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Actualizado às 2:55 PM, Oct 22, 2019

Laurie Anderson - “Heart of a Dog”

"Coração de Cão”, de Laurie Anderson, é um documentário, mas na verdade está mais próximo do que são as suas habituais criações de storytelling do que dos formatos que frequentemente são explorados pelo documentarismo no grande ecrã. A voz, sempre cativante e quase hipnótica, de Laurie Anderson, conduz a narrativa, seguindo um texto que alinhava num fio comum, que flui sem aparentes desvios, apesar das ocasionais mudanças de assunto. A música, discretamente, compõe o cenário... A poesia mora em primeiro lugar nas palavras, na forma muito pessoal de contar as memórias da cadelinha Lollabele, mas também do mundo em que viveu, dos espaços que percorreu, de episódios de uma vida a quatro patas surgindo aqui e ali alusões a outros, contemporâneos, daqueles que caminham habitualmente apenas sobre duas. O disco que se apresenta com o mesmo título do filme é uma coleção sequenciada de episódios áudio do que ouvimos no filme. Ou, se preferirem, excertos do filme apenas feitos som, deixando as imagens para outras núpcias. E não é que resulta também? 

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Forbidden Planet - BSO

Realizado por Fred M. Wilcox, «O Planeta Proibido» representou a primeira aposta de orçamento mais folgado que o cinema de ficção científica conheceu. Se muitas vezes é a memória icónica do célebre Robbie, The Robot que nos lembra do seu lugar influente na história da cultura popular, há que não esquecer que também na música este filme jogou então cartas bem importantes. Criado numa altura de intenso desenvolvimento de novas formas musicais usando electrónicas (porém ainda longe das visões de Wendy Carlos para «A Laranja Mecânica» de Kubrick), o filme constrói toda a sua banda sonora com o recurso a essas novas ferramentas, preterindo a busca de temas melódicos em favor de uma sucessão de efeitos sugestivos, construindo quadros que sublinham o caráter alienígena do mundo que visitamos no ecrã e as expressões de tecnologia avançada com que a narrativa se depara. Os sons de moduladores, blips e ruídos trabalhados por Louis e Bebe Barron constroem aqui uma paisagem que se distingue de usos anteriores de electrónica no cinema (como se escutara por exemplo no «A Casa Encantada» de Hitchcock). Mas abriram caminho a novas ideias, na verdade depois com consequência mais visível na música de compositores contemporâneos (como Stockhausen) do que em experiências subsequentes na sétima arte.

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West Side Story - BSO

Um dos mais marcantes musicais de todos os tempos, «West Side Story» (que nasceu num palco da Broadway antes de chegar ao grande ecrã) é na verdade o fruto de um entendimento entre a coreografia, as letras das canções, a música e a visão do encenador (no teatro) e do realizador (no cinema), transportando para um bairro nova-iorquino dos anos 50 os ecos clássicos do Romeu e Julieta de Shakespeare, trocando a rivalidade entre famílias por um choque étnico entre moradores daquela zona da cidade. À música de Leonard Bernstein (nos momentos vocais contando com as palavras de Stephen Sondheim) coube a construção de uma realidade sonora que fixasse a materialização desses ecos de uma quezília de outrora e de outras geografias num espaço que era o daquele tempo e daquele lugar. Ali se cruzam formas escutadas no jazz, na música latina e também na tradição da música criada para o palco de teatro, cabendo a «West Side Story» um papel marcante na construção de uma ideia de cruzamento de culturas que, no fundo, define a identidade americana. Mais de meio século depois e já com tantas abordagens a este corpo musical – ainda há um ano Michael Tilson Thomas dirigiu a San Francisco Symphony numa das melhores interpretações de sempre desta música – há que assinalar um reencontro, agora em vinil, com as memórias da versão que descobrimos quando o filme chegou aos ecrãs, em 1961.

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Mad Max - BSO

Vai ser difícil desviar as atenções de quem encarar o universo musical dos filmes «Mad Max» do trabalho que construiu a banda sonora do terceiro episódio da série. Em 1985, «Além da Cúpula do Trovão», de George Miller e George Ogilvie, brilhava não só pela força pop/rock de duas grandes canções de Tina Turner (que tinha inclusivamente um papel no filme) – “We Don’t Need Another Hero” e “One of The Living”, ambas editadas como single –, como revelava uma magnífica partitura orquestral assinada pelo veterano Maurice Jarre, decididamente mais elaborada e rica em sonoridades e texturas do que aquelas que, para os dois primeiros filmes, tinham conhecido visões orquestrais funcionais e úteis, mas mais convencionais, compostas e dirigidas por Brian May. Trinta anos depois o ressurgimento da série chamou a este lugar o compositor holandês Tom Holkenborg, mais conhecido como Junkie XL (antigo colaborador de Hanz Zimmer e já com trabalho para cinema assinado em nome próprio em «300: O Início de Um Império», de Noam Murro). O seu trabalho retoma a linha clássica da série, socorrendo-se do labor de uma orquestra, vincando todavia a carga das percussões, a quem é dado claro protagonismo salvo em momentos de maior placidez nos quais emerge uma ordem romântica mais clássica. Eficaz e adequada às imagens, a música não transporta contudo as visões que Maurice Jarre apresentou em 1985 e que fizeram dessa outra banda sonora uma criação capaz de sobreviver à ausência das imagens.

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Boyhood - BSO

Seguindo princípios ideológicos semelhantes, embora desviando mais ainda os azimutes para o espectro dos acontecimentos em terreno indie (salvo pontuais presenças não tão claramente ali arrumáveis, como será o caso dos Coldplay ou do ensosso Gotye), a banda sonora de «Boyhood» (ed. Warner), de Richard Linklater, é um caso algo diferente uma vez que, ao contrário do que escutamos neste episódio da saga «Hunger Games», essencialmente feito de inéditos, versões ou, pelo menos, novas abordagens a temas já antes criados, somos aqui levados a redescobrir uma série de gravações já previamente editadas. A seleção é criteriosa, melómana quanto baste (mesmo com uma ou outra carta fora do baralho, mas os gostos felizmente são mesmo assim), juntando nomes do mapa indie atual como os Tweedy, Vampire Weekend, Wilco, Cat Power, Arcade Fire ou Yo La Tengo e veteranos como Bob Dylan ou Paul McCartney. Há um tropeção ao som dos Cobra Starship, mas nem tudo tem de ser perfeito, sobretudo para acompanhar uma narrativa onde, acima de tudo, se acompanha com grande candura uma história de uma família igual a tantas outras.

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