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Actualizado às 9:45 PM, Sep 22, 2019

Boy Erased

Um drama cheio de intensidade e com uma história baseada em fatos reais, «Boy Erased» é a adaptação das memórias de Garrard Conley, lançado em 2016, e aborda um tema muito controverso: um programa de conversão para “curar” a homossexualidade, algo que, na altura em que o livro de Conley foi lançado, apenas tinha sido banido em alguns estados norte-americanos, como Califórnia, Vermont, Nova Jérsia, Illinois, Oregon e Columbia.

Conley precisou de enfrentar esta terapia de conversão para não perder amigos e família, numa história profunda sobre aceitação e identidade que é agora levada para o grande ecrã por Joel Edgerton, que assume várias funções neste filme: realizador, argumentista, produtor e ator. Esta é a segunda longa-metragem do australiano, mais conhecido pela sua carreira na interpretação, em obras como «Warrior - Combate Entre Irmãos» (2011), «O Grande Gatsby» (2013) e «Uma História de Amor» (2013). Enquanto realizador, estreou-se com o thriller «Um Presente do Passado» (2015), arriscando agora numa obra muito desafiante.

Para cumprir o desafio, Edgerton muniu-se de um trio com muitas cartas na manga. Russell Crowe, vencedor do Óscar de Melhor Ator Principal por «Gladiador» (2000), e Nicole Kidman, vencedora do Óscar de Melhor Atriz Principal por «As Horas» (2002), interpretam os pais do jovem Jared, colocando-o um ultimato que ele acaba por ceder. O tal jovem ganha vida através de uma nova estrela do Cinema, Lucas Hedges, que impressionou os fãs de cinema com a sua interpretação tocante em «Manchester by the Sea», que lhe rendeu uma nomeação para o Óscar de Melhor Ator Secundário. «Boy Erased» teve estreia no Festival de Cinema de Toronto e foi bem recebido pela crítica, podendo ter algo a dizer nesta temporada de prémios.

HISTÓRIA
Jared (Lucas Hedges), um jovem de 19 anos, mora numa pequena cidade conservadora do Arkansas e filho de um pastor da igreja Batista. Homossexual, Jared é confrontado pela família e é forçado a participar num programa de conversão.

Realizador: Joel Edgerton («Um Presente do Passado», 2015)

Elenco: Lucas Hedges, Nicole Kidman, Russell Crowe, Joel Edgerton, Xavier Dolan

Xavier Dolan - entrevista exclusiva

Ao conquistar o Grande Prémio de Júri do Festival de Cannes de 2016, com «É Apenas o Fim do Mundo» («Juste La Fin Du Monde»), Xavier Dolan foi às lágrimas, num choro de dupla vitória: de um lado uma realização pessoal gigante para um realizador de apenas 27 anos; do outro, a vingança contra o conservadorismo dos que patrulham a estética passional dos seus filmes, sempre próximos das questões LGBT. «É em nome da paixão que eu recebo este prémio, para que ela nos liberte», disse ele, após ser galardoado na Croisette e ver seu trabalho coroado como um potencial sucesso de público.

Campeão de bilheteira na França, onde estreou no fim de setembro, atraindo 650 mil pagantes às salas de exibição em apenas duas semanas, a produção é uma releitura audiovisual de um texto teatral autobiográfico de JeanLuc Lagarce (1957-1995) – o dramaturgo contemporâneo mais encenado do teatro francês – sobre a sua despedida da família, ao saber que é seropositivo. O fato de ter Léa Seydoux (a bondgirl de «Spectre»), Marion Cotillard («Macbeth») e Vincent Cassel («Cisne Negro») em papéis de destaque transforma «É Apenas o Fim do Mundo» num chamariz de plateias na Europa. Este drama, sobre lavagem de roupa suja entre parentes, embalado, na banda sonora, pelo hit «Dragostea Din Tei», é baseada em experiências pessoais de Lagarce ligadas à sida. Na tela, o ator e diretor teatral Louis (Gaspard Ulliel) volta para casa de seus pais, após um sumiço de 12 anos, para dar conta da sua morte iminente. Mas ali chegado, vai cair numa discussão com o seu irmão brutamontes (Cassel) e emendar uma conversa cheia de mágoas com a irmã mais nova (Léa).

A caminho da estreia em Portugal, ENTREVISTA XAVIER DOLAN a METROPOLIS traz um diálogo com o cineasta, que filma agora, em inglês, a longa «The Death and Life of John F. Kennedy», com Natalie Portman.

Que lugar a família, como instituição, ocupa na sua obra?
É o vértice daquilo que eu busco como um norte: as amizades que podem nascer entre irmãos, entre pais e filhos, dependendo da tolerância e da disposição para «Tão Só o Fim do Mundo» amar. Não acredito em disposição de papéis: este é o pai, esta é a mãe. Acredito em mobilidade. Em complementaridade, como se vê na relação das mulheres de «Mãe» e, aqui, no embate entre os personagens de Cassel e de Léa.

O que existe de Dolan em Lagarce?
O interesse pelas imperfeições, pelos limites da tolerância, pela febre que nos consome. Ele foi um cronista da violência afetiva. Cheguei a esta história porque ela é construída numa atmosfera sufocante, que incorpora as dimensões físicas de um palco para a vida. Lagarce encontrou uma língua própria para traduzir o desconforto e a falta de pertença a um ambiente. Tudo em suas palavras aponta para um sofrimento crescente, mas vivo.

E como é que o seu olhar pop se acomoda à estética dele?
Não é questão de acomodação, mas de experimentação. No teatro, o texto dele é muito frio, calcado no silêncio, coisa que você raramente vai encontrar no meu cinema. E, por isso, optei por trazer barulho, por investir num excesso de palavras capaz de mostrar o quanto as pessoas são incapazes de escutar uma às outras. Fala-se, fala-se, fala-se. Ouve-se muito pouco.

A sua carreira é hoje uma das mais prolíficas do cinema autoral. Como se dá o seu ritmo criativo, entre projetos pessoais e projetos de encomenda?
Há poucas diferenças entre esses dois modos de trabalhar porque, no fundo, eu só digo “Sim!” para histórias que me mobilizam — e só filmo do meu modo, de forma bem particular, o que é fácil dada a minha engenharia de criação. Filmo muito e monto rápido, não apenas pelo prazer de fazer, de estar nos sets, mas pela urgência de compartilhar com o mundo histórias que, por falarem de paixão, me comovem.

Parece existir um diálogo grande entre este «É Apenas o Fim do Mundo» e «Quem Tem Medo de Virginia Woolf?», tal como foi filmado por Mike Nichols. Essa referência é consciente?
É uma honra para mim ouvir uma comparação dessas, pelo filme que é e pelo diretor que você cita, que sempre me suscitou um grande respeito. Mas essa relação, se existe, é algo indireto, que passa mais pela teatralidade deste meu filme. evem ter a liberdade de escolher o que querem fazer! Deve ser uma escolha livre da mulher: se ela escolhe ser dona de casa, assim seja. Se não, deve poder fazer outra coisa.

Tão Só o Fim do Mundo - Xavier Dolan no papel de Xavier Dolan

Dir-se-ia que Xavier Dolan se perdeu, momentaneamente, no seu próprio estatuto de vedeta "juvenil" — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Outubro), com o título 'Xavier Dolan enredado na sua “imagem de marca"'.

Consagrado com o Grande Prémio do Júri, em Cannes, aí está Tão Só o Fim do Mundo, de Xavier Dolan, candidato pelo Canadá a uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Desta vez, o jovem realizador canadiano (n. 1989) não participa como intérprete. Para adaptar a célebre peça homónima do francês Jean-Luc Lagarce (1957-1995), sobre um escritor que decide dar conta à família do facto de sofrer de uma doença terminal, Dolan contou com um elenco de luxo que inclui Marion Cotillard, Vincent Cassel, Léa Seydoux, Nathalie Baye e Gaspard Ulliel (no papel do escritor).

É bem verdade que a energia do trabalho de Dolan tem passado, e muito, por uma elaborada relação com os actores. Lembremos os magníficos exemplos de Laurence para Sempre (2012), porventura a melhor composição de toda a carreira de Melvil Poupaud, ou Tom na Quinta (2013), em que o próprio Dolan interpreta as convulsões de uma personagem enredada no labirinto da sua identidade sexual, num exercício de invulgar exposição e comoção. Infelizmente, no caso de Tão Só o Fim do Mundo, a ostentação dos actores tende a sobrepor-se ao próprio drama — como se estivéssemos a assistir a uma colagem de “experimentações”, porventura arriscadas, mas que, em última instância, ignoram a intensidade humana do que está em jogo.

Na sua exuberância auto-complacente, o filme surge numa curiosa conjuntura que vale a pena compreender para além dos dados específicos do mercado cinematográfico. Assim, soubemos recentemente que Dolan se “tornou um realizador” para se poder “exprimir como actor”. Tal confissão está disponível no site da marca Louis Vuitton e acompanha a apresentação da campanha da linha de produtos “Ombré”, protagonizada pelo próprio Dolan.

Digamos, para simplificar, que o jovem e talentoso canadiano tem muita sorte: por muito menos, outras personalidades mediáticas já foram achincalhadas pelo jornalismo mais moralista com o rótulo de perigosos “aliados” do mundo dos negócios e da moda. Porque é que isso não está a acontecer com Dolan? Por uma razão muito linear que, aliás, a citada campanha ilustra com evidente perspicácia e elegância: nos seus radiosos 27 anos, Dolan encaixa perfeitamente no cliché do “jovem rebelde” reverenciado pela retórica dominante dos meios de comunicação.

Dir-se-ia que o talentoso actor/cineasta que fez Amores Imaginários (2010), celebrando a nostalgia do melodrama e, por isso mesmo, uma especial relação criativa com a música, se enredou na sua própria “imagem de marca”. Nesta perspectiva, Tão Só o Fim do Mundo perde em intensidade emocional aquilo que ganha (?) como ilustração pública dessa imagem. Esperemos que o próximo filme envolva algum tipo de auto-crítica: chamar-se-á The Death and Life of John F. Donovan, está agendado para 2017 e, como sempre, apresenta um elenco que apetece descobrir: Jessica Chastain, Natalie Portman, Michael Gambon, etc.

  • Publicado em Feature

Cannes - «I, Daniel Blake» vencedor da Palma de Ouro

A 69º edição do Festival de Cannes chegou ao fim no Palácio dos Festivais nesta noite de domingo. O filme de Ken Loach «I, Daniel Blake» venceu a Palma de Ouro, o prémio foi apresentado por Mel Gibson. O filme relata a história de duas pessoas enredadas no sistema de segurança social britânico.

O cineasta britânico, que venceu a Palma de Ouro com «Brisa de Mudança» em 2006, fez um discurso apaixonado sobre o estado da economia e o sistema político e social europeu ao receber o galardão afirmou “O mundo está num ponto perigoso, com a austeridade impulsionada pelos ideais do neo-liberalismo que nos colocaram à beira de uma catástrofe, trazendo graves dificuldades a muitas pessoas a Este na Grécia e a Oeste em Portugal e Espanha, e também trouxe uma fortuna grotesca a uma pequena minoria”. Ainda acrescentou “ Há um perigo do desespero nas pessoas que poderá ser aproveitado pela extrema direita. Alguns de nós, que somos suficientemente velhos, sabemos o que é isso. Por isso devemos dizer que é possível agir de outra forma, é necessário e possível termos outro mundo.”

Estiveram 21 filmes em competição na última semana e meia, cobertura total na próxima edição da METROPOLIS com os quatro colaboradores da revista presentes em Cannes.

«Juste la fin du Monde» de Xavier Dolan venceu o prémio Grand Prix. O filme do canadiano Xavier Dolan conta com a participação de Marion Cotillard, Lea Seydoux e Vincent Cassel, retrata a história de uma jovem que regressa a casa para informar à família que está a morrer.

O prémio do júri foi atribuído à britânica Andrea Arnold por «American Honey», a sua primeira produção americana. O filme conta com a participação de Sasha Lane, Shia LaBeouf e Riley Keough.

Dois cineastas partilharam o prémio de realização, o romeno Cristian Mungiu com «Bacalaureat» e Olivier Assayas por «Personal Shopper». Cristian Mungiu realiza uma história sobre um pai que deseja que a sua filha ingresse numa universidade britânica a qualquer custo. Oliver Assayas dirigiu Kristen Stewart em «Personal Shopper», a actriz americana interpreta uma mulher que é uma médium e procura o seu falecido irmão gémeo.

A actriz Jaclyn Jose, a protagonista de «Ma' Rosa», venceu o prémio de Melhor Actriz. O filme foi realizado pelo filipino Brillante Mendoza. O prémio de Melhor Actor foi para Shahab Hosseini, a estrela de «Forushande» de Asghar Farhadi. O realizador iraniano também venceu o prémio de Melhor Argumento.

O prémio Camera d’Or, que distingue a melhor obra de estreia, foi para «Divines», de Houda Benyamina que se estreou na Quinzena dos Realizadores.

«Timecode» de Juanjo Gimenez, venceu o prémio de Melhor Curta Metragem e a curta «A Moça que dançou com o Diabo», do brasileiro João Paulo Miranda Maria, recebeu uma distinção especial.

A Palma de Ouro honorária foi entregue a Jean-Pierre Leaud, um dos grandes rostos da Nova Vaga, o actor francês participou num espaço de vinte anos na série de filmes dirigidos François Truffaut que se iniciou com o clássico «400 Golpes» na interpretação de Antoine Doinel. Jean-Pierre Leaud colaborou também com outros nomes da Nova Vaga como Jean-Luc Godard (em nove filmes), Jean Eustache, Jacques Rivette e Agnès Varda.

O júri do festival foi constituído por George Miller (presidente), Kirsten Dunst, Mads Mikkelsen, Vanessa Paradis e Donald Sutherland.

Mamã

Cinco anos apenas bastaram para Xavier Dolan, ator e realizador canadiano originário do Quebeque, construir um percurso sólido enquanto autor de um cinema fortemente emocional e sentimental.

Os seus primeiros quatro filmes, «Como Matei a Minha Mãe», «Lawrence Para Sempre», «Amores Imaginários» e «Tom na Quinta» (exibido este ano em Portugal) geraram reacções divergentes, mobilizando uma série de simpatizantes do seu estilo formalmente excessivo e provocando reacções menos simpáticas daqueles que não suportavam o narcisismo do realizador. «Mamã» surge como um passo em frente, um filme mais consistente que equilibra de forma muito razoável o seu estilo com uma história bastante bem estruturada.

«Mamã» acontece nos subúrbios de Montreal, no Canadá, num futuro relativamente próximo, numa época em que o governo altera as regras de adopção, impondo aos pais de crianças perturbadas que assumam a educação dos seus filhos ou que os entreguem ao cuidado de centros de detenção se forem incapazes de assumir essa responsabilidade.
Diane “Die” Despres (Anne Dorval) vive esse drama. Ela é uma viúva de meia-idade, sem recursos nem apoio familiar, atraente no seu estilo grosseiro e desbocado, que cuida sozinha do seu filho Steve (Antoie-Oliver Pilon), um rapaz que sofre de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA).

Steve é uma força da natureza, um jovem fisicamente impulsivo, com um temperamento violento, e um comportamento verbalmente excessivo, que fala de uma forma excitada e sem qualquer cuidado com a linguagem – neste filme o palavrão F*** é dito até à exaustão! Para enfrentar o seu adolescente excitado, Diane tem de ser uma força da natureza – e é nessa dimensão que está o desempenho da atriz Anne Dorval, compondo uma mãe que está sujeita a uma enorme pressão emocional, num contexto solitário adverso e financeiramente difícil.

O filme aborda a relação intensamente amorosa entre mãe e filho, e desenvolve um triângulo afectivo quando Diane se socorre do apoio de Kyla (Suzanne Clement), uma vizinha que deixou de dar aulas e passa os dias em casa sob o controlo do marido. Ela apoia Steve nos estudos e assim supera o vazio da sua vida.


«Mamã» é um psicodrama familiar muito energético e com personagens extremamente ricas. Dolan consegue colorir uma história dramática através de algumas opções estilísticas emocionalmente relevantes, como o slow motion ou a banda sonora pop com temas de Dido, Lana Del Rey, Celine Dion e Oasis. Ou optando pelo enquadramento no formato quadrado e reduzido 1:1. A janela parece pequena desde o início do filme, mas aquilo que aparenta ser uma estranha opção formal do realizador ganha um sentido emocional libertador numa das cenas mais empolgantes do filme. Um cineasta define-se pelas suas opções mais radicais e neste caso a forma, que condiciona todo o filme, faz sentido substancial.

Mommy (2014)
Realização: Xavier Dolan
Actores: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément
Estrelas:4

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 25

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