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Actualizado às 8:37 AM, Jun 18, 2019

«Eis o Admirável Mundo em Rede» - Herzog, a Net e o nosso futuro

Werner Herzog faz o inventário da Internet, passado, presente e futuro — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Novembro), com o título 'Herzog interroga o mundo da Internet'.

Esta semana, no panorama das estreias, deparamos com uma opção sugestiva e feliz: a actividade da nova empresa Cinema Bold (ligada à distribuidora Alambique) arranca com o lançamento do filme de Werner Herzog, Eis o Admirável Mundo em Rede. O projecto de difundir filmes “não alinhados” (o rótulo de “independentes” talvez já não seja suficiente) que nos convoquem de forma original para os temas mais diversos, e também mais actuais, fica bem ilustrado por este documentário que nos faz ver que talvez ainda não tenhamos prestado a devida atenção ao novelo de temas, problemas e perplexidades que o mundo virtual contém ou suscita.

Afinal de contas, é bem verdade que a evolução fulgurante da Internet continua a atrair uma beatitude pueril, não poucas vezes sancionada pela retórica mediática. Por exemplo, como podemos descrever a muito badalada Web Summit para além dos entediantes lugares-comuns que a envolveram? Foi um grande acontecimento pelas ideias que atraiu, produziu e divulgou, ou apenas porque a linha verde do Metro duplicou o número de carruagens?...

Com a sua contagiante ironia, Herzog é o primeiro a reconhecer que a evolução das novas tecnologias envolve debates muito sérios e também fenómenos mais ou menos caricaturais. Um dos seus entrevistados é mesmo um criador de robots que jogam futebol, crente de que a sua equipa, um dia, reduzirá Cristiano Ronaldo a uma personagem banal... Porque não? O que importa reter é a evidência, também ela irónica, por vezes trágica, de que nada do que é humano está a escapar às convulsões deste admirável mundo em rede (ou do “mundo conectado”, traduzindo à letra a expressão que está no título original).

Em boa verdade, o documentário de Herzog segue uma lógica mais ou menos tradicional, combinando entrevistas com diversas personalidades (professores, investigadores, investidores) e uma voz off (do próprio realizador) que, com salutar distanciamento jornalístico, nos vai lembrando que o fascínio imediato dos factos da Internet pode e deve ser temperado pela interrogação mais extrema: através do mundo em rede, estamos a diversificar as conexões dos seres humanos ou, no limite, a transfigurar (e destruir) as mais ancestrais noções de humanidade e humanismo?

Escusado será sublinhar que estamos perante um filme de sedutora actualidade, confirmando a energia do olhar documental do veterano cineasta alemão (nascido em Munique, em 1942). E não deixa de ser irónico, também, que a sua obra se tenha afirmado através de títulos tão peculiares como Aguirre, a Cólera de Deus (1972) ou Nosferatu, o Fantasma da Noite (1979), em que a utopia, o sonho e o pesadelo funcionavam como caminhos de superação dos limites de qualquer existência normal. Dir-se-ia que Herzog redescobriu as delícias do fantástico através do didactismo do género documental.

  • Publicado em Feature

«Eis o Admirável Mundo em Rede» - Werner Herzog

«Eis o Admirável Mundo em Rede», o novo filme do cineasta alemão Werner Herzog, é um documentário expansivo e detalhado sobre algo que usamos todos os dias mas que, na verdade, é incrivelmente recente na História do Homem: a Internet. Desdobrado em 10 capítulos, Herzog narra a importância da internet e das ligações que esta cria, explicando o seu surgimento, as consequências aditivas em algumas pessoas ou a inteligência artificial. Revelando uma pesquisa extensiva e abordando vários especialistas, o cineasta dá-nos a conhecer – por vezes em termos muito técnicos – várias particularidades de um tema tanto abrangente como a era digital, através da análise de alguns subtemas, que, por si só, poderiam dar um documentário isolado. «Eis o Admirável Mundo em Rede» é uma obra pertinente, que deixa algumas questões em aberto, abrindo também espaço para o debate.

Rainha do Deserto

Face aos resultados desequilibrados, mas ao mesmo tempo muito motivadores, de «Rainha do Deserto», não podemos deixar de recordar que a obra do alemão Werner Herzog sempre evoluiu “condicionada” por duas componentes muito particulares: em primeiro lugar, um obstinado gosto documental que o leva, por vezes, a enfrentar desafios de fascinante radicalismo (lembremos o seu documentário «A Gruta dos Sonhos Perdidos», lançado em 2012, sobre as grutas Chauvet no sul de França); depois, o envolvimento em projectos de ficção que implicam invulgares meios humanos e logísticos (sendo «Fitzcarraldo», de 1982, sobre a construção de um teatro de ópera no meio da selva, o exemplo mais emblemático).

«Rainha do Deserto» nasce dessa mesma dinâmica. Trata-se de fazer o retrato de Gertrud Bell (1868-1926), arqueóloga inglesa que acabou por ter um papel decisivo nas políticas do Império Britânico entre os dois conflitos mundiais, em particular na constituição da Jordânia e do Iraque. É fácil compreender tudo aquilo que seduziu Herzog. Afinal de contas, para além da sua condição de mulher a afirmar-se num mundo quase totalmente ocupado e gerido por personagens masculinas, Bell foi também alguém que viveu directamente, por vezes com risco da própria vida, um tempo em que todos os mapas — geográficos, diplomáticos e simbólicos — foram reconvertidos de modo mais ou menos radical.

Centrado numa bela composição de Nicole Kidman, o «Rainha do Deserto» é claramente desigual na prestação dos seus actores; Robert Pattison, em particular, tem evidentes dificuldades em sustentar a personagem de T. E. Lawrence — e escusado será dizer que a comparação com Peter O’Toole, em «Lawrence da Arábia» (1962), está longe de o favorecer...

Além do mais, o filme parece ressentir-se daquilo que terá sido a “aceleração” da própria rodagem (e sabe-se que houve problemas vários na organização da sua produção). São especialmente débeis as cenas de ligação dos vários capítulos, em particular no modo como nos dão a ver o contexto paisagístico da acção (e não será arriscado supor que tal seria um elemento fundamental na mise en scène de Herzog). Ao mesmo tempo, «Rainha do Deserto» faz-nos aceder a um labirinto de personagens e culturas do Médio Oriente que importa contemplar para além de qualquer cliché mediático (e, em particular, televisivo). Nesta perspectiva, o filme consegue mesmo a proeza de nos levar a pressentir que muitas das convulsões do nosso presente têm as suas raízes na época em que Gertrud Bell foi uma tão especial protagonista.

tres estrelas

Título Nacional Rainha do Deserto Título Original Queen of the Desert Realizador Werner Herzog Actores Nicole Kidman, James Franco, Robert Pattinson Origem Estados Unidos/Marrocos Duração 128’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº39)

«Lo and Behold: Reveries of the Connected World» de Werner Herzog

O lendário cineasta Werner Herzog («Grizzly Man», «A Gruta dos Sonhos Perdidos ») vai examiner o passado, o presente e o futuro em constante evolução da internar em «Lo and Behold: Reveries of the Connected World» Ao trabalhar com a NETSCOUT, um líder mundial em cybersegurança, que participa no filme como produtor e abriu um novo mundo ao realizador, Herzog efectua entrevistas com pioneiros do cyberespaço e outros “profetas” como o PayPal e o co-fundador da Tesla Elon Musk, o iventor do protocolo da internet Bob Kahn e o famoso hacker Kevin Mitnick.

Na próxima semana estreia em Portugal o filme realizado por Werner Herzog «Rainha do Deserto».

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