logo

Entrar
Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

Cinzento e Negro - Luís Filipe Rocha

Considerado um dos mais versáteis realizadores nacionais da sua geração, Luís Filipe Rocha está de regresso com «Cinzento e Negro», a sua 11ª longa-metragem, numa carreira que inclui títulos como «Adeus, Pai» (1996) e «Camarate» (2001). Em conversa com a METROPOLIS, o cineasta, natural de Lisboa, fala-nos da origem da história, da rodagem nos Açores e ainda do trabalho com o diretor de fotografia, André Szankowski. Selecionada para o Festival de Cinema de Montreal (início de setembro) esta nova produção inclui, no seu elenco, Filipe Duarte – que volta a trabalhar com o realizador – Miguel Borges, Joana Bárcia, Monica Calle e ainda a paisagem açoriana, considerada “a quinta personagem do filme”!

"«Cinzento e Negro» é uma história vulcânica. De traição, roubo e fuga, perseguição e vingança. De amor, solidão e morte.” Em que género se inscreve este seu novo trabalho: drama? thriller? policial? Pode-nos adiantar um pouco mais sobre a intriga central do filme?
Não se inscrevendo num género definido, há no filme uma mistura de drama, thriller e policial. Há, assumidamente, uma procura de sopro trágico, que roubei dos clássicos gregos, a envolver um macguffin estafadíssimo mas sempre apreciado como condimento (um saco cheio de dinheiro), e, no desenlace, uma explícita invocação do género que, para Jorge Luís Borges, substituiu e salvou, no séc. XX, a epopeia: o western. Mais do que proteger-me num género familiar, no qual nem sequer pensei, há um desbravar de território miscigenado em que as personagens reinam sobre a intriga.

cinzento 2

Como surgiu a ideia para o argumento: é baseado nalgum caso real, inspirado, ou mera ficção? E o processo de escrita, foi complexo?
Retiro directamente da minha Declaração de Intenções a aparição desta história:
“Em Setembro de 2003 entrei numa modesta agência funerária de Algés para encomendar o enterro de um familiar. A mulher que me atendeu, única funcionária visível, era coxa e usava uma bota ortopédica. Talvez por estar especialmente sensível, fixei-a. Um mês depois, fui a Almada ver uma peça de teatro. Cheguei antes da hora e sentei-me numa pequena esplanada de uma modesta taberna, no passeio. Minutos depois, a coxear, a mulher da agência funerária passou no passeio do outro lado da rua, carregando dois ou três sacos de plástico com compras, enquanto a seu lado, de mãos nos bolsos, caminhava um homem que, pelo silêncio e pela displicência, só podia ser o seu companheiro. Essas duas imagens, para mim de uma desolação, uma injustiça e uma tristeza que clamam raivosamente por vingança, perseguiram-me até 2008, data em que a sua energia e a sua persistência me levaram a escrever esta história.”
Quanto ao processo de escrita: experimentei, pela primeira vez, construir um filme a partir das Personagens e não do Fio Narrativo ou do Tema. Tentei descobri-las em vez de inventá-las, segui-las e espreitá-las em vez de dirigi-las, progressivamente atraído e fascinado pela vida e pela aventura desses Seres Imaginários, que nascem, vivem e morrem confinados ao mundo de cada história. Foi um processo delicado e muito paciente, empolgante, um pouco obscuro, mas tão diferente do que até agora tinha feito que me deu um enorme prazer criativo.

Em relação à escolha dos protagonistas (Filipe Duarte, Miguel Borges, Joana Bárcia e Monica Calle), volta a escolher o Filipe Duarte para um papel principal, pensou nele quando estava a escrever o argumento? Ou foi uma escolha posterior? E os outros atores, como foi o processo de escolha?
No caso do Filipe, pensei de facto nele quando escrevi. Quanto ao Miguel, a coincidência não podia ser mais mágica: quando escrevi o filme, e o Pico se me impôs como o palco dramático do desenlace final, o Miguel, que eu não conhecia pessoalmente, estava há semanas “ancorado” no Pico. Vivia na vida algo do que a personagem de David procura no filme. A partir daí, como que teve lugar cativo na personagem de David. A Joana e a Mónica foram escolhidas também de uma forma diferente da que me é habitual. Costumo fazer testes, normalmente muito exigentes, com os actores que não conheço bem. No caso delas, que não conhecia mas sabia serem grandes actrizes, deixei-me levar pela empatia, pela intuição e pelo mesmo impulso de pura curiosidade e desafio com que segui as personagens. Acredito que, tanto como eu os escolhi, os actores escolheram-me a mim e a este filme. Senti sempre essa afectuosa cumplicidade entre nós. Também com eles este filme foi para mim uma viagem nova e diferente, que me compensou da paragem de quase 7 anos sem filmar.

cinzento 3

A paisagem açoriana é um elemento fundamental do filme. Porquê a escolha dos Açores como cenário principal? Como correu a rodagem nas ilhas do Faial e do Pico, ao longo das sete semanas de trabalho?
Os Açores são a quinta Personagem do filme. A sua origem vulcânica oferece um palco único para o desenrolar e desenlaçar de qualquer tragédia: os seus magmas viscosos têm dado origem a erupções muito violentas. A Ilha do Pico é, para esse efeito, o palco mais trágico do mundo e, sobre ela, as palavras de Raul Brandão que constituem o pórtico de entrada do filme são certeiras: “Nunca labareda mais forte derreteu a pedra até cair em pingos e desfazer-se em cisco. É uma imagem a negro e cinzento que me mete medo.”

Como foi trabalhar com André Szankowski, um dos diretores de fotografia mais requisitados do momento?
Durante 20 anos e 4 filmes trabalhei sempre com o Edgar Moura. O nosso entendimento e a nossa cumplicidade foram exemplares, sem nuvens. Por razões profissionais, o Edgar não estava disponível nas datas de rodagem deste filme. Eu tinha conhecido o André Szankowski no plateau dos «Mistérios de Lisboa», quando visitei o Raul Ruiz, de quem fui amigo. Quando vi o filme, que admiro muito, disse ao André que no dia em que o Edgar não pudesse trabalhar comigo, teria todo o gosto em o convidar. E assim foi. O nosso trabalho mútuo correu como se não fosse o primeiro filme que rodávamos juntos: a cumplicidade e o entendimento apareceram naturalmente. Devo ao André uma fotografia não apenas técnica e esteticamente admirável, mas sobretudo decisiva na criação do filme. Fiquei muito contente quando o André me disse que gostava muito do resultado final.

cinzento 1

Já não filmava desde «A Outra Margem» (2007), e «Cinzento e Negro» é a sua 11ª longa-metragem. Continua a ser difícil fazer cinema em Portugal?
É hoje mais difícil do que foi nos anos 90 do século passado e nos primeiros anos deste século. Três dos meus 11 filmes seriam hoje impossíveis de serem feitos com as condições técnicas e artísticas de que dispus: «Amor e Dedinhos de Pé» (1990-93), «Sinais de Fogo» (1994) e «Camarate» (2000). Quer a nível nacional (ICA, RTP e televisões privadas) quer a nível internacional (co-produções) as condições financeiras e, por consequência, técnicas e artísticas regrediram substancialmente. Os meus 3 últimos filmes foram produzidos e realizados entre 2002 e 2014, em condições muito idênticas às dos filmes que realizei nas décadas de 70 e 80 do século passado.
Quais as expetativas em relação à estreia do filme, depois desta nomeação para o Festival de Montreal?
A minha expectativa foca-se sempre na qualidade da comunicação que os meus filmes são ou não capazes de estabelecer com quem os vê. Por isso, as projeções em Montreal constituirão uma primeira percepção da capacidade comunicativa do filme. Infelizmente, não há ainda data de estreia marcada, pelo que a presença do filme em Montreal não vai, para já, ter uma contribuição directa para o lançamento do filme.

Já tem algum novo projeto na calha?
Concorri já com uma adaptação para cinema do romance O Teu Rosto Será o Último. Nos dois concursos do ICA em que o projecto foi apresentado fiquei em primeiro dos últimos. Até voltar a concorrer com esse ou outro projecto estou envolvido na feitura de um documentário sobre a história de vida de três irmãos, entre 1939 e 1946: dois deles, em Portugal, entre Coimbra e Belmonte, e a irmã mais nova, com os pais, em Timor, durante a ocupação japonesa. Em Outubro, irei filmar a Timor, na companhia dessa menina, que aprendeu a ler e a escrever num campo de concentração japonês, que hoje conta 83 anos de vida e é uma das pessoas mais admiráveis que conheci.

Mídia

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.