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Actualizado às 11:17 PM, Feb 19, 2018

Os Oscars são apenas uma repetição dos outros prémios?...

De vez em quando, tentando ver para além do barulho das luzes mediáticas, vale a pena perguntar o mais básico. Por exemplo: para que servem os Oscars? Não é, entenda-se, a pergunta do jornalista que se considera ofendido por não encontrar os "seus" filmes entre os nomeados... Nem se trata de pretender conhecer os labirínticos bastidores de Hollywood para "explicar" o que quer que seja. Acontece que os Oscars são, basicamente, um ritual cinéfilo, quer dizer, uma celebração do amor pelo cinema — e isso, com filmes melhores ou piores, continua a ser um factor de cumplicidade e união.

Mas importa questionar para que servem, ou podem servir, os Oscars num contexto em que a sua especificidade surge ameaçada por um perverso efeito de repetição. E a palavra repetição não tem nada de retórico. Não é verdade que, depois dos prémios já atribuídos pelas associações de críticos, dos Globos de Ouro e até das nomeações para os BAFTA (a entregar no dia 18 de Fevereiro), ficamos com a sensação que tudo se resume a um lote de uma quinzena de títulos que todos repetem e, de alguma maneira, consagram?

A Academia de Hollywood não pode ser unilateralmente responsabilizada por tal estado das coisas. As forças dominantes da grande indústria, privilegiando mecanismos impostos pela acelerada rentabilização dos "blockbusters”, formataram o mercado (americano e global) de modo a que esmagadora maioria dos candidatos aos Oscars saia apenas dos títulos estreados no derradeiro trimestre de cada ano, como se não valesse a pena atentar no cinema que se viu no resto do ano (este ano, Dunkirk surge como uma excepção que confirma a regra). Fica um exemplo sintomático: o admirável «Detroit», filme marcante na abordagem de temas afro-americanos, desapareceu... Realizado por uma mulher, Kathryn Bigelow, também não consta na agenda de qualquer militância feminista. O que pode suscitar outro tipo de perguntas, neste caso sobre o entendimento político do mundo do cinema.

 

"A Forma da Água" recebe 13 nomeações da Academia de Hollywood

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a instituição que atribui os Oscars, divulgou as suas nomeações referentes à produção de 2017. Alguns dados genéricos a reter:
— A Forma de Água, de Guillermo del Toro, foi o título mais nomeado, surgindo em 13 categorias, incluindo melhor filme.
— num máximo de dez nomeações possíveis para o Oscar de melhor filme, este ano a Academia atribuiu nove.

— tendo em conta as nomeações, é já certo que nenhum filme conseguirá arrebatar o chamado "quinteto mágico" dos Oscars (filme, realizador, actor, actriz, argumento); tal proeza só foi conseguida três vezes, a última das quais em 1992, por O Silêncio dos Inocentes.
— Greta Gerwig (Lady Bird) é a quarta mulher nomeada na categoria de realização — a última vez acontecera em 2009, com Kathryn Bigelow (Estado de Guerra), que se tornou na primeira vencedora feminina nesta categoria (o seu filme foi também o primeiro realizado por uma mulher a obter o Oscar de melhor do ano).
— The Post está nomeado para melhor filme, tendo apenas mais uma nomeação (Meryl Streep, melhor actriz); na história da Academia só há mais um filme com duas nomeações a ter sido eleito melhor do ano — foi Wings/Asas, de William A. Wellman, em 1929, na primeira cerimónia dos Oscars (tendo ganho também em efeitos especiais); há um único caso de um filme vencedor como melhor do ano que tinha sido nomeado apenas nessa categoria: Grand Hotel, de Edmund Goulding, premiado em 1933.
— nunca nenhum filme ganhou prémios nas quatro categorias de interpretação, havendo apenas dois — Um Eléctrico Chamado Desejo (1951), de Elia Kazan, e Network (1976), de Sidney Lumet — a terem conseguido três desses prémios; este ano, só A Forma da Água pode repetir a proeza, através de Sally Hawkins (actriz), Richard Jenkins (actor secundário) e Octavia Spencer (actriz secundária).
_____

Eis os filmes com duas ou mais nomeações para aquela que será a 90ª edição dos Oscars (4 Março). A vermelho surgem os nove que estão nomeados para melhor filme do ano; com (*) identificam-se aqueles que obtiveram nomeação para melhor realizador.

13
A FORMA DA ÁGUA (*)

8
DUNKIRK (*)

7
TRÊS CARTAZES À BEIRA DA ESTRADA

6
A HORA MAIS NEGRA
LINHA FANTASMA (*)

5
BLADE RUNNER 2049
LADY BIRD (*)

4
CHAMA-ME PELO TEU NOME
FOGE (*)
AS LAMAS DO MISSISSIPI
STAR WARS: OS ÚLTIMOS JEDI

3
BABY DRIVER
EU, TONYA

2
A BELA E O MONSTRO
COCO
THE POST
VICTORIA E ABDUL

>>> A apresentação das nomeações por Tiffany Haddish e Andy Serkis.

National Board of Film Review consagra "The Post"

Fundada em 1909, a National Board of Film Review congrega críticos, jornalistas, académicos e profissionais de cinema da área de Nova Iorque. Já anunciados no final do passado mês de Novembro, os seus prémios foram entregues em cerimónia realizada no dia 9 de Janeiro, consagrando The Post, de Steven Spielberg, com dois prémios de interpretação e também o título de melhor filme de 2017. Eis as principais escolhas da organização — lista integral no site da NBFR.

* Filme — THE POST, de Steven Spielberg
* Realizador — Greta Gerwig, por LADY BIRD
* Actor — Tom Hanks, THE POST
* Actriz — Meryl Streep, THE POST
* Filme estrangeiro — FOXTROT, de Samuel Maoz [trailer]
* Filme de animação — COCO, de Lee Unkrich e Adrian Molina
* Documentário — JANE, de Brett Morgen

O cartaz dos Oscars

Várias tentativas à procura da pose certa... Dir-se-ia uma irónica encenação do turbilhão de dúvidas estruturais e tragédias morais que a indústria cinematográfica está a viver, depois das glórias do "século do cinema" e da descoberta das angústias deste século do... streaming. O cartaz oficial da 90ª cerimónia dos Oscars (4 Março) mostra que a Academia de Hollywood ainda tem algum sentido de humor — e Jimmy Kimmel é uma boa ajuda.

Moonlight - crítica

Numa altura em que a corrida aos Óscares está ao rubro e em que o foco está apontado para o musical «La La Land» que conseguiu, inclusive, captar a empatia dos fãs mais céticos, é delicada a situação de qualquer outro filme que está igualmente na passadeira vermelha, a sentir os flashes a dispararem noutra direção. É aí que está «Moonlight», de consciência tranquila, sem arrogância ou falsa modéstia. Sabe que o que tiver de ser seu será e sabe também que, apesar de não estar em campanha, já muitos corações foram tocados e isso basta-lhe.

Dito isto, aquela que é a segunda longa-metragem do realizador Barry Jenkins, apesar da sua humildade e discrição na corrida, já venceu o Globo de Ouro para Melhor Filme Dramático e está a competir em oito das categorias mais importantes das estatuetas douradas, entre elas, a de Melhor Filme, Melhor Ator e Atriz Secundários, Melhor Realizador e Melhor Argumento Adaptado. Palpites de lado, «Moonlight» é um dos filmes do ano e tirar-lhe essa categoria seria, no mínimo, injusto.

«Moonlight» é vencedor na forma simples como trata algo complexo. É hipnotizante na contenção dos atores que dão vida a Chiron nas suas várias etapas de vida. É difícil de explicar porque se entranha e nos convida a ficar e a seguir os seus passos quando não sabemos para onde vamos, mas simplesmente sabemos que queremos ficar.

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A ação decorre num bairro perigoso de Miami, Liberty City, no qual vingam os traficantes e onde a raça negra parece estar confinada a remotas oportunidades na sociedade. Aí, conhecemos Chiron (Alex R. Hibbert), que todos tratam por Little, com 10 anos, perdido de si e inserido numa comunidade em que poucos o entendem, mas todos têm uma palavra a dizer sobre a sua orientação sexual, algo que nem o próprio ainda descobriu. Vítima de bullying e perseguições na escola, encontra segurança e o conforto de um “lar” na vida do traficante Juan (Mahershala Ali) e da sua esposa Teresa (Janelle Monáe). Anos mais tarde, já na adolescência, a sua personalidade contida apenas se apurou e os seus olhos continuam perdidos no vazio de um lar desfragmentado, que divide com uma mãe toxicodependente. Agora Chiron (Ashton Sanders), o jovem mantém-se à parte e alienado de todos aqueles que pensam saber o que é “normal”, mas um evento específico (um dos mais marcantes do filme) mudará a sua vida para sempre. No seu estado adulto, Chiron (Trevante Rhodes) já não é Little nem Chiron, é Black, um homem feito, musculado, enfeitado com fios e uma dentadura de ouro, um verdadeiro dealer de rua.

Apesar de se ter transformado no produto corrompido da sociedade, Chiron continua a denunciar no olhar a sua fragilidade comovente, que nos faz sentir vontade de o apoiar em qualquer uma das suas escolhas. Chiron tem um pouco de todos os que são constantemente desafiados a aceitar quem são e que sobrevivem num mundo que parece ter perdido a fé na humanidade.

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«Moonlight» é o casamento perfeito entre a peça de Tarell Alvin McCraney e a visão de Barry Jenkins que, apesar de não se conhecerem antes, cresceram no mesmo bairro, partilhando as mesmas raízes e os mesmos dramas parentais (as mães de ambos sofreram de problemas de toxicodependência e contraíram SIDA). Depois de «Medicine for Melancholy», o realizador vai de novo às minorias, desta vez para uma problemática raramente vista em cinema: a homossexualidade numa comunidade tão intransigente como a dos Afro-Americanos confinados aos bairros problemáticos, em que a virilidade é uma arma.

Apostando num elenco com ligação a esta realidade, Jenkins acerta em cheio. Apesar de existirem três épocas, todos os atores são diferentes, mas existe algo de Chiron em todos eles e que o público consegue reconhecer, seja o olhar despido de maldade, seja a doçura escondida na existência amarga, seja a necessidade de compaixão da sua personalidade contida e implosiva.

A breve presença de Mahershala Ali justifica a sua nomeação de Melhor Ator Secundário, pois é no suporte dele que reconhecemos o que gostaríamos de fazer por Chiron e é a quem somos gratos por lhe dar as bases que um pai deveria dar. Naomie Harris está igualmente nomeada pelo seu papel da mãe toxicodependente que não consegue salvar Chiron e, apesar de já ter dado provas do seu talento, existe algo de sobrecarregado na personagem que já não é novo.

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Um último apontamento para a cinematografia de James Laxton que, em tom metafórico, abusa da luz pálida do dia, como se a vida fosse algo sem grandes distrações, seguindo apenas o seu rumo. Mas é na luz da noite e da lua que a verdadeira essência vem ao de cima.

Produzido por Brad Pitt, «Moonlight» é sobre a falta de oportunidades e sobre a forma como continuamos a esconder a verdadeira identidade, com medo de não cabermos no molde que a sociedade definiu. É sobre a autodescoberta, sobre a (falta de) confiança em nós e no mundo, sobre a falta de tolerância e compaixão; é sobre a ausência de aceitação e o enaltecer de dogmas e crenças limitadoras de uma sociedade que resiste em aceitar a diferença. Na verdade, é precisamente na diferença que está a unicidade de cada um e é isso que nos torna na pequena, mas essencial, peça da engrenagem que é a vida.

cinco estrelas

Título Nacional Moonlight Título Original Moonlight Realizador Barry Jenkins Actores Mahershala Ali, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Janelle Monáe, Naomie Harris Origem Estados Unidos Duração 111’ Ano 2016

Oscars abençoados pela música?

Não sou entusiasta de «La La Land», confesso. Mesmo reconhecendo o interessante risco de mise en scène assumido por Damien Chazelle, ao invocar a memória dos grandes clássicos do musical, ele leva-nos a inevitáveis comparações. Mas como comparar o esforçado formalismo do seu trabalho com a excelência formal de «Serenata à Chuva» (1952), de Gene Kelly e Stanley Donen, ou «A Roda da Fortuna» (1953), de Vincente Minnelli?

Dito isto, há que reconhecer que o território dos Oscars está, este ano, marcado por «La La Land». Será a Academia abençoada por este retorno do musical? Conseguirá relançar as audiências televisivas da sua cerimónia anual? E, nesse processo, a apresentação de Jimmy Kimmel, figura pouco conhecida de muitos espectadores fora dos EUA, poderá aproximar-se da aura nostágica de outros espectáculos já algo distantes?

Acima de tudo, vale a pena combater o infantilismo jornalístico: as nomeações dos Oscars não se medem em função de eventuais coincidências do “meu” ou do “teu” gosto... São, afinal, emanações de um gigantesco colectivo — este ano há 6678 membros da Academia de Hollywood com direito a voto — que, de uma maneira ou de outra, reflectem o dinamismo de toda uma comunidade.

Registe-se, em particular, a escolha dominante de títulos de cariz mais ou menos independente. Nos nove nomeados para melhor filme, dos artifícios de «La La Land» à respiração melodramática de «Manchester By the Sea», passando pela intensidade emocional de «Moonlight» (espantoso filme!), encontramos testemunhos de uma pluralidade criativa que está para além de qualquer visão banalmente tecnicista, dominada por super-heróis e efeitos especiais.

Entretanto, que é feito de «Silêncio», de Martin Scorsese? Pois bem, teve uma única nomeação (fotografia, Rodrigo Prieto). Enfim, tentemos não estragar a festa de Hollywood e mudemos de assunto...

  • Publicado em Feature

«La La Land» lidera Oscars com 14 nomeações

As nomeações para os Oscars foram anunciadas esta terça-feira às 13h30 (hora de Portugal).

«La La Land» lidera com 14 nomeações, igualando o recorde previamente estabelecido por «All About Eve» em 1950 e «Titanic» em 1997.

Outros candidatos incluem «Arrival» e «Moonlight» (com oito cada), «Hacksaw Ridge», «Lion» e «Manchester by the Sea» (com seis cada) e «Fences» e «Hell ou High Water» (com quatro cada).

Jennifer Hudson, Brie Larson, Emmanuel Lubezki, Jason Reitman e Ken Watanabe juntaram-se ao presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs para quebrar a tradição recente e introduzir os nomeados às 24 categorias para a 89ª cerimónia dos Oscars.

AS cerimónia dos prémios da Academia têm como anfitrião Jimmy Kimmel e terão como palco o Dolby Theatre em Hollywood a 26 de fevereiro.

A lista de nomeados:

The Oscars 2017

 

O Filho de Saul

Consagrado com o Grande Prémio do Festival de Cannes, “O Filho de Saul” relança a questão da representação do Holocausto — este é um filme empenhado em consolidar o valor essencial da memória.

Em Cannes/2015, depois de receber o Grande Prémio do certame graças ao seu filme «O Filho de Saul», o húngaro László Nemes evocou, na conferência de imprensa dos vencedores, uma perturbante verdade: “Creio que a Europa ainda vive assombrada pela exterminação dos judeus europeus.” E acrescentou: “Na Hungria, houve muitas deportações e não creio que isso seja simplesmente uma página da História. Quis abordar a questão a partir de um ângulo diferente — era importante falar à geração dos sobreviventes, são cada vez menos numerosos.”

Sendo «O Filho de Saul» um objecto capaz de tocar as gerações mais novas, precisamente aquelas que não viveram directamente a Segunda Guerra Mundial, há nas palavras de Nemes um desconcertante, e fascinante, paradoxo. Assim, ele define o seu filme como um discurso que visa, antes do mais, aqueles que conheceram directamente a máquina de extermínio montada pelos nazis e, muito em particular, os que sobreviveram à experiência dantesca dos campos de concentração.

Eis uma estratégia que envolve, em termos cinematográficos, um insistente desejo de realismo. Para Nemes, trata-se de evocar o dia a dia de Auschwitz-Birkenau [Memorial e Museu: auschwitz.org] a partir de um olhar interior. Pertence esse olhar a Saul Ausländer (admirável composição de Géza Röhrig): ele integra o Sonderkommando do campo, ou seja, é um dos prisioneiros mobilizados pelos nazis para as tarefas do dia a dia, em particular para o transporte de cadáveres. A partir do momento em que, entre os mortos, identifica o seu filho, Saul vai lutar por impedir que o seu corpo seja lançado nos fornos crematórios, garantindo-lhe uma sepultura.

Em boa verdade, não se trata de uma “reconstituição”, pelo menos no sentido banal de mera acumulação de adereços que a palavra adquiriu. «O Filho de Saul» desenvolve-se como um labirinto de imagens vistas, ou apenas vislumbradas, a partir do olhar do protagonista. Nemes como que aposta num registo de “reportagem” em torno do seu actor principal, seguindo a crueza das suas tarefas e, nessa medida, fazendo o inventário de um universo concebido para o aniquilamento metódico de milhões de pessoas, maioritariamente judeus.

Na genealogia dos filmes sobre o Holocausto, «O Filho de Saul» ilustra a necessidade, e também a urgência, de abrir o leque de dispositivos narrativos. Assim, será importante superar uma certa herança ideológica que, mesmo na sua exigência moral, tende a favorecer uma divisão desses filmes em “puros” e “impuros”, “legítimos” e “ilegítimos” — estamos perante uma invulgar experiência cinematográfica, capaz de relançar uma demanda humana e humanista que o presente não pode dispensar. Está em jogo, ainda e sempre, o valor fulcral das memórias, incluindo as memórias do seu assombramento.

cinco estrelas

Título Nacional O Filho de Saul Título Original Saul fia Realizador László Nemes Actores Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn Origem Hungria Duração 107’ Ano 2015

(Publicado originalmente na Metropolis nº36)

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