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Actualizado às 11:14 PM, Nov 22, 2017

Ken Loach - entrevista exclusiva «Eu, Daniel Blake»

Destaque Ken Loach - entrevista exclusiva «Eu, Daniel Blake»

Presente antecipado para o aniversário de 80 anos de uma vida marxista, dedicada à denúncia das vicissitudes morais inerentes à luta de classes, a Palma de Ouro foi dada ao inglês Kenneth Loach no dia 22 maio, em reconhecimento da vitalidade dramatúrgica e do espírito humanista de «I, Daniel Blake». Este prémio coroou uma trajetória cinematográfica cujo foco sempre foi a exclusão, em suas mais variadas e cruéis formas. Dia 17 de junho, o leitor de Marx que entre 1964 e 2016 usou os aforismos políticos do “velho barbudo” em 42 filmes e oito séries de TV passa para o clube dos octogenários. Mas esta vitória recente em Cannes deu a ele passaporte para outro clubinho seleto: a confraria de diretores que ganharam a Palma duas vezes. Antes dele, que ganhou a láurea pela primeira vez em 2006, por «Ventos da Liberdade», só sete realizadores tiveram a mesma honra: o sueco Alf Sjöberg, o americano Francis Ford Coppola, o austríaco Micheal Haneke, o japonês Shohei Imamura, o dinamarquês Bille August, os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne (irmãos que, por só filmarem em dupla, contam como um) e o sérvio Emir Kusturica. Seu novíssimo trabalho está à altura das obras-primas destes seus colegas de vitória.
“Agora em 2017, eu completo 50 anos como cineasta e, neste período todo de trabalho em prol da Arte, eu sempre retratei a questão do desemprego pela minha perplexidade em perceber que o Estado, não apenas na Inglaterra, mas também em outros países da Europa, parece culpabilizar os desempregados pela sua demissão. Há uma cultura institucional de atribuir à vítima a razão de seu infortúnio”, diz Loach, em entrevista à METROPOLIS.

Marcada por atuações memoráveis, inclusive a de não-atores, o drama «I, Daniel Blake» radiografa as sequelas do desemprego e do desamparo social na Inglaterra, a partir da relação de amizade estabelecida pela sorte do acaso entre uma mãe solteira (Hayley Squires) e um cinquentão com problemas cardíacos, Daniel, vivido por Dave Johns, humorista especializado em comédias stand up, sem nenhuma intimidade com sets de filmagem. Para Loach, o novo longa-metragem é uma denuncia da burocracia e um convite à discussão sobre formas institucionalizadas de exclusão. No depoimento a seguir, Loach explica suas escolhas estéticas.

i daniel blake 2

Como é que o senhor definiria seu estilo formal como realizador em relação ao Real?
KEN LOACH: Não concordo quando dizem que meu estilo de filmar é documental pelo fato de eu tratar temas sociais. A câmera do documentário tem movimento, faz-se na mão do operador, treme. A minha, não. A minha é rígida. Invisível. Eu uso tripé. Deixo a câmera sóbria, sem mexer. Por quê? Porque a câmera parada observa, sem invadir. E meu cinema é feito de observação. Observar é a estratégia que Brecht me deu para esmiuçar o olhar de um personagem e compartilhar do que ele sente.

Se a câmara é “invisível” na cena projetada, como ela se comporta em relação aos atores que constroem cada uma de suas sequências? Como o senhor dirige seu elenco, por vezes coalhado de pessoas sem experiência de interpretação profissional?
LOACH: Tenho muita facilidade de lidar com atores porque eles, em geral, são pessoas com muita imaginação e com potencial para explorar as próprias fragilidades. Em «I, Daniel Blake», por exemplo, quando eu vou até ONGs de apoio a famintos, os atendentes que eu filmo não são atores e sim pessoas que trabalham ali. Sigo a cartilha neorrealista de Rossellini neste aspecto. Como fazer esse processo dar certo? Basta filmar o roteiro na ordem que a historia é contada, revelando parte da trama para os atores, porque assim você cria uma sensação de mutua descoberta, que tira a hierarquia da direção sobre o elenco. Estamos aprendendo juntos, os atores e eu, que filme estamos rodando.

«I, Daniel Blake» mostra uma Inglaterra emperrada pela burocracia estatal. Existe alguma reforma política em vista que mude esta situação?
LOACH: Eu filmo para que esta reforma chegue. Há quem acredite que o cinema é um lugar de anestesia, de sonho. Cinema para mim é o lugar da iluminação, do levante, do incômodo. Só assim pode haver reação. É assustador perceber que chegamos a somar 4 milhões de desempregados no Reino Unido. Escolhi fazer este filme em Newcastle, uma cidadezinha a 450 Km ao norte de Londres, pela tradição local de lutas sindicais, a fim de gerar uma reflexão sobre a continuidade dessa prática de exclusão a pessoas à procura de emprego. Eu não quero apenas emocionar com este filme: quero deixar o público com raiva.

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Que posição o senhor pretende tomar em relação ao referendo do dia 23 de junho, acerca da opção de a Inglaterra permanecer ou não na União Europeia?
LOACH: A União Europeia é um projeto liberal que nasceu com a proposta de unir nações com o projeto de fortalecer uma moeda única e garantir uma circulação mútua. Por mais que o liberalismo em assuste, aquele investimento trouxe bons frutos, talvez por ser calçado por um bom respaldo filosófico. É esse respaldo que eu levo em conta ao pensar nos caminhos para a Inglaterra, que penou durante anos sob a gestão de líderes que não consideravam a condição do povo, só do Estado. Pela primeira vez depois de quase duas décadas, temos na figura de David Cameron um Primeiro-Ministro que se preocupa com o bem-estar da população e não apenas com negócios. Esta escolha é uma decisão tática que envolve o quanto a Inglaterra pode lucrar se sair. Não é claro ainda o que temos ganhar nem o que temos a perder se continuarmos. Mas é necessário levar em conta que a União nasceu de uma filosofia liberal e esse aspecto precisa ser respeitado em nome da democracia.

Qual é o sentido que leva o senhor a ler Karl Marx até hoje?
LOACH: O “velho” sempre tem o que dizer. Eu tenho sempre as palavras dele do meu lado pois elas me garantem lucidez. Sabe qual foi o nosso maior erro? Fechámos os livros. Parámos de ouvir o que os livros têm a nos dizer. Marx criou um modelo de funcionamento de mundo com engrenagens muito sólidas. Ele fez da dialética uma estrutura de funcionamento da vida prática. Os livros dele não são teoria: são armas. E estamos precisando de armas para buscar a democracia.

(entrevista publicada na revista Metropolis nº39)

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Modificado emquinta, 01 dezembro 2016 16:55

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