logo

Entrar
Actualizado às 11:08 AM, Oct 16, 2019

Curta portuguesa ganha Urso de Ouro

Uma curta-metragem portuguesa — Cidade Pequena, de Diogo Costa Amarante — foi distinguida com o Urso de Ouro da respectiva categoria na 67ª edição do Festival de Berlim. Outra curta portuguesa — Os Humores Artificiais, de Gabriel Abrantes — ganhou o direito a concorrer aos Prémios do Cinema Europeu referentes a 2017.

Na categoria de longas, o vencedor do certame foi On Body and Soul, de Ildikó Enyedi (Hungria) — no site oficial do certame, encontramos a lista completa de prémios.

Aki Kaurismaki vence Urso de Prata em Berlim

Aki Kaurismaki venceu o prémio de melhor realizador no Festival de Cinema de Berlim com o filme «The Other Side of Hope», uma comédia dramática sobre um refugiado sírio em Helsínquia durante a recente crise dos refugiados na Europa. O filme teve uma recepção muito positiva juntos dos críticos em Berlim.

O enredo retrata a aventura do refugiado sírio, Khaled (Sherwan Haji), que se esconde num cargueiro para Helsínquia com o intuito de pedir asilo, quando não é concedido o seu pedido Khaled foge e começa a viver nas ruas. O refugiado encontra abrigo junto de um excêntrico ex-caixeiro viajante transformado num restaurador falhado, um personagem interpretado por Sakari Kuosmanen, um habitual colaborador de Aki Kaurismaki.

O autor finlandês revelou esta semana à imprensa que «The Other Side of Hope» seria o seu último filme como realizador. Aki Kaurismaki já realizou dezoito longas metragens desde a sua estreia em 1983 com « Rikos ja rangaistus».

A Metropolis teve pelo segundo ano consecutivo dois jornalistas em Berlim, cobertura do festival na edição de Março da vossa revista de cinema.

Where to Invade Next

«Where to Invade Next», de Michael Moore: Neste ano em que o Urso de Ouro coroou o real, ao parar nas mãos do documentário «Fuocoammare», a estética da não-ficção teve espaço para brilhar em múltiplos níveis na Berlinale, levando ao evento o filme mais engraçado do ano até agora: «Where to Invade Next», de Michael Moore. Agora, o realizador de «Bowling for Columbine» (2002) corre o planeta tentando “roubar” o melhor de países como a Finlândia, a Noruega e a Alemanha em termos de educação, sistema carcerário e política bancária, a fim de melhorar a vida nos EUA. Até Portugal entra na roda, numa sequência deliciosa acerca da questão da segurança garantida pela Polícia em território luso. Na jornada, a desilusão de Moore com sua pátria é enorme. Mas esta rende cenas antológicas que fizeram a Berlinale repensar várias coisas, desde a queda do Império estadunidense até à dimensão plástica pop da realidade nas telas.

Rodrigo Fonseca em Berlim

HISTÓRIA
Onde invadir a seguir? O oscarizado documentarista Michael Moore faz uma oferta ao Pentágono para invadir países distantes como um exército de um homem só homem. Existem três regras na campanha do realizador: não disparar em ninguém, não saquear petróleo e trazer de volta algo útil para os concidadãos norte-americanos. Mas a sua viagem de pesquisa serve outro propósito, apresentar soluções do mundo para os problemas sociais existentes nos EUA.

Realizador:
Michael Moore

Estados Unidos, 2015

119 min

Miles Ahead

«Miles Ahead», de Don Cheadle: Num trabalho fenomenal de direção, surpreendente para um estreante, o astro de «Hotel Ruanda» faz seu debute atrás das câmeras com uma estrutura narrativa fora dos padrões das cinebiografias ao narrar um recorte da vida do jazzista Miles Davis. De quebra, Cheadle ainda atua, emprestando sua carne a uma caracterização do trompetista em dois momentos distintos de sua vida, nos anos 1950 e 70, onde o longa-metragem ganha um ritmo de filme de gângster, com tiros e perseguições. Nos créditos, uma metalinguagem documental alinhava o espírito indômito de Cheadle como realizador.

Rodrigo Fonseca em Berlim

HISTÓRIA

Passaram-se anos desde que Miles Davis apresentou-se em palco. Agora, no final da década de 1970, ele vive como um recluso no Upper West Side em Nova York. A cocaína é o seu único companheiro constante, e há apenas um momento em que ele não tem um copo cheio ou um cigarro na mão. O trompetista de jazz está a planear um regresso, mas a sua privacidade é constantemente interrompida por um jornalista da Rolling Stone que está sempre a aparecer à sua porta.

Realizador:
Don Cheadle

Elenco:
Don Cheadle
Ewan McGregor
Emayatzy Corinealdi, Lakeith Lee Stanfield

Estados Unidos, 2015
100 min

FUOCOAMMARE - Vencedor do Urso de Ouro em Berlim

O documentário de Gianfranco Rosi «Fuocoammare» (Fire at Sea), sobre a crise dos refugiados no mediterrâneo ao largo da ilha italiana de Lampedusa, venceu o Urso de Ouro para o melhor filme no Festival Internacional de Cinema de Berlim neste sábado. O júri foi presidido por Meryl Streep.

O festival chegou mesmo a doar bilhetes a refugiados para estarem presentes nas sessões do certame. O realizador Gianfranco Rosi prestou tributo aqueles que arriscam as suas vidas para escaparem à guerra e à pobreza, e às pessoas de Lampedusa que os receberam de braços abertos. O realizador afirmou ao dedicar o prémio às pessoas da ilha “neste momento os seus pensamentos estão com todas as pessoas que nunca chegaram a Lampedusa nessas viagens de esperança”. Ainda acrescentou que ao questionar o Dr. Pietro Bartolo (um terapeuta local que acompanha os refugiados) a razão pelo qual Lampedusa recebe milhares de pessoas “Ele disse-me que Lampedusa é um lugar de pescadores, somos pescadores, e os pescadores, aceitam sempre, tudo o que vem do mar. Talvez isso seja uma lição que nós possamos aprender e aceitar tudo o que vem do mar,”.

«Fuocoammare» relata a vida diária na pequena ilha, sobretudo através dos olhos de Samuele, um jovem rapaz que constrói fisgas e vagueia pela ilha onde vive com os avós e o pai. No largo da ilha, a marinha italiana procura por embarcações sobrelotadas de refugiados oriundas do norte de África, nesses barcos sem condições morrem pessoas de sufocamento e asfixia dos fumos do diesel. A marinha traz os sobreviventes para Lampedusa e encaminhamento para os centros de refugiados. O filme tem distribuição nacional assegurada pela Leopardo Filmes.

Noutros prémios do Festival, o Urso de Prata foi atribuído a Mia Hansen-Love pelo filme «L´Avenir» (Things to Come), o prémio de melhor actor foi para Majd Mastoura no desempenho do tunisino «Inhebbek Hedi» (Hedi) e o galardão para a interpretação feminina foi para Trine Dyrholm no dinamarquês «Kollektivet» (The Commune). O melhor argumento foi para o realizador e argumentista polaco Tomasz Wasilewski em «Zjednoczone Stany Milosci» (United States of Love) e o prémio de melhor contribuição artística foi para o director de fotografia Mark Lee Ping-Bing no chinês «Chang Jiang Tu» (Crosscurrent).

Portugal venceu também um prémio no festival com o Urso de Ouro para a melhor curta- metragem «Balada de um Batráquio» o primeiro filme da realizadora Leonor Teles fora do contexto escolar, foi a mais jovem de sempre a vencer este galardão.

Ainda foi atribuído o prémio "Silver Bear Alfred Bauer" a um filme que abre novas perspectivas para o filipino «Hele sa Hiwagang Hapis» (A Lullaby to the Sorrowful Mystery), uma obra com oito horas de duração realizada por Lav Diaz. O director do festival Dieter Kosslick afirmou que visionar o filme de Lav Diaz foi uma experiência única, não só pela duração mas pelo facto da estreia do filme na passadeira vermelha se ter realizado às 8h30 da manhã...

A Metropolis continua a tradição e esteve novamente em Berlim, este ano com dois jornalistas, Rodrigo Fonseca e Rui Pedro Tendinha, saibam tudo o que passou na Berlinale na edição de Março da revista Metropolis.

Lista de Premiados:

Urso de Ouro de Melhor Filme: Fire at Sea de Gianfranco Rosi
Urso de Prata Grande Prémio do Júri: Death in Sarajevo de Danis Tanovic
Urso de Prata Alfred Bauer Prize: A Lullaby to the Sorrowful Mystery de Lav Diaz
Urso de Prata Melhor Realização: Mia Hansen em Things to Come
Urso de Prata Melhor Actriz: Trine Dyrholm em The Commune
Urso de Prata Melhor Actor: Majd Mastoura em Hedi
Urso de Prata Melhor Argumento: United States of Love de Tomasz Wasilewski
Urso de Prata para Contribuição Artística: Crosscurrent de Mark Lee Ping-Bing
Melhor Primeira Obra: Hedi de Mohamed Ben Attia
Urso de Ouro de Melhor Curta Metragem: Balada De Um Batráquio de Leonor Teles
Urso de Prata Prémio do Júrio (Curta-Metragem): A Man Returned de Mahdi Fleifel
Audi Short Film Award: Anchorage Prohibited de Chiang Wei Liang

 

Urso de Ouro de Melhor Curta da Berlinale para Balada de um Batráquio

Leonor Teles é a mais jovem realizadora de sempre a vencer o Urso de Ouro para melhor curta metragem no Festival de Cinema de Berlim. Uma dupla proeza, se pensarmos que Balada de um Batráquio é o seu primeiro filme fora de contexto escolar. O filme conquistou o Júri da Competição Internacional de Curtas Metragens da Berlinale, que lhe atribuiu o grande prémio, mas também o público - as ovações das salas esgotadas não deixaram margem para dúvidas.

"Balada de um Batráquio nasce aquando de uma revelação – a tradição portuguesa de colocar sapos de loiça à entrada de restaurantes e outros estabelecimentos comerciais para afastar e impedir a frequência de pessoas ciganas. Através da minha história pessoal pretendi chamar a atenção para um comportamento crescente que se aproveita da crença e da superstição como forma de menosprezar e distanciar outros seres humanos."

Leonor Teles

Fonte: Portugal Film

O Clube

O verdadeiro choque positivo do festival veio do Chile com «El Club», de Pablo Larraín. Uma história sobre padres pedófilos que estão refugiados num pequeno povoado ao largo da costa chilena. Uma obra que já está a inflamar muita gente pela forma como tem coragem de ser explícito na sua denúncia de crimes sexuais perpetrados no ceio da Igreja Católica. «El Club» é uma descida muito negra aos infernos, nada manso com os católicos. O espetador sai da sala como se tivesse perdido um pouco a sua inocência. Depois de «Não», estreado em Portugal em 2013, Larraín confirma-se como um dos mais diabólicos e certeiros cineastas deste tempo. A dada altura, a sua mise en scéne explode com uma violência gráfica na ordem do teatral, neste caso saída de um teatro de horrores. É impressionante. Venceu o Urso de Prata e parece certo que ao longo deste ano vai provocar uma grande polémica com a comunidade católica...

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Rainha do Deserto

A vida de Gertrude Bell, a mulher que nos anos 20 teve um papel instrumental na forma como o Médio Oriente ficou dividido, não deu um bom filme. O argumento de Herzog explora a sua juventude e o primeiro desgosto amoroso, uma paixão proibida por um homem de baixa condição social. Mais tarde, Bell tornou-se escritora, arqueóloga e aventureira, tendo mantido com o povo beduíno uma relação privilegiada. Nicole Kidman, de cabelo dourado e sempre muito maquilhada, passeia-se de camelo pelo deserto em pose de diva mas nunca nos dá a conhecer a verdadeira alma de uma mulher que acabou por ser agente secreta da coroa britânica e amiga pessoal de T.E. Lawrence (interpretado sem genica alguma por Robert Pattinson), exatamente Lawrence da Arábia. Mas se é verdade que o cineasta alemão quis fazer a sua “versão feminina de Lawrence da Arábia”, também é verdade que a espessura épica de David Lean não é para aqui chamada. O que é infelizmente convocado é um academismo insuportável, próprio de uma lição de História decorativa. Todo o filme parece demasiado polido, carece da habitual excentricidade de Herzog, que aqui em Berlim referiu que este seu trabalho pode ser visto como um gesto feminista. Claro que não pode. Não basta filmar uma heroína a suar no deserto para ganhar um carimbo feminista...Também sem sal estão os homens do filme: Damian Lewis e o omnipresente James Franco, a interpretar os dois homens que Gertrude amou. A pior obra da carreira do grande cineasta alemão.

Queen of the Desert de Werner Herzog

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Assinar este feed RSS