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Actualizado às 9:45 PM, Sep 22, 2019

«Mas que Avó é Esta?!» - trailer

Após dois anos de felicidade a viver juntos, a tribo de sete meios-irmãos e meias-irmãs tem de abandonar o grande apartamento antes do recomeço das aulas. Enquanto todos partem de férias de verão com os seus respetivos pais, Gulliver, o mais pequeno, é enviado, sozinho, para a casa da avó que vive junto à praia. Mas a excêntrica 'Vó Aurore não é uma babysitter como as outras e prefere andar na farra a ficar em casa a cuidar do neto. Os irmãos decidem ir em socorro de Gulliver. É o início de uma nova revolução. Ela só queria sossego , mas eles vão fazer-lhe a vida negra!

Fonte: NOS Audiovisuais

«Velhos Jarretas» - trailer

Pierrot, Mimile e Antoine, três amigos de infância com setenta primaveras, sabem que a única forma de evitar a morte é envelhecendo... e estão resolvidos a fazê-lo com muita classe. Infelizmente, a reunião dos três para o funeral de Lucette, mulher de Antoine, é encurtada quando este encontra por acaso uma velha carta que o faz perder a cabeça; sem a mais pequena explicação aos amigos, mete-se no carro e parte para a Toscana. Pierrot e Mimile, acompanhados por Sophie, neta de Antoine e a poucas semanas de dar à luz, correm ao encalço do amigo e avô esperando evitar que ele cometa um crime passional... cinquenta anos após o facto!

Estreia a 16 de Maio

Aluga-se Família - trailer

Paul-André é um tímido e introvertido quarentão. Apesar rico, vive sozinho, e farto dessa vida, decide que o que precisa é de uma família. Violette é uma alegre e enérgica quarentona, mas os seus problemas financeiros estão prestes
a fazer-lhe perder a casa e até mesmo a família.

É então que Paul- André lhe faz uma proposta meia louca - ele dispõe-se a alugar a família de Violette e em troca paga-lhe as dívidas.
Assim, Paul-André vai finalmente poder testar a verdadeira alegria da vida familiar... para o melhor ou para o pior!

FAL 17

Título Nacional Aluga-se Família Título Original Une famille à louer Realizador Jean-Pierre Améris Actores Benoît Poelvoorde, Virginie Efira, François Morel Origem França/Bélgica Duração 97’ Ano 2015

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À Sombra das Mulheres

Como explicar o bem apertado nó na garganta com que saímos deste novo filme do francês Philippe Garrel (figura de proa do pós-nouvelle vague, que aqui chega à sua vigésima sexta longa-metragem)? Não vamos lá – isso é certo – pela simples descrição dos factos com que se cose a narrativa. O que nos oferece ela? A análise do processo de desintegração de um casal de documentaristas parisienses na casa dos quarenta anos, cujo casamento não resiste aos casos extra-conjugais em que ambos se envolvem. Estamos em presença de uma sinopse que nada nos diz sobre o verdadeiro objecto de estudo do filme: a fragilidade e a precariedade (económica, emocional...) de duas personagens que – enquanto não chega a hora do reconhecimento público dos seus talentos –, vão vivendo de biscates que mal chegam para pagar as contas e de sonhos defeitos que correm a sua relação como um cancro. Sobre a sua pobreza e a sua desilusão, estas figuras não dirão uma palavra: elas estão a tal ponto atoladas na sua penúria que só podem vivê-la «de dentro», sem a distância mínima que permitiria transformá-la num «tema de conversa». De facto, quem aqui nos fala – em surdina – sobre o assunto é, em primeira linha, o fundo visual do filme, nomeadamente: os décors (aquele decrépito apartamento que parece chorar em vez das personagens), a fotografia (que vai doseando o predomínio do preto ou do branco para dar conta do estado emocional do casal)... A este fundo se juntam – numa espécie de coro fúnebre – aquelas pequenas «cenas marginais» que Garrel vai enxertando nos interstícios da narrativa, para nos mergulhar de cabeça no interior das vidas que filma. Com efeito, basta ver com a devida atenção aqueles planos de pontuação que – sem razão aparente – descrevem as «refeições minimalistas» das personagens (massas instantâneas, um prato de arroz sem mais nada...), para que, numa pincelada, tudo fique dito acerca das suas dificuldades. Talvez assim se possa começar a perceber o que é, afinal, este «À Sombra das Mulheres»: uma lenta avalanche de melancolia que vai soterrando sob si as personagens (e o espectador com elas). Filme mais justo não vimos nos últimos tempos. 

quatro estrelas

Título Nacional À Sombra das Mulheres Título Original L'ombre des femmes Realizador Philippe Garrel Actores Clotilde Courau, Stanislas Merhar, Lena Paugam Origem França/Suiça Duração 73’ Ano 2015

Mia Hansen -Løve - Eden

Jovem talento do cinema francês, Mia Hansen-Løve esteve em Portugal no âmbito da 11ª edição do Indie como um dos destaques na secção Herói Independente. Ao longo do festival, foi possível ver o conjunto da sua obra, incluindo o seu último filme «Eden» (2014) – numa das sessões mais concorridas do certame. Antes de regressar a Paris, a realizadora de «Amor de Juventude» (2011) e herdeira da tradição naturalista francesa, participou numa Q&A onde a METROPOLIS teve a oportunidade de conversar com ela.

Mia Hansen-Løve sobre: o amor

“É seguramente a minha maior inspiração: os meus filmes são sobretudo sobre a passagem do tempo, sobre a vida, mas o amor está no centro disso, e acho que tem a ver com as minhas próprias relações. Duma forma diferente, poderia dizer que a vingança nunca foi uma fonte de inspiração para mim e ainda continua a ser um mistério o porquê de tantos filmes serem feitos sobre isso, porque não vejo isso como um motor dos meus filmes. Na vida, tenho a certeza que existe, mas à minha volta, entre as pessoas com quem me dou, que conheço, não são estimuladas por sentimentos de vingança ou, como vemos em muitos filmes, sentimentos de impostura, engano. Existem imensos filmes que são sobre alguém que engana, a autenticidade das pessoas.”

Mia Hansen-Løve sobre: a passagem do tempo

“É a minha fonte de inspiração. Não sei explicar o porquê desta opção. É uma parte de mim, do meu processo de escrita, é tanto assim que às vezes dou por mim a desejar fazer um filme no presente, que se passe durante 2 a 3 dias porque percebi que todas as histórias que conto não podiam depender de apenas 2 anos. Têm a ver com a minha própria obsessão com o tempo. Especialmente quando era adolescente, era obcecada por isto, tinha esta sensação de que as coisas se passavam sempre tarde de mais, que já tinham passado. As pessoas chamam-lhe melancolia, mas para mim tem a ver com esta obsessão com a passagem do tempo. Não consigo explicar ou definir, mas está na base dos meus filmes. Fazer cinema e falar sobre filmes é uma forma de lidar com isso, de lutar contra isso. Fazer filmes é uma forma de estar no presente, de viver no presente. Por isso gosto de trabalhar com atores muito novos, e não com atores de meia-idade. Gosto de trabalhar com esta ideia da maturidade e da passagem do tempo e por isso os rostos são de atores muito novos porque me interessa a juventude e uma espécie de inocência. Na maioria dos filmes, os realizadores escolhem atores que estão perto da idade do fim do filme. A mim interessa-me a passagem do tempo e essas mudanças que se dão nos próprios atores durante a rodagem. Sempre me entusiasmou a ideia de filmar jovens a crescer, filmar o seu processo de crescimento. Algo que me toca no final de «Um Amor de Juventude» (2011), quando a personagem de Lola Créton está a andar e há um olhar dela que nunca poderia ter tido no início do filme. Quando a comecei a filmar, fiquei com a sensação de que estava a filmar uma rapariga muito nova, a sair da infância, e depois, no final, tinha a certeza que ela era uma jovem mulher. Sabia que o filme tinha acompanhado este processo de crescimento. E é algo que me emociona.”

Mia Hansen-Løve sobre :os filmes e a vida

“Tenho a sensação que cada um dos meus filmes marca uma época da minha vida. As pessoas têm diários, eu tenho os meus filmes que são pedaços da minha vida. Não procuro ideias para fazer os meus filmes, são momentos da minha vida, formas de refletir sobre etapas da minha vida.”

Mia Hansen-Løve sobre: a fase inicial da carreira

“O facto do produtor se ter suicidado durante o processo de preparação da primeira longa (onde já vinha a trabalhar há um ano) e eu ter conhecido a sua mulher e os seus filhos e um pouco do resto da sua vida, tudo isso dialogava comigo e, duma certa forma, com a minha primeira longa. Quando fiz o meu primeiro filme, um filme sobre transmissão, sobre melancolia, numa forma simplificada, conheci este produtor e esse encontro foi muito importante para mim, o quanto ele percebia o meu projeto. Depois este produtor suicidou-se, desapareceu, e eu senti que a melancolia que estava a sentir se escapou para a realização do filme. Não é acidental o facto destes dois filmes terem a mesma estrutura pois tinha a ver com esta sensação de que o que se estava a passar na minha vida tinha a ver com o assunto que trata o primeiro filme. O argumento de «Tout Est Pardonné» (2007) já tinha sido escrito antes de o conhecer (ao produtor) e quando o conheci nunca pensei que ele viesse a ter algo a ver com este filme. Mas nós falámos muito sobre cinema, relações e as referências cinematográficas – o facto de ambos termos começado como atores no cinema.”

Mia Hansen-Løve sobre: «Eden» (2014)

“Há algo nos filmes que se relaciona com o que estava a sentir na altura em que os fiz. E «Eden» acaba em 2013, apesar de quando o escrevi acabar em 2011, mas como levei dois anos para obter financiamento para o filme, alterei a data e por isso acaba em 2013. Mas até tive sorte pois isso permitiu-me utilizar uma das músicas dos Daft Punk mais recentes, que se revelou tão importante para o filme. Havia este paralelo entre a carreira do meu irmão e a dos Daft Punk. Mas isso não teria acontecido se tivesse obtido financiamento para o filme anteriormente e o tivéssemos feito logo, então o filme teria sido concluído antes do último álbum dos Daft Punk ser editado.
Este filme é muito influenciado pela realidade porque quando acaba e quando Paul abandona a carreira de DJ e inicia uma nova vida, ele não sabe como será essa nova vida, se terá um final feliz ou triste. Para mim quando o filme acaba leva-nos aos dias de hoje, à vida real, a algo fora do filme. Por isso qualquer coisa que estivesse a acontecer na nossa vida, a mim e ao meu irmão, era interessante pois ajudava-me a compreender o final do filme.”

Mia Hansen-Løve sobre: a eternidade das emoções

“O desejo de que os sentimentos sejam algo de eterno, por exemplo, amar alguém ou algo em particular e o querer que isso seja eterno. E o conflito, o saber que as coisas vão terminar, que isso vai acabar. Tudo isso tem a ver com os meus filmes. E quando lhe dizia antes que gostava de fazer um filme que não fosse sobre a passagem do tempo. Também desejava fazer um filme que não fosse sobre a vocação. Não sei se entende o que quero dizer com isto. E essa é a razão pela qual comecei a filmar, por causa dessa obsessão de fazer algo que tenha algo a ver com o invisível, aquilo que permanece e fica para além da morte. Esta crença no amor, e de que é algo eterno e da qual não te consegues livrar, algo que fica contigo, para sempre. Quer dizer, em todos os meus filmes, basicamente todas as personagens têm uma crença enorme e são fiéis. Não no sentido da traição, mas no seu íntimo têm aquela sensação de que nunca podem virar a página. Disseram-me muitas vezes que os meus filmes são sobre a tristeza e a dor da perda, mas é o contrário: são sobre a recusa da dor, são todos sobre estas personagens que são fiéis aos seus sentimentos e que nunca, mas nunca aceitam livrar-se deles. Mas, no fundo, encontram uma forma de continuar, prosseguir com esses sentimentos.”

Mia Hansen-Løve sobre: as influências e o cinema de Taiwan

“De facto, o «Millennium Mambo» foi importante para mim. Escrevi sobre ele, no «Café Lumiére». Mas não são os filmes que me formaram, mesmo que tenha olhado para eles. Os filmes que me formaram foram os da Nouvelle Vague, parte da minha cultura, do meu mundo. Os outros que falou, descobri-os mais tarde e estimularam-me muito. Descobri que havia algo que me ligava a eles, mais do que a filmes franceses contemporâneos. E isso é muito verdadeiro sobre «Millenium Mambo». Quando vi o filme, percebi que era mais sobre a minha geração, mais do que outros filmes franceses. E é estranho, porque não é evidente dizer isso e havia algo sobre a atmosfera, a realização, a aura das personagens em relação ao qual me senti mais próximo do que em relação a outros filmes sobre a juventude francesa dos anos 1990. Quando fizemos «Eden» (2014), tínhamos muito poucos filmes na nossa cabeça, o que me interessava e a ideia que tinha era da verdade sobre a juventude dos anos 1990 ou dos anos 2000, da vida noturna, esse tipo de melancolia. O interesse não era o do glamour, ou da fantasia sobre esses tempos, mas sobre a vida, a vida das pessoas”

Mia Hansen-Løve sobre: a house music

“Acho que é isso que me faz ligar a essa música: o facto de ser muito alegre, animada e ao mesmo tempo um pouco triste. Essa dualidade é o que me faz ligar a essa música, mais do que outra coisa qualquer. A house music sempre fez parte da minha vida, nunca pensei porque é que gostava dela, a música estava lá e eu apenas gostava dela, por causa do meu círculo de amigos, do meu irmão, quando era DJ e de todas as festas a que fui. Nunca o analisei, mas quando escrevi o filme: há uma sequência em que a dupla de DJ’s está numa rádio a explicar por é que gostam desta música e falam dessa dualidade, do facto de ser eufórica e melancólica e ao escrever percebi que era por isso que gostava tanto dela”

Mia Hansen-Løve sobre: a música nos seus filmes

“Se repararem a música é importante para toda a gente. Mas eu não utilizo música feita por compositores de propósito para os meus filmes. Quando se tem música composta para um filme, geralmente, ela está lá não para ser ouvida, é suposto ser invisível. É isso que não gosto nela e é por isso que sinto que estou a ser manipulada quando vejo um filme com esse tipo de banda sonora. O problema é que as pessoas deviam pensar e escrever mais sobre a forma como a música é usada nos filmes e como a banda sonora manipula o espetador. Nunca, mas nunca utilizo isso. Talvez um dia o faça, mas de momento não me imagino a trabalhar com um compositor. Não utilizo muita música, mas quando está lá é porque a personagem a ouve. Quando o espetador a ouve é porque a personagem a ouve: na maioria das vezes começa na cena em que a personagem a ouve e muitas vezes pode continuar, e quando a música continua mesmo depois da cena terminar é porque a personagem estava a ouvi-la para ele mesmo ou tinha a música na cabeça. Por isso, ouvimos a música sempre como um gesto de empatia para com o personagem, faz parte da cena, parte da realidade da personagem.”

Mia Hansen-Løve sobre: a importância da música no processo criativo

“Geralmente, tenho algumas músicas na minha cabeça, às vezes encontro música importante para o filme quase no fim do processo. Mas, habitualmente sim, penso em músicas em particular quando estou a escrever as cenas. Ajuda-me em todo o processo: para «Eden» estava a ouvir muita house music, mas também muitas das músicas dos Daft Punk – disco, e uma delas muito melancólica. Precisava de ouvi-las para escrever, estava como que dependente disso para a escrita deste argumento, ajudava-me a encontrar a energia certa, o mood a disposição certas para trabalhar, a inspiração.”

Mia Hansen-Løve sobre: a família nos seus filmes

“É difícil explicar porque faz parte de ti. É algo feito de forma inconsciente. Mas, na minha família tenho o caso do meu pai, que tem seis irmãos, e o seu pai suicidou-se. Portanto essa questão da fraqueza ou da força estava muito presente e perseguia-me. O meu pai teve de tomar conta do seu irmão e irmã, que eram mais novos, e por isso teve de crescer muito depressa muito novo. E ao mesmo tempo tinha essa figura do avô, muito frágil ao ponto de se ter matado com seis filhos. Acho que essa obsessão com a família e a fragilidade ou força da figura paternal, esse amor e admiração pelo pai tem a ver com este passado.”

Mia Hansen-Løve sobre : o próximo projeto - «L’Avenir» (2016)

“É sobre a separação dum casal nos seus 50 anos, ambos professores de filosofia, e é sobre o homem deixar a mulher (eles têm dois filhos), trocá-la por outra mulher e é também sobre a esposa que fica em casa. É ainda sobre filosofia e a relação deles com os seus alunos que se irá tornar ainda mais importante com a separação.”

Julie Delpy - Lolo

É uma cineasta que tem questionado as intrincadas subtilezas do romance contemporâneo, mesmo quando co-assinava filmes como «Antes de Anoitecer» ou «Antes da Meia-Noite», de Richard Linklater. Em «Lolo», onde também é a protagonista, faz uma comédia romântica para o grande público, assumidamente a pensar no grande público. A Metropolis foi à praia do Lido, em Veneza, com a Julie Delpy e saiu esta conversa.

Esta sua personagem tem muito a ver consigo?
Sim, embora não seja assim tão cínica. Mas gosto de brincar com coisas que me são familiares. De certa forma, o tema deste filme poderia descambar numa história muito triste: uma mulher a tentar reconstruir a sua vida de solitária e o filho a fazer-lhe a vida negra...O que posso fazer? Decidi transformar isto numa comédia!

Nota-se que se diverte a abordar temas da sexualidade...
Sim, muito!Sempre foi assim, é divertido falar de sexo desta forma. As mulheres deste filme são bastante rudes a falar de sexo. Isso agrada-me pois de alguma forma é um manguito a todos...Não consigo bem explicar, mas agrada-me...É a minha forma de dizer: gostem ou não, é mesmo assim! Julgo que há homens que ficam ofendidos, mas não há problema, não me importo nada, aliás...Faço isso com humor e não é para ofender. O meu diretor de fotografia ficou muito ofendido! Estava sempre a queixar-se: “já chega de estar sempre a falar de pénis grandes todo o tempo! Já não aguento!!”. Só lhe dizia: “ok, ok...” (risos). Ele tem um complexo...Ter um pequeno pénis não é um problema desde que o homem aceite bem isso, pelo menos era o que o meu pai me dizia.

Este humor também pode perturbar uma certa França, não?
Sim, especialmente a França mais coquette, talvez a França mais extrema direita, apesar de haver franceses de esquerda muito reprimidos. Depende sempre da família e da educação. No meu caso, tive uma família muito aberta ao humor sexual.

Continua a viver nos EUA por razões pessoais. Fica-se com a sensação que nunca quis muito explorar o cinema americano...
Não singrei com uma carreira na América porque nunca fui suficientemente magra para os padrões deles. Muito mais do que disfarçar estar mais velha, o que é importante é ser magra. A magreza é um fator importante. Eles têm essa obsessão e para mim isso não funciona...Nunca fui muito magra.

Porque será que todas as atrizes em Hollywood têm mesmo de ser magras?
Tem a ver com uma necessidade de quererem pessoas formatadas. Pessoas que têm de ser de uma certa forma, que têm de ter o mesmo tipo de olhar. Enfim, querem ter controlo. Tem tudo a ver com controlo. Não reajo nada bem ao controlo, tudo em mim é transgressão. Acho que incomodo Hollywood. Não gostam muito de mim em Los Angeles mas continuo por lá!

Porque se lembrou de chamar Dany Boon para este seu parceiro romântico?
A partir do momento em que comecei a escrever o argumento comecei a pensar no Dany. Ele consegue interpretar muito bem personagens naif e pode não ser um bonitão mas é giro! Tem qualquer coisa que nos toca. Além disso, é um grande comediante. Precisava do seu timing de humor para uma série de cenas, sobretudo para aquele humor slapstick e de comédia física. Mesmo antes de o contactar continuei a escrever para ele. Se o Danny não aceitasse o ator que ficasse com a personagem seria apenas um substituto. Foi muito bom ele ter dito sim!

Tem problemas em ver filmes seus do passado?
Não gosto. Por exemplo, amo o Kieslowski mas evito ver o «Branco», prefiro sempre rever o «Decálogo» [série televisiva]. É mais fácil...

É assim tão penoso olhar para si na sua juventude?
Não é penoso mas não sou nada de estar a recordar o passado. O passado é o passado, pronto. Com o Kieslowski foi incrível, dei-me mesmo muito bem e respeitei-o muito, mas não posso voltar aí. Na verdade, consigo olhar para mim própria. Não é uma coisa que me afete assim tanto, percebe? Mas seria estranho querer ver agora de novo o «Branco»...Por outro lado, na minha casa não há nenhuma fotografia minha...

Ao longo dos anos sempre manteve uma imagem de autora nada politicamente correta.
Ser politicamente incorreta faz de mim melhor pessoa. Mesmo no feminismo não gosto nada de ser politicamente correta! Por exemplo, sou capaz de dizer que gosto do meu rabo grande! Não sou racistas, nem antisemita nem homofóbica mas também nunca tive problemas com ninguém. O que é importante é aquilo que nós somos e maneira como tratamos os outros.

Laurent Cantet (Foxfire/Raparigas de Fogo)

Venceu a palma de Ouro em Cannes, em 2008, com “A Turma”. Hoje Laurent Cantet regressa com “Raparigas de Fogo”. Recua até À década de cinquenta, numa pequena cidade dos Estados-Unidos para contar a história de um grupo de raparigas adolescentes que cansadas do machismo que sofrem na pele, criam uma sociedade secreta. Estivemos, em Paris, à conversa com o realizador.

Foi muito fiel ao livro de Joyce Carol Oates que adapta. O que é que o despertou para querer levá-lo ao grande ecrã?

Apaixonei-me pelo livro. Na altura que o li, estava na parte da montagem do filme “A Turma” e não conseguia parar de ler o livro de Joyce Carol Oates. A história confrontava-me novamente com um grupo, neste caso só de jovens raparigas. No caso d’ “A Turma” fui mesmo levado pela energia daqueles adolescentes, e a vontade de voltar a uma situação dessas era muito grande. E depois encontrei novamente temas que me são caros, como a ideia de grupo, a resistência, a forma como surgem os líders nos grupos,... Ou seja, existia uma panóplia de temas que me despertavam e ainda por cima, embrulhados numa aura quase romanesca que nunca existiu nos meus filmes. Era um desafio.

É conhecido por adaptar quase sempre romances, mas desta vez foi muito fiel...

Desta vez apeteceu-me ser fiel ao livro, manter-me mais próximo da história original porque existia uma trama dramática muito estruturada e que me interessava e depois porque existia também uma qualidade literária que me interessava também.

É conhecido por criar quase que uns workshops com as suas actrizes, como foi o processo de casting e trabalhar actrizes,praticamente todas não profissionais?

O casting representa para mim um elemento fundamental de todo o processo. Demorei praticamente seis meses a encontrar estas raparigas que são todas não profissionais, tirando a Tamara Hope que interpreta o papel de uma rapariga burguesa, por isso um pouco à margem do grupo e que tem uma maneira de falar e de estar diferente. Aí decidi integrar uma jovem actriz profissional para esse papel. As outras estão pela primeira vez perante uma câmara. Era por isso preciso procurá-las, preciso juntá-las, ver se o grupo podia funcionar, apesar das personalidades muito fortes. Tentei agrupá-las e depois ensaiámos. Os ensaios para mim são, em primeiro, improvisação: eu conto-lhes as cenas, peço-lhes para elas me darem a própria visão e depois introduzo mais elementos, mais pormenores. Proponho uma maneira de dizer as coisas de forma diferente por vezes da proposta delas. E pouco a pouco o argumento fica mais rico.

Nesta história, a adolescência foge do cliché do tempo da inocência...

Sim, mas para mim a adolescência não é necessariamente o tempo da inocência. Acho que é mais o tempo de todos os riscos. É a altura é que nos procuramos ainda sem ter todas as ferramentas para apreender o mundo e compreender todas as lógicas existentes que nos rodeiam. É nessa altura que fazemos tentativas. Vamos por uns caminhos e batemos contra a parede, voltamos atrás, e tentamos outro caminho. Tudo isso é muito excitante e interessante de filmar e ao mesmo tempo algo de muito difícil de superar para os adolescentes. O que me atraiu na história foi precisamente esta visão que nos dá da adolescência, que não tem nada de inocente. Acho que é uma visão mais justa.

O filme retrata uma época de luta que nos remete também para os nossos dias...

Pensei neste filme, como sendo um filme de época, ou seja nos anos cinquenta dos Estados-Unidos. Fomos fiéis à realidade dessa época, recorremos a documentários e registos de época, fotografias e reportagens, etc.. Mas para mim, é quase secundário, a minha preocupação não era provar que tínhamos feito um bom trabalho de casa e que a nossa reconstituição da época estava bem-feita. Dito isto, de facto, e infelizmente, existem alguns paralelismos entre essa época e os nossos dias. Ou seja este grupo, forma-se como reacção ao machismo que se vivia nessa altura, à violência de que eram vítimas enquanto mulheres. Elas vão vingar-se dos homens, de maneira até um pouco violenta por vezes. Hoje, o machismo ainda existe, temos também violência social forte que recai sobre pessoas desfavorecidas, sendo que acho que é muito maior hoje do que na altura. Existem ainda mais pessoas hoje em dia que pouco ou nada têm. Interessava-me que existissem essas ligações entre estas duas épocas aparentemente distintas.

É subentendido que existe alguma atracção física entre estas raparigas...

Acho que estas raparigas, têm uma vontade de fusão, ou seja, elas têm vontade de ser uma só, num único corpo, inicialmente apenas para serem mais fortes contra as agressões externas. Depois, acho que existem também afectos. Querem tocar-se, estar mesmo muito próximas para serem irmãs de sangue como elas dizem no filme. Se existe homossexualidade, o que eu acho possível, elas não o podem dizer entre elas, não o podem admitir. Ficam-se pelo desejo sem concretizá-lo porque a prioridade daquelas raparigas não é essa. A prioridade é resistir. E depois porque afirmar uma homossexualidade num grupo de raparigas de 14 anos não é fácil, e acho que o filme mostra essa dificuldade.
O filme mostra a dominação sexual masculina e como sem o saber, acabam por fazer política sem sequer conhecer a palavra “feminismo”... Como é que elas podem reagir a toda aquela violência de que são vítimas é a razão primeira da constituição do grupo. O que me interessou também é que todo o percurso de resistência que se seguiu e que as levou para um terreno muito político nasce assim de uma questão iminentemente política mas sobretudo sentida, na pele, por elas. E foi isso que me despertou também no livro. Saber como a política se encarna antes de ser pensada. Estas raparigas de facto nunca ouviram a palavra feminismo, mas sofreram na pele várias agressões e vão por isso inventar o conceito político do feminismo pelas suas atitudes, pelas suas reacções quase epidérmicas. E é sempre assim que eu gosto de olhar para a política.

Podemos então dizer que é um filme feminista?

Sim, espero que seja um filme feminista e também um pouco subversivo. Penso que é uma história que diz algumas verdades, pouco agradáveis, acerca da nossa sociedade. Por exemplo, quando nos dizem que só devíamos falar de felicidade, penso que pelo contrário, este filme coloca o dedo na ferida que neste caso é uma espécie de amnésia que se quer criar à nossa volta, uma espécie de anestesia geral que só nos faria falar sobre a felicidade. Assim, ninguém entra em confrontos. Estas raparigas decidem que não, que afinal a felicidade constrói-se, que é preciso ganhá-la, e que a felicidade reside na acção. Acho que esta é a mensagem principal do filme.

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 10

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