logo

Entrar
Actualizado às 11:21 PM, Dec 4, 2019

Son of Saul

«Saul Fia» («O Filho de Saul») foi o acontecimento e a revelação da 68ª edição do Festival de Cannes. Primeiro porque se tratava da única primeira obra a competir para a Palma de Ouro entre 19 selecionadas. Segundo, e mais relevante, porque o cineasta húngaro, László Nemes, nascido em 1977, conseguiu fazer um filme invulgar sobre o Holocausto. O dispositivo dramático do filme coloca em cena Saul Ausländer, membro do Sonderkommando no campo de Auschwitz-Birkenau, o grupo de prisioneiros judeus que os nazis forçavam a cooperar nas suas práticas de extermínio. Toda a deambulação da câmara pelos locais do campo está colada aos movimentos de protagonista, e assim vamos adivinhando os horrores pelos diálogos, ruídos, situações vagamente vistas e reações faciais. É um filme original com uma perspetiva realista e testemunhal sobre o que correu no interior daquele campo.

Tiago Alves em Cannes

O Conto dos Contos

Convenhamos que é uma surpresa: Matteo Garrone, o cineasta italiano de «Gomorra» (2008) e «Reality» (2012), a dirigir uma produção internacional, falada em inglês, baseada nos contos fantásticos de Giambatista Basile (1566-1632). O resultado tem tanto de sofisticação técnica como de pretensiosismo estético, colocando Garrone entre as mais inesperadas desilusões deste festival.

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

Título Nacional O Conto dos Contos Título Original Il racconto dei racconti Realizador Matteo Garrone Actores Salma Hayek, Vincent Cassel, Toby Jones Origem Itália/França/Reino Unido Duração 125’ Ano 2015

O Principezinho

Sermos responsáveis pelos amores que cativamos pelo caminho é uma lição que Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) ensinou à sua legião de leitores desde a publicação de “Le Petit Prince” em 1943. Os saberes que o principezinho adquire a duras penas, em meio a baobás invaginando a paisagem do asteróide B-612, são compartilhadas nesta releitura do diretor Mark Osborne («Kung Fu Panda») a partir de uma narrativa capaz de mesclar diferentes técnicas de animação. O eixo é encontro de uma menina com seu vizinho excêntrico, um aviador (dublado por Jeff Bridges no original) que, num passado distante, travou contato com um garotinho de outro mundo. A trilha sonora de Hans Zimmer e Richard Harvey pontua os momentos de maior coeficiente lacrimoso do livro, que foi relido por Osborne com o cuidado de preservar sua dimensão filosófica. As reflexões de que jiboias podem engolir elefantes, uma vez que a imaginação é mais forte do que conhecimento, voltam aqui arejadas por recursos de computação gráfica, comunicando-se mais diretamente com novas gerações. É uma pedida certa para o Oscar de melhor longa animado de 2016.

Rodrigo Fonseca em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

Hrútar

É comum à cena dos grandes festivais da Europa esperar (com apetite antropológica) exotismos de continentes como a Ásia e a África. Mas este ano, o filme mais exótico (sobre a cultura menos familiar) veio do próprio Velho Mundo, da gelada Islândia, trazida pelo diretor Grímur Hákonarson («Sommerland»). Prêmio de melhor filme da mostra Um Certain Regard de 2015, «Hrútar» (no original) venceu por propor uma conciliação quase poética entre animais quadrúpedes e bípedes com cérebro pensante, numa perspectiva ecológica e metafórica. A metáfora maior é a da tolerância, coisa que mamíferos como os carneiros do título em inglês professam e os homens e mulheres, não. Na trama, com rasgos de humor, dois velhos, irmãos de sangue, odeiam-se há 40 anos. Em comum, eles têm apenas o cuidado com seus bichinhos chifrudos e cheios de lã. Mas quando o Estado baixa uma lei de que os rebanhos caprinos, maculados por uma doença, precisam ser abatidos, os dois antagonistas terão que se unir, rendendo cenas de arrancar lágrimas.

Rodrigo Fonseca em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

Comoara

O cinema do romeno Corneliu Porumboiu («12.08 a Este de Bucareste», «Quando a Noite Cai em Bucareste», etc.) vive de uma cruel contradição: sob a capa da banalidade quotidiana escondem-se os fantasmas da tragédia. Assim volta a acontecer neste filme centrado num tesouro (é essa a palavra do título original) que um homem insiste estar escondido no jardim de uma casa que herdou dos avós, conseguindo mobilizar o seu relutante vizinho para uma homérica escavação... A crónica social confunde-se, aqui, com o mais profundo desencanto moral, numa narrativa que, como sempre, envolve um exemplar trabalho de direcção de actores.

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Carol

Na vasta paisagem de filmes americanos que, ao longo das últimas décadas, têm recuperado as matrizes clássicas de Hollywood, Todd Haynes constitui um criador fundamental. Treze anos depois de Longe do Paraíso, ele volta a percorrer o labirinto das pulsões melodramáticas para encenar o amor de duas mulheres no contexto não muito acolhedor da década de 1950. É uma prodigiosa adaptação de um romance de Patricia Highsmith (título original: “The Price of Salt”), centrada nas composições de Cate Blanchett e Rooney Mara. Será desta que, com a sua direcção fotográfica inspirada no technicolor dos anos 50, Edward Lachman ganha um Oscar?

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Dope

A vida de um grupo de adolescentes num bairro problemático de Los Angeles surge transfigurada através de um sábio doseamento de hip hop (eles são fanáticos dos anos 90) que, insolitamente, aproxima o filme de algumas componentes clássicas do filme musical. Dir-se-ia uma variação sobre temas e matrizes de Spike Lee, transfigurada por uma sensibilidade que não é estranha a métodos narrativos de algum documentarismo — uma das boas revelações da Quinzena.

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

The Sea of Trees

Embora vaiado por sua aposta numa linguagem mais conservadora, o novo filme de Gus Van Sant confirma o rigor de enquadramentos e a busca pelo refinamento plástico que marcam o cineasta desde «Elefante» (2003). Ao falar sobre a epopeia suicida de um professor de Ciências no Japão, o diretor extrai de Matthew McConaughey mais uma atuação memorável, em um ensaio de tons poéticos sobre a educação pela dor. Abalado pela perda de sua mulher (Naomi Watts), o filme cruza dois diferentes tempos: o passado - no qual o personagem de Matthew luta para salvar a esposa e enfrenta a brutalidade dela – e o presente – no qual ele se embrenha pelas florestas do Japão ao lado de um desconhecido misterioso. O asiático cercado de mistérios é interpretado por Ken Watanabe e ele funciona como a medida do sobrenatural no longa, cuja fotografia do dinamarquês Kasper Tuxen merece indicação ao Oscar.

Rodrigo Fonseca em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Assinar este feed RSS