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Actualizado às 11:14 PM, Nov 22, 2017

Pirates of Salé - entrevista ROSA ROGERS & MERIÈME ADDOU (REALIZADORAS)

Porque sentiram necessidade de contar esta história?
O Cirque Shems’y é um sítio diferente de tudo o que alguma de nós já tinha visto antes. Fica num dos bairros mais pobres de Marrocos, entre bairros degradados demolidos pelas autoridades, numa área em que muitas crianças não vão à escola e os jovens têm pouquíssimas oportunidades. No meio deste cenário, o circo oferece algo mágico a estes jovens. Um mundo de oportunidades para criar, para tornarem-se independentes e terem pensamento livre e liberdade de expressão. O que acontece lá dentro é mágico e nós queríamos mostrar as vidas de alguns jovens que vivem entre estes dois mundos e que têm a coragem de fazer algo diferente de muitos outros que os rodeiam. São jovens na eminência de mudar as suas vidas e o seu futuro. O simbolismo de um circo próximo do mar, num antigo forte de piratas, é algo muito forte e com qualidades fílmicas imediatas. A Merième cresceu perto do circo e está ligada de uma forma muito pessoal e intensa aos jovens que estão lá e quis trazer as suas histórias para um público mais abrangente.

Qual foi o vosso maior desafio?
O mais difícil foi tentar acompanhar a complexidade da vida das pessoas durante um período de tempo e capturar os elementos importantes da história. Eu vivo em Londres e só estava em Marrocos durante curtos períodos de tempo, e a Merième também estava fora, a trabalhar noutros projetos, por isso, existiram momentos importantes que certamente não conseguimos capturar ou incluir neste filme da forma como gostaríamos. Além disso, a ideia de documentário apoiado na observação ainda é algo novo e por vezes as pessoas não conseguiam perceber porque é que também queríamos filmar situações fora do circo. O circo assume-se como uma escola profissional de treino e os jovens não queriam ser apresentados como miúdos de rua, como surgiram anteriormente na comunicação social. Foi necessário construir uma base de confiança e de relação com eles durante um largo período de tempo.

Como reagiram as pessoas a mulheres atrás das câmaras?
Muito bem. Continua a ser muito raro ver mulheres em Marrocos atrás das câmaras e na parte do som (fizemos esses papeis, assim como realização) e essa novidade trouxe respostas muito positivas. Também facilitou a entrada na casa das pessoas e a possibilidade de filmá- los de uma forma mais intimista.

Existe uma diferença na forma como homens e mulheres abordam os filmes?
Claro que depende sobretudo do realizador enquanto individuo mas, de uma forma geral, penso que as mulheres conseguem por vezes ser mais sensíveis aos pequenos detalhes e atentas aos aspetos “silenciosos” da vida das pessoas. Nesse sentido, elas conseguem efetivamente criar uma relação de compromisso e refletir as complexidades das vidas das pessoas e das personagens. Muitas vezes, são também melhores a trabalhar em colaboração num processo de descoberta – o que é uma grande vantagem no documentário de observação, no qual não se consegue prever a história e temos de estar constantemente a adaptar-nos.

Rosa

Rosa Rodgers

O que guardarão deste filme?
A coragem de Ghizlane, uma jovem que teve de esconder da maior parte da família que estava no circo. Apesar de todos os preconceitos contra as mulheres, no circo ela estava completamente determinada a mudar o seu futuro, tornando-se parte dele e treinando para ser uma artista de circo profissional. E embora o filme não siga a história dela depois, ela foi bem-sucedida em fazer isso e em resistir ao destino que a maioria das raparigas à sua volta tem – o de um casamento em tenra idade e a perda da sua independência. Ela é uma inspiração para as jovens mulheres de todo o mundo.

O que pensam de um festival como o Olhares do Mediterrâneo – Cinema no Feminino, que privilegia o papel das mulheres na produção de filmes?
É muito importante existir este festival, uma vez que o papel e a voz das mulheres continuam a não ter o mesmo destaque e espaço que os filmes feitos por homens. E a maior parte dos filmes continua a ser feito por homens. Isto está a mudar aos poucos, mas ver uma programação de filmes feitos por mulheres mostra realmente o talento e a diversidade de mulheres que fazem filmes nos quatro cantos do mundo.

Modificado emsegunda, 03 outubro 2016 20:22

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