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Actualizado às 12:40 PM, Sep 22, 2018

CANNES: Spike Lee

Em 1978, o detective Ron Stallworth, oficial de polícia no estado do Colorado, conseguiu infiltrar-se na rede racista do Ku Klux Klan... O simples facto de Stallworth ser um indivíduo de pele negra torna a sua história um caso extraordinário no interior da história mais geral dos afro-americanos. Agora, Spike Lee revisita essas memórias em «BlacKkKlansman», prodigiosa abordagem nas tensões raciais, com evidentes e assumidas ressonâncias no nosso presente — é, para simplificar, um dos filmes maiores de Cannes/2018, desses que são capazes de discutir, politicamente, a percepção do próprio real.

CANNES: Panahi

O plano de abertura de «3 Visages», de Jafar Panahi, ficará, por certo, como um dos mais viscerais acontecimentos cinematográficos de Cannes/2018: uma jovem filma-se no seu telemóvel, dirigindo-se à actriz Behnaz Jafari e anunciando um fim trágico para a sua própria existência... Subitamente, o cinema reencontra esse esplendor material de, mais do que "reprodução" de vida, ser facto vital, implicando corpos e desejos. Depois, Jafari e o próprio Jafar Panahi (mais uma vez assumindo o seu próprio papel) empreendem uma viagem de prospecção que os leva — e nós com eles — a um Irão esquecido entre montanhas, marcado por muitas peculiaridades, incluindo o uso corrente da língua turca. Panahi filma o seu povo e, através dele, a dificuldade, por certo eufórica, de ser cineasta. As autoridades do Irão não permitiram que Panahi viajasse até à Côte d'Azur, mas o seu filme não deixa de ser um belíssimo périplo através da utopia de liberdade que as imagens e os sons transportam.

CANNES: Godard

Godard contra o resto do mundo?... Não exactamente — há mesmo nele um desejo de comunicação tecido através da contemplação de uma infinitude de diferenças. O certo é que temos sempre a sensação de que há o cinema de Jean-Luc Godard e, do outro lado, o resto do mundo. Aliás, corrijo: o cinema godardiano habita o mundo, transfigurando-o, levando-nos a repensar certezas e ideias feitas. «Le Livre d'Image», objecto sublime, é mais um capítulo dessa viagem arfante por memórias históricas e cinéfilas, desembocando nas convulsões contemporâneas do mundo árabe — um filme para ler como um livro, reavaliando, não apenas a arte de olhar, mas a capacidade de ver.

CANNES: actores

Pierre Deladonchamps e Vincent Lacoste: dois actores verdadeiramente em estado de graça num filme que, não por acaso, os trata como matéria prima essencial — «Plaire, Aimer et Courir Vite» revisita os anos 90, assombrados pela sida, através de um sistema de relações em que, em última instância, é o próprio valor (social ou individual) do amor que se encontra em transe — ou em trânsito, se quisermos encarar a história como uma permanente deslocação das próprias condições materiais que (nos) levam a estabelecer valores. Assinado por Christophe Honoré, eis um filme de contida beleza que nos recorda, afinal, que a herança narrativa e simbólica de François Truffaut (1932-1984) continua bem viva.

 

CANNES: Welles

Não a formatada evocação biográfica, mas a consciência de que qualquer biografia do outro envolve também um auto-retrato do biógrafo: assim é «The Eyes of Orson Welles», o trabalho de Mark Cousins sobre o cineasta de «O Mundo a Seus Pés», «O Processo» e «As Badaladas da Meia-Noite». Apresentado na secção Cannes Classics, este filme-em-forma-de-carta (dirigida ao próprio Welles) é também uma derivação feliz das experiências desenvolvidas por Cousins na monumental «A História do Cinema: Uma Odisseia» — ou como revisitar as memórias dos filmes é também uma via de interrogação do que significa... fazer um filme [fragmento].

CANNES: Paul Dano

Lembram-se dele, com esta pose de anjo demasiado inocente, a invadir a consciência de Daniel Day-Lewis em Haverá Sangue (2007), de Paul Thomas Anderson? Pois bem, Paul Dano (nascido em Nova Iorque, 1984) estreou-se na realização com Wildlife, adaptação do romance homónimo de Richard Ford sobre a metódica decomposição dos laços afectivos entre um pai (Jake Gyllenhaal), uma mãe (Carey Mulligan) e o seu filho (Ed Oxenbould), na América do começo da década de 1960. Escrito em colaboração com a sua companheira, Zoe Kazan (neta de Elia Kazan), este é um filme de textura austera e clássica, expondo os desencontros de todas as formas de amor e, desse modo, revitalizando uma matriz narrativa que, de facto, se interessa pela complexidade afectiva das personagens — foi o título escolhido para abertura da Semana da Crítica.

The Meyerowitz Stories

Encarado como um peixe fora d'água em Cannes, por ter no seu milionário currículo fenómenos de bilheteria e uma série de filmes laureados com os Razzies, Adam Sandler viveu um dia de glória na 70ª edição do festival francês ao arrancar aplausos e lágrimas à frente o drama de tons cómicos «The Meyerowitz Stories». Foi o argumento mais bem urdido de todo a seleção competitiva pela Palma de Ouro. A direção é de Noah Baumbach, dos cults «Frances Há» (2012) e «A Lula e a Baleia» (2012). E, sob a batuta dele, o astro de «Click» (2006) se junta a um elenco estelar, que junta Emma Thompson, Dustin Hoffman e Ben Stiller numa narrativa dolorosa, de gargalhadas sazonais, mas magnetizante. Há tristeza, mas também há humor aos quilos nesta trama da grife Netflix cuja trama fala sobre a reestruturação da família de um veterano escultor (Hoffman) menos reconhecido do que deveria. Stiller é o filho rico e bem-sucedido; Sandler, o fracassado.

The Meyerowitz Stories (New and Selected), argumentado e realizado por Noah Baumbach, é protagonizado por Adam Sandler, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Elizabeth Marvel, Grace Van Patten e Emma Thompson e assenta numa história intergeracional, na qual irmãos adultos argumentam contra a influência de um pai envelhecido. The Meyerowitz Stories (New and Selected), de IAC Films, foi produzido por Scott Rudin, Baumbach, Lila Yacoub e Eli Bush.

Festival de Cannes: «The Square» vence a Palma de Ouro

O Festival de Cannes atribuiu a Palma de Ouro a «The Square» do sueco Ruben Ostlund que dirigiu e escreveu a sátira interpretada por Claes Bang e Elisabeth Moss. O júri foi presidido por Pedro Almodóvar e foi composto por Will Smith, Jessica Chastain, Agnès Jaoui, Park Chan-wook, Maren Ade, Paolo Sorrentino, Fan Bingbing e Gabriel Yared.

Sofia Coppola com «The Beguiled» tornou-se a segunda mulher a ganhar o prémio de melhor realização em Cannes, o filme conta com a participação de Nicole Kidman e Colin Farrel. Maren Ade (membro do júri) recebeu o prémio por Sofia Coppola que não esteve presente.

O Grand Prix foi atribuído a «120 Minutos» de Robin Campilo.

Nicole Kidman recebeu um prémio especial do Festival, a actriz esteve em competição com «The Beguiled» e «Killing of a Sacred Deer», ainda participou no certame na mini-série «Top of the Lake» de Jane Campion e no filme «How to Talk to Girls at Parties». O actor Will Smith (membro do júri) recebeu o prémio por Nicole Kidman que não esteve presente.

Joaquin Phoenix regressou aos grandes desempenhos com «You Were Never Really Here» de Lynne Ramsay, interpretou o papel de um assassino profissional que tenta salvar uma jovem prostituta, um desempenho que valeu o prémio de melhor actor. O prémio de melhor actriz foi para a alemã Diane Kruger no filme «In the Fade» de Faith Akin.

O prémio do Júri foi para «Loveless» do russo Andrey Zvyagintsev. O prémio de melhor argumento foi entregue a dois filmes, «The Killing of a Sacred Deer« da habitual dupla de colaboradores Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou e para o argumento de Lynne Ramsay em «You Were Never Really Here».

«A Gentle Night» do realizador chinês Qiu Yang recebeu a Palma de Ouro para melhor curta-metragem. O filme «Katto» de Teppo Airaksinen recebeu uma menção especial nesta mesma categoria.

O prémio Camera d´Or, atribuído à melhor primeira obra no Festival foi para Leonor Serraille pela realização de «Jeune Femme».

A Metropolis teve cinco colaboradores em Cannes, podem ler tudo sobre a 70ª edição do Festival no próximo número da revista.

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