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Actualizado às 11:14 PM, Nov 22, 2017

Xavier Dolan - entrevista exclusiva

Ao conquistar o Grande Prémio de Júri do Festival de Cannes de 2016, com «É Apenas o Fim do Mundo» («Juste La Fin Du Monde»), Xavier Dolan foi às lágrimas, num choro de dupla vitória: de um lado uma realização pessoal gigante para um realizador de apenas 27 anos; do outro, a vingança contra o conservadorismo dos que patrulham a estética passional dos seus filmes, sempre próximos das questões LGBT. «É em nome da paixão que eu recebo este prémio, para que ela nos liberte», disse ele, após ser galardoado na Croisette e ver seu trabalho coroado como um potencial sucesso de público.

Campeão de bilheteira na França, onde estreou no fim de setembro, atraindo 650 mil pagantes às salas de exibição em apenas duas semanas, a produção é uma releitura audiovisual de um texto teatral autobiográfico de JeanLuc Lagarce (1957-1995) – o dramaturgo contemporâneo mais encenado do teatro francês – sobre a sua despedida da família, ao saber que é seropositivo. O fato de ter Léa Seydoux (a bondgirl de «Spectre»), Marion Cotillard («Macbeth») e Vincent Cassel («Cisne Negro») em papéis de destaque transforma «É Apenas o Fim do Mundo» num chamariz de plateias na Europa. Este drama, sobre lavagem de roupa suja entre parentes, embalado, na banda sonora, pelo hit «Dragostea Din Tei», é baseada em experiências pessoais de Lagarce ligadas à sida. Na tela, o ator e diretor teatral Louis (Gaspard Ulliel) volta para casa de seus pais, após um sumiço de 12 anos, para dar conta da sua morte iminente. Mas ali chegado, vai cair numa discussão com o seu irmão brutamontes (Cassel) e emendar uma conversa cheia de mágoas com a irmã mais nova (Léa).

A caminho da estreia em Portugal, ENTREVISTA XAVIER DOLAN a METROPOLIS traz um diálogo com o cineasta, que filma agora, em inglês, a longa «The Death and Life of John F. Kennedy», com Natalie Portman.

Que lugar a família, como instituição, ocupa na sua obra?
É o vértice daquilo que eu busco como um norte: as amizades que podem nascer entre irmãos, entre pais e filhos, dependendo da tolerância e da disposição para «Tão Só o Fim do Mundo» amar. Não acredito em disposição de papéis: este é o pai, esta é a mãe. Acredito em mobilidade. Em complementaridade, como se vê na relação das mulheres de «Mãe» e, aqui, no embate entre os personagens de Cassel e de Léa.

O que existe de Dolan em Lagarce?
O interesse pelas imperfeições, pelos limites da tolerância, pela febre que nos consome. Ele foi um cronista da violência afetiva. Cheguei a esta história porque ela é construída numa atmosfera sufocante, que incorpora as dimensões físicas de um palco para a vida. Lagarce encontrou uma língua própria para traduzir o desconforto e a falta de pertença a um ambiente. Tudo em suas palavras aponta para um sofrimento crescente, mas vivo.

E como é que o seu olhar pop se acomoda à estética dele?
Não é questão de acomodação, mas de experimentação. No teatro, o texto dele é muito frio, calcado no silêncio, coisa que você raramente vai encontrar no meu cinema. E, por isso, optei por trazer barulho, por investir num excesso de palavras capaz de mostrar o quanto as pessoas são incapazes de escutar uma às outras. Fala-se, fala-se, fala-se. Ouve-se muito pouco.

A sua carreira é hoje uma das mais prolíficas do cinema autoral. Como se dá o seu ritmo criativo, entre projetos pessoais e projetos de encomenda?
Há poucas diferenças entre esses dois modos de trabalhar porque, no fundo, eu só digo “Sim!” para histórias que me mobilizam — e só filmo do meu modo, de forma bem particular, o que é fácil dada a minha engenharia de criação. Filmo muito e monto rápido, não apenas pelo prazer de fazer, de estar nos sets, mas pela urgência de compartilhar com o mundo histórias que, por falarem de paixão, me comovem.

Parece existir um diálogo grande entre este «É Apenas o Fim do Mundo» e «Quem Tem Medo de Virginia Woolf?», tal como foi filmado por Mike Nichols. Essa referência é consciente?
É uma honra para mim ouvir uma comparação dessas, pelo filme que é e pelo diretor que você cita, que sempre me suscitou um grande respeito. Mas essa relação, se existe, é algo indireto, que passa mais pela teatralidade deste meu filme. evem ter a liberdade de escolher o que querem fazer! Deve ser uma escolha livre da mulher: se ela escolhe ser dona de casa, assim seja. Se não, deve poder fazer outra coisa.

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