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Actualizado às 11:43 AM, Jul 21, 2019

Hrútar

É comum à cena dos grandes festivais da Europa esperar (com apetite antropológica) exotismos de continentes como a Ásia e a África. Mas este ano, o filme mais exótico (sobre a cultura menos familiar) veio do próprio Velho Mundo, da gelada Islândia, trazida pelo diretor Grímur Hákonarson («Sommerland»). Prêmio de melhor filme da mostra Um Certain Regard de 2015, «Hrútar» (no original) venceu por propor uma conciliação quase poética entre animais quadrúpedes e bípedes com cérebro pensante, numa perspectiva ecológica e metafórica. A metáfora maior é a da tolerância, coisa que mamíferos como os carneiros do título em inglês professam e os homens e mulheres, não. Na trama, com rasgos de humor, dois velhos, irmãos de sangue, odeiam-se há 40 anos. Em comum, eles têm apenas o cuidado com seus bichinhos chifrudos e cheios de lã. Mas quando o Estado baixa uma lei de que os rebanhos caprinos, maculados por uma doença, precisam ser abatidos, os dois antagonistas terão que se unir, rendendo cenas de arrancar lágrimas.

Rodrigo Fonseca em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

Comoara

O cinema do romeno Corneliu Porumboiu («12.08 a Este de Bucareste», «Quando a Noite Cai em Bucareste», etc.) vive de uma cruel contradição: sob a capa da banalidade quotidiana escondem-se os fantasmas da tragédia. Assim volta a acontecer neste filme centrado num tesouro (é essa a palavra do título original) que um homem insiste estar escondido no jardim de uma casa que herdou dos avós, conseguindo mobilizar o seu relutante vizinho para uma homérica escavação... A crónica social confunde-se, aqui, com o mais profundo desencanto moral, numa narrativa que, como sempre, envolve um exemplar trabalho de direcção de actores.

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Carol

Na vasta paisagem de filmes americanos que, ao longo das últimas décadas, têm recuperado as matrizes clássicas de Hollywood, Todd Haynes constitui um criador fundamental. Treze anos depois de Longe do Paraíso, ele volta a percorrer o labirinto das pulsões melodramáticas para encenar o amor de duas mulheres no contexto não muito acolhedor da década de 1950. É uma prodigiosa adaptação de um romance de Patricia Highsmith (título original: “The Price of Salt”), centrada nas composições de Cate Blanchett e Rooney Mara. Será desta que, com a sua direcção fotográfica inspirada no technicolor dos anos 50, Edward Lachman ganha um Oscar?

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Dope

A vida de um grupo de adolescentes num bairro problemático de Los Angeles surge transfigurada através de um sábio doseamento de hip hop (eles são fanáticos dos anos 90) que, insolitamente, aproxima o filme de algumas componentes clássicas do filme musical. Dir-se-ia uma variação sobre temas e matrizes de Spike Lee, transfigurada por uma sensibilidade que não é estranha a métodos narrativos de algum documentarismo — uma das boas revelações da Quinzena.

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

The Sea of Trees

Embora vaiado por sua aposta numa linguagem mais conservadora, o novo filme de Gus Van Sant confirma o rigor de enquadramentos e a busca pelo refinamento plástico que marcam o cineasta desde «Elefante» (2003). Ao falar sobre a epopeia suicida de um professor de Ciências no Japão, o diretor extrai de Matthew McConaughey mais uma atuação memorável, em um ensaio de tons poéticos sobre a educação pela dor. Abalado pela perda de sua mulher (Naomi Watts), o filme cruza dois diferentes tempos: o passado - no qual o personagem de Matthew luta para salvar a esposa e enfrenta a brutalidade dela – e o presente – no qual ele se embrenha pelas florestas do Japão ao lado de um desconhecido misterioso. O asiático cercado de mistérios é interpretado por Ken Watanabe e ele funciona como a medida do sobrenatural no longa, cuja fotografia do dinamarquês Kasper Tuxen merece indicação ao Oscar.

Rodrigo Fonseca em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Inside Out

O novo filme da Pixar lida com um tema que os espectadores dos filmes do estúdio de animação conhecem muito bem: as emoções. A raiva, o medo, a repulsa, a tristeza e a alegria, protagonizam grande parte das decisões tomadas por uma rapariga de 11 anos. A mente é o cenário da ação de um filme que nos desvenda o percurso das memórias, os atalhos para o subconsciente e a forma como se consolida a personalidade. As emoções assumem o protagonismo, o que sendo original não deixa de ser excessivo porque o espectador nunca chega a criar uma verdadeira empatia com a criança. Não está à altura das obras primas da Pixar mas é um filme original, que tem o arrojo de lidar bem com algo de novo. Vale a pena saudar um filme totalmente novo da Pixar, o que não sucedia desde «Brave - Indomável» (2012).

Tiago Alves em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Uma Pastelaria em Tóquio

Este é um daqueles filmes tocados por uma sensibilidade impossível de condensar em qualquer sinopse. Digamos que se trata do retrato de duas personagens unidas pela gastronomia: ele é Sentaro (Nagasi Masatoshi), proprietário de uma espécie de quiosque onde vende guloseimas típicas do Japão; ela é Tokue (Kiki Kirin), uma velha senhora que insiste em ser contratada por Sentaro, oferecendo-lhe a sua receita tradicional da pasta feijão (“an”) que serve de recheio aos clássicos “dorayakis”... A partir daí, Naomi Kawase («A Quietude da Água») constrói uma tocante odisseia, amarga e doce, sobre a aprendizagem, a solidariedade e também o pressentimento da morte.

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Dheepan - Cannes 2015

O mais recente filme de Jacques Audiard Iida com o problema extremamente atual da imigração na Europa, contando a história de um homem do Sri Lanka, Dheepan (Jesuthasan Anthonythasan), que se refugia em França. É uma saga de uma falsa família, porque Dheepan foge da guerra no seu país acompanhado de uma mulher e de uma menina – os três simulam uma possibilidade de existência familiar. É um filme que observa a falência de diversidade, harmonia e solidariedade na sociedade francesa, expondo as condições dos mais fracos. Como sucede nos filmes de Audiard, as suas personagens estão feridas e encontram a redenção numa réstia de afeto. «Dheepan» não é o filme mais consistente de Audiard – basta citar os anteriores «Um Profeta», 2009 e «Ferrugem e Osso» de 2012 –, mas devido á sua temática acabou por ser oportunamente consagrado com a Palma de Ouro.

Tiago Alves em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

 

 

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