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Actualizado às 11:49 PM, Nov 20, 2019

Quentin Tarantino - Os Oito Odiados

Chovia aos cântaros em São Paulo na segunda-feira de fins de novembro em que Quentin Jerome Tarantino resolveu dar as caras no Brasil e jogar um balde de água mais fria que a da tormenta lá fora, na cabeça de uma legião de fãs afoita por assistir à obra-prima «Os 8 Odiados» (The Hateful Eight), ao anunciar o seguinte:

“Vou até dez filmes e depois o décimo, eu paro de filmar”, afirmou, recebendo um coro de choramingos decepcionados. “Eu passei a contar os filmes depois de «Kill Bill», que foi a minha quarta longa e, desde então, isso virou uma assinatura. E, agora, ela se confunde com o próprio título, nestas história sem um centro moral, na qual qualquer um dos personagens centrais pode ser mau. Todos podem ser maus. Não podemos confiar em nenhum dos oito, isolados numa cabana, mediados por perigo iminente, no limiar entre o Bem e o Mal, enquanto neva pesado lá fora”.

Filmado em nagativo 65mm Kodak para projeção em 70mm (em muitos países só em digital), no Colorado, ao custo de US$ 60 milhões, «Os Oito Odiados» pode entrar para a História não apenas por ser o filme mais ousado de Tarantino, como também por ser seu melhor trabalho como realizador desde «Cães Danados», em 1992. Sua estreia será no Natal: 25 de dezembro. Como o título sugere a trama se concentra em oito sujeitos rápidos no gatilho e ricos em mistério confinados num misto de taverna e pensão no Wyoming, após longa peregrinação por um nevão, na qual se percebe um certo ar de protagonismo no caçador de recompensas John “The Hangman” Ruth (Kurt Russell) e no ex-militar da Guerra Civil Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson, em estado de graça). Ruth arrasta consigo a criminosa condenada à forca Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh, na atuação mais luminosa de sua carreira). E a eles se junta o Xerife Mannix (Walton Goggins, revelação da longa). Uma vez protegidos do frio eles encontram Bob “The Mexican” (Demian Bichir), Oswaldo “The Little Man” Mobray (Tim Roth), Joe “The Cow Puncher” Gage (Michael Madsen) e Sanford “The Confederate” Smithers (Bruce Den). Ali, o ódio de cada um há de ser uma arma carregada de sagacidade. Ou de fúria.

“É teatro. Se esta estrutura fosse montada num palco, ela funcionaria”, avaliou o diretor, que explicou seu método de escrita de roteiro. “Eu escrevo minhas cenas sem ter uma noção se saberei filmá-las ou não, e é daí que vem parte da diversão desta experiência que é fazer cinema. Escrevi «À Prova de Morte» sem ter a certeza de que sabia filmar perseguições de carros, embora gostasse de ver cenas de perseguição. O mesmo ocorreu quando escrevi as cenas de luta de «Kill Bill». Mas quando eu fiz «Django Libertado», notei que eu sabia filmar um western, por isso resolvi voltar ao gênero. Dizem que você só se torna conhecido como um diretor de faroestes se filmar três westerns. No passado, nos tempos de John Ford, tinha que fazer pelo menos uns dez”.

Entre as muitas polémicas levantadas pelo realizador de «Pulp Fiction» (1994) em sua passagem pelo Brasil foi a maneira como reagiu às perguntas da imprensa acerca do diretor Spike Lee, que desqualificou Tarantino como alguém apto a falar das mazelas dos afro-americanos depois de ter visto «Django Libertado» (2012).

“Se algum dia eu atuasse num filme dele, coisa que não faria nunca, seria o dia mais feliz da vida daquele filho da mãe”, disse Tarantino, que também eriçou ânimos ao falar de seu método de escalar elenco. “Nem sempre um grande ator está apto para dizer o tipo de texto que eu escrevo e não é questão de talento, mas de embocadura e de familiaridade com o que eu tento narrar. Meu diálogo exige uma certa prosódia muito específica. Ele é talhado para o que chamo de os Tarantino’s Superstars. Tenho, por exemplo, muita vontade de um dia escrever algo para a Kate Winslet, que é uma atriz incrível e, acho, capaz de se afinar com que eu escrevo. E quando estou no processo de escrita, eu já redijo com os atores em mente, menos um. Esse ‘um’ será o elemento de desarmonia, que vai mobilizar os demais, como é o caso de Daisy aqui”.

Tarantino confiou ao maestro Ennio Morricone a trilha sonora de «Os Oito Odiados», que já recebeu uma indicação ao Globo de Ouro. A láurea anual da Hollywood Foreign Press Association também reservou indicações para o faroeste nas categorias de argumento e atriz secundária, na qual Jennifer é a favorita.

“Quando escrevia, notava que Daisy carregava um tipo de atitude típico de década da 1990. E, naquela época, os filmes que Jennifer fazia, como «Geórgia» [1995] e «eXiztenz» [1999] eram construídos em torno da figura dela nas telas. Ela fez teste para viver Daisy e teve um desempenho incrível. Mas uma atriz do porte de Jennifer não se escolhe por teste, escolhe-se pelo jeito que ela se põe na tela”, explicou Tarantino.

Na conferência, o diretor de «Sacanas sem Lei» (2009) relembrou sua primeira visita ao Brasil, em 1992, com «Cães Danados» na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Eu era um jovem de 20 e poucos anos, financeiramente quebrado, que começava a carreira do filme por Sundance. Naquela época, quando você fazia um filme independente, era necessário embarcar num circuito de festivais, o que durava um ano. Era uma maratona de um ano excursionando por diferentes festivais. E, viajando de mostra em mostra, aceitando participar de debates, eu acabei me tornando popular. Quando a Miramax, minha distribuidora na ocasião, foi vender «Pulp Fiction», a minha segunda longa, ela se deu conta de que todo mundo queria ‘o novo filme de Tarantino’ e isso porque os festivais me fizeram popular”, disse Tarantino. “Ali, eu percebi que não faço filmes para o mercado americano. Embora eles sejam falados em inglês e se passem nos EUA, eles falam para o mundo. Eu faço filmes para o planeta”.

 

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Ruy Guerra - Quase Memória

Ungido na fé cristã, o filósofo Santo Agostinho (354-430) é a primeira referência de Ruy Guerra para explicar as idas e vindas no Tempo – objeto de fetiche estético do diretor moçambicano de 83 anos – que alimentam seu novo filme: “Quase memória”, já em finalização:

- Segundo Santo Agostinho, o Tempo é encontro de duas inexistências. De um lado está o passado - que, como já passou, não existe mais – e do outro está o futuro – um saco vazio a ser preenchido pelo que ainda não existe. Logo, o Tempo é uma ilusão. «Quase Memória» é um mergulho nessa inexistência, que ganha subjetividade na forma de meus personagens. É uma paçoca onde não há tempo real. Uma paçoca onde não se sabe se é o futuro que vai pro passado ou se é o passado que vem para o futuro – explica o diretor, que radicou-se no Brasil ainda no fim dos anos 1950 e se tornou-se o único representante do cinema brasileiro a ter dois Ursos de Prata no currículo conquistados no Festival de Berlim de 1964 (com «Os Fuzis») e em 1978 (com «A Queda»). – Mesmo sendo africano, de origem portuguesa, tenho um lado brasileiro, latino-americano, que apaixonado pelas facetas patéticas do Ser Humano.

Produzido por sua filha Janaína Diniz Guerra, «Quase Memória» é primeiro longa-metragem que Ruy Alexandre Guerra Coelho Pereira finaliza depois de um hiato de dez anos longe das telas, iniciado após o lançamento de «O Veneno da Madrugada» (2005). A volta se dá com base na literatura de Carlos Heitor Cony, cujo romance homônimo o cineasta tenta adaptar há quase duas décadas, sempre enfrentado dificuldades financeiras para captação de recursos, embora, no meio do caminho, tenha rodado um filme considerado entre os brasileiros como obra-prima: «Estorvo», indicado à Palma de Ouro em 2000.

- Minha carreira viveu hiatos enormes historicamente. Fiz apenas 15 longas desde que estreei no formato, com «Os Cafajestes», em 1962. Mas eu me propus a viver tempo o suficiente para fazer tudo o que queria. Ok, meu último filme foi feito em 2005, mas dez anos pra mim é ontem. Tive que viver até os 80 anos para fazer aquilo que Glauber Rocha (mito do Cinema Novo, movimento brasileiro do qual Ruy foi um expoente) fez com 40. Sinto que o que eu tenho fundamental para dizer ainda não foi dito, mas não me preocupo pois eu já sei a data da minha morte e tenho tempo até ela chegar. Decidi que vou morrer aos 117 anos, pois gosto de números ímpares. Por isso mesmo, eu me impus a chegar aos 21 filmes daqui até eu completar cem anos, pois, dali pra frente, foi me dedicar a ser escritor – especula o realizador de sucessos de público e crítica como «Erêndira» (1983). – Nós criamos a nossa própria ficção de vida. Sei que a minha parece absurda, mas também parecia absurdo, quando eu tinha 20 anos, que eu um dia pudesse chegar aos 40. E agora, aos 83, eu me sinto fazendo em “Quase memória” algo que nunca fiz, a começar pelo visual na experiência com meu diretor de fotografia, o Pablo Baião. Procuro sempre quem queira procurar coisas novas na imagem

Nas palavras de Cony, a trama de «Quase Memória» é o tipo de narrativa que se define como “infilmável” por trançar diferentes fluxos de consciência, entre delírios, enfrentamento da realidade da velhice, sonhos e saudades. O máximo se dizer, sem estragar as surpresas tramadas por Guerra, é que o foco são as aventuras do pai do escritor, o também jornalista Ernesto Cony Filho, acostumado a transformar as ações mais cotidianas (como acender um balão) num feito digno de anedotas. É o premiado ator baiano João Miguel (“Estômago”) quem vive Ernesto. Já o papel de Carlos Heitor Cony é dividido, em épocas distintas, entre Charles Fricks, um dos atores mais elogiados do teatro brasileiro na atualidade, e um mito da TV: Tony Ramos. Na versão de Guerra, um pacote recebido por Carlos Heitor, em um quarto de hotel, é o estopim para um fluxo de recordações.

- As diferentes épocas do filme, onde aparecem o Cony jovem e o Cony velho, são marcadas por dois fatos históricos, noticiados pelo rádio e pela televisão: o AI-5, em dezembro de 1968, e a morte de Ayrton Senna, em maio de 1994. Não saberia dizer a que gênero «Quase Memória» se filia. Ele é comédia, ele é drama, ele é farsa burlesca, ele tem um intimismo bergmaniano. A memória fabrica personagens levados a limites farsescos – diz Guerra, cujo regresso ao cinema se deu sob os afagos de um velho amigo da crítica européia.

Numa entrevista ao fim do Festival de Cannes, em maio, o francês Michel Ciment – encarado como sendo “a” entidade maior da literatura cinéfila com seus escritos para revista “Positif” - deu uma declaração festejando a volta de Guerra ao cinema. Ciment, à ocasião, vibrava com a hipótese de Guerra concorrer ao Leão de Ouro no próximo Festival de Veneza. “Se ele conseguir, vai ser uma conquista boa para o cinema do Brasil, pois Ruy tem uma história única e tem vigor narrativo como autor. Torço por ele por seu talento e pela amizade que temos”, disse Ciment, ciente da relevância de Guerra para a História. Há, da parte do diretor, apenas um certo temor de que a mentalidade crítica dos franceses ainda se atenha a um certo padrão de cinema brasileiro de imagens desarticuladas e de planos longos, características de uma visão eurocêntrica de Terceiro Mundo.

- Quando o cinema de um país mais emergente como o Brasil flerta com temáticas mais intimistas, filosóficas, em geral, a recepção lá fora é mais severa, como se nós tivéssemos renunciado a nossa identidade – diz o diretor, que guarda no sotaque carregado da melopeia lusitana origens de sua ancestralidade portuguesa. – Tenho muita noção do lado lusitano da minha herança que vem de um Portugal mítico, expresso pela força da palavra literária. Tenho algo de Alexandre Heculano, com sua prosa gongólica em mim. Não faço imagens leves. Tudo o que filmo tem um peso grande, como se essas imagens se parecessem com a escrita de Herculano. Talvez por isso, o lado farsesco de “Quase memória” não seja tão leve.

Agora, os planos mais imediatos de Guerra contemplam a feitura de “O tempo à faca”, uma tragédia rural semiárida no coração do Nordeste. E pretende ainda retomar os personagens do díptico “Os fuzis” e “A queda” no projeto chamado “3x4”, com Lima Duarte e Nelson Xavier.

- Tenho que correr e filmar enquanto eles ainda estão vivos, pois eu ainda vou viver até os 117.

RODRIGO FONSECA
Crítico de cinema e argumentista da Tv Globo

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Mia Hansen -Løve - Eden

Jovem talento do cinema francês, Mia Hansen-Løve esteve em Portugal no âmbito da 11ª edição do Indie como um dos destaques na secção Herói Independente. Ao longo do festival, foi possível ver o conjunto da sua obra, incluindo o seu último filme «Eden» (2014) – numa das sessões mais concorridas do certame. Antes de regressar a Paris, a realizadora de «Amor de Juventude» (2011) e herdeira da tradição naturalista francesa, participou numa Q&A onde a METROPOLIS teve a oportunidade de conversar com ela.

Mia Hansen-Løve sobre: o amor

“É seguramente a minha maior inspiração: os meus filmes são sobretudo sobre a passagem do tempo, sobre a vida, mas o amor está no centro disso, e acho que tem a ver com as minhas próprias relações. Duma forma diferente, poderia dizer que a vingança nunca foi uma fonte de inspiração para mim e ainda continua a ser um mistério o porquê de tantos filmes serem feitos sobre isso, porque não vejo isso como um motor dos meus filmes. Na vida, tenho a certeza que existe, mas à minha volta, entre as pessoas com quem me dou, que conheço, não são estimuladas por sentimentos de vingança ou, como vemos em muitos filmes, sentimentos de impostura, engano. Existem imensos filmes que são sobre alguém que engana, a autenticidade das pessoas.”

Mia Hansen-Løve sobre: a passagem do tempo

“É a minha fonte de inspiração. Não sei explicar o porquê desta opção. É uma parte de mim, do meu processo de escrita, é tanto assim que às vezes dou por mim a desejar fazer um filme no presente, que se passe durante 2 a 3 dias porque percebi que todas as histórias que conto não podiam depender de apenas 2 anos. Têm a ver com a minha própria obsessão com o tempo. Especialmente quando era adolescente, era obcecada por isto, tinha esta sensação de que as coisas se passavam sempre tarde de mais, que já tinham passado. As pessoas chamam-lhe melancolia, mas para mim tem a ver com esta obsessão com a passagem do tempo. Não consigo explicar ou definir, mas está na base dos meus filmes. Fazer cinema e falar sobre filmes é uma forma de lidar com isso, de lutar contra isso. Fazer filmes é uma forma de estar no presente, de viver no presente. Por isso gosto de trabalhar com atores muito novos, e não com atores de meia-idade. Gosto de trabalhar com esta ideia da maturidade e da passagem do tempo e por isso os rostos são de atores muito novos porque me interessa a juventude e uma espécie de inocência. Na maioria dos filmes, os realizadores escolhem atores que estão perto da idade do fim do filme. A mim interessa-me a passagem do tempo e essas mudanças que se dão nos próprios atores durante a rodagem. Sempre me entusiasmou a ideia de filmar jovens a crescer, filmar o seu processo de crescimento. Algo que me toca no final de «Um Amor de Juventude» (2011), quando a personagem de Lola Créton está a andar e há um olhar dela que nunca poderia ter tido no início do filme. Quando a comecei a filmar, fiquei com a sensação de que estava a filmar uma rapariga muito nova, a sair da infância, e depois, no final, tinha a certeza que ela era uma jovem mulher. Sabia que o filme tinha acompanhado este processo de crescimento. E é algo que me emociona.”

Mia Hansen-Løve sobre :os filmes e a vida

“Tenho a sensação que cada um dos meus filmes marca uma época da minha vida. As pessoas têm diários, eu tenho os meus filmes que são pedaços da minha vida. Não procuro ideias para fazer os meus filmes, são momentos da minha vida, formas de refletir sobre etapas da minha vida.”

Mia Hansen-Løve sobre: a fase inicial da carreira

“O facto do produtor se ter suicidado durante o processo de preparação da primeira longa (onde já vinha a trabalhar há um ano) e eu ter conhecido a sua mulher e os seus filhos e um pouco do resto da sua vida, tudo isso dialogava comigo e, duma certa forma, com a minha primeira longa. Quando fiz o meu primeiro filme, um filme sobre transmissão, sobre melancolia, numa forma simplificada, conheci este produtor e esse encontro foi muito importante para mim, o quanto ele percebia o meu projeto. Depois este produtor suicidou-se, desapareceu, e eu senti que a melancolia que estava a sentir se escapou para a realização do filme. Não é acidental o facto destes dois filmes terem a mesma estrutura pois tinha a ver com esta sensação de que o que se estava a passar na minha vida tinha a ver com o assunto que trata o primeiro filme. O argumento de «Tout Est Pardonné» (2007) já tinha sido escrito antes de o conhecer (ao produtor) e quando o conheci nunca pensei que ele viesse a ter algo a ver com este filme. Mas nós falámos muito sobre cinema, relações e as referências cinematográficas – o facto de ambos termos começado como atores no cinema.”

Mia Hansen-Løve sobre: «Eden» (2014)

“Há algo nos filmes que se relaciona com o que estava a sentir na altura em que os fiz. E «Eden» acaba em 2013, apesar de quando o escrevi acabar em 2011, mas como levei dois anos para obter financiamento para o filme, alterei a data e por isso acaba em 2013. Mas até tive sorte pois isso permitiu-me utilizar uma das músicas dos Daft Punk mais recentes, que se revelou tão importante para o filme. Havia este paralelo entre a carreira do meu irmão e a dos Daft Punk. Mas isso não teria acontecido se tivesse obtido financiamento para o filme anteriormente e o tivéssemos feito logo, então o filme teria sido concluído antes do último álbum dos Daft Punk ser editado.
Este filme é muito influenciado pela realidade porque quando acaba e quando Paul abandona a carreira de DJ e inicia uma nova vida, ele não sabe como será essa nova vida, se terá um final feliz ou triste. Para mim quando o filme acaba leva-nos aos dias de hoje, à vida real, a algo fora do filme. Por isso qualquer coisa que estivesse a acontecer na nossa vida, a mim e ao meu irmão, era interessante pois ajudava-me a compreender o final do filme.”

Mia Hansen-Løve sobre: a eternidade das emoções

“O desejo de que os sentimentos sejam algo de eterno, por exemplo, amar alguém ou algo em particular e o querer que isso seja eterno. E o conflito, o saber que as coisas vão terminar, que isso vai acabar. Tudo isso tem a ver com os meus filmes. E quando lhe dizia antes que gostava de fazer um filme que não fosse sobre a passagem do tempo. Também desejava fazer um filme que não fosse sobre a vocação. Não sei se entende o que quero dizer com isto. E essa é a razão pela qual comecei a filmar, por causa dessa obsessão de fazer algo que tenha algo a ver com o invisível, aquilo que permanece e fica para além da morte. Esta crença no amor, e de que é algo eterno e da qual não te consegues livrar, algo que fica contigo, para sempre. Quer dizer, em todos os meus filmes, basicamente todas as personagens têm uma crença enorme e são fiéis. Não no sentido da traição, mas no seu íntimo têm aquela sensação de que nunca podem virar a página. Disseram-me muitas vezes que os meus filmes são sobre a tristeza e a dor da perda, mas é o contrário: são sobre a recusa da dor, são todos sobre estas personagens que são fiéis aos seus sentimentos e que nunca, mas nunca aceitam livrar-se deles. Mas, no fundo, encontram uma forma de continuar, prosseguir com esses sentimentos.”

Mia Hansen-Løve sobre: as influências e o cinema de Taiwan

“De facto, o «Millennium Mambo» foi importante para mim. Escrevi sobre ele, no «Café Lumiére». Mas não são os filmes que me formaram, mesmo que tenha olhado para eles. Os filmes que me formaram foram os da Nouvelle Vague, parte da minha cultura, do meu mundo. Os outros que falou, descobri-os mais tarde e estimularam-me muito. Descobri que havia algo que me ligava a eles, mais do que a filmes franceses contemporâneos. E isso é muito verdadeiro sobre «Millenium Mambo». Quando vi o filme, percebi que era mais sobre a minha geração, mais do que outros filmes franceses. E é estranho, porque não é evidente dizer isso e havia algo sobre a atmosfera, a realização, a aura das personagens em relação ao qual me senti mais próximo do que em relação a outros filmes sobre a juventude francesa dos anos 1990. Quando fizemos «Eden» (2014), tínhamos muito poucos filmes na nossa cabeça, o que me interessava e a ideia que tinha era da verdade sobre a juventude dos anos 1990 ou dos anos 2000, da vida noturna, esse tipo de melancolia. O interesse não era o do glamour, ou da fantasia sobre esses tempos, mas sobre a vida, a vida das pessoas”

Mia Hansen-Løve sobre: a house music

“Acho que é isso que me faz ligar a essa música: o facto de ser muito alegre, animada e ao mesmo tempo um pouco triste. Essa dualidade é o que me faz ligar a essa música, mais do que outra coisa qualquer. A house music sempre fez parte da minha vida, nunca pensei porque é que gostava dela, a música estava lá e eu apenas gostava dela, por causa do meu círculo de amigos, do meu irmão, quando era DJ e de todas as festas a que fui. Nunca o analisei, mas quando escrevi o filme: há uma sequência em que a dupla de DJ’s está numa rádio a explicar por é que gostam desta música e falam dessa dualidade, do facto de ser eufórica e melancólica e ao escrever percebi que era por isso que gostava tanto dela”

Mia Hansen-Løve sobre: a música nos seus filmes

“Se repararem a música é importante para toda a gente. Mas eu não utilizo música feita por compositores de propósito para os meus filmes. Quando se tem música composta para um filme, geralmente, ela está lá não para ser ouvida, é suposto ser invisível. É isso que não gosto nela e é por isso que sinto que estou a ser manipulada quando vejo um filme com esse tipo de banda sonora. O problema é que as pessoas deviam pensar e escrever mais sobre a forma como a música é usada nos filmes e como a banda sonora manipula o espetador. Nunca, mas nunca utilizo isso. Talvez um dia o faça, mas de momento não me imagino a trabalhar com um compositor. Não utilizo muita música, mas quando está lá é porque a personagem a ouve. Quando o espetador a ouve é porque a personagem a ouve: na maioria das vezes começa na cena em que a personagem a ouve e muitas vezes pode continuar, e quando a música continua mesmo depois da cena terminar é porque a personagem estava a ouvi-la para ele mesmo ou tinha a música na cabeça. Por isso, ouvimos a música sempre como um gesto de empatia para com o personagem, faz parte da cena, parte da realidade da personagem.”

Mia Hansen-Løve sobre: a importância da música no processo criativo

“Geralmente, tenho algumas músicas na minha cabeça, às vezes encontro música importante para o filme quase no fim do processo. Mas, habitualmente sim, penso em músicas em particular quando estou a escrever as cenas. Ajuda-me em todo o processo: para «Eden» estava a ouvir muita house music, mas também muitas das músicas dos Daft Punk – disco, e uma delas muito melancólica. Precisava de ouvi-las para escrever, estava como que dependente disso para a escrita deste argumento, ajudava-me a encontrar a energia certa, o mood a disposição certas para trabalhar, a inspiração.”

Mia Hansen-Løve sobre: a família nos seus filmes

“É difícil explicar porque faz parte de ti. É algo feito de forma inconsciente. Mas, na minha família tenho o caso do meu pai, que tem seis irmãos, e o seu pai suicidou-se. Portanto essa questão da fraqueza ou da força estava muito presente e perseguia-me. O meu pai teve de tomar conta do seu irmão e irmã, que eram mais novos, e por isso teve de crescer muito depressa muito novo. E ao mesmo tempo tinha essa figura do avô, muito frágil ao ponto de se ter matado com seis filhos. Acho que essa obsessão com a família e a fragilidade ou força da figura paternal, esse amor e admiração pelo pai tem a ver com este passado.”

Mia Hansen-Løve sobre : o próximo projeto - «L’Avenir» (2016)

“É sobre a separação dum casal nos seus 50 anos, ambos professores de filosofia, e é sobre o homem deixar a mulher (eles têm dois filhos), trocá-la por outra mulher e é também sobre a esposa que fica em casa. É ainda sobre filosofia e a relação deles com os seus alunos que se irá tornar ainda mais importante com a separação.”

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Claudio Assis - Big Jato

Inscrito na lista de candidatos a uma vaga nas seleções competitivas do 66.º Festival de Berlim (11 a 21 de fevereiro), com o diferencial de oferecer aos europeus um olhar agridoce sobre o Brasil profundo, «Big Jato», nova longa-metragem do polêmico diretor pernambucano Claudio Assis, começa sua excursão pelas telas do mundo a partir de fevereiro. Exibida em setembro no Festival de Brasília, a produção de R$ 1,5 milhões, baseada em um romance homônimo de Xico Sá, saiu de lá com cinco troféus, entre eles o de melhor filme.

Com a promessa de expor as entranhas da Humanidade, pegamos boleia de um caminhão encarregado de transportar o conteúdo de fossas e esgotos. Em «Big Jato», o diretor de «Amarelo Manga» (2002) narra uma saga de amadurecimento, com base na relação entre um adolescente, Xixo (Rafael Nicário), e dois parentes peculiares: o pai caminhoneiro e o tio radialista. Um, Pai Francisco, é um machão conservador; o outro, Tio Nelson, um anarquista. E ambos são vividos pelo ator Matheus Nachtergaele, o Sandro Cenoura de Cidade de Deus (2002), com disposição plena para se reinventar como intérprete.

“Eu filmo para mostrar as entranhas da sociedade, porque o meu cinema é da ordem da inquietude, plugado nas contradições”, disse Assis à revista METROPOLIS logo após a exibição de «Big Jato», a quartao longa do cineasta e o primeiro a ser fotografado por Marcelo Durst («Estorvo»), uma lenda da imagem no Brasil.

Parceiro de Assis num curta-metragem feito há duas décadas («Soneto do Desmantelo Blue», de 1993), Durst veio ser o arauto do cineasta em seu surfe pela paisagem agreste filmada em locações em Vila de Cimbres, Pernambuco. E todas as sequências que os dois construíram, sob a mediação da câmera, correm na tela sob o impacto dos acordes dos Betos, uma banda na moda Beatles, cujo hit é “Let It Lie”.

“Esta é a primeira adaptação literária que eu faço e, no livro do Xico Sá, há uma referência forte aos Beatles. Mas o meu orçamento inteiro em «Big Jato» não seria o bastante para pagar o direito autoral de uma música deles. Aí a gente improvisou, com poesia. Este filme é uma fábula nordestina, que trata da transformação de um jovem poeta”, explicou Assis.

Premiado em Roterdã, em 2007, com «Baixio das Bestas», e laureado em diferentes mostras internacionais pelo conjunto de seus curtas e longas, Assis fala sobre sua estética na entrevista a seguir:

Em sua coleção de memórias sobre o Nordeste brasileiro, uma obra marcada pela denúncia, que lugar ocupa «Big Jato», um filme doce, felliniano como «Amarcord»?

Este filme é uma fábula nordestina, centrado na conversão de um menino em poeta, mantendo uma doçura que já venho perseguindo desde «A Febre do Rato», meu longa anterior, de 2011. Esta é a primeira vez que eu faço uma adaptação. Mas a dificuldade de fazer isso foi menor por eu estar remexendo um material que vem do Xico Sá, um amigo de muitos anos. Xico é jornalista e a primeira entrevista que ele fez com um cineasta foi comigo. Como eu trabalho a criação dos meus filmes num espírito coletivo, sempre, Xico já é parte desse meu grupo. No «Febre», foi ele quem sugeriu o nome do protagonista. Somos muito amigos e compadres.

Há quem diga que a sua filmografia é pautada pela brutalidade. De onde vem esse olhar bruto que você lapida longa a longa?

Quando eu era mais jovem, tentei estudar Ciências Políticas, mas quando vi que, no Brasil, os políticos são eleitos pela corrupção, desisti e decidi que era preciso reagir de alguma forma. E a forma que eu, cineclubista, encontrei foi fazer filmes que expusessem as mazelas sociais buscando uma universalidade naquilo que denunciam. Era algo que eu via no cinema iraniano, no cinema alemão. Era guerrilha a partir da imagem. Quando eu fiz «Amarelo Manga», diziam que eu era inspirado por David Lynch. Outros falavam que eu era inspirado por «Irreversível» (do Gaspar Noé) sendo que eu nunca nem tinha visto esse filme. A verdade é que eu só sou parecido comigo mesmo. Busquei criar uma estética com foco na verdade, mesclando documentário e ficção. Admiro muitos diretores. Um dos que mais admiro é o Brian De Palma, que cita muitos diretores clássicos mas à sua maneira, com classe. Quem dera eu ser assim...

Você é um expoente de um dos núcleos mais criativos do país: o cinema feito no estado de Pernambuco. Como anda aquela produção?

Estamos num momento excelente, basta ver o sucesso que um dos mais jovens de nós, o Gabriel Mascaro, que foi meu assistente, fez no Festival de Veneza com «Boi Neon». Ano que vem teremos «Animal Político», do Tião, e o novo do Kleber Mendonça: «Aquarius». O problema de 2016 será o impacto da crise econômica. No Brasil, quando o Governo tem que cortar gastos, o primeiro corte é na Cultura.

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Julie Delpy - Lolo

É uma cineasta que tem questionado as intrincadas subtilezas do romance contemporâneo, mesmo quando co-assinava filmes como «Antes de Anoitecer» ou «Antes da Meia-Noite», de Richard Linklater. Em «Lolo», onde também é a protagonista, faz uma comédia romântica para o grande público, assumidamente a pensar no grande público. A Metropolis foi à praia do Lido, em Veneza, com a Julie Delpy e saiu esta conversa.

Esta sua personagem tem muito a ver consigo?
Sim, embora não seja assim tão cínica. Mas gosto de brincar com coisas que me são familiares. De certa forma, o tema deste filme poderia descambar numa história muito triste: uma mulher a tentar reconstruir a sua vida de solitária e o filho a fazer-lhe a vida negra...O que posso fazer? Decidi transformar isto numa comédia!

Nota-se que se diverte a abordar temas da sexualidade...
Sim, muito!Sempre foi assim, é divertido falar de sexo desta forma. As mulheres deste filme são bastante rudes a falar de sexo. Isso agrada-me pois de alguma forma é um manguito a todos...Não consigo bem explicar, mas agrada-me...É a minha forma de dizer: gostem ou não, é mesmo assim! Julgo que há homens que ficam ofendidos, mas não há problema, não me importo nada, aliás...Faço isso com humor e não é para ofender. O meu diretor de fotografia ficou muito ofendido! Estava sempre a queixar-se: “já chega de estar sempre a falar de pénis grandes todo o tempo! Já não aguento!!”. Só lhe dizia: “ok, ok...” (risos). Ele tem um complexo...Ter um pequeno pénis não é um problema desde que o homem aceite bem isso, pelo menos era o que o meu pai me dizia.

Este humor também pode perturbar uma certa França, não?
Sim, especialmente a França mais coquette, talvez a França mais extrema direita, apesar de haver franceses de esquerda muito reprimidos. Depende sempre da família e da educação. No meu caso, tive uma família muito aberta ao humor sexual.

Continua a viver nos EUA por razões pessoais. Fica-se com a sensação que nunca quis muito explorar o cinema americano...
Não singrei com uma carreira na América porque nunca fui suficientemente magra para os padrões deles. Muito mais do que disfarçar estar mais velha, o que é importante é ser magra. A magreza é um fator importante. Eles têm essa obsessão e para mim isso não funciona...Nunca fui muito magra.

Porque será que todas as atrizes em Hollywood têm mesmo de ser magras?
Tem a ver com uma necessidade de quererem pessoas formatadas. Pessoas que têm de ser de uma certa forma, que têm de ter o mesmo tipo de olhar. Enfim, querem ter controlo. Tem tudo a ver com controlo. Não reajo nada bem ao controlo, tudo em mim é transgressão. Acho que incomodo Hollywood. Não gostam muito de mim em Los Angeles mas continuo por lá!

Porque se lembrou de chamar Dany Boon para este seu parceiro romântico?
A partir do momento em que comecei a escrever o argumento comecei a pensar no Dany. Ele consegue interpretar muito bem personagens naif e pode não ser um bonitão mas é giro! Tem qualquer coisa que nos toca. Além disso, é um grande comediante. Precisava do seu timing de humor para uma série de cenas, sobretudo para aquele humor slapstick e de comédia física. Mesmo antes de o contactar continuei a escrever para ele. Se o Danny não aceitasse o ator que ficasse com a personagem seria apenas um substituto. Foi muito bom ele ter dito sim!

Tem problemas em ver filmes seus do passado?
Não gosto. Por exemplo, amo o Kieslowski mas evito ver o «Branco», prefiro sempre rever o «Decálogo» [série televisiva]. É mais fácil...

É assim tão penoso olhar para si na sua juventude?
Não é penoso mas não sou nada de estar a recordar o passado. O passado é o passado, pronto. Com o Kieslowski foi incrível, dei-me mesmo muito bem e respeitei-o muito, mas não posso voltar aí. Na verdade, consigo olhar para mim própria. Não é uma coisa que me afete assim tanto, percebe? Mas seria estranho querer ver agora de novo o «Branco»...Por outro lado, na minha casa não há nenhuma fotografia minha...

Ao longo dos anos sempre manteve uma imagem de autora nada politicamente correta.
Ser politicamente incorreta faz de mim melhor pessoa. Mesmo no feminismo não gosto nada de ser politicamente correta! Por exemplo, sou capaz de dizer que gosto do meu rabo grande! Não sou racistas, nem antisemita nem homofóbica mas também nunca tive problemas com ninguém. O que é importante é aquilo que nós somos e maneira como tratamos os outros.

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Andy Serkis - Star Wars: O Despertar da Força

Como é que se envolveu no projeto?
É uma história interessante na verdade. Soube que o filme estava a ser realizado e fiquei entusiasmado com a ideia. Na altura, estava a trabalhar em «Planeta dos Macacos: A Revolta» com Matt Reeves, que conhece J.J. Abrams e foi visitado por ele durante a realização do filme. Isso aconteceu antes de ser posto qualquer efeito especial. Basicamente J.J. viu a cena apenas com os atores e isso agarrou-o. Decidiu que tínhamos que nos conhecer e então reunimo-nos num hotel. Foi fantástico, como se estivéssemos a brincar um com o outro. Demo-nos mesmo bem. Ficou claro que devíamos trabalhar juntos. Não sabia bem em quê, mas perguntou-me se queria fazer parte do projeto. Respondi que adorava fazer parte de “Star Wars.”

Pode explicar-nos o que é a captura de movimentos?
A captura de movimento é a arte e o ofício de um ator, a encarnar um papel que será exposto na tela como uma personagem em computação gráfica. Mas a autoria do papel, toda a atuação, acontece com outros atores. Em vez de vestir um fato e colocar previamente uma maquilhagem, interpreta-se o papel sem a ajuda desses fatores e sem obstáculos. Todas as expressões faciais, decisões e formas de agir na criação do papel acontecem em conjunto com os outros atores. Depois, uma equipa de animadores e artistas de computação gráfica têm o trabalho de transposição do desempenho num avatar digital, sem que perca a nuance, a subtileza e desempenho que o ator deu previamente. É exatamente igual. É assim que funciona a captura de movimento. O que é surpreendente é que permite a qualquer um interpretar qualquer coisa. Filosoficamente, é a melhor ferramenta de representação do século XXI. Não interessa qual é a nossa altura. Estereótipos ou características em específico já não são necessários. Não importa qual é a cor da pele, o tamanho ou de que sexo se é. É uma ferramenta brilhantemente libertadora que os atores estão a aceitar finalmente e quanto mais usada, mais se torna essencial na indústria, estando a proliferar-se.

Sente a pressão de um filme como este?
Vim de uma grande tour de apresentação do «Planeta dos Macacos: A Revolta», onde todas as questões eram sobre “Star Wars.” As pessoas são fascinadas com “Star Wars.” É incrivelmente potente, um universo poderoso. Há muita vontade de conhecer as histórias. É uma grande narrativa arquetípica; uma grande narrativa mitológica. J.J. conseguiu recuperar a essência sobre o que é a história, a verdadeira humanidade da história. As pessoas estão tão ansiosas para ver o filme. Sabem o que fez antes, que tem um coração incrível, que é compreensível e com um lado emocional verdadeiro em todos os filmes que fez. É o guia e o realizador perfeito. O seu desejo é filmar em película, com lentes anamórficas, utilizar métodos da velha guarda e usar fantoches para trazer a história de volta à percepção pública. Fez um trabalho incrível, está com um aspeto maravilhoso. Sente-se de uma forma adequada, real, tangível e física. Acho que os fãs vão adorar.

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Carrie Fischer - Star Wars: O Despertar da Força

O George Lucas disse-lhe que estava a pensar fazer outro filme?
Estávamos na “Star Wars Celebration”. Fomos levados para uma sala onde estávamos sentados numa longa mesa como se fossemos ter uma reunião com acionistas. Mas não era nada disso.

Quando se reuniu com J. J. Abrams para falar sobre a sua visão, em que resultou essa reunião?
O que senti com J.J. Abrams é que adorava estes filmes. Não é parte da sua história; é parte da sua infância. As crianças pequenas cresceram a vê-los e J. J. é uma delas. E há uma enorme responsabilidade no que tinha guardado. Estava a levar tudo muito a sério. Estava muito animado. Há uma enorme responsabilidade associada e ele parecia completamente ciente disso.

Deu alguma contribuição para Leia?Como o cabelo?
Queira usar o penteado icónico que tinha inicialmente. Queria esse penteado de novo. Era o que mais queria da antiga Leia. Mostrar apenas uma vez. Mas não. Penso que acharam que poderia ser muito distrativo.

Qual é a sua opinião sobre J.J. Abrams?
J.J. é alguém que já provou ser capaz de fazer estes filmes épicos de outro mundo e também filmes mais comuns. É um escritor e um realizador que adora filmes. É isso que se destaca.

George Lucas foi pioneiro na criação de Leia?
Completamente. E as pessoas continuam a dizer-me que foi. Tenho pessoas que vêm ter comigo a dizer que a minha personagem as inspirou a viver de determinada forma.Existe um lado lúdico que as pessoas conseguiram retirar e um outro lado onde se pensa em si mesmo como alguém capaz.

Há algo neste filme que vai atrair as mulheres. Concorda?
Acho que as mulheres sempre sentiram isso. Uma princesa é alguém que ganha responsabilidade pelas suas vidas, faz escolhas e tem a sua própria vida. Não se enquadra. Nada mudou, exceto o cabelo.

Como foi conhecer o novo elenco?
Estava nervosa e entusiasmada. Passamos bons momentos juntos. Estávamos todos nervosos demaneiras diferentes. Ao ver a Daisy Ridley no decorrer das filmagens, percebo que cresceu imenso. É muito confiante, está muito à vontade. Sem dúvida que é um mundo para ela.

John Boyega parece confortável no seu papel?
John sempre pareceu confortável.Ele entrou muito confiante, pronto para enfrentar tudo.

Como é Adam Driver a interpretar um vilão?
A interpretar um vilão, mas que não se sabe que é um vilão. Esta é a sua causa e é isso que o Adam está a fazer. É apaixonado, mas também solitário.

É divertido ver algumas das criaturas originais?
É bom tê-las de volta. É como uma reunião da escola. É a reunião da escola secundária“Star Wars”.

E como foi ter de volta Anthony Daniels como C-3PO?
Foi fantástico e está exatamente igual.

Parece um mundo que já todos conheciam, mas mudado?
Mas nós mudamos também. Logo há mais experiência para trazer para o que procuramos e para contribuir mais em cada situação. Éramos inocentes, cresce-se mais rápido quando se é uma criança e se está a fazer estes filmes. Agora, olhamos para este filme com mais experiência.

Acha que há uma parte da Leia em si?
Eu sou a Princesa Leia. A Princessa Leia é o que sou. É como uma fita de Mobius. A minha vida tem-lhe informado quem ela é e ela informou-me quem é que sou e quem tinha de ser com base nas experiências que já passei e pela coragem necessária para passar por isso. Então, muito do seu comportamento, da sua paixão e da sua vontade de continuar, encontrei em mim.

Fale-nos dos fãs.
Para os fãs, este é o seu conto de fadas. Foi com isso que cresceram, de onde vieram as suas fantasias. É o seu outro mundo. Pertencem a esse outro mundo e fazem parte dele. Sentem como se nos conhecessem, como se fossemos uma extensão do que são. Para mim, o mais divertido e o mais querido, é quando trazem perto de mim uma criança com três anos de idade vestida com o fato da Princesa Leia. É ver essas crianças tão pequenas a saberem quem sou. É o aspeto mais estranho, mais querido e o mais fascinante. Estas pessoas ainda eram novas quando eu já não o era necessariamente. E isto coloca-nos num pedestal onde não sabíamos bem que estávamos.

O que é que os fãs vão poder retirar deste novo filme?
Acho que vão ficar felizes por estarem nas suas casas novamente, mas longe de casa.

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Laurent Cantet (Foxfire/Raparigas de Fogo)

Venceu a palma de Ouro em Cannes, em 2008, com “A Turma”. Hoje Laurent Cantet regressa com “Raparigas de Fogo”. Recua até À década de cinquenta, numa pequena cidade dos Estados-Unidos para contar a história de um grupo de raparigas adolescentes que cansadas do machismo que sofrem na pele, criam uma sociedade secreta. Estivemos, em Paris, à conversa com o realizador.

Foi muito fiel ao livro de Joyce Carol Oates que adapta. O que é que o despertou para querer levá-lo ao grande ecrã?

Apaixonei-me pelo livro. Na altura que o li, estava na parte da montagem do filme “A Turma” e não conseguia parar de ler o livro de Joyce Carol Oates. A história confrontava-me novamente com um grupo, neste caso só de jovens raparigas. No caso d’ “A Turma” fui mesmo levado pela energia daqueles adolescentes, e a vontade de voltar a uma situação dessas era muito grande. E depois encontrei novamente temas que me são caros, como a ideia de grupo, a resistência, a forma como surgem os líders nos grupos,... Ou seja, existia uma panóplia de temas que me despertavam e ainda por cima, embrulhados numa aura quase romanesca que nunca existiu nos meus filmes. Era um desafio.

É conhecido por adaptar quase sempre romances, mas desta vez foi muito fiel...

Desta vez apeteceu-me ser fiel ao livro, manter-me mais próximo da história original porque existia uma trama dramática muito estruturada e que me interessava e depois porque existia também uma qualidade literária que me interessava também.

É conhecido por criar quase que uns workshops com as suas actrizes, como foi o processo de casting e trabalhar actrizes,praticamente todas não profissionais?

O casting representa para mim um elemento fundamental de todo o processo. Demorei praticamente seis meses a encontrar estas raparigas que são todas não profissionais, tirando a Tamara Hope que interpreta o papel de uma rapariga burguesa, por isso um pouco à margem do grupo e que tem uma maneira de falar e de estar diferente. Aí decidi integrar uma jovem actriz profissional para esse papel. As outras estão pela primeira vez perante uma câmara. Era por isso preciso procurá-las, preciso juntá-las, ver se o grupo podia funcionar, apesar das personalidades muito fortes. Tentei agrupá-las e depois ensaiámos. Os ensaios para mim são, em primeiro, improvisação: eu conto-lhes as cenas, peço-lhes para elas me darem a própria visão e depois introduzo mais elementos, mais pormenores. Proponho uma maneira de dizer as coisas de forma diferente por vezes da proposta delas. E pouco a pouco o argumento fica mais rico.

Nesta história, a adolescência foge do cliché do tempo da inocência...

Sim, mas para mim a adolescência não é necessariamente o tempo da inocência. Acho que é mais o tempo de todos os riscos. É a altura é que nos procuramos ainda sem ter todas as ferramentas para apreender o mundo e compreender todas as lógicas existentes que nos rodeiam. É nessa altura que fazemos tentativas. Vamos por uns caminhos e batemos contra a parede, voltamos atrás, e tentamos outro caminho. Tudo isso é muito excitante e interessante de filmar e ao mesmo tempo algo de muito difícil de superar para os adolescentes. O que me atraiu na história foi precisamente esta visão que nos dá da adolescência, que não tem nada de inocente. Acho que é uma visão mais justa.

O filme retrata uma época de luta que nos remete também para os nossos dias...

Pensei neste filme, como sendo um filme de época, ou seja nos anos cinquenta dos Estados-Unidos. Fomos fiéis à realidade dessa época, recorremos a documentários e registos de época, fotografias e reportagens, etc.. Mas para mim, é quase secundário, a minha preocupação não era provar que tínhamos feito um bom trabalho de casa e que a nossa reconstituição da época estava bem-feita. Dito isto, de facto, e infelizmente, existem alguns paralelismos entre essa época e os nossos dias. Ou seja este grupo, forma-se como reacção ao machismo que se vivia nessa altura, à violência de que eram vítimas enquanto mulheres. Elas vão vingar-se dos homens, de maneira até um pouco violenta por vezes. Hoje, o machismo ainda existe, temos também violência social forte que recai sobre pessoas desfavorecidas, sendo que acho que é muito maior hoje do que na altura. Existem ainda mais pessoas hoje em dia que pouco ou nada têm. Interessava-me que existissem essas ligações entre estas duas épocas aparentemente distintas.

É subentendido que existe alguma atracção física entre estas raparigas...

Acho que estas raparigas, têm uma vontade de fusão, ou seja, elas têm vontade de ser uma só, num único corpo, inicialmente apenas para serem mais fortes contra as agressões externas. Depois, acho que existem também afectos. Querem tocar-se, estar mesmo muito próximas para serem irmãs de sangue como elas dizem no filme. Se existe homossexualidade, o que eu acho possível, elas não o podem dizer entre elas, não o podem admitir. Ficam-se pelo desejo sem concretizá-lo porque a prioridade daquelas raparigas não é essa. A prioridade é resistir. E depois porque afirmar uma homossexualidade num grupo de raparigas de 14 anos não é fácil, e acho que o filme mostra essa dificuldade.
O filme mostra a dominação sexual masculina e como sem o saber, acabam por fazer política sem sequer conhecer a palavra “feminismo”... Como é que elas podem reagir a toda aquela violência de que são vítimas é a razão primeira da constituição do grupo. O que me interessou também é que todo o percurso de resistência que se seguiu e que as levou para um terreno muito político nasce assim de uma questão iminentemente política mas sobretudo sentida, na pele, por elas. E foi isso que me despertou também no livro. Saber como a política se encarna antes de ser pensada. Estas raparigas de facto nunca ouviram a palavra feminismo, mas sofreram na pele várias agressões e vão por isso inventar o conceito político do feminismo pelas suas atitudes, pelas suas reacções quase epidérmicas. E é sempre assim que eu gosto de olhar para a política.

Podemos então dizer que é um filme feminista?

Sim, espero que seja um filme feminista e também um pouco subversivo. Penso que é uma história que diz algumas verdades, pouco agradáveis, acerca da nossa sociedade. Por exemplo, quando nos dizem que só devíamos falar de felicidade, penso que pelo contrário, este filme coloca o dedo na ferida que neste caso é uma espécie de amnésia que se quer criar à nossa volta, uma espécie de anestesia geral que só nos faria falar sobre a felicidade. Assim, ninguém entra em confrontos. Estas raparigas decidem que não, que afinal a felicidade constrói-se, que é preciso ganhá-la, e que a felicidade reside na acção. Acho que esta é a mensagem principal do filme.

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 10

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Bruno Safadi - O Prefeito

Inaugurada em 1960, para funcionar como uma das principais vias rodoviárias de acesso do Rio de Janeiro, a Perimetral teve seu prazo de validade vencido no fim de 2013, mas, de seus escombros, brotou um filme de longa-metragem que promete renovar o conceito contemporâneo de comédia no Brasil: «O Prefeito». Filmada ao longo de sete dias em outubro de 2014, sob a direção do carioca Bruno Safadi («Meu Nome É Dindi»), usando como cenário as ruínas da hoje finada via expressa, a produção, orçada em cerca de R$ 200 mil, busca renovar uma tradição cada vez mais rarefeita nas telas nacionais: o humor político. Dublador, mágico e humorista, o ator Nizo Neto – celebrizado como o aluno CDF Seu Pitolomeu da “Escolinha do Professor Raimundo”, onde trabalhava com seu pai, Chico Anysio – assume o papel-título do longa: um alcaide que sonha decretar a independência do Rio em relação ao restante do Brasil, tornando-se seu sumo-governante. Só que este líder opta por governar a Cidade Maravilhosa do que sobrou da Perimetral.

- Este filme nasce do meu desejo de trazer o humor ácido de volta às nossas telas como forma de pegar uma tendência cinematográfica que anda em voga no país – a comédia -, só que associada a um estilo televisivo, esteticamente pobre, como forma de reinventá-lo – diz Safadi, que, aos 34 anos, soma outros cinco longas e muitos prêmios em seu currículo de ex-aluno da Universidade Federal Fluminense (UFF). – A inspiração aqui é a screwball comedy americana, um filão do riso mais visual e menos verbal do que as comédias brasileiras de hoje. Mas tudo só foi possível em função de um novo momento de reflexão político trazido pelas manifestações de 2013. Com base nessa reflexão, tentamos falar da política a partir do que se passa por trás das cortinas.

Na trama do longa, o personagem de Nizo, conhecido apenas como “o Prefeito”, é um governante viciado em remédios que sonha ser um novo Pereira Passos (1836-1913), o político responsável pela revitalização urbanística do Rio entre 1902 e 1906. Mas a forma que o protagonista do filme de Safadi encontra é emancipar o Rio como nação soberana, mantendo os impostos locais – altíssimos – dentro do perímetro da cidade. A ideia, a princípio megalômana, concretiza-se graças ao apoio de aliados de governo que sonham dividir a receita dessa taxação carioca entre si, além de ganharem, cada um, uma rua ou um bairro do Rio para desfrutarem como quiserem. Aos poucos, contudo, o que seria um golpe escuso torna-se um governo revolucionário, tendo como sede os dejetos de concreto, aço e poeira da Perimetral.

- Conseguimos apoio da Prefeitura do Rio, mesmo com o viés ácido da trama, para filmar na própria Perimetral, pois o Prefeito Eduardo Paes percebeu que, a partir dali, estaríamos mostrando as transformações da cidade, no esforço que ele vem tomando para revitalizar a zona portuária. Se eu tivesse que reproduzir aquele cenário em estúdio, o orçamento do filme pulava para a cifra do milhão. «O Prefeito» não é uma comédia à la RioFilme, que parece um stand-up, muito falado, pouco visual. É um trabalho feito por uma equipe de dez pessoas, com poucos diálogos, simulando um diário político do protagonista. É uma tentativa de eu me arriscar em um terreno novo para uma geração tão apolítica como a minha, que nasceu nos anos 1980 – diz Safadi, que leva ao 44º Festival de Roterdã (21 de janeiro a 1º de fevereiro), na Holanda, seu filme anterior: «O Fim de Uma Era».

No enredo de «O Prefeito», o personagem de Nizo, ao alcançar o poder, após um plebiscito, desenvolve uma alergia a pessoas o que o impede de se relacionar com seus eleitores e aliados. Ele é ainda conectado com uma visão do Além: uma mulher espectral, chamada Alma Errante, vivida por Djin Sganzerla, vira sua conselheira.

- Além de Nizo, de Djin e do ator Gustavo Moraes, eu uso fotos para representar os demais personagens, numa estrutura narrativa que evoca o filme «La jetée», de Chris Marker. É uma maneira de dialogar com a tradição do cinema de muitas formas. Eu trouxe muita influência das comédias carnavalescas cariocas dos aos 1940 e 50, em especial «Aviso aos Navegantes», de Watson Macedo, que é um filme seminal. Não por acaso, eu elegi como protagonista um ator que está conectado à tradição do humor popular na TV: o Nizo. Era uma forma de revitalizá-lo e mostrar ao cinema o grande ator que ele é – diz Safadi, que lançará este ano o premiado «Éden» e «O Uivo da Gaita», ambos com Leandra Leal.

«O Uivo da Gaita» integrou um projeto coletivo chamado Operação Sonia Silk que Safadi e Leandra organizaram com base nas memórias da Bel Air, a produtora que Julio Bressane e Rogério Sganzerla criaram em 1970 e que gerou seis filmes em cerca de quatro meses de vida. Nos mesmos moldes, Safadi organizou em 2014 um novo projeto, chamado Tela Brilhadora, fomentado com uma verba estimada em R$ 150 mil do Canal Brasil, para gerar quatro longas até agosto deste ano. «O Prefeito» é um deles, ao lado de «O Espelho», de Rodrigo Lima; «Origem do Mundo», de Moa Batsow; e «Garoto», de Bressane, o mestre de Safadi.


- É mais um projeto que nasce do sonho da Bel Air – diz Safadi, que prepara ainda o filme «Lilith», com Maria de Medeiros, e uma livre adaptação do cultuado romance Uma Agulha no Palheiro, de J. D. Salinger. – Que narra a saga de um jovem de classe média que tem dificuldade em lidar com o mundo ao seu redor.

RODRIGO FONSECA
CRÍTICO DE CINEMA DO JORNAL O GLOBO E ROTEIRISTA DA TV GLOBO

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

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Jane Hawking em entrevista

Jane Hawking, casada durante 25 anos com o célebre físico Stephen Hawking, esteve em Lisboa para promover o lançamento de «A Teoria de Tudo», filme baseado nas suas memórias. Numa conversa curta, revelou-nos a admiração que nutre pela cultura e literatura portuguesas desde os bancos da faculdade, onde estudou Poesia medieval Ibérica. Em jeito de confidência, falou do amor que tem por Lisboa e Portugal, onde permaneceu durante alguns dias, depois duma semana em Espanha.

O que a levou a escrever Viagem ao Infinito?

Escrevi este livro porque tinha um vasto conjunto de memórias, imagens de praticamente cada dia dos 25 anos que vivi com Stephen Hawking. Queria passá-las todas para o papel para poder superar todo esse passado e seguir com a minha vida. Estava a bloquear a minha vida.
Fi-lo, também, porque queria escrever a versão definitiva da nossa vida em conjunto – já que, se não o fizesse, outros poderiam fazê-lo duma forma deturpada, com falsidades e mentiras.
Finalmente, queria que se soubesse aquilo por que passámos. Ajudar a despertar as consciências das pessoas, entidades, governos, serviços sociais, toda a gente para o problema da doença (Esclerose Lateral Amiotrófica), para situações como a nossa, as dificuldades vividas pelas famílias dos doentes.

Como foi viver durante 25 anos com Stephen Hawking?

Duma forma resumida, diria que esses 25 anos se dividiram em duas fases: primeiro, vivemos num estado de euforia. Vivíamos tempos muito, muito felizes! Amávamo-nos e partilhávamos tudo. Tivemos os nossos filhos e ficámos encantados com eles. Eram os bebés mais bonitos, crianças maravilhosas! Depois, com a progressão da doença, o Stephen ficou mais limitado e fechado sobre si mesmo – não só devido à doença, mas também por causa da Física e do seu trabalho científico. Por exemplo, num fim-de-semana, sentava-me e as crianças brincavam e faziam barulho, mas ele ficava de tal modo absorvido nos seus pensamentos que nem reparava nelas. Ficava preocupada: será que as crianças faziam demasiado ruído, ou ele estava pouco confortável, ou precisava de comer ou beber? Mas, ele não dizia nada. Na segunda-feira de manhã, Stephen acordava com um enorme sorriso e dizia: consegui resolver o problema! Aí, percebi o que era viver com um génio. Era muito complicado para mim separar a absorção na Física e na ciência da preocupação com a doença.

O filme – «A Teoria de Tudo» – é também sobre o Tempo: o tempo de vida que é dado, inicialmente, a Stephen Hawking, os anos da relação entre Jane e Stephen e, também, a teoria científica que ele desenvolve sobre o tempo. Concorda?

Sim, sim! Acho que é muito interessante e pertinente esse ponto de vista. A questão está muito bem formulada e sintetiza o essencial do filme. Prova disso mesmo é o final... que não vou revelar. Para além disso, a primeira vez, no filme, que Stephen tem um computador é a palavra “tempo” que aparece no écran. Enfim, é ainda o objeto do seu estudo: as possibilidades de viajar no tempo... Imagine a possibilidade de viajar para o Alhambra no séc. XII, ou para a Corte de Afonso VI de Castela, o tempo das cantigas de Amigo e de Amor. Seria extraordinário!
Uma das situações mais ridículas a que assisti foi uma lição que ele deu ao 6º ano na escola do nosso filho Robert: e isto é sobre o tempo! Ninguém compreendeu exceto quando ele mostrou um pequeno filme duma chávena a cair duma mesa, a partir-se no chão e depois o tempo a andar para trás e a chávena a voltar para a mesa. Tal como no final do filme com o tempo da nossa vida. Isto era muito importante para ele. O tempo é, provavelmente, a essência do filme!

O que achou do filme? É fiel ao livro?

Vi-o três vezes. Acho que resume o livro. Porém, o filme é uma celebração, não mostra o lado negro da nossa vida em comum. O lado negro desses tempos chegou a ser de desespero! Quando Stephen teve ataques de asfixia durante uma noite inteira, foi terrível e isso está apenas no livro!
No livro, descrevo quase tudo: quando vamos a Londres, receber prémios extraordinários e depois tenho de regressar a casa de madrugada, depois, na manhã seguinte, tenho de levar as crianças à escola e depois regressar a casa para levantá-lo da cama, preparar e dar-lhe o pequeno-almoço ...

Sobre a Felicity Jones (atriz inglesa), ajudou-a na composição da personagem?

Não sei se a ajudei, mas ela procurou-me. Falámos muito e talvez por ela ser uma atriz brilhante e do Método, conseguiu compor a Jane Hawking de forma notável. Ela é muito sensível e captou a minha personalidade, os meus maneirismos e gestos, a minha forma de falar. Repito, a Felicity Jones foi brilhante! Aquela que aparece no écran sou eu! E espero que ganhe um Óscar!

Perto do fim do filme, numa sessão dada por Stephen Hawking, o cientista faz a seguinte afirmação: “However bad life may seem, where there is life there is hope”. Quer comentar?

É a minha máxima! Quando alguém me escreve – e acredite que são de famílias com histórias de vida muito difíceis – digo-lhes sempre: Nunca desistam pois onde há vida, há esperança.
Acho que essa frase resume os anos da nossa vida em conjunto, pois por mais obstáculos e dificuldades que tenhamos enfrentado, o nosso amor, os nossos filhos, ou seja: a Vida, deu-nos sempre o sopro de esperança que precisávamos para continuar!

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

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