa de cem, duzentas pessoas. Neste filme trabalhamos com cerca de trezentos membros. O filme nasceu na minha cabeça, imaginei-o eu, mas gosto da curiosidade dos outros: da pessoa que vai inventar o aspecto gráfico, a pessoa que vai inventar a música, a pessoa que vai dar a voz,... É um trabalho de todos. E penso que este filme mostra isso sobre o tema da imigração.
E depois há uma outra moral que me agrada bastante. Neste momento há uma crise migratória que é terrível. Não era tão forte quando comecei a produzir o filme mas que se tem vindo a agravar. É algo que me perturba muito e acho que o filme está lá para mostrar que, por vezes, para se ter uma vida melhor temos que imigrar. É importante. Nós vivemos na Europa, em países que mesmo com a crise financeira, têm uma boa qualidade de vida. Enquanto há outros países onde não se vive bem. E é importante mostrar que por vezes a solução é a imigração e que o Mundo é de toda a gente. Para mim isso é mesmo importante. E,se houver a oportunidade de dar continuidade ao filme, eu gostaria de mostrar Gus a voltar com as aves africanas.

Amarelinho 2

O que também permite apostar no sentido cómico dos contrastes, como em «Madagascar», quando os animais africanos estão nos EUA e há um certo choque civilizacional...

AB - Sim, mas para mim é a imigração é uma questão importante. Aqui são aves francesas que vão para África, mas eles partem para lá à procura de melhores condições de vida. E se é verdade para eles também é verdade em todos os sentidos. Mas queria que o filme mostrasse isso em filigrana, não queria um filme político. Mas queria que o filme dissesse algo de humanista.

Aqui temos também uma estética muito particular. De alguma forma parecia que as personagens eram feitas de papel, como bonecos de origami. Cada pluma é como um pedacinho de papel. Esse cuidado com a estética é o trunfo para fazer frente ao universo estandardizado da Pixar e da Disney?

AB – Digamos que houve por parte do estúdio de animação uma vontade de procurar uma estética diferente. Benjamin Renner, que trabalhou em curtas-metragens de animação muito específicas, muito particulares visualmente, tinha uma vontade uma vontade de fazer esse aspecto de papel: de pop-up book. E é algo que ele trouxe especificamente e que a produtora encorajou.

E porquê a escolha do 3D? Pessoalmente tendo a acreditar que o 3D se transforma facilmente num artifício, num gimmick – como dizem os americanos – que subtrai mais à obra do que acrescenta.

AB – Eu nunca gostei do 3D também. Foi algo decidido no fim do filme, mas foi a primeira vez que o achei justificável tendo em conta o estilo de animação do Renner que lhe deu aquele aspecto de pop-up book. O estilo dele já era 3D na representação 2D. E isso foi o que me convenceu.

Amarelinho 3

Não pude deixar de reparar que o filme foi feito em 2014. Porquê só agora nas salas de cinema em Portugal?

AB – Bom, isso não sei. Mas o interessante é que este filme, para mim, foi um caminho longo. Eu tive a ideia do filme em 2004. Foi um processo de desenvolvimento extremamente longo. Tudo foi muito complicado, tudo foi uma aventura...

Mas acabou por surgir num bom momento. Ou melhor, num mau momento para a história humana mas para um bom justamente para chamar à atenção sobre, como referiu, as questões da imigração. Agora faz mais sentido vê-lo. Surge quase como uma premonição.

AB – Espero sinceramente que sim.

Curiosamente, no mesmo ano que fez o «Amarelinho», faz também «Le Dos Rouge» que é um mergulho no mundo da história de arte e nos conceitos de transformação, alteração e monstruosidade. Uma obra muito diferente. É certo que neste filme, o Antoine é argumentista e não realizador, mas como definiria o seu trabalho? Das obras que vi, pareceu-me como que um mosaico e, se bem que veja cada tessela, custa-me a perceber o desenho que formam.

AB - Isso é justamente o que me agrada. Sou muito cinéfilo, quase “cinéfago”. Vejo uma quantidade enorme de filmes. Talvez cerca de 250 filmes por ano nas salas de cinema mais todos os outros filmes que vejo em casa em dvd. E tenho o mesmo gosto enquanto espectador como enquanto realizador. Ou seja, um gosto pelo que me agrada, que acho bem feito, seja qual for o género: animação, de autor, comercial, intelectual, de aventuras,... Para mim isso não tem qualquer importância. Gosto do que gosto tão somente. E trabalho também como produtor e produzi um filme português no ano passado, «O Ornitólogo» (João Pedro Reis)...

E, mais uma vez, um filme de um universo muito diferente. Pese embora a curiosa relação do título...

AB – De facto, um universo completamente diferente. Mas a mim agrada-me muito o ecletismo, a diversidade. E os realizadores de quem me sinto mais próximo, que admiro mais são Barbet Schroeder, Werner Herzog, John Huston... gente que fez toda a sua carreira com filmes completamente diferentes. Que passaram de westerns a um romance a um documentário... Por exemplo, o Barbet que faz um documentário sobre Idi Amin Dada [«Général Idi Amin Dada : Autoportrait», 1974], depois um filme na Colômbia [«La Virgen de los Sicarios», 2000] e depois uma coisa hollywoodesca [episódio da série «Mad Men»]... Acho isso extraordinário! A pessoa que sou é isso. Esse mosaico. O que se torna algo difícil para mim. Porque as pessoas têm dificuldade em identificar o que eu faço. Nós gostamos de etiquetas, de rótulos: de dizer que este realizador faz isto e outro faz aqueloutro. E em mim é difícil por a etiqueta.

A sua personagem Bertrand [Bertrand Bonello] no filme «Le Dos Rouge» fala disso no diálogo que mantém com o jornalista que o entrevista sobre o seu trabalho como realizador. Mas falando desse mosaico. O Antoine tem mais dois filmes na calha: «Madeleine Collins» e «Monument Valley». Quer falar-nos dessas duas novas tesselas?

AB - «Madeleine Collins» vai ser o meu próximo projecto de realizador. É um filme, mais uma vez, completamente diferente. Fala sobre uma mulher que tem uma vida dupla, entre a França e a Suíça; e que vai recusar ver a verdade, vai enterrar-se em mentiras sobre mentiras. Irei filmar no próximo ano, na França e na Suíça, ... E o «Monument Valley» é também completamente diferente! È uma espécie de comédia de aventuras, com uma história de amor gay, no Brasil e que termina no Monument Valley, nos EUA. É um filme que co-escrevi e que co-realizo com um jovem realizador brasileiro.

E, para terminar, o que diria às crianças ou aos pais para virem ver o «Amarelinho»?

AB – Antes de mais queria dizer que acabo de ver o filme em português - já o tinha visto obviamente em francês e inglês- e, não sei quem são os actores mas fiquei muito surpreendido pela qualidade das vozes.
Convido as crianças a virem ver o filme e encorajo-as a saber mais sobre a migração dos pássaros porque é absolutamente apaixonante. Eu trabalhei com um especialista ornitólogo [Guilhem Lesaffre] e passei dias inteiros de boca aberta a escutar o que me dizia. São incríveis os mistérios ainda por resolver da migração dos pássaros, mesmo com todos os estudos científicos. A complexidade da natureza é deslumbrante.

Mídia

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.